segunda-feira, 10 de abril de 2023

GRUPOS ARTETERAPÊUTICOS E SUAS DIVERSAS MODALIDADES


Eliana Moraes – MG

naopalavra@gmail.com


Desde o início de 2022 venho atualizando meus estudos e escrevendo sobre grupos arteterapêuticos e seu grande potencial de contribuição às relações contemporâneas, em especial a este momento “pós” pandêmico. Compreendemos que, dentro de um fenômeno coletivo, as relações humanas estão em crise. Entretanto se elas se apresentam como um desafio, também são fontes de alento. Se por vezes podem intoxicar como um “veneno”, através delas recebemos um “remédio”. Se por um lado são fonte de sofrimento, nelas encontramos a “cura”. Nas palavras de Beatriz Cardella: 


Os sofrimentos humanos acontecem no entre, nos encontros e desencontros vividos ou nos encontros não acontecidos. A cura é também fenômeno do entre, concebida em Gestalt Terapia como a restauração da abertura, do ritmo, do fluxo, do diálogo, da criatividade, e dos laços que nos unem/diferenciam do outro, processo de crescimento, atualização e realização da singularidade.

A relação terapêutica pode ser a experiência matriz da abertura... (CARDELLA, 2020, p 103)


A cura em Gestalt Terapia, está intimamente ligada com relação, com restauração ou constituição do Diálogo. É o que chamamos de cura pelo Encontro...

O que cura na terapia é a relação em si, é o entre. É o “sou amado, logo existo”. (CARDELLA, 2020, p 119)


Tenho estimulado que arteterapeutas da rede Não Palavra e das formações que leciono criem propostas grupais, algo tão característico da Arteterapia, com a consciência dessa demanda e importância social. Sincronicamente iniciei os trabalhos de supervisão de estágio na pós em Arteterapia pelo Instituto Faces, em parceria com Mariana Farcetta. Nesses espaços com frequência nos debruçamos em compreender as diversas modalidades de grupos arteterapêuticos possíveis de forma que o arteterapeuta as conheça e amplie seu repertório e práticas – atuais e futuras. 

Esse estudo motivou a escrita do presente texto, para o registro  mais estruturado dessas diretrizes que servem para orientar tanto o arteterapeuta quanto os participantes, e também, possíveis gestores institucionais, sobre uma proposta arteterapêutica bem delineada. 


Presencial ou on-line

A prática arteterapêutica grupal presencial amplia as formas de comunicação para além da verbal e expande o contato – no on-line, tão reduzido pela tela e caixas de som. No campo das relações, colabora para possíveis enfrentamentos internos e experiências reais para além do virtual/ideal e das quatro paredes de espaços físicos, por vezes empobrecidos. A presença de todos no mesmo espaço colabora para práticas criativas compartilhadas com o outro, algo tão revelador das dinâmicas e funcionamentos relacionais. Esse é um espaço em que as relações e seus atravessamentos aparecem de forma mais clara, através da fala e do silêncio, dos gestos, dos diferentes ritmos e das interações entre os participantes. Da mesma forma, modalidade presencial potencializa as experiências corporais (individual ou com o outro através da voz, do toque, odores e calor de um outro corpo), os sentidos e o cinestésico. Propicia também o aumento de acesso à riqueza de materiais. Como pontos desafiadores podemos citar a limitação do espaço e do tempo, sendo um formato mais restrito para que alguns encontros aconteçam. Desta forma, demanda um maior investimento integral e enfrentamento de possíveis resistências por parte dos experienciadores. 

Já as práticas on-line ultrapassam os limites da geografia, assim potencializando as oportunidades de encontros que não aconteceriam em outro formato. A facilidade de acesso também aumenta o potencial de adesão. A prática nos mostrou que, mesmo a distância, é possível mobilizar fenômenos de campo através da comunicação inconsciente e construir vínculos grupais sólidos. A presença da tecnologia pode facilitar a rapidez de acesso a conteúdos e pesquisas que sirvam de estímulos geradores ao grupo. Entretanto, pode ser limitadora na comunicação ampliada, experiências corporais, quanto a diversidade de materiais e de algumas práticas colaborativas. 


O fluxo de pessoas

Um grupo arteterapêutico pode ser aberto, quando a cada encontro é possível receber diferentes participantes, a partir de suas disponibilidades e interesses. Como exemplo podemos citar espaços institucionais em que cada encontro terapêutico se mantém de portas abertas para receber participantes que naquele dia e hora estão transitando pela instituição. Outro exemplo é o “Grupo Quíron”, sustentado pelo Não Palavra. Este é um grupo direcionado para arteterapeutas e estudantes recortarem um tempo e um espaço para sua relação própria com os materiais, processo criativo e produção de imagens. Este grupo se mantém continuado desde 2020, e a cada encontro os participantes podem se inscrever de forma independente.

Um grupo fechado se caracteriza quando os mesmos integrantes se comprometem a participar do processo grupal, excluindo a possibilidade da entrada de novos participantes ao longo caminho. Geralmente essa modalidade é utilizada quando as temáticas trabalhadas são estruturadas (melhor descritas abaixo) de forma que se um participante ingressar no meio do processo será prejudicado em sua experiência e/ou poderá interferir na jornada do grupo. 

Já um grupo semiaberto se refere à uma proposta de grupo que mantém um núcleo de participantes assíduos que constroem um vínculo continuado mas que está prevista a possibilidade de ingresso de um novo participante quando o moderador compreender que pode  ser construtivo para ele e para o grupo. 


O tempo e o número de sessões

Consideramos um grupo continuado quando é sustentado por um tempo indeterminado, geralmente seguindo o fluxo grupal. Como por exemplo, o Grupo Quíron, que se mantém ativo há três anos e permanece aquecido, por isso nossa proposta é manter a regularidade dos encontros indefinidamente. 

Já um grupo breve se dá quando já está previsto que ele terá começo, meio e fim, independente do número de sessões. Aqui temos como exemplo as práticas de estágio, que, respeitando o modelo de cada instituição formadora, via de regra, já se inicia com uma proposta de tempo e número de sessões determinados. Esta modalidade também é muito comum em instituições que apresentam um grande número de usuários, solicitando que mais pessoas possam ser beneficiadas com a experiência arteterapêutica ao longo do tempo. Desta forma, formar grupos breves, com uma rotatividade de participantes atende essa demanda. 


A estrutura da proposta 

Compreendemos uma proposta estruturada quando o moderador já conhece todo o conteúdo que será trabalhado naquele ciclo (geralmente esta modalidade funciona bem com um grupo breve). Por exemplo, se um arteterapeuta for oferecer um ciclo de quatro encontros aos quais cada vivência trará como tema um dos quatro elementos da natureza. Se o  arteterapeuta já conhece as temáticas e materiais que serão oferecidos até o fim, consideramos esta uma proposta estruturada. 

Uma proposta aberta acontece quando o moderador oferece o encontro terapêutico sem qualquer planejamento anterior, deixando com que os estímulos disparadores surjam de forma espontânea, na experiência do “aqui e agora”. Desta forma, o processo criativo acontecerá  naturalmente, a partir de algum estímulo surgido no momento, seja um material escolhido pelo participante ou uma palavra destacada pelo diálogo do grupo. Como exemplo podemos citar os ateliês de Livre Expressão sustentados pela Dra Nise e seus monitores. Os materiais eram expostos no ambiente e os pacientes interagiam e criavam livremente a cada encontro. 

Já uma proposta semiaberta ou semiestruturada se dá na interseção dessas duas diretrizes. Quando o moderador elege uma proposta inicial – um material, uma temática, um estímulo, uma consigna – e se mantém aberto para ouvir o movimento grupal gerado por daquele estímulo. A partir dessa escuta ele irá construir os próximos estímulos oferecidos ao grupo, elegendo as propostas pertinentes àquele movimento grupal. 


Sobre o grupo breve de proposta semiaberta

Este é o modelo grupal atualmente sugerido, de forma prioritária, no estágio da Pós Graduação em Arteterapia do Instituto Faces, ao qual tenho supervisionado. Neste formato sugerimos que o moderador divida o ciclo em três etapas – modelo que pode ser utilizado em outros contextos arteterapêuticos. 

A primeira etapa é embasada em um tripé, desenvolvido como um esquema de orientação, abaixo. 

Esquema de autoria de Eliana Moraes

No início de um processo arteterapêutico (seja ele em grupo ou individual) é importante que o arteterapeuta se dedique a um desbloqueio criativo, pois na maioria das vezes os participantes podem apresentar falta de intimidade ou alguma resistência com as práticas criativas. É interessante que se utilize técnicas e materiais facilitadores, sem grande potencial de resistência. A experimentação e exploração dos diversos materiais devem ser encaminhadas pelo arteterapeuta de forma progressiva quanto aos desafios apresentados por cada materialidade. 

Em meio ao desbloqueio criativo, o arteterapeuta estará com sua escuta atenta em um processo de coleta de dados. Essa coleta se dá de forma verbal – a partir dos conteúdos relatados pelos participantes – e não verbal – a partir das expressões além da palavra como o corpo, o gesto, o processo criativo, as imagens, etc. São encaminhadas atividades de apresentação, quebra gelo e propostas mais abertas, ainda não focando nas possíveis demandas terapêuticas, uma vez que nesta etapa o arteterapeuta ainda está levantando hipóteses sobre os conteúdos psíquicos dos experienciadores. 

Estas diretrizes iniciais apontam para aquilo que é a base de todo o processo: a formação de vínculo. Sem essa base, não é possível qualquer desenvolvimento terapêutico. Vale ressaltar que a formação de vínculo envolve o vínculo com o terapeuta e com os membros do grupo, uma vez que estes serão testemunhas de momentos bastante íntimos e delicados nesse caminho de autoconhecimento. 

A segunda etapa se propõe a responder as demandas do grupo apresentadas na primeira fase. É possível buscar estímulos criativos que dialoguem com algumas as questões coletadas na primeira etapa – como palavras chave e temáticas bastante repetidas ou que saltaram aos ouvidos do terapeuta. Assim, o arteterapeuta irá propor técnicas, consignas e materiais que reverberam e potencializam a elaboração de questões levantadas pelo grupo. Esta é a fase de aprofundamento em questões psíquicas apresentadas. 

Por fim, a terceira etapa é orientada para o processo de fechamento das questões trabalhadas. Na medida do possível, é importante cuidar para não se abrir novas questões. É tempo também de contribuir para que o experienciador vá se apropriando em sua autonomia para o criar, sendo estimulado para que a chama da criatividade permaneça acesa após fechamento desse ciclo. Encerrando o ciclo arteterapêutico, depois de um desbloqueio criativo e criação de intimidade com os materiais, cada experienciador poderá escolher os recursos que lhe foram mais mobilizadores e se experimentar em processos criativos mais livres e protagonistas de si, de sua obra e de sua vida.


A partir dessas diretrizes acredito ser possível instrumentalizar arteterapeutas que promovam grupos arteterapêuticos bem delineados e orientados. Essa estruturação do nosso trabalho colabora para que nossas propostas profissionais se apresentem de forma cada vez mais consistente às oportunidades que se apresentam a nós. 

Referência Bibliográfica:

CARDELLA, Beatriz Helena Paranhos. De volta para casa: ética e poética na clínica gestáltica Contemporânea. Editora Amparo, SP. 2020

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"



segunda-feira, 3 de abril de 2023

LINHAS E ORIGAMI: PONTOS DE ENCONTROS



Por Isabel Pires - RJ

bel.antigin@gmail.com 

Na minha prática clínica e pesquisa pessoal sobre o uso do origami em Arteterapia, busco, na bibliografia e na minha observação, os fundamentos que podem levar à escolha da dobradura de papel no setting arteterapêutico.

Uma das peculiaridades da Arteterapia é justamente o uso de materiais diversos e o estudo da linguagem e dos possíveis efeitos desses materiais nos pacientes/clientes, ou seja, a linguagem subjetiva que cada um possui. Assim, o arteterapeuta questiona-se sobre o material mais adequado para o paciente/cliente naquele determinado momento da terapia, isto é, qual material vai facilitar a sua expressão, observação e/ou mudança naquela etapa terapêutica. Por isso, é preciso um amplo conhecimento da materialidade e experimentar uma gama variada de possíveis materiais e técnicas em seu trabalho pessoal e no setting arteterapêutico. Dentro desta perspectiva, tenho me permitido usar o origami na minha prática clínica e procuro daí extrair-lhe os usos, propriedades e indicações, embora quase sem apoio de uma literatura a esse respeito. Esse texto faz parte das minhas reflexões, ainda em processo, a partir do uso do origami na clínica arteterapêutica, na busca por construir um arcabouço teórico que aborde hipóteses sobre os benefícios terapêuticos do origami e que, também, valide a técnica da dobradura de papel – em si, uma arte - na Arteterapia.

Em meio a essa busca, percebo que a costura e o bordado apresentam semelhanças com o origami. Em primeiro lugar, o aspecto ancestral do origami, tão antigo quanto o papel. Nos seus primórdios, o papel era quase um tecido, feito de fibras vegetais, e os membros de uma mesma família se reuniam para a sua fabricação. Foi neste tipo de suporte que os primeiros trabalhos de origami surgiram, com um cunho simbólico e espiritual. Assim, as primeiras dobraduras aparecem permeadas de carga afetiva, dentro do seio familiar e religioso.

Em segundo lugar, no bordado, na costura e no origami, existem regras e etapas a serem seguidas, ou seja, todos são processos estruturados. E, assim como o bordar e o costurar, o origami também exige um percurso gradual, que vai de um trabalho inicial de dobraduras mais simples até às mais complexas, com resultados de incrível beleza e surpreendente realismo. 

Pensando em mais características em comum entre as técnicas de costura e bordado e a da dobradura de papel, relembro que, no meu texto anterior (“A arte da dobradura de papel: origami e Arteterapia”), cito a meditação, a meticulosidade, além do desenvolvimento da capacidade de concentração e de atenção. De fato, o origami exige atenção plena e cuidado, a cada etapa do processo, sob o risco de se ter que recomeçar a dobradura com outro papel, como, às vezes, também acontece com o bordado.

Analogamente, segundo Philippini (2009):

(...) ao costurarmos e bordarmos, nos colocamos na contramão das ‘correrias” urbanas (grifo da autora). Pois, costurar e bordar nos ajuda a desacelerar, e creio que são atividades que podem ser consideradas compatíveis com as práticas de meditação em movimento” (PHILIPPINI, 2009, p. 65, grifo meu).

Além disso, a autora continua: “As atividades de linha e agulha são extremamente úteis no processo arteterapêutico. Ensinam sobre a necessidade de cuidado, gradualidade, minúcia, atenção e concentração” (PHILIPPINI, 2009, P. 64, grifos meus). Dirá você, leitor: “Mas ela está falando de costura e bordado!” E respondo: “Sim, mas poderia, também, estar falando do origami”.

Nos livros que li sobre os materiais e suas propriedades, pude perceber o quanto é possível associar o origami com o trabalho com as linhas. Da mesma forma que a costura e o bordado representam linhas que ganham volume, no origami, as dobras/vincos atuam como linhas no suporte de papel. Aliás, um verbo que faz parte da arte de dobrar papel é alinhar. Dentre as muitas propriedades e indicações do uso do origami, escolhi, no meu texto de hoje, me debruçar sobre essa característica.

Partindo da metáfora da linha, a ideia de limites também permeia o trabalho com origami. Na arte da dobradura de papel, as linhas (vincos) são importantíssimas para as etapas que se seguirão, marcando o caminho de futuras dobras ou mostrando limites de uma dobra seguinte. Assim, nenhum vinco é em vão: serve para mostrar até onde se deverá dobrar ou como referência para a dobra que deverá ser (re)feita numa etapa seguinte. Por isso, podemos pensar que são como limites que apontam caminhos e definem movimentos. Pensando em limites e definições de contorno, Moraes (2021) nos diz:

As queixas terapêuticas recorrentes giram em torno de invasões, transbordamentos, excessos, dificuldade de dizer não e impor limites (a si e ao outro), dificuldade de delimitar o que pertence a um e ao outro. Neste contexto, como palavras chave para o elemento linha, podemos destacar: limites, contornos, bordas, fronteiras. Delinear, circunscrever, separar, discriminar (um e outro).  

Para compreensão da analogia, podemos trabalhar com nossos pacientes que a linha simboliza seus contornos, suas bordas, aquilo que faz o limite entre um elemento e outro, entre o que está dentro e o que está fora. (...) A linha muitas vezes é protetora de invasões, nos resguarda e preserva também de transbordamentos e exposições de nossos conteúdos. (...)

Em síntese, através de experimentos com a linha podemos trabalhar a compreensão de que o limite é estruturante e também um ato de amor, ao outro e a si mesmo (MORAES, 2021).

Em origami, quando não respeitados os limites, a dobradura fica torta ou malfeita e, na peça, indicam desleixo e falta de minúcia e delicadeza. Não serão esses, elementos importantes nos relacionamentos, nos quais a falta de limites atrapalha a relação? Como já foi dito, na dobradura de papel, as dobras/linhas marcam até onde se pode ir e indicam a direção das dobras seguintes. Portanto, servem de parâmetro para as etapas que se seguem. São linhas, portanto, que demarcam fronteiras, sinalizam caminhos e facilitam o processo. Por isso, são estruturantes, ordenadoras e organizadoras, como as linhas do bordado, da costura e da vida.


Além disso, segundo Moraes (2021), uma das propriedades do elemento linha é o seu potencial para a criação de formas. No caso do origami, as dobras/linhas formam a peça final, que não seria possível sem elas. Em Arteterapia, “dar forma corresponde a organizar para compreender e transformar” (PHILIPPINI, 2013, P. 49). Na concepção junguiana, através da criação artística, aparecem símbolos, que fazem a comunicação entre a consciência e o inconsciente. Conforme Philippini (2013), essa “comunicação simbólica cria condições de estruturar, informar e transcender”. Os símbolos aparecem na fala ou na expressão artística e serão amplificados, posteriormente, em diferentes materialidades, e é nesse momento que se pode usar o origami (pretendo abordar esse tema em texto posterior). A materialização de um símbolo, emoção ou sentimento, através de uma forma, permitirá “a compreensão, a codificação e a atribuição gradual de significado pela consciência” (PHILIPPINI, 2013, P. 49). A partir daí, num estágio seguinte, surgirá a possibilidade de transformação do conteúdo acessado.

Ainda dentro da lógica da metáfora lexical, as dobras do papel também podem nos remeter às dobras da vida, aos vincos e rastros que se fazem ao longo do nosso percurso existencial, com seus momentos mais difíceis e marcantes. O vinco, por mais leve que seja, deixa marcas no papel que não poderão ser desfeitas. Analoga e metaforicamente falando, na vida, certas atitudes ou palavras não poderão ser revertidas e deixarão seus rastros e consequências, como marcas no corpo ou na alma. Mas as marcas também representam a persistência, o propósito, o objetivo, de quem seguiu em frente apesar das cicatrizes. Assim, no origami, o resultado das dobras é uma singela, delicada e bela escultura de papel. Como exemplo dessa persistência e perseverança, cito a fala de um paciente meu, após fazer um avião-caça de origami: “Pedem pra dobrar pra um lado e, quando eu vejo, minha cabeça tá mais dobrada do que a folha. (...) Mas eu amo me desafiar, e se eu não consigo ganhar de um origami, eu vou ganhar de quem nessa vida?” (paciente J.). Esse mesmo paciente me lembra de que dobrar, na vida, metaforicamente, pode significar aprender, aquiescer, ganhar humildade no processo: “O misto de sensações me leva pra um lugar de humildade. Como transformar a ira em resultados. Eu fico com tanta raiva de tentar fazer algo que eu não consigo, que eu vou fazer até conseguir. Daí começa a parte da Humildade. Humildade em reconhecer que não sou bom em tudo. Humildade de aprender coisas novas e humildade de entender que a arte não precisa de muita coisa. Uma folha de papel e uma pessoa curiosa são o suficiente pra transformar um papel em um jato caça m-16. O resultado é até legalzinho, mas o processo que realmente é incrível” (paciente J.).

            O processo. Em Arteterapia, o processo importa bastante. O ato de fazer, a maneira como é feita e as reações durante a feitura de uma criação artística falam muitas vezes mais do paciente/cliente do que o próprio objeto criado. Sinto que, no caso da dobradura de papel, isso conta muito a favor do uso do origami no setting arteterapêutico. Mas esse é tema para um próximo texto. 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

MORAES, Eliana. “O uso da linha nas práticas da Arteterapia”. nao-palavra.blogspot.com. Minas Gerais, 15 de novembro de 2021. Disponível em: https://nao-palavra.blogspot.com/search?q=linha. Acesso em: 20/03/2023.

 

PHILIPPINI. A. Linguagens e materiais expressivos em Arteterapia: uso, indicações e propriedades. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2009.

 

_____________. Para entender a Arteterapia: cartografias da coragem. 5ª ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013.

 

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SOBRE A AUTORA:



·      Arteterapeuta

·      PSICÓLOGA CLÍNICA

·      ESPECIALISTA EM PSICOLOGIA JUNGUIANA

·      PROFESSORA DE INGLÊS E FRANCÊS

·      Formada em Antiginástica ®Thérèse Bertherat

·      Formada em Jornalismo

·      Atendimentos individuais e em grupo (online/presencial)

·      Contatos:      

Whatsapp: (21) 97657-5685

E-mail: bel.antigin@gmail.com

Instagram: @isabelpires.artepsi

segunda-feira, 27 de março de 2023

MITOS E AUTOCONHECIMENTO: ARTETERAPIA E TCC

 Por Juliana Mello – RJ

entrelinhas.artepsi@gmail.com 

“Há de se falar, mas também entrar em contato com algo que está além do organismo desorganizado, que é o Ser profundo dessa pessoa”. (LELOUP, 2021, pg. 28)

Muitas pessoas procuram atendimento com queixas específicas, mas no decorrer do percurso percebem que precisam melhorar seu autoconhecimento, desenvolvendo a capacidade de olhar verdadeiramente para si e aprimorar seus questionamentos sobre seus sentimentos, pensamentos e comportamentos diante das diversas situações da vida.

Desenvolver o autoconhecimento é importante, pois nos faz repensar sobre nossos padrões de funcionamento, nossas crenças e nos traz a opção de escolher fazer diferente, a partir do momento que tomamos consciência de quem somos, do que queremos, gostamos. Nos traz de volta ao nosso processo de individuação, nos possibilitando ressignificar o que nos incomoda, limita e paralisa.

Como repertório para nossa autoanálise, neste texto quero referenciar dois mitos Gregos, que manifestam simbolicamente nossos padrões disfuncionais e, muitas vezes, rígidos.

“E que o tempo seja o grande devorador até das coisas essenciais, pois a tudo devora, mas a memória dos mitos nos preservará”. (VASQUES, 2015, pg 6)

Mito de Narciso

Da mitologia grega, Narciso era um caçador, que fascinado pela própria beleza, desprezava todas as pretendentes. Ele preferia viver só, pois não encontrava ninguém à altura que pudesse corresponder ao seu amor. Uma ninfa, chamada Eco, ao ter seu amor desprezado, procura a deusa da Vingança Nêmesis, que lança sobre ele a maldição de que que se apaixonará, mas não será correspondido.

Ao ser atraído, pela ninfa Eco para uma fonte, viu seu reflexo na água cristalina e ficou completamente encantando pelo que viu. Não percebeu que a imagem era seu próprio reflexo e não conseguindo possui-la, passou dias sem comer e nem beber admirando a imagem na fonte, e morreu.  

Mito de ECO

Também da mitologia grega, Eco era uma ninfa da montanha, que adorava a própria voz. E como sua voz era bela, conseguia manter uma pessoa entretida durante muito tempo.

Hera, ao desconfiar das traições de Zeus, vai em sua procura e Eco ficou com o papel de entreter a deusa, para que ele pudesse fugir. Quando Era descobre que foi enganada pela Eco, amaldiçoa a ninfa, que passa a repetir somente a última palavra de qualquer conversa, não conseguindo mais iniciar uma conversa.

 

Mas o que esses dois mitos têm a ver com autoconhecimento?

“Os mitos narram experiências que têm sido vividas repetidamente por toda história da humanidade, retratam a grande experiência interna que é o processo de individuação” (DINIZ, 2014, pg. 18)

Muitas vezes tentamos encontrar respostas para nossos questionamentos pessoais externamente, nas fontes de águas que parecem cristalinas: ficamos focados em situações, pessoas, circunstâncias, memórias e não agimos para mudar o que está nos incomodando. Não percebemos que as respostas estão no nosso reflexo, isto é, dentro de nós.

Em muitos casos também, não procuramos ajuda de profissionais que podem ajudar a sair desse estado de hipnose, que podemos identificar na TCC como a distorção cognitiva de Atenção Seletiva, onde permanecemos no que está disfuncional. E acabamos por morrer simbolicamente nesta situação, isto é, gastamos nossa energia psíquica e emocional em algo que aparentemente está fora, mas que é interno, através da crença “eu consigo sozinho”, por exemplo.

E, olhando para o reflexo no lago, repetimos nossos padrões de comportamento, como um eco, que começam a surgir desde a infância e vão ecoando ao longo de nossas vidas, sendo repetidos em diversas situações e momentos diferentes. Passamos a ter os mesmos resultados, mas ficamos tão fixos no externo ou no problema, que não reparamos que repetirmos as mesmas atitudes e mantemos os pensamentos, não ressignificando as nossas experiências internas e externas.

E como podemos trabalhar a ampliação desse olhar?

Em TCC podemos identificar os pontos fortes, os pontos a melhorar, desenvolver habilidades interpessoais, identificar crenças e padrões de funcionamento, dentre outras coisas, para ampliar o repertório diante do dia a dia e da vida.

E quando estamos tão fixados em nossos lagos e nossos ecos, que não conseguimos nos perceber? Podemos trabalhar a Arteterapia.

“Os símbolos são parte do processo de autoconhecimento e transformação, vão aonde as palavras não pisam, alcançam dimensões que o conhecimento racional não pode atingir. Conectam a essência de cada ser [...], apontando o rumo que a energia psíquica segue”. (DINIZ, 2014, pg. 13)

Com atividades lúdicas, é possível trabalhar a percepção que a pessoa tem de si mesma, no processo de dar-se conta do seu funcionamento, ampliando o repertório pessoal e o fortalecimento de si, para posteriormente flexibilizar e ressignificar suas escolhas, pensamentos, comportamento, resultando em uma maior inteligência emocional e qualidade de vida.



Como exemplo de atividades que podemos trabalhar essa autopercepção são o acróstico e a mancha do nome, onde, de forma intuitiva e projetiva, é feito um autorretrato simbólico da pessoa.

Para não expor os pacientes, apresentarei o trabalho inicial com o meu nome, em vivências arteterapêuticas pessoais, e os conteúdos simbólicos foram feitos em atendimento por pacientes.

O primeiro acróstico foi feito através da escrita, de forma intuitiva, o segundo como colagem, através de palavras encontradas em revistas. As palavras das revistas foram recortadas conforme iam chamando a atenção do olhar, acreditando assim, na sincronicidade da vida.            

 A segunda atividade, a Mancha do Nome, foi realizada em um grupo de meninas, que possuem algum comprometimento cognitivo, direcionado por mim e pela psicóloga e arteterapeuta Sheila Leite. Aqui, não entrarei em detalhes sobre as questões das pacientes, mas apresentarei o resultado simbólico da atividade.





Dobramos um papel ao meio, escrevemos o nome e recortamos seguindo o contorno da escrita, sem recortar a parte inferior. Em seguida abrimos, e cada uma percebe a imagem que apareceu, de forma inconsciente e significativa.

Nos trabalhos apresentados foram, respectivamente, uma dualidade de emoções, uma porta e uma cabeça cheia de pensamentos. Cada uma pode expressar de uma outra forma, conteúdos que as palavras não davam conta.

Nas duas técnicas apresentadas acima, é possível perceber que o olhar fixo para o lago e a repetição de comportamentos. No acróstico, por exemplo, as pessoas extrovertidas (no sentido junguiano) costumam olhar no entorno procurando palavras para completar sua atividade. Não é raro escutar: “Não consigo encontrar nada”, e assim, peço para respirar e buscar dentro de si. São também pessoas que buscam se encaixar no perfil do outro, ecoando essas buscas em várias áreas de sua vida.

Na mancha do nome, peço para que digam o que a imagem representa para si, o que significa, o que encontra. Também não é raro o significado ser o que a pessoa pensa sobre si mas não se dá conta, ou algum comportamento que se repete. Por exemplo, a imagem da porta foi representada por uma pessoa que fica dentro do seu quarto, não olha para si, e lamenta que outras pessoas não a deixam fazer nada, revelando um olhar para fora, uma espera do outro, que precisa começar com ela mesma. Através desse espelhamento, a paciente pôde se ressignificar ao dar-se conta de sua própria imagem.

 

Bibliografia:

DINIZ, Ligia. Mitos e arquétipos na arteterapia: rituais para alcançar o inconsciente. Rio de Janeiro: Wak editora, 2ª edição, 2014.

LELOUP, Jean-Yves. Uma arte de cuidar: estilo alexandrino. Petrópolis: Editora Vozes, 4ª edição, 2021.

Mito de Narciso. Disponível em: http://www.fafich.ufmg.br/~labfil/mito_filosofia_arquivos/narciso.pdf Acesso em: 14/03/2023.

VASQUES, Marciano. O voo de Pégaso e outros mitos gregos. São Paulo: editora Volta e Meia, 2ª edição, 2015.

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Sobre a autora: Juliana Mello

Psicóloga, Arteterapeuta e Coach

Atendimento clínico  individual e grupo om criança, adolescente, adulto e idoso.
Abordagem em Terapia Cognitivo- Comportamental e Arteterapia

Palestras e Workshop motivacionais.

segunda-feira, 20 de março de 2023

DA PSICOLOGIA ANALÍTICA À ARTETERAPIA: INTROVERSÃO E EXTROVERSÃO

 


Imagem: Renê Magritte

Por Eliana Moraes – MG

naopalavra@gmail.com

Ao longo de 2022 o ciclo de palestras promovido pelo Não Palavra em parceria com o Espaço Crisântemo se consolidou como um grupo de estudos que, apesar de um formato aberto, se tornou um grupo consistente e coeso quanto aos participantes e um fluxo de estudos com seu fio condutor. Um dos aspectos estudados nesse período foi o desenvolvimento da escuta arteterapêutica frente aos acontecimentos históricos presentes e suas especificidades. Percebemos que ainda estamos construindo literaturas próprias ao contexto atual, sendo assim, um tempo para resgatarmos embasamentos teóricos tradicionais e atualizarmos nossa leitura para o que temos de específico na atualidade.

Gosto de tomar como inspiração a fala de Edza Pound que defende que os artistas são “antenas da raça” ao captarem os movimentos humanos e os constelarem em expressões artísticas acessíveis ao seu tempo. Entendo que nós arteterapeutas somos participantes desse dom, ao nos apropriarmos, cada  vez, mais de nossa sensibilidade artística, enquanto nos oferecemos em atenção e cuidado, como terapeutas,  aos seres humanos inseridos nesse movimento coletivo.

Neste contexto, um dos estudos desenvolvidos em nosso ciclo de palestras foi pensar os caminhos do fenômeno pandemia e a escuta terapêutica a partir de algumas teorias psicológicas, dentre elas a Psicologia Analítica. Os parceiros que acompanham o desenvolvimento do meu trabalho sabem que tenho por estilo transitar entre as variadas teorias, por entender que cada uma delas ilumina algum aspecto específico da complexidade humana.

Considerando-me não uma expert, mas uma estudiosa continuada da teoria junguiana, entendo que conceitos da psicologia analítica se fizeram bastante instrumentalizadores da escuta e atuação terapêutica em 2022 - compreendendo também que esse estudo se aplica em tantos outros contextos. No texto de hoje trago uma síntese desse estudo compartilhado em uma palestra de 2022, porém que nos servirá de base em outros cenários clínicos e históricos.


Observações históricas e coletivas

Tomamos como ponto de partida o texto de James Hillman, de 2010, chamado “Intoxicação Hermética”, através do qual, o autor defende que:

Segundo a perspectiva da psicologia arquetípica, o fascínio com a troca entre os povos em toda parte, a hipercomunicação do globalismo, a ênfase no comércio e finanças, a instantaneidade oferecida pelos aparelhos eletrônicos, a compulsão de viajar – tudo isso indica o cosmos mítico de Hermes-Mercúrio, o deus veloz de asas nos pés, capacete de invisibilidade e pensamentos alados.

O globalismo parece uma overdose de Hermes, assim como a Era da Razão sofria de uma overdose de luz solar apolínea e um excesso da racionalidade normalizadora de Minerva...

Com a virada do século, um monoteísmo de Hermes nos aprisiona a todos...

A hipertrofia de Hermes preenche nossos dias com ansiedade apressada, temendo ficar para trás. Parece que nunca somos capazes de estarmos atualizados – o tempo é tão fugidio, a vida é tão rápida. Não podemos estar onde estamos e em vez disso vivemos em um futuro, nossas cabeças inclinadas para frente, nossos pés tentando calçar as sandálias aéreas do deus. Então vivemos nossas agendas, não nossos dias – nossos compromissos, não nossos ritmos. (HILLMAN, 2010)

O cenário descrito por Hillman como “hipertrofia de Hermes”, de agendas hiperativas  que, de alguma forma, nos aprisionava a todos, ajuda a compreender como era nosso cotidiano antes da pandemia. Até que a partir deste fenômeno, fomos impelidos a um LIMITE em nossas atividades, relações interpessoais e do repertório constituinte do nosso cotidiano.

Lembro de um pequeno texto que escrevi para as redes sociais do Não Palavra que sintetizava minhas percepções clínicas para aquele início de 2020:

A PSICOTERAPIA EM TEMPOS DE CONFINAMENTO

A orientação que recebemos e acatamos quanto ao isolamento social e confinamento tem promovido um desdobramento na dinâmica psicoterapêutica ao qual venho pensando. O empobrecimento do repertório e esvaziamento das dinâmicas exteriores faz com que o paciente tenha menos demanda terapêutica quanto às experiências extrovertidas. Consequentemente ocorre um maior investimento de energia psíquica “para dentro”, um movimento de introversão.  

Na escuta clínica isso aparece quando o paciente começa a acessar memórias antigas, sentimentos guardados há muito, questões existenciais e espirituais, aumento de relato de sonhos, diálogos com a própria sombra... Conhecedores deste fenômeno precisamos nós terapeutas nos instrumentalizar para esta escuta e manejo...

A início do fenômeno pandemia nos impeliu a um movimento de introversão, que naturalmente constelou-se na dinâmica dos processos terapêuticos.  Em um cenário com tantos limites e interditos exteriores, abriu-se um momento de grande potencial para caminho de autoconhecimento.


Conceitos Junguianos e a escuta clínica: Introversão e Extroversão

Retomamos então os conceitos de Introversão e Extroversão:

Jung acreditava que a introversão e a extroversão estão presentes em todos nós, mas que um tipo atitudinal é invariavelmente dominante. (SHARP, 1991, 63)

Qualquer atitude que existe na mente consciente, ou qualquer que seja a função psicológica dominante, o oposto está no inconsciente... (SHARP, 1991, 116)

 

Ou seja, a extroversão e a introversão são atitudes constitucionais. Em cada atitude há um interesse, que significa uma presença consciente, para onde se encontra o centro da atenção e investimento de energia psíquica. O interesse básico do extrovertido está sobre o objeto (entendido como um objeto externo, de forma ampla). Já o interesse básico do introvertido encontra-se no próprio sujeito.

Compreendido que existe a tipologia própria do sujeito, sabemos que ao longo de cada jornada de individuação, os eventos psíquicos (externos e internos) podem promover um reinvestimento de libido, também contrário da tipologia original.

Eis então a questão estudada pelo grupo: como os caminhos da pandemia afetaram o investimento de energia psíquica “para dentro” e “para fora” de cada sujeito? Partimos do estudo das tipologias e levantamos hipóteses sobre os caminhos possíveis.

Em seu Léxico Junguiano, Daryl Sharp define a Extroversão como um:

Modo de orientação psicológica no qual o movimento de energia é na direção do mundo exterior.

             A extroversão caracteriza-se pelo interesse pelo objeto externo, pela              responsabilidade e pela pronta aceitação dos acontecimentos externos,  pelo     desejo de influenciar e ser influenciado pelos acontecimentos, pela    necessidade de aderir e de ‘estar com’, pela capacidade de suportar o alvoroço e todo tipo de       barulho e considerá-los até agradáveis, pela   constante atenção dada ao mundo         circundante, pelo cultivo de amigos e          de relações nem sempre escolhidos com               cuidado, e finalmente, pela              grande importância atribuída à imagem com que nos mostramos. [JUNG]...

Embora todos sejam afetados pelos dados objetivos, os pensamentos do extrovertido, suas decisões e seu comportamento são por ele determinados. Os pontos de vista pessoais e a vida interior vêm em segundo lugar em relação às condições externas. (SHARP, 1991, 62-64) 

Aqui reside o aspecto sombrio característico da tipologia extrovertida:

Vive para os outros e pelos outros; tudo que seja íntimo lhe dá calafrios. Aí se ocultam os perigos, sendo mais convenientes que  sejam abafados              pelo barulho.     Se por acaso tiver um “complexo”, encontrará refúgio         social    e várias vezes por dia tratará     de assegurar-se que tudo está em ordem. [JUNG]...

A tendência do extrovertido de sacrificar a realidade interior às circunstâncias externas não será problema enquanto a extroversão não for muito extrema; mas, na medida em que se torna necessário compensar a inclinação à unilateralidade, surgirá uma tendência marcadamente autocentrada no inconsciente. Todas aquelas necessidades ou desejos que foram sufocados ou reprimidos pela atitude consciente voltam pela porta do fundo, sob forma de pensamentos e emoções infantis, que têm como centro a própria pessoa. (SHARP, 1991, 64-65)

Partindo do conceito teórico de Extroversão, podemos levantar as questões:

- Como viviam os extrovertidos antes da pandemia? Estariam em uma possível zona de conforto?

- Como se sentiram os extrovertidos durante a pandemia? Além da angústia coletiva, quais conteúdos singulares emergiram nas dinâmicas terapêuticas neste período? A prática mostrou-nos um desafiador caminho de introversão, alguns deles apresentando possíveis sintomas depressivos. Observamos o resgate de memórias antigas, sentimentos negligenciados, aspectos sombrios vindo à luz, o contato com questões existenciais e espirituais dentre outros.

- Como se sentiram os extrovertidos com o processo de retorno à extroversão? A teoria junguiana nos alerta sobre o caminho de compensação entre os opostos (abordado mais a frente), fazendo-nos sinalizar o ponto de atenção ao qual, na falta de autoconhecimento e elaboração do movimento de energia psíquica, haja um potencial movimento compensatório desenfreado de movimento “para fora”.

Quanto à tipologia Introvertida, Sharp define como:

Modo de orientação psicológica, no qual o movimento de energia é em direção ao mundo interior.

Todo aquele cuja atitude é introvertida pensa, sente e age de modo a demonstrar              claramente que o sujeito é o fator primário da motivação, e que o objeto é de importância secundária. [JUNG]

Uma consciência introvertida pode muito bem estar ciente das condições externas, mas não é motivada por elas. O introvertido extremo responde primariamente às impressões internas.  (SHARP, 1991, 99-100)

Esta renúncia para dentro de si mesmo não é uma       renúncia definitiva ao mundo, mas uma              procura                de quietude, pois somente nela lhe é possível fazer          sua contribuição à vida da comunidade. [JUNG]” (SHARP, 1991, 101)

Aqui me lembro dos versos de Mario Quintana ao descrever-se: “Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?” Eis um introvertido que se acolhe!

Entretanto, o aspecto sombrio da tipologia introvertida se encontra em sua resistência ao relacionar-se com a vida externa:

Em uma grande assembleia, sente-se perdido e solitário. Quanto maior a          multidão, maior se torna sua resistência. Não está de modo algum “com ela” e não tem nenhum prazer no ajuntamento entusiástico. Não se mistura bem. Tudo o que faz, o faz a seu modo, pondo barricadas contra a influência de fora... Sob   condições normais, é pessimista e preocupado, porque o mundo e os seres humanos não são nem um pouco bondosos, e sim o esmagam...

Seu mundo particular é um porto seguro, um jardim cuidadosamente protegido e              cercado, fechado ao público e aos olhares curiosos. Nada melhor do que sua      própria companhia. [JUNG]

A atitude introvertida tende a desvalorizar as coisas e as outras pessoas, negando sua importância. Daí, por via de compensação, a introversão extrema leva a um reforço inconsciente da influência do objeto. Esta se faz sentir como uma amarra, com as concomitantes reações emocionais em relação às circunstâncias externas e às outras pessoas… (SHARP, 1991, 99-101)

Partindo do conceito teórico de Introversão, podemos levantar as questões:

- Como viviam os introvertidos antes da pandemia? Qual ou quais era(m) seu(s) desconforto(s)?

- Como se sentiram os introvertidos durante a pandemia?

Observamos na clínica que pacientes introvertidos sentiram-se autorizados e legitimados em seu desejo de introversão, permanecendo em alguma zona de conforto quanto ao isolamento e redução de repertório externo.

- Como se sentiram os introvertidos com o processo de retorno à extroversão?

A escuta terapêutica mostrou-nos um processo bastante desafiador aos intrvertidos, causando-lhes angústias, sintomas de ansiedade e sintomas psicossomáticos bem como sinais de evitação social, por vezes atingindo o estágio de fobia social. Este cenário é muito bem descrito por Jung, quando traduz o esforço do introvertido para o exterior:

Estes esforços veem-se constantemente frustrados pelas impressões avassaladoras recebidas do objeto; este continuamente impõe-se a ele contra sua vontade, fazendo surgir nele os mais desagradáveis e intratáveis afetos, perseguindo-o a cada passo. Uma tremenda luta interior se faz necessária a cada passo para “continuar em frente”. (JUNG in SHARP, 1991, 101)

 

Conceitos Junguiandos e a escuta clínica: os opostos e outros conceitos

Um dos pilares que embasam a Psicologia Analítica está na tensão dos opostos entre luz e sombra, consciente e inconsciente. Na definição de Daryl Sharp:

Qualquer atitude que existe na mente consciente, ou qualquer que seja a função psicológica dominante, o oposto está no inconsciente...

O conteúdo reprimido deve tornar-se consciente, de modo que produza          uma      tensão de opostos, sem a qual nenhum movimento ulterior será          possível. A           mente consciente está no topo, a sombra, abaixo; é assim    como o alto        sempre anseia pelo baixo, e o calor pelo frio, do mesmo     modo, toda consciência, talvez sem estar disto ciente, busca seu oposto          inconsciente, sem o qual está condenada à estagnação, congestão e ossificação. A vida        nasce apenas da fricção dos opostos. [JUNG]

Isto, por sua vez ativa o processo de compensação...

Um certo grau de tensão entre a consciência e o inconsciente é inevitável e necessário. Por isso, a finalidade da análise não é eliminar a tensão, mas compreender o papel que ela desempenha na autorregulação da psique. Além disso, a assimilação de conteúdos inconscientes faz com que o ego se torne responsável por aquilo que estava previamente inconsciente. (SHARP, 1991, 116)

Nestas citações surgem outros dois conceitos estruturais da teoria junguiana: a compensação e a autorregulação, aos quais também nos cabe compreender a definição:

Compensação: um processo natural para estabelecer ou manter o equilíbrio dentro da psique.

          ... Os conteúdos que são excluídos e inibidos pela direção             escolhida mergulham    no inconsciente, onde formam um           contrapeso à orientação consciente... [JUNG]

Na neurose, em que a consciência é unilateral ao extremo, a meta da  terapia analítica é a realização e a assimilação de conteúdos inconscientes, de modo que a compensação possa ser restabelecida. (SHARP, 1991, 36-37)

 

Autorregulação da psique: conceito baseado no relacionamento compensatório que existe entre o consciente e o inconsciente... O processo de autorregulação está continuamente atuando dentro da psique. E só se torna perceptível quando a consciência do ego tem uma dificuldade específica em adaptar-se à realidade interior ou exterior. (SHARP, 1991, 33)

Estudamos aqui a dinâmica dos opostos de forma ampla, aplicada nos variados aspectos contidos no psiquismo. Neste texto, aplicamos o estudo desta dinâmica no eixo extroversão-introversão. E assim chegamos a mais um conceito junguiano norteador do processo terapêutico, a adaptação:

Processo através do qual, por um lado, chegamos a um acordo com o mundo exterior, e por outro, com nossas próprias características psicológicas...

Em seu modelo de tipologia, Jung descreveu dois modos de adaptação substancialmente diferentes: introversão e extroversão. Jung também ligou os fracassos na adaptação ao surgimento da neurose.

A perturbação psicológica da neurose e a        própria neurose podem ser        definidas              como um ato de              adaptação que fracassou. [JUNG] (SHARP, 1991, 13-14)

 

Através desse estudo, podemos articular sobre os caminhos de formações de neuroses individuais de sujeitos que vivenciaram os anos pandêmicos e possíveis atuações terapêuticas sobre eles. Porém esta não é uma dinâmica apenas individual, mas age também no coletivo.

Para além dos opostos introversão-extroversão, sabidamente hoje vivemos em uma época em que está intaurado do fenômeno da polarização em diversos aspectos. E aqui a Psicologia Analítica também embasa e dá sentido ao nosso ofício, quando defende que trabalhar com os opostos na esfera individual se faz uma grande contribuição à esfera coletiva:

Jung acreditava, além disso, que todo aquele que tenta resolver o problema dos opostos no nível pessoal, está fazendo uma significativa contribuição para a paz no mundo.

A regra psicológica diz que       quando uma situação   interior não se torna      consciente, ela acontece          fora, como destino. Isso equivale a          dizer que quando o indivíduo              permanece indiviso e não se torna           consciente de seus          opostos íntimos, o mundo deve à força atuar o conflito, e dilacerar-se em metades opostas. [JUNG] (SHARP, 1991, 116)

 

Da Psicologia Analítica à Arteterapia

A partir do estudo dessa teoria que tanto nos embasa como arteterapeutas, é necessário pensarmos na contribuição arteterapêutica em suas especificidades. Neste sentido compartilho com o leitor um esquema de minha autoria, criado grupo de estudos, ao qual venho trabalhando nos últimos anos.

Neste esquema é ilustrado os os movimentos de introversão e extroversão de forma adaptada e também em seus aspectos sombrios. Mas ilustra o potencial da arte em proporcionar um movimento de autorregulação: quando extrovertido, ao criar, o sujeito é convidado a olhar para si, seu processo criativo e formações de imagens pessoais; quando introvertido, ao criar, o sujeito é convidado à dar forma, dar visitibilidade e externar seus conteúdos internos.



Esquema: autoria de Eliana Moraes

Meu desejo é que cada vez mais nós arteterapeutas possamos buscar os diversos embasamentos teóricos que podem nos orientar, mas nos apropriando daquilo que nos é específico. E assim, possamos acolher os sujeitos que procuram a Arteterapia propriamente dita, para seus movimentos de autorregulação.

 

 

Referências Bibliográficas:

HILMAN, James. Intoxicação Hermética. 2010

SHARP, Daryl. Léxico Junguiano.

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga
Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Cursando MBA em Logoterapia e Desenvolvimento Humano
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Faz parte do corpo docente de pós-graduações em Arteterapia: Instituto FACES - SP, CEFAS - Campinas, INSTED - Mato Grosso do Sul. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"