segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

CRIATIVIDADE, EU TENHO!: Você é mais criativo do que imagina. E eu posso provar!



Por Cris Silva – RJ

 @arteterapia_crissilva


    Muitas vezes, deixamos de vivenciar certos processos porque não nos autorizamos a experimentá-los. Isso acontece com frequência quando o assunto é criatividade. Já se pegou dizendo: “Não sou nada criativo/a”? Ou apontando o dedo para alguém, achando que criatividade não era o forte daquela pessoa? Aposto que, em algum momento, esse julgamento já pesou - seja sobre si, seja sobre o outro. Mas, ao longo destas palavras, quero te mostrar que a criatividade está presente no seu cotidiano. E talvez, ao final, você volte a fazer as pazes com ela, se autorizando a ser o ser criativo que é, e reconhecendo os pontos fortes de criatividade nas pessoas ao seu redor.

     Para começo de conversa, é preciso dizer: a criatividade é infinita. E está tudo bem não sermos criativos e habilidosos em todas as áreas!

     Quando falamos em criatividade, é comum que a mente voe direto para os domínios da arte: pintura, música, dança, teatro, escultura... Para mudar essa ideia, é necessário desconstruir a noção de que criatividade está ligada apenas aos campos artísticos. Ela está presente no nosso dia a dia: quando improvisamos um almoço com o que sobrou na geladeira, quando alguém transforma um problema em oportunidade com uma solução que ninguém pensou, quando uma professora de Matemática ensina a matéria usando música. Isso também é criatividade, e talvez seja sua forma mais pulsante.

     Pensando na origem da palavra criatividade, do latim creare, que significa criar, podemos começar a fazer algumas provocações:

Quais situações me levam a criar? Quando, como e onde minha criatividade se manifesta?

     O escritor e palestrante Rubens Marchioni inicia as primeiras páginas do seu livro Escrita criativa - da ideia ao texto com uma frase que particularmente gosto muito:

 “Criatividade é a arte de pensar de maneira diferente para encontrar caminhos inesperados.”

     Dia desses, minha filha, então com dez anos, foi proativa e ofereceu apoio para estender as roupas que eu havia acabado de lavar. Como era a primeira vez que ela estaria estendendo uma máquina inteira, dei algumas orientações e deixei que fizesse do jeitinho dela. Fui fazer outras coisas e, quando terminou, ela me chamou para mostrar como havia organizado. Com euforia, sinalizou que o varal não dera para todas as roupas e, então, fez conjuntos: shorts pregados às camisetas. Achei aquilo tão fantástico que filmei. Veja bem: diante de algo a ser resolvido, ela deu um jeito. E, tirando a coisa de mãe orgulhosa, há nisso todo um viés criativo na organização final que ela apresentou. Isso me fez pensar numa frase brincante:

 Quando o espaço é curto, a criatividade se estende.

      E não é que é assim na vida todinha?

     Outro exemplo de criatividade cotidiana: uma refeição feita com sobras da geladeira, o famoso “restodontê”. Você pode até não conhecer esse nome diferentão, mas certamente já fez um risoto com sobra de frango, uma omelete com aquela carne assada do fim de semana, um bolinho de arroz elogiado por todos ou um pudim de pão para salvar o pão que não foi consumido. Aliás, as ações que acontecem dentro de uma casa frequentemente oferecem oportunidades brilhantes para a criatividade. Se você ainda não tinha pensado sobre isso, comece a observar!

     Julia Cameron, no livro O Caminho do Artista, fala sobre a necessidade de fornecermos à criatividade nutrientes básicos que a façam crescer. Além disso, trata a criatividade como nossa verdadeira natureza. Para a autora, os bloqueios são um entrave nada natural a um processo que é tão normal e milagroso quanto o desabrochar de uma flor.

     Na Arteterapia, a criatividade não é medida pela estética, mas pela autenticidade. É no gesto espontâneo, na escolha de uma cor, na construção de uma imagem simbólica que o indivíduo revela sua forma única de lidar com o mundo. E isso não se limita à sessão arteterapêutica, se estende à forma como ele organiza sua rotina, cuida dos seus vínculos, transforma dor em potência.

     Novamente citando Cameron, é possível pensar a criatividade como um poço, o nosso poço interior, que precisa de atenção e cuidado. Caso contrário, pode acabar esgotado, estagnado ou bloqueado. É preciso enchê-lo. Reabastecer nossos recursos criativos à medida que os utilizamos.

E aí, como é que você tem reabastecido seu poço?

Quando foi a última vez que você deu um jeito criativo em algo?

     Já que você chegou até aqui neste texto, que tal escolher um problema cotidiano e representar sua solução com uma colagem, um desenho ou uma escrita criativa?

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

CAMERON, Julia. O caminho do artista: um guia para despertar a criatividade. Tradução de Ana Ban. São Paulo: Sextante, 2007.

MARCHIONI, Rubens. Escrita criativa: da ideia ao texto. São Paulo: Contexto, 2018.

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Sobre a autora: Cris Silva



Sou Arteterapeuta e Pedagoga, apaixonada por unir educação e arte como caminhos de desenvolvimento pessoal. Durante 34 anos estive em sala de aula, tanto na rede particular de ensino quanto na rede pública do Rio de Janeiro, acompanhando desde crianças da Educação Infantil até jovens e adultos neurodivergentes - cada encontro trazendo novos aprendizados.

Minha formação inclui Pedagogia (UERJ), Arteterapia em Educação e Saúde (UCAM), formação em Arteterapia no Atelier Eveline Carrano e diversas formações continuadas em áreas afins. Hoje sigo ampliando horizontes como graduanda em Psicologia (UVA).

Acredito no poder das artes, da leitura e da escrita para criar vínculos e abrir possibilidades. Por isso, realizo oficinas de Arteterapia, mediações de Biblioterapia , Leitura Coletiva e encontros de Escrita terapêutica. Também tive a alegria de atuar por quatro anos como voluntária na ONG Anjos da Tia Stellinha, fortalecendo laços entre mães e filhos.

Minha missão é simples: cultivar espaços de expressão e cooperação, onde cada pessoa possa descobrir novos sentidos para sua própria história.


Um comentário:

  1. Parabéns, Cris por este texto tão soltinho, alegre, com frescor de uma criança. Aliás, parabéns à sua filha por dar uma solução tão legal para um problemão como esse de estender as roupas de uma máquina inteirinha com tanta criatividade e autenticidade. Gostei e na próxima, tentarei usar a dica. Gostei das referencias bibliográficas também. Continue nos presenteando com textos tão alegres.

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