Por Tania Salete RJ-CE
Instagram/Facebook: @caminhartes.arteterapia
“Por dentro de nossa casa
passava um rio inventado.
Tudo que não invento é falso.”
Manoel
de Barros/
Márcio de Camillo*
INTRODUÇÃO
A Arteterapia, desde seus primórdios, se caracteriza como uma prática
inovadora, um ofício disruptivo e transformador. A trajetória profissional da Dra. Nise da
Silveira, por exemplo, evidencia o quanto a arte, em suas infinitas
possibilidades, é capaz de dar vez e voz àquelas pessoas que nem sempre são capazes
de verbalizar ou utilizar a fala como principal meio de expressão ou comunicação
A arte tem um aspecto universal, evoca uma linguagem primária
e pré-verbal versátil e, é ao mesmo tempo, flexível, possibilitando uma forma
de expressão e comunicação humana. Ela expõe normalmente o não exprimível pela
linguagem comum. Todo ser humano tem a
necessidade de criar e expressar sua criação, sendo esta facilitada pelo
processo arteterapêutico. Ademais, a arteterapia encoraja o desenvolvimento das
partes saudáveis da personalidade, ajudando o paciente a transformar os
sintomas manifestados, propiciando maior expressividade e, assim, de satisfação
imediata. (Valladares & Fussi, p.287-293)
Refletindo sobre
este contexto, destacaremos a atuação da Arteterapia com crianças com
transtorno do espectro autista atendidas em instituição conveniada ao SUS e a
Prefeitura da cidade de Fortaleza/CE e para isso, utilizaremos a metáfora do
rio e seu percurso, muitas vezes sinuoso
e cheios de obstáculos, mas que segue até desaguar no mar.
Segundo a definição
do Ministério da Saúde, o transtorno do espectro autista (TEA) é um distúrbio
do neurodesenvolvimento que costuma iniciar os sintomas antes dos três anos de
idade, tendo como principais alterações: déficits na comunicação e na
interação social, padrões de comportamentos repetitivos e estereotipados,
podendo apresentar repertório restrito de interesses e atividades.
O CURSO DO RIO: A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO
Para além das discussões sobre a função do
diagnóstico, interessa-nos ressaltar as potencialidades de cada um, como indivíduo
único e singular. Entretanto, é importante conhecer o nível de suporte (classificação
atual) de cada paciente, ao traçarmos os
objetivos, manejo e as adaptações necessárias no processo arteterapêutico.
Segundo
o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM5), uma criança
com TEA pode ter níveis de intensidade,
ou seja, o quão grave são os sintomas e o quanto interferem em suas habilidades
sociais e comportamentais.
Nível
1: Apresenta prejuízos leves, podem ter dificuldades em
situações sociais, comportamentos restritivos e repetitivos, mas requerem
apenas um suporte mínimo para ajudá-los em suas atividades cotidianas. São
capazes de se comunicar verbalmente, mas podem ter dificuldade em sustentar uma
conversa, manter contato visual, de fazer e manter amigos. Preferem rotinas
estabelecidas, evitam mudanças e eventos inesperados. Precisam de
previsibilidade e gostam de certas coisas do seu jeito.
Nível
2: É a faixa intermediária. Tem maior grau de dependência e
necessita de auxílio para desempenhar funções cotidianas. Geralmente tem
dificuldades com habilidades sociais e contato visual. Podem ou não se
comunicar verbalmente ou expressar emoções pela fala ou por expressões faciais.
Apresentam comportamento restritivos e rotinas rígidas. Mudanças podem causar
desconforto em seu comportamento.
Nível
3 —São aquelas que precisam de muito apoio e são bem
dependentes. É a forma mais grave de TEA, normalmente associada à outras
patologias (comorbidades). Tem severa dificuldade na comunicação (alguns não
são verbais), no funcionamento cognitivo, nas habilidades sociais, com comportamentos
restritivos, movimentos repetitivos (estereotipias e ecolalias). Às vezes, tem
alterações sensoriais mais acentuadas (toque, cheiro, alimentos, sons). (DSM5)
Vale ressaltar a prevalência de diagnóstico em
torno de 4 vezes maior em meninos do que em meninas, de acordo com estudo do Centro de Controle e Prevenção de
Doenças dos EUA (Centers for Disease Control and
Prevention - CDC).
A INTRODUÇÃO DA ARTETERAPIA NA CLINICA NA EQUIPE
Diante de um quadro tão complexo, multifacetado
e desafiador, a Arteterapia poderia ter uma atuação relevante com as crianças
TEAs? A resposta é sim! A Arteterapia é uma prática inclusiva, integrativa e
que se fundamenta na ideia principal de que toda pessoa tem capacidade inata de
expressar-se através de imagens visuais, táteis, auditivas, corporais, entre
outras, logo perfeitamente aplicável para todas as crianças, sobretudo porque requer
pouca ou nenhuma interação verbal, mas é um excelente canal de acesso às emoções,
auxiliando no desenvolvimento de diversas habilidades cognitivas, motoras,
sociais, além de um poderoso estimulo a criatividade.
Segundo Vale e Naves, “A Arteterapia propicia
uma vivência integradora em que as potencialidades são trazidas para a cena em
que o limite predominava; onde o ambiente é da criança que brinca, que pinta,
que é estimulada a criar algo seu (autoidentificação), mesmo que o início seja
uma pincelada com a cor que mais goste”. (2010, p. 90). Ainda, segundo
Duchastel, “A utilização de diferentes meios de expressão, como o desenho, a
pintura, a colagem, a modelagem, a música, as representações teatrais ou o
movimento, permite um conato direto com a sabedoria inconsciente e estimula a
emergência de emoções bloqueadas”. (2010, p. 33).
GARIMPANDO NO RIO: MATERIAIS
EXPRESSIVOS
Faz parte do cotidiano da pessoa com autismo, a
possibilidade de enfrentar ambientes estressores e situações desencadeadoras de
sobrecarga sensorial que normalmente causam desconfortos e mais estresse. Este
é um cuidado e uma conquista diária no trabalho do arteterapeuta no que diz
respeito a escolha do material expressivo. Alguns não se sentem confortáveis em
manusear tintas ou cola líquida. Para outros o desconforto pode ser mais tátil,
por exemplo, texturas ásperas, outros têm dificuldade com barulhos, iluminação
ou até excesso de estímulos no ambiente.
Entretanto, após um tempo de
conhecimento e investimento no vínculo terapêutico, é possível oferecer o
material e a técnica que proporcione mais bem-estar, autoconfiança, sentimento
de pertencimento, ainda que as experimentações sejam na tentativa e erro,
porque cada um é diferente do outro, conquanto haja interesses semelhantes,
eles são indivíduos com caraterísticas próprias e respostas individuais ao
mesmo estímulo. Duchastel cita Winniccott referenciando a brincadeira e,
sobretudo, o jogo como uma excelente estratégia de aproximação e adesão para as
crianças e adolescentes:
(...) é jogando, e talvez somente quando ela joga, que a
criança ou o adulto é livre de se mostrar criativo. Os meios artísticos são
utilizados para nos propulsar em um ar de brincadeira que nos permitirá reatar
com a riqueza do nosso imaginário e de encontrar nosso poder natural de
criação. Todas as crianças desenham, cantam, dançam, inventam personagens: a
criatividade é uma atividade natural que pode se desenvolver em cada um de nós.
(DUCHASTEL,2010, p.33)
O importante é observar por qual
canal a criança está lhe direcionando e a partir de seus interesses, ir
ampliando a oferta e expandindo as possibilidades, mantendo o olhar atento para
o objetivo proposto para aquele paciente.
COLHENDO PEDRAS PRECIOSAS NO RIO: RELATO DE EXPERIÊNCIAS
*Ametista, 4 anos, não verbal. Curiosa,
exploradora, gosta de manipular os objetos e movimenta-se bastante pela sala.
Brinca com funcionalidade, embora tenha pouco foco. Após alguns encontros, inserimos livros de
histórias. Gostou atividade de dobradura. Em outro encontro, Ametista organizou
o cenário da contação da história e barco foi a primeira palavra dita.
Repetimos a história e dobradura, mas acrescentam os a
pintura. Nos encontros seguintes, foi nomeando outros objetos e atualmente, tem
um repertório mais ampliado não só em vocabulário, mas também nos aspectos
relacionado ao protagonismo e autonomia durante as sessões. Ametista escolhe e
solicita o que deseja trabalhar nas sessões, criando seu próprio percurso.
Evoluiu na interação social com outros pares, conseguindo compartilhar não só o
espaço, como os materiais e brinquedos. Outros terapeutas da equipe perceberam o
progresso de Ametista após ingresso na Arteterapia. Neste próxima fase, será direcionada
para outro segmento terapêutico afim de prosseguir, conquanto a Arteterapia
continue perpassando e interligando as ações interdisciplinares da equipe.
*Rubi,
9 anos. Muito explorador e com foco em construir objetos tridimensionais com
materiais não estruturados (sucatas). Normalmente já trazia uma ideia do que
desejava realizar nas sessões. Apesar da dificuldade na coordenação motora
tanto ampla quanto fina, era persistente e finalizava seu trabalho. Durante as
sessões a atuação do arteterapeuta era de coadjuvante e disponibilizando os
materiais mais apropriados visando facilitar e promover experimentações ao
paciente.
Ametista, 4 anos, jan/2022
Ametista, 4 anos, out/22
Porém,
lidar com a frustração era um ponto desafiador para Rubi. Nem sempre seus projetos saiam como desejava.
Neste aspecto, o manejo consistia estimular Rubi na busca de soluções possíveis
e até oferecer outras possibilidades, pois crianças TEAs tendem a se
desorganizar quando lidam com mudança de planos e frustrações.
Rubi, jan/22 – Fusca feito de papelão e tampinhas de refrigerante.
Rubi, 9 anos- fev/22 Personagem
“Come-come” feito com dobradura e tampinha de refrigerante
1ª MOSTRA DE ARTES
Nas comemorações do dia da criança, em outubro
de 2022, toda equipe participou, coletando inúmeros trabalhos de cunho
artístico produzido em vários momentos pelas crianças atendidas na instituição.
Como inspiração e fio condutor, foi escolhida a poética e as obras e Manoel de
Barros, poeta das infâncias. A exposição foi composta por pinturas, desenhos, apresentação
musical por algumas crianças e pela equipe, além de poesias que permeavam todo
espaço.
Durante dois dias, as famílias e as crianças
puderam apreciar as obras produzidas. Todas foram catalogadas e divididas em
espaços, tendo como base a poesia o Menino e o Rio. O impacto deste evento para
as crianças e suas famílias, bem como para toda instituição, foi um marco na
história recente do segmento que atende somente as crianças TEAs. Além de
promover uma maior integração da equipe em torno do trabalho arteterapêutico, fortaleceu
e ampliou o olhar destas famílias em relação ao potencial de cada criança. Um
momento de valorização, validação, empoderamento e autoafirmação do potencial
criativo e expressivo de cada criança.
Água marinha,7 anos, reconhecendo seu trabalho: -“Mãe, foi eu que fiz
este!”!
1ª. Mostra de Artes. Outubro 2022
DESAGUE DO RIO: CONSIDERAÇÕES FINAIS
Promover
e sustentar um espaço de Arteterapia é um desafio constante, considerando as
particularidades e especificidades do público e da geografia. Mas, nas palavras de Ostrower, “nas crianças,
a criatividade se manifesta em todo seu fazer solto, difuso, espontâneo,
imaginativo, no brincar, no sonhar, no associar, no simbolizar, no fingir da
realidade e que no fundo não é senão o real. Criar é viver, para a criança.”
(2014, p. 217).
Concluo com trechos da poesia
de Manoel de Barros, onde encontro tanta similaridade com as crianças TEAs que
convivo diariamente e me presenteiam com criatividade, espontaneidade e possibilidade
de crescimento enquanto ser humano.
“O MENINO QUE CARREGAVA
ÁGUA NA PENEIRA”.
(...) A
mãe reparou que o menino
gostava
mais do vazio, do que do cheio.
Falava
que vazios são maiores e até infinitos.
Com o
tempo aquele menino
que era
cismado e esquisito,
porque
gostava de carregar água na peneira.
O menino
aprendeu a usar as palavras.
Viu que
podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou
a fazer peraltagens.
A mãe
reparava o menino com ternura.
A mãe
falou: - Meu filho você vai ser poeta!
Você vai
carregar água na peneira a vida toda.
Você vai
encher os vazios
com as
suas peraltagens,
e algumas
pessoas vão te amar por seus despropósitos!
*Poemas musicados por Marcio de Camillo em
homenagem ao poeta Manoel de Barros.
BIBLIOGRAFIA:
1.
BARROS, Manoel. Exercícios de ser criança. Bordados de Antônia
Zulma Diniz, Ângela, Marilu, Martha e Sávia Dumont sobre os desenhos de
Demóstenes. São Paulo, Salamandra,1999
2. BONAFÉ, FECCHIO. Arteterapia Com Grupos – Aspectos
Teóricos e Práticos. Casa do Psicólogo, São Paulo, 1ª Edição, 2010.
3. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria
de Atenção Primária à Saúde. Brasília/DF. 2020. Disponível em https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/transtorno-do-espectro-autista/definicao-tea/ - Acesso jan/2023
4. CENTROS DE CONTROLE E PREVENÇÃO DE DOENÇAS- CDC (2018, 26 de abril ) Fonte:https://www.cdc.gov/media/releases/2018/p0426-autism-prevalence.html - Acesso:janeiro/23
5. CUNHA, Eugenio. Autismo e Inclusão –
Psicopedagogia e práticas educativas na escola e na família, 9ª edição, Rio de
Janeiro. Wak Editora,
6. DUCHASTEL,
Alexandra. O caminho do Imaginário: o processo de Arteterapia, São
Paulo, Paulus, 2010.
7. FERREIRA, Natalia. A arteterapia no
desenvolvimento de crianças com autismo. Monografia de Pós-Graduação da
Universidade Cândido Mendes. Rio de Janeiro, 2015.
8. FRANCISQUETTI, Ana Alice. (Org) Arte-Reabilitação.
São Paulo:2011
9. KERCHES,
Deborah. Autismo ao longo da vida. São Paulo, Literare Books International,
2022.
10. MORAES, Eliana. Pensando a
Arteterapia. 1ª.Edição, Divino de São Lourenço/ES: Semente Editorial, 2018
11.. OSTROWER, Fayga.
Criatividade e processos de criação. 30. Edição, Petrópolis: Vozes,
2014.
12.
ORRÚ, Silva. Autismo, Linguagem e Educação – Interação Social no
Cotidiano Escolar. WAK Editora,
3ª edição, Rio de Janeiro, 2012
13.
VALLADARES,
A. C. A., FUSSI, F. E. C. Arteterapia:
possibilidade de um outro olhar. In: BRANCO, R. F. G. R. A relação com o
paciente: teoria, ensino e prática. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan.
14.
URRUTIGARAY,
M.C. Arteterapia: a
transformação pessoal pelas imagens. Rio de Janeiro, WAK Editora, 5°
edição, 2011.
15.
https://ambientes.ambientebrasil.com.br/agua/recursos_hidricos/hidrografia_do_brasil.html -Último acesso em 20.01.2023
______________________________________________________________________________________________
Sobre a autora: Tania Salete
Graduação em Fonoaudiologia, pós-graduação em
psicopedagogia/UERJ. Especialização em Arteterapia pela POMAR/RJ.
Atuou com grupos terapêuticos e de apoio em casa de recuperação feminina e
masculina. Grupos de Mulheres online (Grupo Rede). Residindo em
Fortaleza/CE há 6 anos, atua no Instituto da Primeira Infância (IPREDE) -
Clínica Conecta em atendimentos a crianças no Transtorno do Espectro Autista.
Contatos: Instagram/Facebook:@caminhartes.arteterapia
Textos publicados no Blog:
ARTETERAPIA – DANDO VIDA E COR - RESSIGNIFICANDO HISTÓRIAS - 2016
PRÁTICAS EM ARTETERAPIA COM INDIVIDUOS EGRESSOS DE RUA E ADICTOS
EM RECUPERAÇÃO - 2017
FENIX: PARA ALÉM DO CRACK – RESGATE DO FEMININO EM COMUNIDADE
TERAPÊUTICA PARA MULHERES - 2017
DESENHANDO E PINTANDO COM A TESOURA COMO O VOVÔ MATISSE - 2018
O BORDADO COMO INSTRUMENTO DE ARRAIGAMENTO E CONDUTOR DE
VIDA -
2018
LEONILSON – BORDANDO A VIDA, AS DORES E OS AMORES - 2018
“DOIS METROS ACIMA DO CHÃO” – AS BOAS NOVAS DE BISPO
DO ROSÁRIO -
2019
ESTENDENDO A REDE – ABRINDO OS BRAÇOS PARA O NOVO - 2020
ENTRE OS MÓBILES E STÁBILES DE CALDER – LIDANDO COM A
DOR NA ARTETERAPIA -
2021