Por Cris Silva – RJ
@arteterapia_crissilva
Muitas vezes, deixamos de vivenciar certos
processos porque não nos autorizamos a experimentá-los. Isso acontece com
frequência quando o assunto é criatividade. Já se pegou dizendo: “Não sou nada
criativo/a”? Ou apontando o dedo para alguém, achando que criatividade não era
o forte daquela pessoa? Aposto que, em algum momento, esse julgamento já pesou -
seja sobre si, seja sobre o outro. Mas, ao longo destas palavras, quero te
mostrar que a criatividade está presente no seu cotidiano. E talvez, ao final,
você volte a fazer as pazes com ela, se autorizando a ser o ser criativo que é,
e reconhecendo os pontos fortes de criatividade nas pessoas ao seu redor.
Para começo de conversa, é preciso dizer:
a criatividade é infinita. E está tudo bem não sermos criativos e habilidosos
em todas as áreas!
Quando falamos em criatividade, é comum
que a mente voe direto para os domínios da arte: pintura, música, dança,
teatro, escultura... Para mudar essa ideia, é necessário desconstruir a noção
de que criatividade está ligada apenas aos campos artísticos. Ela está presente
no nosso dia a dia: quando improvisamos um almoço com o que sobrou na
geladeira, quando alguém transforma um problema em oportunidade com uma solução
que ninguém pensou, quando uma professora de Matemática ensina a matéria usando
música. Isso também é criatividade, e talvez seja sua forma mais pulsante.
Pensando na origem da palavra
criatividade, do latim creare, que significa criar, podemos começar a
fazer algumas provocações:
Quais
situações me levam a criar? Quando, como e onde minha criatividade se
manifesta?
O escritor e palestrante Rubens Marchioni
inicia as primeiras páginas do seu livro Escrita criativa - da ideia ao
texto com uma frase que particularmente gosto muito:
“Criatividade é a arte de pensar de maneira
diferente para encontrar caminhos inesperados.”
Dia desses, minha filha, então com dez
anos, foi proativa e ofereceu apoio para estender as roupas que eu havia
acabado de lavar. Como era a primeira vez que ela estaria estendendo uma
máquina inteira, dei algumas orientações e deixei que fizesse do jeitinho dela.
Fui fazer outras coisas e, quando terminou, ela me chamou para mostrar como
havia organizado. Com euforia, sinalizou que o varal não dera para todas as
roupas e, então, fez conjuntos: shorts pregados às camisetas. Achei aquilo tão
fantástico que filmei. Veja bem: diante de algo a ser resolvido, ela deu um
jeito. E, tirando a coisa de mãe orgulhosa, há nisso todo um viés criativo na
organização final que ela apresentou. Isso me fez pensar numa frase brincante:
Quando o espaço é curto, a criatividade se
estende.
E
não é que é assim na vida todinha?
Outro exemplo de criatividade cotidiana:
uma refeição feita com sobras da geladeira, o famoso “restodontê”. Você
pode até não conhecer esse nome diferentão, mas certamente já fez um risoto com
sobra de frango, uma omelete com aquela carne assada do fim de semana, um
bolinho de arroz elogiado por todos ou um pudim de pão para salvar o pão que
não foi consumido. Aliás, as ações que acontecem dentro de uma casa
frequentemente oferecem oportunidades brilhantes para a criatividade. Se você
ainda não tinha pensado sobre isso, comece a observar!
Julia Cameron, no livro O Caminho do
Artista, fala sobre a necessidade de fornecermos à criatividade nutrientes
básicos que a façam crescer. Além disso, trata a criatividade como nossa
verdadeira natureza. Para a autora, os bloqueios são um entrave nada natural a
um processo que é tão normal e milagroso quanto o desabrochar de uma flor.
Na Arteterapia, a criatividade não é
medida pela estética, mas pela autenticidade. É no gesto espontâneo, na escolha
de uma cor, na construção de uma imagem simbólica que o indivíduo revela sua
forma única de lidar com o mundo. E isso não se limita à sessão arteterapêutica,
se estende à forma como ele organiza sua rotina, cuida dos seus vínculos,
transforma dor em potência.
Novamente citando Cameron, é possível
pensar a criatividade como um poço, o nosso poço interior, que precisa de atenção
e cuidado. Caso contrário, pode acabar esgotado, estagnado ou bloqueado. É
preciso enchê-lo. Reabastecer nossos recursos criativos à medida que os
utilizamos.
E aí, como
é que você tem reabastecido seu poço?
Quando foi
a última vez que você deu um jeito criativo em algo?
Já que você chegou até aqui neste texto,
que tal escolher um problema cotidiano e representar sua solução com uma
colagem, um desenho ou uma escrita criativa?
Referências bibliográficas
CAMERON, Julia. O caminho
do artista: um guia para despertar a criatividade. Tradução de Ana Ban. São
Paulo: Sextante, 2007.
MARCHIONI, Rubens. Escrita
criativa: da ideia ao texto. São Paulo: Contexto, 2018.
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Sobre a autora: Cris Silva
Sou Arteterapeuta e Pedagoga,
apaixonada por unir educação e arte como caminhos de desenvolvimento pessoal.
Durante 34 anos estive em sala de aula, tanto na rede particular de ensino
quanto na rede pública do Rio de Janeiro, acompanhando desde crianças da
Educação Infantil até jovens e adultos neurodivergentes - cada encontro
trazendo novos aprendizados.
Minha formação inclui Pedagogia
(UERJ), Arteterapia em Educação e Saúde (UCAM), formação em
Arteterapia no Atelier Eveline Carrano e diversas formações continuadas
em áreas afins. Hoje sigo ampliando horizontes como graduanda em Psicologia
(UVA).
Acredito no poder das artes, da leitura
e da escrita para criar vínculos e abrir possibilidades. Por isso, realizo
oficinas de Arteterapia, mediações de Biblioterapia , Leitura
Coletiva e encontros de Escrita terapêutica. Também tive a alegria
de atuar por quatro anos como voluntária na ONG Anjos da Tia Stellinha,
fortalecendo laços entre mães e filhos.
Minha missão é simples: cultivar espaços
de expressão e cooperação, onde cada pessoa possa descobrir novos sentidos para
sua própria história.


Parabéns, Cris por este texto tão soltinho, alegre, com frescor de uma criança. Aliás, parabéns à sua filha por dar uma solução tão legal para um problemão como esse de estender as roupas de uma máquina inteirinha com tanta criatividade e autenticidade. Gostei e na próxima, tentarei usar a dica. Gostei das referencias bibliográficas também. Continue nos presenteando com textos tão alegres.
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