segunda-feira, 23 de julho de 2018

ARTE E TÉCNICAS EXPRESSIVAS NO AMBIENTE CORPORATIVO


Por Helen Faria -  RJ


“Mais do que de máquinas precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência precisamos de afeição e doçura.”
Charles Chaplin
                 Quando eu tinha meus 20 anos de idade, ou seja, há 23 anos, tinha acabado de me formar em bailarina e em teatro e estava fazendo faculdade de fisioterapia. O corpo sempre foi a minha grande paixão e entendia que a arte através do movimento era transformadora. Foi então que comecei a realizar preparação corporal para atores e depois comecei a ficar muito incomodada de como os corpos dos trabalhadores e dos empresários funcionavam, eles não sabiam que tinham corpos, não sabiam sorrir e muito menos se movimentar. 
                 Nessa época o Brasil estava em pleno crescimento e os trabalhadores eram massacrados fisicamente gerando grandes constrangimentos físicos levando ao stress. Foi quando teve grande ascensão as tendinites ocupacionais (DORT – doenças osteomusculares).
Stress e doenças ocupacionais:
“Movimento é vida, sem movimento a vida é inconcebível.”
Moshe Feldenkrais
                 Stress, tensões musculares e doenças ocupacionais começaram a crescer no Brasil e grandes afastamentos pelo INSS começaram a acontecer principalmente no ramo de telemarketing / Call Center, onde a produção era pelos movimentos repetitivos. As empresas começaram a se preocupar com as perdas financeiras que estavam tendo pelo alto índice de rotatividade e absenteísmo. Aqui então iniciava os investimentos de grandes empresas em implantação de programas de qualidade de vida em especial com a Ginástica Laboral. 
                 Entrei nesse ramo com a intenção não só de diminuir os impactos físicos gerados pelo sistema empresarial, mas também gerar um ambiente mais relaxado e despertar o brincar dentro das empresas, acreditando que o movimento lúdico e mais humano fosse curador.
                 Nesse momento era importante provar para as empresas que a implantação de programas como a Ginástica Laboral diminuía a sinistralidade dos planos de saúde, a rotatividade e o absenteísmo, promovendo assim um lucro maior tendo funcionários mais produtivos e felizes no ambiente de trabalho. E hoje em dia, é mais do que sabido que isso funciona e a maioria das empresas já tiveram ou tem algum tipo de programa implantado com esse propósito.
                 Comecei a observar que a Ginástica Laboral também passou a ser um movimento repetitivo e começou a gerar grande desinteresse dos participantes. Nesse momento comecei a inserir o teatro, arte e técnicas expressivas utilizando vários materiais diferenciados para tornar a atividade de Ginástica Laboral ainda mais prazerosa. Criamos aulas temáticas, jogos corporais utilizando vários materiais lúdicos (fitas, bolinhas, barbantes, bexigas, bambolês, colher de pau etc.) para despertar a criatividade e resgatar a criança interior.
                 O movimento corporal pelo lúdico e pela arte começou a ser o meu grande diferencial dentro do ambiente coorporativo chegando a atender mais de 120 mil vidas. O nosso foco era muito mais do que prevenir doenças mas tornar o ambiente de trabalho mais humanizado e prazeroso levando um maior equilíbrio entre mente e corpo, coisas que são inseparáveis.

Aula de Ginástica Laboral na plataforma da empresa Modec em uma SIPAT (semana interna de prevenção de acidente de trabalho)


A Crise, Saúde Mental e Arte:
“Um corpo inteligente é um corpo que consegue se adaptar aos mais diversos estímulos e necessidades, ao mesmo tempo que não se prende a nenhuma receita ou fórmula pré-estabelecida, orientando-se pelas mais diferentes percepções conscientes dessas sensações. ”

Klaus Vianna


                 Há mais ou menos 4 anos começamos a sentir uma grande crise se instalando em nosso país. A crise gera grandes sofrimentos, mas também gera um lugar de pesquisa interna, de reinvenção e co-criação. Observei grandes demissões e escutei muitas pessoas falando: “agora que fui mandada embora e não tenho mais nada a perder posso fazer o que eu sempre quis.”
                 Isso me causou grande impacto de como as pessoas estavam sendo máquinas e se movimentando pelo medo e não pela sua potência e desejo interno. Onde estava escrito que não poderia fazer o que sempre quis fazer? E agora está livre? Não somos livres? Somos, mas o sistema gera essa consciência que somos dependentes e uma educação cultuando o medo da escassez.
O adulto de forma geral adquire regras e convenções limitantes do seu jogo autêntico e se fecha no seu mundo materialista e consumista, prisioneiro da rotina e “obrigações”, e o jogo das relações passa a ser rígido e violento. 


Como o sistema materialista e consumista entrou em crise as pessoas começaram forçosamente a entender quem eram e quais eram seus principais valores e com isso começaram a se desestabilizar, a entrar em crise também por estarem muito desconectadas de si mesmas. As doenças mentais começaram a ser o grande problema dentro do ambiente coorporativo. As questões físicas que antes eram o grande foco passou a ficar em segundo plano dos problemas dentro das empresas. 


Comecei a ser chamada para dentro de grandes empresas para apoiar e cuidar da saúde mental pois a maioria das delas está com problemas de alta rotatividade, absenteísmo e baixa produtividade por questões mentais, além de estarem todos sobrecarregados porque muitos foram desligados das empresas e os que ficaram estão trabalhando em dobro, em um clima de tensão e medo instalado pela hipótese de a qualquer momento serem mandados embora também.


Diante desse quadro de questões mentais comecei a realizar a arte como o meu principal recurso, onde as palestras não eram mais em power point e nem teóricas. Aqui nasceu os "Jogos de Conexão", que são jogos terapêuticos, corporais, lúdicos e colaborativos utilizando ferramentas de mindfulness, arte e técnicas expressivas para despertar o autoconhecimento e falar de temas importantes para atualidade: resiliência, empatia, comunicação, presença, coragem, desapego, afetividade, gratidão e outras habilidades sócio emocionais tão importantes para a vida no dia a dia. 


              Acredito que cada vez mais as empresas estão enxergando essa ferramenta como um grande suporte e temos um lindo caminho pela frente para acolher grandes grupos resgatando o seu Eu e realizando o grande jogo da vida, se relacionando com o outro e com o mundo.

Palestra sobre auto-relaxamento na empresa Osklen inspirada nas obras de Lygia Clark



Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.
A Equipe Não Palavra te aguarda!

Referências Bibliográficas:
BROTTO, Fábio Otuzi. – Jogos cooperativos: se o importante é competir, o fundamental é cooperar. Santos: Projeto Cooperação, 1997. 

MILLER, Jussara. Qual é o corpo que dança? São Paulo: Summus, 2012.
Yozo, Ronaldo Yudi k. 100 jogos para grupos: uma abordagem psicodramática para empresas, escolas e clínicas: Ágora, 1998. 
_________________________________________________________________________________

Sobre a autora: Helen Faria

Facilitadora de grupos, consultora em Qualidade de Vida para as empresas há mais de 20 anos, sócia fundadora da empresa Reabily Qualidade de Vida e da empresa VemSer movimento. 

Atriz, bailarina, terapeuta holística, fisioterapeuta e facilitadora de programas de resiliência, meditação e mindfulness.  

É apaixonada por arte e pelos jogos corporais, pela potência do movimento  e das grandes transformações que vem a partir dele. 

Idealizou o Jogos de Conexão” para que os grandes insights venham da potência do grupo, do lúdico, do corpo através e de uma experiência vivida, experimentada e sentida. Assim, ministra cursos de formação dos "Jogos de Conexão" em várias cidades do país.
 Para saber da agenda de cursos escreva para helen@reabily.com.br

segunda-feira, 16 de julho de 2018

ANCESTRALIDADE: VÍNCULOS QUE CURAM E VÍNCULOS QUE GERAM

           

Suzane Guedes - RJ
            Recentemente li um artigo sobre genética o qual vinha dissertando que cada mulher carrega em seu ventre quando em gestação, os ovários de sua filha e concomitantemente, os óvulos de sua futura neta. 
            Fiquei pensando o quanto a natureza é sábia através de seus desdobramentos. Entendo que o vínculo mãe e filha é formado mesmo antes da gestação, e isto não está apenas ligado aos seus próprios desejos, construções e integrações que vem sendo elaboradas e vivenciadas durante sua vida. Está para além, em um nível inconsciente.
            Afinal, se carregamos a história genética de nossas avós, carregamos também sua ancestralidade. Em que momento nossa mãe foi gerada naquela família primeira? Qual a posição que aquela filha ocupa na linhagem de sua família? Era o momento esperado para a chegada de um filho? Havia condições de saúde adequada? Como esta mãe se sentia em relação ao seu par parental? Existia recurso financeiro para o amparo e responsabilidades com este novo ser?
            É importante ressaltar que apesar destas condições, cada vivência é única e pessoal. Singular. O que importa é como cada um percebe sua própria experiência, mesmo trazendo cargas genéticas e ancestrais.
E como amparar, do ponto de vista da arteterapia, os desdobramentos dessas relações tão delicadas e tênues entre mãe e filha? Como delimitar essa relação, por vezes transbordante, que ultrapassa os limites possíveis para uma relação saudável? 

No conto A moça tecelã, Marina Colassanti tece em palavras a jornada da moça que constrói sua vida no tear. Ela não espera que as realidades apareçam à sua frente, pois ela mesma cria suas  realidades e desejos no movimento de criação e desconstrução proporcionadas pela tecelagem. Alinhados ao texto, encontramos os bordados e desenhos das irmãs Dumont, família de artistas e bordadeiras de Minas Gerais. Uma grande obra brasileira de escrita e imagens que nos auxilia também como ferramenta de fortalecimento pessoal.
No tecer de minha prática como arteterapeuta tenho acolhido e ajudado nos cuidados de gestantes que buscam o desenrolar, desembaraçar e promover novas tessituras à suas histórias, e então, procuram um novo fazer em suas alianças responsáveis nas novas relações que vão surgindo, já que a partir deste novo ser que geram, surgem novas configurações familiares.
Neste processo os fios de lã têm sido companheiros, não para tramar, mas para criar novas realidades com a linguagem apresentada. Poder ir além do que o material prevê tem sido uma boa surpresa para estas mulheres em seu novo ciclo de vida. Além de trazer conforto, aconchego e resgatar memórias afetivas, possibilitando sensações relatadas como: carinho de avó, aconchego, puerilidade, afetividade e genuinidade.
Encontro-me então com a fala de M. que relata a experiência com lãs como uma novidade que gera insegurança, mas que também acessa sua criatividade a qual é identificada como uma “boa surpresa” podendo levar o experimento para sua vida pessoal, já que em função de não estar “trabalhando fora” durante sua gravidez estava se sentindo inútil.
Propiciar ambientes e produções que poderão gerar ações e mudanças de atitude diante da vida e uma ampliação da percepção de si mesmo é uma grande função gerada pela arteterapia, além de proporcionar crescimento pessoal e fortalecimento da autoestima. Nossa ancestralidade e nossas avós sábias, curandeiras e artesãs, agradecem.
Com carinho, alegria e leveza.
Suzane Guedes
Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.
A Equipe Não Palavra te aguarda!
____________________________________________________________________

Sobre a autora: Suzane Guedes



Suzane Guedes é Psicóloga (CES-JF), Especialista em Psicologia e Desenvolvimento Humano (UFJF) e Arteterapeuta (POMAR).

Colunista no blog O psicólogo Online, no qual escreve sobre Autoestima.
Atua nas cidades do Rio de Janeiro e Três Rios-RJ com atendimento clínico presencial a crianças, jovens, adultos e idosos; ministra grupos e oficinas terapêuticas. Também trabalha como orientação psicológica online.
Suzane acredita na psicoterapia e arteterapia como grande ferramenta de auxílio à transformação e desenvolvimento pessoal e social.
Facebook: https://www.facebook.com/olharparasi/
Atendimento online: http://www.atendimento.opsicologoonline.com.br/suzane-guedes
Instagram: @olharparasi

segunda-feira, 9 de julho de 2018

ANDY WARHOL E A SERIGRAFIA

Liane Esteves – RJ
lianeesteves@gmail.com

              Ultimamente tenho investido na gravura como mais uma possibilidade no atendimento terapêutico. Fiz minha estreia aqui no blog com um texto sobre monotipias e agora dedico este espaço para falar da serigrafia, um dos processos em gravura, também conhecido com silkscreen ou gravura planográfica. Falarei, porém de forma “enviesada”, através da obra de um artista que dialogou com a fama, consumo e imagem usando a serigrafia para potencializar sua mensagem e tornando-a cúmplice de seus sentimentos e pensamentos.



Andy Wahrol (1928-1987), americano, filho de imigrantes, tornou-se uma figura lendária e profetizou que um dia todos teriam direito a 15 minutos de fama. Hoje sua “profecia” é realidade e o poder da imagem e das mídias sociais, assim como seus desdobramentos nocivos na vida dos indivíduos e famílias, nos impacta.

Retrocedendo um pouco na história da Arte para compreendermos essa faceta de nossa contemporaneidade, constatamos que na década de 1960, os Estados Unidos, principalmente Nova York, já se consolidara como grande centro artístico. O expressionismo abstrato perdia força para dar lugar a Arte Pop, a arte como caráter público, como mercadoria e objeto de consumo. Nada mais convincente para uma sociedade que privilegiava o efêmero, o sucesso, a escalada social e o enriquecimento.

            Andy Warhol, de origem humilde, não escapou dessa filosofia. Rapidamente ganhou fama e sucesso desenvolvendo uma relação ambígua entre sua vida e sua arte. Começou como desenhista publicitário, trabalhou para revistas como Vogue e Harper’s Bazaar conquistando um lugar no mercado. Seu empenho e dedicação no setor publicitário, além de seu espírito observador, acabaram por revelar-lhe a real faceta do consumo. Não mais focado na venda de produtos para uma elite, voltou-se para grande massa. Seu interesse não residia mais no consumo elitizado, mas no consumo de uma forma geral, no consumo de uma cultura, a americana. Percebeu a grande ilusão por trás de tudo o que era consumido e como isso afetava não apenas um grupo de pessoas, mas toda uma comunidade e mesmo uma nação, revelando a dimensão psicológica por trás das imagens publicitárias. Latas de enlatados, refrigerantes, estrelas de cinema, celebridades, encarnavam o jeito americano de ser e eram vendidos através de repetidas veiculações nas diversas mídias. Warhol transpôs a imagem desses produtos de consumo para a tela fazendo referência a esta realidade e viabilizando o ingresso do mundo popular no mundo da arte e seu próprio ingresso na estrita esfera da arte.

             Ao mesmo tempo em que criticava essa sociedade e seus hábitos de consumo através de suas telas, revelava seu jogo publicitário, criando lendas e fofocas de sua própria vida, num jogo ambíguo onde não se sabe o que é verdade e o que é mentira. Warhol transformou sua vida em obra. A grande verdade para ele era a imagem publicitária que poderia passar uma ideia verdadeira ou falsa num frenético jogo do consumo e da ilusão. A grande verdade revelada é o consumo por trás dessa imagem, onde reside a lenda, o mito do sonho americano. É, portanto, uma imagem abstraída, mítica e efêmera, que dura o tempo que um desejo leva para ser substituído por outro, num processo ininterrupto de consumo. A rapidez desse processo revela o caráter mortal da imagem. Warhol dizia que tudo que fazia tinha a ver com a morte. Os produtos de consumo de massa que usava em sua obra, como as sopas, os molhos, refrigerantes, sabão, todos eles tinham relação com a morte. Seja por seu rápido desgaste ou consumo; seja pela morte provocada por seu consumo. Warhol começou então a, literalmente, estampar a morte em sua obra, como no caso das pessoas envenenadas por atum enlatado, ou mortas por acidentes de carro ou de avião. Todas mortas por terem consumido uma ideia de praticidade, luxo, aventura, modernidade. A morte também aparece na imagem de pop stars como Marilyn Monroe e Elvis, que foram vítimas da fama, ou de outras celebridades cercadas por uma aura de tragédia.

"As duas Marilyns",1962
Serigrafia sobre tela 55 x 65cm 

Elvis Triplicado, 1964
Serigrafia sobre tela, 209 x 152 cm
 
            Apesar de parecer distraído e desligado da realidade, o artista observava friamente a sociedade por trás de suas máscaras, registrando o conformismo e o consumo psicológico. Conforme Argan (1998 p. 647), Warhol estaria interessado em analisar a trajetória desintegradora da imagem de massa, os efeitos da repetição da notícia que se tornariam, segundo ele, um mito de massa que passaria para o inconsciente.   Warhol transpunha para a tela as mesmas imagens e fotografias das manchetes de jornal, já maciçamente conhecidas e consumidas de antemão, e apostava na repetição usando a técnica serigráfica a seu favor. Através dela conseguia repetir a mesma imagem diversas vezes, em preto e branco ou em cores, com mais tinta ou menos tinta, com técnica descuidada ou mais apurada, criando uma dissolução dessa imagem, revelando assim uma nova imagem, abstraída daquela da realidade. Portanto, sua pintura não é figurativa, não é uma mimese da realidade como ela é, mas uma abstração da mesma. A planariade de suas pinturas reforça a ausência de realidade e a bela e cuidada imagem publicitária é manipulada de forma a tornar-se suja, borrada, transformada, denunciando a mentira, o consumismo, a verdade da cultura de massa. Ao mesmo tempo, o processo serigráfico permite uma reprodução estereotipada das imagens e uma produção mecanizada que reforça o caráter impessoal e massificante das imagens produzidas e da cultura fabricada. As distorções conseguidas pelas manipulações na impressão retiram as características pessoais e subjetivas dos retratados, pasteurizando a imagem para consumo.

            Gregory Battcock (1975, p. 51), em seu texto A Geração Warhol, diz que “a arte de Warhol pode subverter (até um certo ponto) a arte formal e, ao mesmo tempo, oferecer documentos socialmente provocadores ao cidadão de classe media”. Cita a aversão do artista pela cultura, por identificar nela uma função policial repressiva. A arte de Warhol refletiria, então, uma cultura oficial de repressão, mais do que de vida, sendo exemplos disso suas pinturas de cadeira elétrica, de ataques policiais, e dos homens procurados pela polícia.

            Passadas algumas décadas ainda são bastante atuais as reflexões e percepções de Andy Warhol sobre o american way of life. A dimensão irônica e crítica de sua arte acabou por perpetuar o consumo por este estilo de vida, criando um ciclo vicioso onde a ideia por trás da imagem ganha mais força quanto mais for veiculada. Entenda-se como ideia o próprio american way of life. O estilo então criticado foi consumido e absorvido perdendo sua força enquanto crítica, mas ganhando força enquanto estilo de vida. Isso acaba por tornar sua arte sempre válida e, ao mesmo tempo, a cultura de massa passível de crítica, uma vez que não percebe sua estrutura e repete sempre o mesmo processo.

            Danto (1990, p. 9) afirma que a obra completa de Warhol é menos um retrato da consciência contemporânea, mas a própria consciência contemporânea, materializada pelas imagens que exprimem nossas fantasias e nossos sentimentos. Para ele Warhol só morrerá realmente quando não mais soubermos quem foi Marilyn, ou quando não mais existir a sopa Campbell’s.
Latas de Sopas Campbell
Serigrafia sobre papel  

            Atualmente a obra de Warhol ainda nos seduz e nos convida a consumi-la em diversos produtos, como almofadas, bolsas, caixas, chaveiros etc.. Paralelamente também é possível estampar a própria imagem nas redes sociais, ter seguidores e tornar a própria vida uma vitrine aberta 24 horas por dia, indo, talvez, muito além das previsões de Warhol. Acredito que a função do arteterapeuta deve ser mais do que a oferta de materiais e linguagens artísticas, cabendo a ele também conhecer a obra de artistas das mais variadas épocas e estilos e poder usá-las como referência em seus atendimentos. Tomar a vida e a obra deste representante da Pop Art pode ser um disparador para estabelecer uma dimensão crítica e um olhar questionador sobre o consumo excessivo, o “desgaste” da imagem nas inúmeras postagens em rede, entre outros fatores. Como estimular a busca pela essência para além das aparências; como desviar o olhar da imagem externa para uma reflexão interna; como reconhecer os vazios interiores e cuidar deles?  A Arteterapia é uma excelente ferramenta na busca do si mesmo, e pode ser mais potente ainda quando auxiliada pelas obras dos grandes mestres da Arte, que tão sensivelmente nos deixaram um legado de imagens passíveis de profundos mergulhos em zonas sombrias.   

            Que Andy Warhol possa ser compreendido de forma mais ampla, para lá da aparente futilidade. Que possamos olhar para as inúmeras Marilyn’s, estampadas em variadas formas, efeitos e cores, e refletir sobre nós mesmos!

     Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!
Referências Bibliográficas:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
BATTCOCK, Gregory. Geração Warhol in A Nova Arte. São Paulo: Editora Perspectiva S.A., 1975.
DANTO, Arthur C.. Qui était Andy Warhol?. Les Cahiers du Musée National d’Art Moderne. Pais, 1990.
HONNEF, Klaus. Andy Warhol: A Comecializaçao da Arte. Colonia: Taschen, 1992.

 _________________________________________________________________________

Sobre a autora: Liane Esteves


Arteterapeuta e Arte-educadora, especialista em História da Arte e pós graduanda em Psicologia Junguiana. Faz atendimentos individuais e facilita oficinas e vivências em Arteterapia.
Leciona Artes Visuais na rede pública de ensino do Rio de Janeiro. Tem interesse em Arte, Psicologia, Yoga, Vedanta, Espiritualidade, Sustentabilidade, Cinema, Dança e Paisagismo. Acredita na Harmonia, Amor e Respeito entre os Seres.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

O SENTIMENTO DO MUNDO: Drummond e o arteterapeuta




Por Eliana Moraes (MG) RJ 

“Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo”

Carlos Drummond de Andrade

O tempo de gestação deste texto iniciou-se na última semana de maio, às vésperas do dia 27, data em que foi marcado inicialmente o lançamento do livro “Pensando a Arteterapia”. Poucos sabem, mas ao longo do mês de maio eu trazia um peso no peito e não sabia o porquê. As pessoas me abordavam animadas sobre o evento tão esperado e estranhamente eu me esforçava para sorrir e dizer que tudo estava sendo preparado com muito carinho para aquele dia especial. Lá no fundo do meu íntimo eu me justificava que aquele sentimento poderia ser porque eu não estava realmente preparada para aquele momento. 

Porém, na quinta feira dia 24, para a minha “surpresa” recebi um telefonema da editora me informando que os livros estavam presos em São Paulo por conta da greve dos caminhoneiros que se iniciou naquela semana. Além disso, comecei a ouvir de pessoas queridas que estariam impossibilitadas de participar do evento pela dificuldade de locomoção e segurança. 

Apesar do susto, não foi uma surpresa. 
E ali pude compreender parte daquela sensação estranha que eu guardava intuitivamente. 

Neste momento, eu que já estava acompanhando os movimentos do nosso país naquela semana intensa, passei a prestar mais atenção em cada desdobramento daquela verdadeira paralisação, nos campos do coletivo e individuais aos quais tive acesso. Sem entrar no mérito político, mas emprestando meu corpo, percepções e sensações para aquele momento social tão emblemático. 

Afinal esta é a função do artista. Dentre a pluralidade humana, o artista é portador de uma sensibilidade singular para a percepção e compreensão da natureza, da vida e do cotidiano dos seres humanos e a partir dela, dá forma àquilo que vê (além). 

Passada a mudança de data do evento e toda a reorganização necessária com todos os envolvidos, continuei a ouvir aquele sentimento – que embora mais claro, não havia se dissipado. Foi aí, que graças às sincronicidades da vida, alguém “soprou no meu ouvido” o nome do livro “Sentimento do Mundo” de Carlos Drummond de Andrade. Poeta que tanto me identifico, até mesmo por ser um mineiro de alma e estilo que passou boa parte da sua vida no Rio de Janeiro e tudo que ele contém. 

Pessimismo: o poeta que denuncia 


“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que se esteriliza os abraços...”

em Congresso Internacional do Medo

Dediquei-me à leitura e reflexão deste livro tão importante para a literatura brasileira. Terceiro livro de Drummond, que inaugura a “fase ideológica” do poeta, relacionando o eu e o mundo. Nesta fase, Drummond demonstra que percebeu o que está acontecendo no mundo e que vai lutar para que mais pessoas também entendam e saiam do estado de alienação. Publicado em 1940, este livro que traz 28 poemas, reverbera o contexto mundial e brasileiro dentre guerras e ditaduras. 

“O sentimento do mundo” deve ser lido com calma e atitude meditativa. Neste texto destaco fragmentos, e dois dos poemas que mais me tocaram e fizeram eco ao meu sentimento do mundo atual:

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
...
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

em Os ombros suportam o mundo

Mais uma vez, muito me identifiquei com Drummond, no momento em que se coloca como observador do mundo ao seu redor e através daquilo que lhe é mais caro, a poesia, investe em chamar a atenção de quem o pudesse ouvir. 

Nos dias atuais, basta assistirmos qualquer jornal (mundial ou local) para percebermos o quão estranho está o mundo em que vivemos. E não há como os artistas em sua sensibilidade passarem ilesos ao sentimento do mundo do século XXI. 

Chega um tempo que não adianta fugir ou entregar os pontos. Chega um tempo em que reconhecer a vida é um imperativo. A vida. 

Esperança: a busca de sentido


“Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.”

em Mãos Dadas 

No grupo de estudos que coordeno, estamos estudando Kandinsky, que tanto teorizou sobre a sensibilidade do artista. Temos refletido justamente sobre o arteterapeuta como participante desta sensibilidade, mas com o ofício de oferecer a arte para que cada sujeito dê forma aos seus possíveis dentro de um setting arteterapêutico. 

Percebemos o quão importante é que o arteterapeuta se reconheça como portador desta sensibilidade perante ao mundo e à humanidade. Que entre em contato com ela, a estimule, aqueça, pois a partir desta sensibilidade poderá abrir canais intuitivos e exercer com propriedade sua função de oferecer os materiais de arte e apresentar as propostas vivenciais – não a partir de seu próprio desejo, mas respondendo às demandas dos indivíduos do tempo presente. 

Sua matéria são “os homens presentes”, pertencentes a este mundo/país/cidade presentes e suas vicissitudes. Esta consciência colabora para que o arteterapeuta, que tem duas mãos e o sentimento do mundo, ofereça a arte como um “alimento” para a vida presente, pois segundo Kandinsky: 

Aquele que, entre eles, é capaz de olhar além dos limites da parte a que pertence é um profeta para os que o cercam. Essa multidão tem fome – muitas vezes sem que ela própria esteja consciente disso – o pão espiritual que convém às suas necessidades.” KANDINSKY

Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!
Referências Bibliográficas:

ANDRADE, Calos Drummond. O sentimento do mundo. 
KANDINSKY, Wassily. Do Espiritual na Arte.
______________________________________________________________________________

Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga. 

Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. 

Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".

Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 

Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia.
Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.