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segunda-feira, 15 de novembro de 2021

O USO DA LINHA NAS PRÁTICAS DA ARTETERAPIA

 


Por Eliana Moraes - MG

naopalavra@gmail.com 

No processo de formação da minha identidade profissional como arteterapeuta, entendi que era necessário me aprofundar nos estudos sobre as teorias da arte, dentre elas a História da Arte, as teorias da criação e os elementos visuais. Sem dúvida, há um vasto universo teórico no campo da arte, mas como terapeuta, minha (lenta e cuidadosa) pesquisa e estudo continuado estão norteados pelas aplicabilidades destas teorias na realidade, proposta e práticas da Arteterapia. 

Ao longo deste caminho, percebi que os elementos visuais fazem parte dos estudos do arteterapeuta, para que possamos conhecê-los e nos instrumentalizarmos de suas propriedades, para seu manejo consciente. Nas palavras de Fayga Ostrower:

 

Há um dado deveras interessante! Se fôssemos perguntar de quantos vocábulos se constitui a linguagem visual, de quantos elementos expressivos, a resposta seria: de cinco. São cinco apenas: a linha, a superfície, o volume, a luz e a cor. Com tão poucos elementos, e nem sempre reunidos, formulam-se todas as obras de arte, na imensa variedade de técnicas e estilos…

 

É verdade que os significados dos elementos visuais ficam em aberto, mas deve haver alguma coisa de definível nesses elementos para que possamos reconhecer identidades expressivas diferentes. (OSTROWER, 1983, p 65) 

É importante sinalizar que neste trecho Fayga não menciona “o ponto”, outro elemento visual carregado de simbolismos. De toda forma, a noção de que os elementos visuais carregam “identidades expressivas” específicas nos chama atenção como arteterapeutas. 

Venho escrevendo sobre o elemento cor nos últimos anos, estando alguns destes textos compilados no livro “Pensando a Arteterapia Volume 2”. Mas atualmente tenho direcionado minhas leituras, reflexões e registros de aplicabilidades do elemento linha. Dentre a vasta literatura disponível sobre o tema, no campo da arte, elegi dois teóricos que já tenho uma relação de identificação: Fayga Ostrower e Wassily Kandinsky e no texto de hoje trago o percurso construído até aqui. 

A linha

Se, porém, perguntarmos: o que vem a ser uma linha?... Seria necessário perguntar: o que faz uma linha? E mais especificamente: o que faz a linha em termos de estrutura espacial?... (OSTROWER, 1983, p 65)

 

Isso nos interessa muito, porque do tipo de espaço que a linha pode caracterizar, dependem as qualificações expressivas. (OSTROWER, 67) 

A linha possui qualificações expressivas específicas, o que fica mais claro quando a comparamos com outros elementos visuais:

 

Se compararmos, por exemplo, linhas com cores, sentimos de imediato, o clima expressivo diferente. Enquanto que a linha evoca toda uma ambiência intelectual, a cor é antes de tudo sensual. (OSTROWER, 1983, p 68)

 

Acompanhando essas explicações, mostrei dois desenhos e uma pintura. Todos datam aproximadamente da mesma época. Mas com elementos visuais diferentes – linha no desenho e cores na pintura – definem diferentes modos de ser e sentir. Comparando-as entre si, podemos observar nessas obras... o quanto o sentido de refinamento torna-se mais intelectual no desenho, muito menos sensual do que na pintura. (OSTROWER, 1983, p 68)

No aprofundamento deste estudo, podemos teorizar em diálogo com a Psicologia Analítica junguiana que o elemento cor traz como função auxiliar a função sensação, através da qual é sentida sua vibração, alcançando sua função principal, o contato com os sentimentos. Por outro lado, podemos dizer que o elemento linha, por sua propriedade mais intelectual, racional, tem como função principal a função pensamento.

Já em comparação com o elemento ponto:

 

A linha... É o rasto do ponto em movimento, logo seu produto. Ela nasceu do movimento – e isso pela aniquilação da imobilidade suprema do ponto. Produz-se aqui o salto do estático para o dinâmico... (KANDINSKY,2016, p 49)

 

Essas linhas são totalmente estranhas ao ponto fixado no plano, nada mais tendo da calma inicial do ponto. (KANDINSKY, 2016, p 54) 

Para Kandinsky, este é o ponto zero. Na linguagem, o lugar do silêncio. É caracterizado por ser estático, imóvel. É também introvertido. Porém, o ponto também é o lugar do impulso. Extremamente fecundo, é cheio de possibilidades. Afinal, como nos diz o autor “Tudo começa num ponto.” 

Ao nascer a linha, algumas propriedades expressivas específicas são destacadas. 

Movimento 

Mas existe outra força, que nasce não no ponto mas fora dele. Essa força se precipita sobre o ponto preso no plano, arranca-o daí e empurra-o para uma direção qualquer.

 

Assim, a tensão concêntrica do ponto vê-se destruída e o ponto desaparece, dele resultando um novo ser, dotado de uma vida autônoma e submetido a outras leis.

 

É a linha. (KANDINSKY, 2016, p 45)

 

[A linha] ... nasceu do movimento... Produz-se aqui o salto do estático para o dinâmico... A “tensão” é a força viva do elemento. Ela constitui apenas uma parte do “movimento” ativo. A outra parte é a “direção”, também ela definida pelo “movimento”.  (KANDINSKY, 2016, p  49-50)

 

No caso da linha: ela vai configurar um espaço linear, de uma dimensão. Através dela apreendemos um espaço direcional... Essas linhas funcionam como setas, dirigindo nossa atenção e dizendo: siga nesta direção ou siga naquela. (OSTROWER, 1983, 66) 

O que compreendemos através destes trechos é que a linha nasce de uma tensão que a torna viva e desta forma aciona uma força que a coloca em movimento. Este movimento admite uma direção, como uma seta que gera e direciona possíveis caminhos. Estes caminhos registrados pelo elemento linha podem se tornar subsídios para riquíssimos experimentos arteterapêuticos. 

Tempo, Ritmo 

Como uma das principais propriedades da linha está no movimento, consequentemente, a dimensão temporal torna-se parte do campo:

 

... em todos os casos em que aparece a linha, configura-se o espaço de uma só dimensão. A essa dimensão única é acoplado o tempo, pois qualquer elaboração formal que façamos com a linha terá, necessariamente, caráter rítmico. Introduzindo-se pausas e modulando-se as velocidades das linhas, modula-se o fluir do tempo. (OSTROWER, 1983, p 67)

 

O elemento tempo é, em geral, mais perceptível na linha do que no ponto – o comprimento corresponde a uma noção de duração. Em compensação, seguir uma linha reta ou uma linha curva requer uma duração diferente, mesmo que o comprimento das duas seja semelhante, e, quanto mais uma linha curva é movimentada, mais se alonga em duração. A linha oferece, pois, quanto ao tempo, uma grande diversidade de expressão... Talvez se trate, na verdade, de comprimentos diferentes, o que poderia se explicar psicologicamente. O elemento tempo não deve, pois, ser subestimado numa composição linear... (KANDINSKY, 2016, p 86)

 

Aqui se apresenta o eixo tempo e espaço. E a linha colabora para o registro do tempo no espaço. Em seus escritos, Kandinsky frequentemente busca o diálogo entre as linguagens da arte, e aqui nos presenteia com o diálogo entre o desenho e a dança:

 

 Na dança todo o corpo e, na dança contemporânea, cada dedo desenham linhas de expressões precisas... Todo o corpo do dançarino, até a ponta dos dedos, constitui em todo instante uma composição linear ininterrupta... (KANDINSKY, 1983, p 88) 

Podemos nos inspirar neste diálogo entre a dança e o desenho em momentos dentro do setting arteterapêutico em que o terapeuta entenda ser interessante trazer para a imagem o ritmo e movimento do corpo do paciente. É possível propor que ele faça contato com seu ritmo corporal, que deixe este ritmo se apossar do seu corpo e deixe que seu braço conduza o movimento do lápis, registrando-o em uma folha de papel. Este registro do movimento corporal pode servir de valiosas elaborações e processos de autopercepções. 

Podemos ainda nos inspirar no que diz Fayga Ostrower: “Existem possibilidades de se modular o movimento da linha.” (OSTROWER, 1983, p 66). Assim, é possível intencionalmente promover o contato com determinado movimento em específico, como por exemplo, a partir de um estímulo musical (ritmo, movimento, vibração) ou acesso a sentimentos e memórias afetivas, e a partir do ritmo corporal por eles gerados, permitir que a linha registre este movimento tornando-o visível. 

Gera forma 

Outra das grandes propriedades da linha, nas palavras de Kandinsky: “Estamos tratando aqui de uma das características específicas da linha – seu poder de criar superfícies.” (KANDINSKY, 1983, p 53), o que chamamos também de formas. 

Como exemplo, em Arteterapia, temos em nosso repertório cotidiano o desenho cego ou desenho espontâneo, que André Masson, artista surrealista chamava de desenho automático. Esta é uma prática a qual através de um emaranhado de linhas espontâneas, propõe-se a busca de imagens, formas, superfícies. 

Esta é uma prática através da qual trabalhamos o fenômeno da projeção, pois o olhar do espectador fatalmente encontrará símbolos que o pertencem: vale destacar, símbolos espontâneos, não escolhidos, não planejados, não racionalizados, consequentemente advindos de conteúdos inconscientes riquíssimos para a leitura e escuta simbólica dentro do setting arteterapêutico. 

Limites 



Mas sem dúvida, em minha experiência clínica a propriedade da linha mais atualizada dentro de um setting terapêutico se dá ao encontro de demandas terapêuticas sobre os limites, sejam eles entre o sujeito e o outro ou os limites internos de cada indivíduo. É possível utilizá-las como metáfora no diálogo terapêutico, mas também como experimentos criativos e produção de imagens, a partir do repertório do arteterapeuta. 

As queixas terapêuticas recorrentes giram em torno de invasões, transbordamentos, excessos, dificuldade de dizer não e impor limites (a si e ao outro), dificuldade de delimitar o que pertence a um e ao outro. Neste contexto, como palavras chave para o elemento linha, podemos destacar: limites, contornos, bordas, fronteiras. Delinear, circunscrever, separar, discriminar (um e outro).  

Para compreensão da analogia, podemos trabalhar com nossos pacientes que a linha simboliza seus contornos, suas bordas, aquilo que faz o limite entre um elemento e outro, entre o que está dentro e o que está fora. É análogo à nossa pele: ela nos protege para que o que está dentro não vaze para fora e o que está fora não penetre no que está dentro.  A linha muitas vezes é protetora de invasões, nos resguarda e preserva também de transbordamentos e exposições de nossos conteúdos. Na tradução para a imagem, utilizando lápis de cor ou tintas, o experienciador poderá trabalhar o preenchimento de espaços gerados pelas linhas, respeitando os limites por ele mesmo gerado. 

Em síntese, através de experimentos com a linha podemos trabalhar a compreensão de que o limite é estruturante e também um ato de amor, ao outro e a si mesmo.

 

O estudo sobre os elementos visuais seguem seu curso. Ainda inspirada em Fayga:

 

Deveríamos poder chegar diante de um quadro e, ao olhá-lo, apreender de pronto – assim como se distinguem as palavras ouvidas numa frase – quais os principais elementos que foram elaborados pelo artista. (OSTROWER, 1983, p 69) 

Que possamos desenvolver nossa escuta terapêutica, nas linguagens da palavra ou da imagem, na arte e na Arteterapia, nas imagens já expressadas ou naquelas que buscam expressão.

 

Bibliografia:

KANDINSKY, WASSILY. “Ponto e linha sobre plano”. Editora WMF Martins Fontes, SP. 2012.

OSTROWER, FAYGA. “Universo da Arte”. Editora Campus, 1983.

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Sobre a autora: Eliana Moraes


Arteterapeuta e Psicóloga.


Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Dá aula em cursos de formação em Arteterapia em SP e MS. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 3 de abril de 2023

LINHAS E ORIGAMI: PONTOS DE ENCONTROS



Por Isabel Pires - RJ

bel.antigin@gmail.com 

Na minha prática clínica e pesquisa pessoal sobre o uso do origami em Arteterapia, busco, na bibliografia e na minha observação, os fundamentos que podem levar à escolha da dobradura de papel no setting arteterapêutico.

Uma das peculiaridades da Arteterapia é justamente o uso de materiais diversos e o estudo da linguagem e dos possíveis efeitos desses materiais nos pacientes/clientes, ou seja, a linguagem subjetiva que cada um possui. Assim, o arteterapeuta questiona-se sobre o material mais adequado para o paciente/cliente naquele determinado momento da terapia, isto é, qual material vai facilitar a sua expressão, observação e/ou mudança naquela etapa terapêutica. Por isso, é preciso um amplo conhecimento da materialidade e experimentar uma gama variada de possíveis materiais e técnicas em seu trabalho pessoal e no setting arteterapêutico. Dentro desta perspectiva, tenho me permitido usar o origami na minha prática clínica e procuro daí extrair-lhe os usos, propriedades e indicações, embora quase sem apoio de uma literatura a esse respeito. Esse texto faz parte das minhas reflexões, ainda em processo, a partir do uso do origami na clínica arteterapêutica, na busca por construir um arcabouço teórico que aborde hipóteses sobre os benefícios terapêuticos do origami e que, também, valide a técnica da dobradura de papel – em si, uma arte - na Arteterapia.

Em meio a essa busca, percebo que a costura e o bordado apresentam semelhanças com o origami. Em primeiro lugar, o aspecto ancestral do origami, tão antigo quanto o papel. Nos seus primórdios, o papel era quase um tecido, feito de fibras vegetais, e os membros de uma mesma família se reuniam para a sua fabricação. Foi neste tipo de suporte que os primeiros trabalhos de origami surgiram, com um cunho simbólico e espiritual. Assim, as primeiras dobraduras aparecem permeadas de carga afetiva, dentro do seio familiar e religioso.

Em segundo lugar, no bordado, na costura e no origami, existem regras e etapas a serem seguidas, ou seja, todos são processos estruturados. E, assim como o bordar e o costurar, o origami também exige um percurso gradual, que vai de um trabalho inicial de dobraduras mais simples até às mais complexas, com resultados de incrível beleza e surpreendente realismo. 

Pensando em mais características em comum entre as técnicas de costura e bordado e a da dobradura de papel, relembro que, no meu texto anterior (“A arte da dobradura de papel: origami e Arteterapia”), cito a meditação, a meticulosidade, além do desenvolvimento da capacidade de concentração e de atenção. De fato, o origami exige atenção plena e cuidado, a cada etapa do processo, sob o risco de se ter que recomeçar a dobradura com outro papel, como, às vezes, também acontece com o bordado.

Analogamente, segundo Philippini (2009):

(...) ao costurarmos e bordarmos, nos colocamos na contramão das ‘correrias” urbanas (grifo da autora). Pois, costurar e bordar nos ajuda a desacelerar, e creio que são atividades que podem ser consideradas compatíveis com as práticas de meditação em movimento” (PHILIPPINI, 2009, p. 65, grifo meu).

Além disso, a autora continua: “As atividades de linha e agulha são extremamente úteis no processo arteterapêutico. Ensinam sobre a necessidade de cuidado, gradualidade, minúcia, atenção e concentração” (PHILIPPINI, 2009, P. 64, grifos meus). Dirá você, leitor: “Mas ela está falando de costura e bordado!” E respondo: “Sim, mas poderia, também, estar falando do origami”.

Nos livros que li sobre os materiais e suas propriedades, pude perceber o quanto é possível associar o origami com o trabalho com as linhas. Da mesma forma que a costura e o bordado representam linhas que ganham volume, no origami, as dobras/vincos atuam como linhas no suporte de papel. Aliás, um verbo que faz parte da arte de dobrar papel é alinhar. Dentre as muitas propriedades e indicações do uso do origami, escolhi, no meu texto de hoje, me debruçar sobre essa característica.

Partindo da metáfora da linha, a ideia de limites também permeia o trabalho com origami. Na arte da dobradura de papel, as linhas (vincos) são importantíssimas para as etapas que se seguirão, marcando o caminho de futuras dobras ou mostrando limites de uma dobra seguinte. Assim, nenhum vinco é em vão: serve para mostrar até onde se deverá dobrar ou como referência para a dobra que deverá ser (re)feita numa etapa seguinte. Por isso, podemos pensar que são como limites que apontam caminhos e definem movimentos. Pensando em limites e definições de contorno, Moraes (2021) nos diz:

As queixas terapêuticas recorrentes giram em torno de invasões, transbordamentos, excessos, dificuldade de dizer não e impor limites (a si e ao outro), dificuldade de delimitar o que pertence a um e ao outro. Neste contexto, como palavras chave para o elemento linha, podemos destacar: limites, contornos, bordas, fronteiras. Delinear, circunscrever, separar, discriminar (um e outro).  

Para compreensão da analogia, podemos trabalhar com nossos pacientes que a linha simboliza seus contornos, suas bordas, aquilo que faz o limite entre um elemento e outro, entre o que está dentro e o que está fora. (...) A linha muitas vezes é protetora de invasões, nos resguarda e preserva também de transbordamentos e exposições de nossos conteúdos. (...)

Em síntese, através de experimentos com a linha podemos trabalhar a compreensão de que o limite é estruturante e também um ato de amor, ao outro e a si mesmo (MORAES, 2021).

Em origami, quando não respeitados os limites, a dobradura fica torta ou malfeita e, na peça, indicam desleixo e falta de minúcia e delicadeza. Não serão esses, elementos importantes nos relacionamentos, nos quais a falta de limites atrapalha a relação? Como já foi dito, na dobradura de papel, as dobras/linhas marcam até onde se pode ir e indicam a direção das dobras seguintes. Portanto, servem de parâmetro para as etapas que se seguem. São linhas, portanto, que demarcam fronteiras, sinalizam caminhos e facilitam o processo. Por isso, são estruturantes, ordenadoras e organizadoras, como as linhas do bordado, da costura e da vida.


Além disso, segundo Moraes (2021), uma das propriedades do elemento linha é o seu potencial para a criação de formas. No caso do origami, as dobras/linhas formam a peça final, que não seria possível sem elas. Em Arteterapia, “dar forma corresponde a organizar para compreender e transformar” (PHILIPPINI, 2013, P. 49). Na concepção junguiana, através da criação artística, aparecem símbolos, que fazem a comunicação entre a consciência e o inconsciente. Conforme Philippini (2013), essa “comunicação simbólica cria condições de estruturar, informar e transcender”. Os símbolos aparecem na fala ou na expressão artística e serão amplificados, posteriormente, em diferentes materialidades, e é nesse momento que se pode usar o origami (pretendo abordar esse tema em texto posterior). A materialização de um símbolo, emoção ou sentimento, através de uma forma, permitirá “a compreensão, a codificação e a atribuição gradual de significado pela consciência” (PHILIPPINI, 2013, P. 49). A partir daí, num estágio seguinte, surgirá a possibilidade de transformação do conteúdo acessado.

Ainda dentro da lógica da metáfora lexical, as dobras do papel também podem nos remeter às dobras da vida, aos vincos e rastros que se fazem ao longo do nosso percurso existencial, com seus momentos mais difíceis e marcantes. O vinco, por mais leve que seja, deixa marcas no papel que não poderão ser desfeitas. Analoga e metaforicamente falando, na vida, certas atitudes ou palavras não poderão ser revertidas e deixarão seus rastros e consequências, como marcas no corpo ou na alma. Mas as marcas também representam a persistência, o propósito, o objetivo, de quem seguiu em frente apesar das cicatrizes. Assim, no origami, o resultado das dobras é uma singela, delicada e bela escultura de papel. Como exemplo dessa persistência e perseverança, cito a fala de um paciente meu, após fazer um avião-caça de origami: “Pedem pra dobrar pra um lado e, quando eu vejo, minha cabeça tá mais dobrada do que a folha. (...) Mas eu amo me desafiar, e se eu não consigo ganhar de um origami, eu vou ganhar de quem nessa vida?” (paciente J.). Esse mesmo paciente me lembra de que dobrar, na vida, metaforicamente, pode significar aprender, aquiescer, ganhar humildade no processo: “O misto de sensações me leva pra um lugar de humildade. Como transformar a ira em resultados. Eu fico com tanta raiva de tentar fazer algo que eu não consigo, que eu vou fazer até conseguir. Daí começa a parte da Humildade. Humildade em reconhecer que não sou bom em tudo. Humildade de aprender coisas novas e humildade de entender que a arte não precisa de muita coisa. Uma folha de papel e uma pessoa curiosa são o suficiente pra transformar um papel em um jato caça m-16. O resultado é até legalzinho, mas o processo que realmente é incrível” (paciente J.).

            O processo. Em Arteterapia, o processo importa bastante. O ato de fazer, a maneira como é feita e as reações durante a feitura de uma criação artística falam muitas vezes mais do paciente/cliente do que o próprio objeto criado. Sinto que, no caso da dobradura de papel, isso conta muito a favor do uso do origami no setting arteterapêutico. Mas esse é tema para um próximo texto. 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

MORAES, Eliana. “O uso da linha nas práticas da Arteterapia”. nao-palavra.blogspot.com. Minas Gerais, 15 de novembro de 2021. Disponível em: https://nao-palavra.blogspot.com/search?q=linha. Acesso em: 20/03/2023.

 

PHILIPPINI. A. Linguagens e materiais expressivos em Arteterapia: uso, indicações e propriedades. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2009.

 

_____________. Para entender a Arteterapia: cartografias da coragem. 5ª ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013.

 

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SOBRE A AUTORA:



·      Arteterapeuta

·      PSICÓLOGA CLÍNICA

·      ESPECIALISTA EM PSICOLOGIA JUNGUIANA

·      PROFESSORA DE INGLÊS E FRANCÊS

·      Formada em Antiginástica ®Thérèse Bertherat

·      Formada em Jornalismo

·      Atendimentos individuais e em grupo (online/presencial)

·      Contatos:      

Whatsapp: (21) 97657-5685

E-mail: bel.antigin@gmail.com

Instagram: @isabelpires.artepsi

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

ARTETERAPIA E PSICOLOGIA: MAPEANDO OS SENTIMENTOS NA AGORAFOBIA

 

por Clarice Almeida / SP

Psicóloga e Arteterapeuta.

@ claricebdealmeida@gmail.com 

Através deste artigo trago a intenção de corroborar com os aspectos fundantes da Arteterapia (entendida aqui como ambiente facilitador de comunicação entre as esferas conscientes e inconscientes de nosso ser) em um diálogo com a Psicologia, objetivando ilustrar através de um relato de caso, os desdobramentos observados quando da experiência arteterapêutica em um processo Psicoterápico de uma mulher de 30 anos, com diagnóstico psiquiátrico de Agorafobia. Situando sobre a Arteterapia neste contexto, Almeida (2016)
nos relembra que
 

A Arteterapia comunga a intenção de abraçar a arte como recurso ou instrumento facilitador do desabrochar inconsciente, da expressão criativa do humano, mas é ela quem envolve o todo complexo do processo criativo: arte – símbolo inconsciente – expressão simbólica –

emoção oculta revelada – consciência – integração consciente/inconsciente – transformação. (2016, p.24). 

O sintoma fóbico perpassa a compreensão de que uma profunda angústia avassala aquela determinada pessoa, cujo medo se transforma em pânico e domina toda a corporeidade com intensos calafrios, suores e/ou acelerados batimentos cardíacos, acompanhados de uma forte sensação de aprisionamento, de não haver saída para a circunstância, configurando um quadro geral de profundo mal-estar físico e psíquico.

 Com F.[1] estas sensações passaram a acontecer com alguma frequência seguidas de queixas iniciais de ansiedade. O formato de sessões online configurou os encontros por muito tempo, uma vez que vivíamos o surto pandêmico de covid-19 e permaneceu assim até o início deste ano. Contudo, a proposta de retomar presencialmente foi fazendo sentido para F. e, hibridamente, ora presencial, ora online, os encontros eram permeados de depoimentos de muita angústia e sintomas fóbicos geralmente despertados quando ela precisava trabalhar presencialmente. Às vezes, mesmo para visitar sua família e vir às sessões a hesitação era grande e seu Psiquiatra sugeria o entendimento de ser um comportamento erupcionado na pandemia, uma vez que ela ficava um grande período de tempo sozinha, sem sair de casa, namorava virtualmente e seu apartamento passou a ser seu escritório de trabalho.

Porém, se tornara muito viva para mim, a hipótese de que alguma situação traumática muito anterior à pandemia pudesse ter acontecido à F. e, como já se sabe, em toda manifestação psicossomática, estaria inconsciente.

Certo dia, ela veio presencialmente à sessão. Transpirava, parecia sem fôlego, seus olhos arregalados transmitiam uma aparência de pessoa muito assustada. Ela estava vivendo naquele momento do deslocamento de sua moradia até o meu consultório, o pânico que me descrevera em outras situações. Acalmei-a e propus uma adaptação da expressão arteterapêutica desenvolvida por Moraes[2] (2021) e indicada em uma de suas palestras, chamada “Mapeando os Sentimentos”, a ser sugerida em algumas demandas, como por exemplo, ansiedade elevada.

Sugeri que F. fizesse em pé esta expressão, que entrasse em contato com as sensações de seu corpo naquele momento, imaginasse o lápis em sua mão como sendo a extensão de seu braço e através dele expressasse na cartolina com uma linha contínua, o “movimento” das sensações, emoções e sentimentos; posteriormente ao traçado do lápis, colorisse com canetas hidrocor, os distintos sentimentos suscitados, como se fosse “mapear” os sentimentos pulsantes em seu peito.

        Imagem 1 - Atividade Expressiva “Mapeando Sentimentos”.

 

Fonte: acervo da autora.

 A partir da séria e atenta observação desta imagem, F. compartilha comigo todo “o percurso” da crise. Mostra-me, acompanhando o traçado do desenho com a mão, esclarecendo sobre suas emoções e sentimentos, descrevendo que o mal estar a faz sentir-se começando a descer em queda, depois sente-se sufocada, sem saída como se tudo ficasse escuro (cor preta e roxa dentro dos círculos), dando voltas demoradas e quando sai inicia-se um movimento vagaroso de vai e vem (cor rosa) de tristeza.

Em seguida descrevo a ela os traçados, reapresentando-lhe as configurações das linhas desenhadas e lhe pergunto se a parte do meio lhe sugeria algo. Ela diz que não. Reformulo a descrição chamando sua atenção para a forma esférica contendo algo dentro, algo no interior... ela nomeia o sentimento de aprisionamento; Então, lhe pergunto se possuía alguma informação sobre seu nascimento, parto ou gestação e ela afirma não saber, mas lhe ocorre neste instante a lembrança de um acidente em que foi empurrada de surpresa para dentro de uma piscina quando tinha 12 anos e que não reagiu, não nadou para voltar à superfície, pressupondo ter permanecido assim por um tempo razoável, até ser retirada por seu pai. Descreve a experiência de sufocamento, a paralisia e a falta de reação instintiva de sobrevivência e o subsequente comportamento pós acidente de ficar mais quieta e de se manter como se nada tivesse acontecido.

Este compartilhar possibilitou a analogia de sua reação aos 12 anos como sendo muito parecida com os sintomas da agorafobia desenhados na cartolina. Observando novamente o desenho, afirma a si mesma que precisa fazer algo antes de “cair” para baixo, não deixar isso acontecer e desenha no ar um movimento de uma linha reta anterior à linha inclinada. Sai mais aliviada da sessão e consegue dirigir e chegar bem em casa.

No encontro seguinte F. me conta que, ao compartilhar com sua mãe sobre a sessão e a lembrança do acidente, esta também se recorda de um episódio no pós-parto em que F. é trazida por uma enfermeira e, ao olhar para a filha, nota que ela estava “roxinha” e sufocada. Esta informação desvelou novos caminhos em seu processo psicoterapêutico; em outro momento, solicito uma expressão gráfica livre que simbolizasse seus recentes sentimentos compartilhados comigo. 

                                     Imagem 2 – Expressão livre simbólica - autopercepção

 


                                                            Fonte – acervo da autora. 

Neste novo desenho percebe-se claramente a ressignificação de sua autoimagem, de seus recursos internos (flecha preta ascendente) despertados para lidar com o entendimento dos episódios de crise (escadas que vão diminuindo de tamanho – e não mais linha em declive), dos sentimentos (linhas amarelas descendentes) e de alternativas/estratégias (sob o domínio da consciência) para “voltar à superfície” (linha azul horizontal ondulada e bolas pequenas azuis representando as bolhas de ar dentro d’água).

   Aponto que os desdobramentos da atividade expressiva “mapeando os sentimentos”, além de ter colaborado para o acesso inconsciente das memórias de experiências traumáticas, ainda prosseguiu contribuindo em sessões posteriores nas quais F. pôde descrever seu alívio e discernimento sobre o autocuidado e a importância de acolher sua singularidade, do respeito à sua biografia, à sua corporeidade, à sua sensibilidade, culminando também em abertura para o acesso à sua religiosidade e para a manifestação de questionamentos sobre a legítima identificação com sua profissão.  

Gostaria de concluir este relato com a citação abaixo, pois me parece sintetizar as dolorosas expressões existenciais de F. e de nos remeter à simbologia da expressão gráfica de seu primeiro desenho quando se referiu à queda, além de nos incentivar à continuidade dos estudos em Arteterapia, seus efeitos curativos e suas interações com outros saberes.

           Safra (2004) nos diz:

uma das tarefas fundamentais do ser humano é alcançar o registro simbólico de suas experiências, pois o registro simbólico dá ao homem a possibilidade de colocar sob o domínio de seu gesto os aspectos paradoxais de seu ser. Sem esta possibilidade o homem vive duas agonias insuportáveis: a claustrofobia da finitude [...] e a agorafobia, que o lança para o abismo do sem fim. [...] o que estou chamando de registro simbólico não é o simples representar, mas colocar as questões fundamentais da existência em devir, por meio da ação criativa. (2004, p.63).

 

[1] “F.”: Neste artigo, será a letra referendada ao nome da pessoa atendida, com a autorização prévia da mesma, apresentada aqui apenas com a inicial de um dos seus sobrenomes, como forma de preservação à sua identidade e em conformidade com os critérios de ética profissional.

[2] Eliana Moraes, Arteterapeuta e Psicóloga. Fundadora e coordenadora do “Não Palavra Arteterapia”. Autora da série de livros “Pensando a Arteterapia”. 

 

BIBLIOGRAFIA

ALMEIDA, C.B. Arteterapia com pais: O despertar do autoconhecimento e da comunicação amorosa conjugal e familiar. Trabalho de Conclusão do Curso de Especialista em Arteterapia – Universidade Paulista – UNIP, 2016.


SAFRA, G. A po-ética na clínica contemporânea. Aparecida/SP: Ideias & Letras, 2004.

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Sobre a autora: Clarice Almeida



Psicóloga e Arteterapeuta. 

Como Psicóloga, aprofundou seus estudos no entendimento das questões humanas e seus processos inconscientes embasada na teoria de Winnicott, Safra e autores afins. 

Acompanha e atende mães e pais em Orientação Psicológica e Vivências Arteterapêuticas, com vislumbre dos ensinamentos da comunicação não violenta e da comunicação amorosa nas dinâmicas familiares, tendo se especializado em Arteterapia Junguiana. 

Realiza workshops Arteterapêuticos sobre diversos temas dos ciclos existenciais. 

Idealizou e Acompanhou grupos Arteterapêuticos: “Poesia”, “A Arte na alma do Ser”, “Adolescentes”, “O que busco está em mim? ”, entre outros. 

Atende em processo de Arteterapia Casais, Adultos e Adolescentes.

 

 




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

NÃO PALAVRA ABRE AS PORTAS


Por Eliana Moraes

Em 2017 o blog Não Palavra inicia seu quinto ano de atividade em produção de textos que se propõem a pensar a Arteterapia. Ao longo deste percurso podemos identificar algumas fases, de um blog que começou como um diário de bordo pessoal, até os dias de hoje em que está estabelecida uma produção semanal de textos sobre as teorias e a prática da Arteterapia. De pequenas postagens que eram acompanhadas por amigos e pessoas próximas, até hoje em que cada publicação tem atingido a média de mil visualizações por pessoas de vários lugares do Brasil!

Já há algum tempo venho pensando sobre como o exercício da escrita sobre minhas articulações na Arteterapia, que começou de forma tão despretensiosa e foi tomando proporções inesperadas, foi me construindo e constituindo como profissional, e porque não como pessoa. Em meio a esta reflexão, pensava quão interessante seria estimular que outras pessoas se propusessem a um desafio semelhante e experimentassem suas próprias surpresas e descobertas.

Sendo assim, neste ano o blog Não Palavra abre as portas para arteterapeutas, estudantes e interessados que tenham um desejo guardado e/ou ativo de se lançarem ao desafio da escrita. Hoje, o Não Palavra faz um convite aos amigos e parceiros que até aqui nos acompanharam pela leitura, para que se tornem coautores deste espaço de articulação de ideias sobre a Arteterapia.

Assim, desenvolvemos algumas linhas de pesquisa e orientações para balizar aos que aceitarem o desafio tão instigante da escrita.

LINHAS DE PESQUISA

1)    Arteterapia: aspectos teóricos e articulações em suas especificidades:
Embora a Arteterapia faça interseção com diversos outros saberes, ela possui sua identidade própria, seu corpo teórico e prático próprios. Nesta linha de pesquisa cabe a exposição e articulação de ideias quanto àquilo que é próprio da Arteterapia, contribuindo para seu fortalecimento como saber e profissão.

2)    Arteterapia e outros saberes:
Uma das maiores características da Arteterapia se dá em seu grande potencial para dialogar com diversos outros saberes, como a Psicologia, Psicanálise, Medicina, Filosofia, Educação, Terapia Ocupacional, Teoria e História da Arte e outros. Nesta linha de pesquisa cabe a articulação entre a Arteterapia e outros saberes que possam contribuir para sua articulação teórica e instrumentalização dos profissionais que nela atuam.

3)    Resenhas de literatura em Arteterapia e/ou saberes relacionados:
Para que o arteterapeuta se instrumentalize para uma atuação consistente é necessária a dedicação em um estudo aprofundado das teorias da Arteterapia e outros saberes relacionados. Esta linha de pesquisa tem como objetivo a sugestão de literaturas ou referências que possam colaborar para a formação do profissional de Arteterapia. Aqui o autor fará uma resenha apresentando um livro ou outras referências como vídeo, filme, exposição ou espetáculo que tenha contribuído para seu estudo, pesquisa e prática em Arteterapia.

4)    Práticas em Arteterapia:
Para o fortalecimento da profissão Arteterapia em nosso país, é essencial que a classe invista em sua prática propriamente dita. Sabemos que a Arteterapia pode contribuir amplamente em sua riqueza de possibilidades para o coletivo/social. Desta forma, esta linha de pesquisa tem como objetivo a visibilidade, o relato e a troca de experiências quanto às diversas práticas existentes em Arteterapia em todo o Brasil.

Meu desejo é que o blog Não Palavra se faça cada vez mais como um espaço de pesquisa em Arteterapia. Assim, acredito que o “Não Palavra abre as portas” venha para somar a todos: aos autores desafiados pela escrita, ao blog que será beneficiado com a pluralidade de articulações e à Arteterapia pelo estímulo à pesquisa e produção textual, elementos tão importantes para o fortalecimento da profissão.

Caso você tenha se identificado com esta proposta e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.


A Equipe Não Palavra te aguarda!