segunda-feira, 16 de março de 2026

ARTE EM MOVIMENTO: EXPRESSÃO ABSTRATA E ESTIMULAÇÃO COGNITIVA EM IDOSAS INSTITUCIONALIZADAS

 

Por Adriana Limeira do Nascimento e Anderson Amaral - CE

A atividade de arteterapia realizada na Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) em Mossoró Rio Grande do Norte teve como proposta promover uma experiência criativa capaz de estimular percepção, cognição e expressão emocional por meio da arte. Inspirada em elementos do expressionismo abstrato, a atividade buscou aproximar as participantes de uma linguagem artística livre, na qual formas, linhas e cores ganham significado a partir da interpretação individual.

Como referência estética e conceitual, utilizou-se o universo artístico de Jackson Pollock, cuja obra é marcada por movimentos espontâneos, linhas dinâmicas e composições não figurativas. Esse tipo de expressão artística convida o observador a interagir com a imagem de forma intuitiva, estimulando a imaginação, a percepção visual e a liberdade criativa.  Em suas obras, a tela torna-se um espaço de movimento, energia e espontaneidade, onde cores e linhas revelam emoções e percepções subjetivas. Essa percepção de liberdade criativa também norteou a atividade desenvolvida com as idosas, incentivando cada participante a explorar as cores e os espaços do desenho de forma livre, sem padrões rígidos, valorizando a expressão individual, a criatividade e o prazer no processo artístico (KILIÇ; DEDE, 2024).

A criatividade é um dos maiores legados do ser humano. Na velhice ela representa um exemplo poderoso do que ainda é possível realizar ao longo do processo de envelhecimento. Embora a criatividade sempre esteja presente nessa fase da vida, muitas pessoas deixam de reconhecê-la ou desenvolvê-la porque, por muito tempo, a própria sociedade negou, trivializou ou desvalorizou o potencial criativo associado ao avançar da idade (KILGORE, 2024).

A proposta da oficina partiu da ideia de que a arte pode funcionar como um espaço de experimentação sensível e criativo, no qual o idoso é convidado não apenas a executar uma tarefa, mas a explorar formas de sentir, escolher e criar, ressignificando experiências e fortalecendo sua expressão subjetiva.

Materiais Utilizados

Para a realização da atividade foram utilizados desenhos compostos por múltiplos traços pretos abstratos, formando diversos espaços em branco entre as linhas. Esses traços criavam áreas delimitadas que convidavam as participantes a observar os formatos e decidir como preencher cada espaço com cores.

 


Desenho elaborado no site GPT

Para o processo de pintura foram utilizadas canetinhas coloridas do tipo Bobby Book, frequentemente utilizadas em atividades de colorir. A escolha desse material teve duas razões principais. A primeira foi a intensidade das cores, que se destacam com maior vivacidade sobre os traços pretos do desenho, criando um contraste visual mais marcante e valorizando as produções artísticas realizadas pelas participantes.

A segunda razão refere-se às condições motoras frequentemente presentes no envelhecimento. Muitos idosos apresentam diminuição da força de preensão e menor pressão exercida pelos dedos, o que pode dificultar o uso de lápis de cor, que exigem maior pressão para produzir pigmentação adequada. As canetinhas, por exigirem menor esforço de pressão, facilitam o processo de pintura, tornando a atividade mais acessível, confortável e inclusiva.

Dessa forma, a escolha do material buscou não apenas favorecer o resultado visual da atividade, mas também adaptar a proposta às características motoras das participantes, promovendo maior autonomia durante a execução.

Desenvolvimento da Atividade

Cada idosa recebeu uma folha contendo o desenho com os traços pretos e os espaços em branco. Inicialmente, foram convidadas a observar atentamente as linhas e os espaços formados entre elas, percebendo diferentes formas e possibilidades de preenchimento.

Em seguida, utilizando as canetinhas coloridas, as participantes foram orientadas a preencher livremente os espaços delimitados, escolhendo as cores e a forma de colorir de acordo com sua preferência. Não havia uma regra estética definida; cada pessoa poderia explorar combinações de cores, contrastes e padrões de forma espontânea.


 

Durante o processo, foi possível observar que a atividade mobilizava diferentes funções cognitivas e motoras. O ato de escolher cores, delimitar os espaços e organizar o preenchimento exigia atenção visual, coordenação motora fina, percepção espacial e tomada de decisão.

Além disso, a atividade proporcionou um ambiente de tranquilidade e concentração, favorecendo momentos de envolvimento criativo e expressão pessoal.

Sentido Simbólico da Atividade

A proposta da oficina também trouxe uma dimensão simbólica importante. O desenho inicial apresentava espaços vazios entre os traços pretos, e a atividade convidava as participantes a preencher esses vazios com cores.

Esse gesto simples de colorir tornou-se uma metáfora delicada sobre a própria experiência de vida. Assim como no papel, onde áreas em branco aguardavam intervenção, a atividade sugeria a possibilidade de ressignificar os “vazios” da vida, dando cor e sentido a espaços que antes pareciam silenciosos.

Nesse contexto, colorir os intervalos entre o preto e o branco transformou-se em um gesto simbólico de criação e reconstrução. Cada escolha de cor representava uma forma de expressão pessoal, permitindo que as participantes transformassem linhas abstratas em produções únicas e significativas.

Benefícios Observados

Durante a realização da atividade foi possível observar diversos aspectos positivos entre as participantes. A proposta favoreceu o engajamento e a participação ativa, estimulando a curiosidade e o interesse pela tarefa.

Também foram percebidos momentos de concentração, relaxamento e satisfação, especialmente quando as idosas observavam o resultado final de suas produções. O compartilhamento das pinturas entre as participantes também estimulou conversas e comentários, fortalecendo a interação social.

Além disso, a atividade contribuiu para a estimulação cognitiva, envolvendo processos como atenção, percepção visual, planejamento e tomada de decisão, bem como para o exercício da coordenação motora fina.


 

Considerações Finais

A experiência mostrou que propostas simples de arteterapia, inspiradas na arte moderna e adaptadas às condições motoras e cognitivas dos idosos, podem contribuir significativamente para a estimulação cognitiva, emocional e social de pessoas idosas institucionalizadas.

Mais do que uma atividade de colorir, a oficina tornou-se um momento de expressão criativa, reflexão e encontro. Ao transformar os espaços em branco do papel em campos de cor, cada participante também pôde experimentar a possibilidade de dar novos significados a seus próprios espaços internos, reafirmando que a criatividade e a expressão continuam presentes em todas as fases da vida.

 

Referência

KILIÇ, A.G.; DEDE, B.. Unlimited freedom in art: Jackson Pollock. Journal for the Interdisciplinary Art and Education, v. 5, n. 1, p. 67-76, 2024.

KILGORE, Christine. Supporting nursing homes during a pandemic: lessons from a quality improvement collaborative. Caring for the Ages, v. 24, n. 4, p. 8, 2024.


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Sobre os autores:



Adriana Limeira do Nascimento: Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduada em Saúde Mental, Pós-graduada em Saúde Pública e Brinquedista Hospitalar – Autora do Livro Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.

 

 


Anderson Amaral: Arteterapeuta, Mestre em Saúde e Tecnologia, Pós-graduação em Geriatria e Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia com ênfase em Reabilitação Cognitiva, Pós-graduação em Neurociência e Longevidade, Coordenador do Projeto NeuroGeriatria (Faculdade de Medicina UNIG). Autor dos Livros Jogos Cognitivos um olhar multidisciplinar; Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora.

3 comentários:

  1. Como sempre Adriana e Anderson dois profissionais respeitados e maravilhosos! Parabéns ! Amei ! Vocês são inspiração !

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  2. Parabéns, Anderson e Adriana pelo belissimo trabalho. Muito obrigada por compartilhar que atividades simples, lincadas à História da Arte pode permear o universo do idoso institucionalizado trazendo mais alegria, presença, cor, vida e um universo de possibilidades criativas. Foi um show de respeito, conhecimento e criatividade.

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  3. Parabéns, meu querido! Seu trabalho é excelente!!! Beijo

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