segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA E A ARTE COMO MEIO DE COMUNICAÇÃO

Nesta semana o Nâo Palavra traz mais uma convidada muito especial, a arteterapeuta Maria Valéria Ramos, que tive a oportunidade de conhecer quando fui sua professora no curso de Formação em Arteterapia Ligia Diniz, e acompanhar um pouco do início de seu trabalho quando participou do Grupo de Estudos em Arteterapia que eu coordenava ao lado de Maria Cristina de Resende (2014 e 2015). Desde então nos encontramos nos eventos do Não Palavra e nas redes virtuais nos mantendo sempre em contato. Com uma vivacidade e coragem contagiantes ela compartilha conosco um pouco de sua jornada como arteterapeuta com um público muito especial, que neste momento é coroada por uma bela exposição no município de Duque de Caxias - RJ.

Flávia Hargreaves
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O TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA E A ARTE COMO MEIO DE COMUNICAÇÃO
Por Maria Valéria Ramos
arteterapeuta
Contato:  einstein.mvr@gmail.com



 Mural da exposição “OLHARES” com os trabalhos de diversos artistas

Ao falarmos do transtorno do espectro autista, nos deparamos com a tríade que os acompanha: dificuldades na comunicação, na socialização e movimentos estereotipados. O autismo é uma disfunção neurobiológica, onde teremos poucas ou muitas áreas do sistema nervoso central afetadas. Autistas têm em comum a tríade, mas são muito diferentes uns dos outros. Costumo dizer que cada autista é realmente único. Como são diferentes no agir! A pergunta agora é como um arteterapeuta pode agir perante tantas diferenças. Temos uma ferramenta que nos leva a trilhar caminhos que nos fazem chegar ao mesmo ponto da estrada: a ARTE. Essa que universaliza e ameniza as diferenças.

Meu trabalho com crianças autistas começou há 4 anos, e a partir de então faço mergulhos profundos nesse campo e a cada dia surpresas perpassam minha mente. Autistas passam por muitas clínicas terapêuticas, sendo a arteterapia pouco conhecida nesse universo, mesmo já sendo empregada e com grande sucesso. Tive a boa sorte de iniciar meu trabalho em um espaço público que atende muitas crianças especiais, em sua maioria autistas. Quando fui contratada para trabalhar com arte com eles, já tinha certa experiência em arteterapia: na realidade já estava concluindo minha pós-graduação. Larguei o curso na reta final e iniciei uma formação especializada, sem arrependimento. Foi ótimo: o que faria em 2 anos, terminei em 5, mas tudo valeu a pena! Digo que minha caminhada na arteterapia, na realidade, foi uma nova graduação! Bom demais! 

Voltando à experiência que venho adquirindo com o uso da arteterapia com autistas: no início achei difícil fazer um mergulho, quando a comunicação é tão limitada verbalmente por parte das crianças e a socialização é quase uma incógnita, tudo é muito complicado! Mas logo percebi que podíamos nos comunicar (eu e minhas crianças especiais) através dos diversos materiais plásticos que faziam a ponte entre o comunicar e o socializar. Incrível como as crianças autistas gostam do contato com lápis pastel oleoso, tinta guache, aquarela, as práticas de picar papel, desenhar, colar, trabalhar com argila, massinha, canetinha, pastel seco, cola colorida... e como têm pouca afinidade com giz de cera e lápis de cor. Não ligam muito para esses últimos. Não sendo regra geral, apenas dados que mostram uma grande maioria rejeitando lápis e giz de cera.

Tendo como forte aliado tais materiais, as barreiras foram sendo quebradas, os sorrisos passaram a aparecer e os abraços também. Para que falar se podemos pintar, desenhar, rasgar... A partir daí, passei a perceber o quanto gostavam de fazer arte e de uma forma singular. Cada criança sentia-se mais atraída por materiais diferentes e produziam arte genuína, que não seguia modelos, e, sim, o que sentiam vontade de expressar naquele momento. 

Comecei a querer mostrar a arte dessas crianças que, dentro do setor que trabalho, sempre ficou muito restrita somente às paredes do lado de dentro das salas de atendimento aos “pequenos artistas”. E resolvi fazer a primeira exposição dentro do próprio centro de reabilitação em que trabalho. Foram 40 telas pintadas com diversos materiais. A exposição foi chamada “Linhas da Arte”, pois foi construída a partir de rabiscos que nossas crianças produziam de olhos vendados ao ouvirem peças de música erudita. 

No início do processo, nossos artistas se mostraram tímidos, mas já em nossa segunda exposição (no mesmo local), denominada “Olhares” a timidez já começou a diminuir: já podíamos tirar as vendas e seguir olhando. Nesta ocasião conseguimos reunir 50 obras produzidas por nossas crianças. 

Nossa terceira exposição também ocorreu no mesmo local, com quase 70 trabalhos e chamou-se “Fragmentos da Arte”, pois tínhamos partes de tudo o que vinham construindo ao longo do ano e saímos misturando os fragmentos.

A quarta exposição está acontecendo neste mês de setembro de 2016 e reúne 34 obras de autistas, sendo o menor com 3 anos e o maior com 16 anos. O nome da exposição se repete (“OLHARES”), mas são obras diferentes da segunda exposição: apenas umas 4 obras são pertencentes a esta. As outras trinta obras fazem parte de uma nova criação de olhares. A novidade é a visibilidade desses “autistas artistas”, pois foram expor em uma famosa biblioteca de nosso município, tendo cobertura do jornal local e divulgação na Rádio Nacional.

Ivan, 11, autista verbal explica sua obra, 
“Macarronada de Cérebro” (Colagem de linha sobre papel)

São obras produzidas de forma muito leve, onde as crianças entendiam que iriam expor fora do espaço de costume e gostavam da ideia. Produziram tranquilamente, se envolvendo com os materiais plásticos e deixando fluir o que vinha de dentro, gerando obras únicas, nenhuma igual a outra. Tudo muito genuíno e lindo. Materiais diversos. 

O tempo em que venho utilizando a arteterapia com essas crianças fez a diferença, elas se utilizam da arte para se comunicar entre elas e conosco. As que são verbais explicam o que produziram de forma detalhada, não fizeram ao acaso, tudo tem um porquê. As que não verbalizam sentimos o que querem dizer ao olharmos, podemos até interpretar errado, mas sentimos.

Não percam a oportunidade de conhecer este trabalho visitando a exposição!!!!

“Olhares”
Até 30 de setembro de 2016
De seg. a sex, das 8 às 17 horas
Sáb. – Agendamento para visita escolar
End.: Biblioteca Municipal Leonel de Moura Brizola 
Praça do Pacificador   Município de Duque de Caxias
Tel.: 2672-3155
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Maria Valéria Ramos é arteterapeuta do Centro Integrado de Reabilitação Sarapuí e atende em ateliê particular em Duque de Caxias.
Contato: 9 6656- 6152 e  einstein.mvr@gmail.com
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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

ARTETERAPIA – DANDO VIDA E COR - RESSIGNIFICANDO HISTÓRIAS

Nesta segunda-feira (05/09/16), o Não Palavra traz novos olhares, recebendo duas convidadas muito especiais: ROSÂNGELA ROZANTE no II Ciclo de Palestras apresentando o tema ARTETERAPIA NAS EMPRESAS (ver: https://www.facebook.com/events/828406640593405/  ) , fundamental para se discutir o nosso mercado de trabalho, e a contribução de TANIA SALETE neste blog, compartilhando sua experência profissional com o texto a seguir.

Preciso deixar registrado o nosso agradecimento pela confiança depositada em nosso trabalho - Não Palavra - e como este passo é importante no reconhecimento de que a jornada que iniciamos há três anos têm contribuído para gerar discussões entre estudantes e profissionais da Artetereapia.  Trazendo questões, às vezes polêmicas, sobre a formação profissional, a importância da produção textual e do estudo continuado, as novas possibilidades trazidas pelo ead e as ferramentas virtuais, a aproximação com a Arte e as muitas abordagens possíveis na nossa prática, reflexões sobre o uso dos materiais expressivos, etc.

Muito obrigada também a todos os que nos acompanham nesta jornada compartilhando e comentando nossas publicações.

Flávia Hargreaves

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ARTETERAPIA – DANDO VIDA E COR - RESSIGNIFICANDO HISTÓRIAS
por Tania Salete de A. Moreira
Arteterapeuta AARJ 680/0615
Fonoaudiologa – 4255/CRFa
Psicopedagoga

O arteterapeuta é por princípio um investigador, um pesquisador, um ser que já traz em seu DNA o chamado “bicho carpinteiro”, sempre em busca de aprender e conhecer coisas novas, tanto na questão teórica, quanto na parte prática, como experimentar, misturar, descobrir os elementos tão fartos da natureza com intuito de proporcionar ao seu cliente ou talvez, companheiro de jornada, ferramentas mais adequadas para suas descobertas pessoais, para seus mergulhos pessoais.

Quando conheci uma das arteterapeutas do grupo “Não Palavra”, Maria Cristina Resende, isso despertou o “bicho carpinteiro” dentro de mim, porque percebi que ela trazia na sua “mochila”, muito mais do que lápis de cor, pincéis, colas, papéis coloridos, imagens para aquela proposta de trabalho. Ela apresentou um conteúdo teórico diferente e profundo, um jeito apresentar a Arteterapia como quem coloca uma mesa farta e bonita, cheia de coisas saborosas. Desde então, fiquei interessada em conhecer mais sobre este grupo com nome tão inusitado e que propunha uma ação palpável, bem distinta de tudo que já havia pesquisado e que estava muito próximo do que eu buscava. Na primeira chance que tive, acessei o blog e fiz a inscrição no curso de Arteterapia: Conhecendo os materiais e aprendendo a usá-los, com a Profª Flávia Hargreaves.  O curso tem uma abordagem essencialmente prática, além de reflexiva e com discussão sobre as técnicas artísticas ao longo da História da Arte.  Além das experimentações propostas, havia o incentivo para que cada aluna, dentro de seu contexto especifico de trabalho, aplicasse as técnicas aprendidas com seus pacientes/grupos e se possível, transformando-as em novas possibilidades.

Experimentando, transformando...

Semanalmente participo de um grupo que voluntariamente proporciona atendimentos através de grupos terapêuticos em uma Comunidade para Mulheres Adictas egressas de rua.  Este grupo tem demandas muito específicas e trabalhamos com temas próprios de grupos de apoio, onde há momentos para reflexão, atividade em Arteterapia e compartilhamento.

Refletindo sobre as propostas da aula e o texto que li de Maria Cristina Resende sobre “Observações da clínica” (20/06/2016) que diz “´[...] a realidade que se cria dentro do consultório precisa ser potencializada até que transborde para fora daquele espaço terapêutico, e então as experimentações de materiais se transformam em experimentações na vida e, portanto, de vida!”, propus uma experimentação que evidenciaria uma das grandes dificuldades que estas mulheres possuem e que as levaram para condições de drogadição e suas consequências terríveis: a falta de limites na vida. Nossa proposta naquele dia era que elas, através dos materiais, experimentassem a importância de respeitar os limites estabelecidos na vida e no corpo.     
      
Na aula do curso sobre cor – Tonalidades do cinza,  a proposta era fazer três tons de cinza. Porém, na comunidade terapêutica fiz a seguinte aplicação e proposta: Elas poderiam escolher apenas uma cor.  O material disponibilizado para cada uma: 3 copinhos, pouco de tinta branca, pincel, agua e paninho para secar pincel, um disco de isopor. Com a tinta escolhida, cada uma deveria  fazer  três tonalidades da mesma cor e pintar apenas metade do disco. Depois faríamos outra atividade e retornaríamos para concluir esta pintura.

Obs.: No caso delas, oferecemos opções de cores, pois é necessário dar cor e vida onde não se tem mais. Resgatar o colorido e a possibilidade de escolher a cor que se quer pintar a vida. 



Na realização da atividade, algumas já se perceberam ultrapassando os limites do que foi solicitado e como nem sempre é possível retornar ao estágio anterior. Ao término, com os trabalhos concluídos, houve um tempo de reflexão pessoal e de conscientização sobre a importância de se impor limites, de se respeitar as regras para uma vida mais saudável e produtiva.

Em outra ocasião usamos a experiência da aula sobre Descolorir, cobrir e apagar – Preto e Branco para trabalhar o tema lidando com as feridas emocionais. 

Na aula do curso a proposta era escrever uma palavra ou desenhar uma imagem com caneta hidrocor preta e cobrir com a tinta guache branca. Anotar o que aconteceria. No caso, ficou uma sombra do desenho e quando virou-se ao contrário, o desenho aparecia ainda mais nítido.


Segundo Jung, “não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão.

Aplicação  da proposta na Comunidade Terapêutica:

Material: Um coração de tecido, uma caneta hidrocor, um pedacinho menor de pano, cola de tecido. Proposta era elas escrevessem o nome do que estava ferindo ou que feriu o coração delas. Depois deveriam colar o tecido da mesma cor em cima de cada palavra, tentando esconder as feridas, “esquecer”.  Depois, nós da equipe, pingamos o alcool em cima de cada tecido colado e a imagem ficou toda manchada e sobressaiu ainda mais do que antes. Ou seja, não adiantou tentar “tampar ou esconder com o pano por cima”, porque a ferida estava aberta, sem ser tratada não seria cicatrizada, continuaria doendo. Precisava do tratamento certo.

A reação foi imediata. Elas ficaram olhando a ação do álcool sobre o tecido e atônitas com que acontecia. Algumas reagiram dizendo que estava muito pior do que antes, que não adiantou nada colar o outro tecido em cima e várias outras observações espontâneas foram ditas. Muitas chegaram a conclusão óbvia de que sem uma decisão da parte delas que envolvesse perdão, reconciliação com a família, consigo mesma e com sua história não haveria recuperação.


Conclusão:

Foram apenas três meses de um rico e produtivo Encontro com outras pessoas incríveis neste curso, mas que tem dado muitos frutos até hoje. Não que esteja completa. Longe disso. O “bicho carpinteiro” é sedento por demais para sossegar com apenas 13 aulas. Quero muito mais, porém tenho aprendido que “a vida é grande demais e que devemos dar um passo de cada vez”! É possível fazer o melhor para si mesma e para a profissão, estudando, aprendendo, trocando, mas do jeito que se é, porque todos nós somos seres humanos, tratando de seres humanos que também tem dores, sofrem, querem, buscam uma chance e que com as ferramentas tão democráticas diversificadas, abrangentes e ricas que a  Arteterapia proporciona podem ressignificar suas vidas, suas histórias e dar sentido e propósito às suas existências.




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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

PENSANDO AS ESPECIFICIDADES EM BUSCA DA IDENTIDADE





Por Eliana Moraes
elianapsiarte@gmail.com


Os leitores do blog Não Palavra podem perceber que um subtítulo tem se repetido nos meus textos: especificidades da Arteterapia. Pensar sobre este tema tem sido uma das minhas motivações profissionais atualmente. Meu despertar para esta reflexão iniciou-se quando li o projeto de lei 3416/2015 que se propõe a regulamentar a profissão da Arteterapia em nosso país. No texto da lei, o Artigo 6º trata do que compete ao arteterapeuta e cito aqui dois itens:
 I – avaliar, planejar e executar o atendimento arteterapêutico por meio da aplicação de procedimentos específicos da arteterapia;
III – exercer atividades técnico-científicas através da realização de pesquisas, de trabalhos específicos e de organização e participação em eventos científicos;
Neste contexto, entendemos que o projeto de lei coopera para que a Arteterapia seja uma profissão autônoma e que tenha sua delineação própria. Mas a partir de então, a pergunta se apresenta: quais são os trabalhos e procedimentos específicos da Arteterapia?
De fato, a Arteterapia bebeu de várias fontes para ir se constituindo, como a psiquiatria, a psicanálise, a psicologia, a educação, a história da arte e teorias da arte, a terapia ocupacional e até mesmo o artesanato. Mas embora a Arteterapia  faça interseção com estes saberes, ela não é igual a nenhum destes saberes.
Quando temos a perspectiva da Arteterapia como uma profissão em si, percebemos que ela deve ser vista como um saber autônomo, com sua identidade própria. Particularmente tenho observado a Arteterapia como uma técnica que pode tomar diversas teorias para lhe embasar teoricamente. Mas é necessário que o arteterapeuta conheça aquilo que é próprio da Arteterapia para que possa desempenhá-la de forma consistente.  
Vejo como necessário neste processo que a Arteterapia se reconheça, se diferencie e desenhe sua identidade própria. E em alteridade, poderá retornar amadurecida para o diálogo com aqueles saberes que tanto contribuíram para sua constituição.
A partir da minha história profissional, comecei a pensar sobre o que diferencia a clínica da psicologia com a da Arteterapia, pois hoje compreendo que há uma diferença entre ser uma psicóloga que usa das técnicas expressivas para uma arteterapeuta propriamente dita. Esta reflexão tem sido essencial para a delineação da minha identidade profissional e atuação como (por escolha) arteterapeuta.
Uma das especificidades da Arteterapia que a prática me mostrou, se dá pelo fato de que no setting arteterapêutico o cliente/paciente é convidado a não apenas falar sobre sua questão, mas a agir sobre ela, a partir da criação.
Tenho buscado as teorias da arte para me orientar e uma autora que tem me ensinado muito é Fayga Ostrower. Uma artista que teorizava sobre a arte, contribui bastante para nossas articulações como arteterapeutas. A partir de duas de suas citações – e na decorrência da leitura de seu livro – tenho proposto o conceito de agir criativo como uma especificidade da Arteterapia. Ou seja, algo que pertence a ela e a mais nenhum outro saber. Seguem as citações e o conceito:
“Criar não representa um relaxamento ou um esvaziamento pessoal, nem uma substituição imaginativa da realidade; criar representa uma intensificação do viver, um vivenciar-se no fazer; e, em vez de substituir a realidade, é a realidade; é uma realidade nova que adquire dimensões novas pelo fato de nos articularmos, em nós e perante nós mesmos, em níveis de consciência mais elevados e mais complexos.” (OSTROWER, 28)
 “A percepção de si mesmo dentro do agir é um aspecto relevante que distingue a criatividade humana” (OSTROWER, 10)
Conceito: agir criativo
O agir amparado pelo continente do setting arteterapêutico através da criação, é uma especificidade da Arteterapia dentre as técnicas terapêuticas. Desta forma, o setting se configura como um ambiente suportado pela transferência com o arteterapeuta para que o cliente/paciente vivencie-se no fazer, articule-se em si e perante si, alcançando níveis de consciência mais elevados. Que através da criação, ele se perceba em suas repetições,  resistências, sintomas e tenha a oportunidade de enfrentá-las. Que em meio a esta experiência tome decisões sobre este enfrentamento (ou não) e que assim se responsabilize por si como autor e protagonista da sua obra/história, alcançando uma realidade nova em dimensões novas.
Partindo do princípio que o agir criativo é uma especificidade da arteterapia e objeto de trabalho do arteterapeuta, uma série de desdobramentos se fazem na escuta, técnica e articulações teóricas. Pensar sobre estes desdobramentos é algo que tenho me ocupado
Quanto à questão da identidade da Arteterapia, percebo que ela transborda para a identidade do arteterapeuta, individualmente e como classe. Não por acaso, minha escuta foi despertada para este tema pois tem sido recorrente em diálogos com colegas, em supervisões, no Grupo de Estudos “A prática da Arteterapia” e também com minhas parceiras de trabalho. O tema “a identidade do arteterapeuta” continuará sendo pensado neste espaço. E contamos com a participação daqueles que estejam tocados com a mesma questão.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. 12ª ed. Petrópolis, Editora Vozes, 1997.



segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O ARTETERAPEUTA, A ARTE, A CIDADE...

por Flávia Hargreaves
fmhartes@gmail.com

RIO 2016

Nos primeiros dias de agosto, quando muitos profissionais autônomos como eu viviam as incertezas olímpicas (RIO 2016), fomos surpreendidos por um feriado surpresa no dia 4 de agosto. Minha primeira reação foi de irritação pois tinha aula marcada, mas aos poucos a irritação foi se rendendo ao entusiasmo. Ocorreu que ao passar a notícia do cancelamento ao grupo via whatsapp alguém sugeriu: 

         "Gente! Por que não vamos ter aula ao ar livre?"  SUSTO  \O/

O desejo de ir para a rua, para a vida, sair da proteção das quatro paredes envolveu a maioria e fez com que nos esquecêssemos dos protestos iniciais. E fomos para a nossa aula em pleno Boulevard Olímpico, na Praça Mauá. Ninguém mais falou sobre as previstas dificuldades de locomoção na cidade. Nossos corações se aquietaram e resolveram se render a beleza da cidade pronta pra festa.

VAMOS PRA RUA!

A pesquisa do grupo entre as quatro paredes da sala de aula explorava a articulação da Arteterapia com a Arte Contemporânea, destacando o exercício do olhar sobre a qualidade dos materiais transparentes e seus reflexos. E, embora ainda não tivesse tomado consciência, o fato é que o local parecia ter sido construído por encomenda. Em seu aspecto formal, estava tudo lá: Linhas, Formas, Transparências, Opacidades, Espelhos, Texturas, Luzes e Sombras. Mas a questão fundamental era IR PARA A RUA, e isto nos aproximava de fato às discussões atuais sobre o papel da Arte e do artista, o que trouxe outra questão: E a Arteterapia? E o arteterapeuta? Como poderíamos lidar com esta faceta da Arte? Qual seria a contribuição desta experiência para nós na nossa prática? Será que podemos levar a Arte para o processo terapêutico sem passar pela rua? Estaríamos dispostos a esta exposição diante da realidade pulsante da cidade, este espaço “DESPROTEGIDO?” ... perguntas ainda em busca de respostas.

LUZES SOMBRAS E REFLEXOS

Retornando ao episódio em questão para podermos nos situar melhor, trata-se de um grupo de arteterapeutas que, após concluírem o meu curso sobre materiais em arteterapia, teve o desejo de dar continuidade ao trabalho o que me levou a reativar um projeto antigo: Ateliê de Artes para arteterapeutas.

“Princípio do Mundo”(1924 ?) de Constantin Brancusi (Romênia 1876/França 1957)

Na véspera do feriado, lendo Rosalind Krauss me deparo com um texto sobre a obra “Princípio do Mundo”(1924) de C. Brancusi (1876/ 1957), onde faz uma descrição objetiva da forma utilizando expressões no mínimo instigantes para nós arteterapeutas. Decidi utilizar o texto como disparador para uma posterior exploração do ambiente por meio da fotografia e/ou do desenho e o exercício de escrever sobre a imagem criada focada na descrição da forma, objetiva.

Nossa proposta era criar um texto descritivo, objetivo, a partir da observação da forma criada, que poderia ser relido subjetivamente em um segundo momento. O exercício de olhar a imagem e descrevê-la sem as "distrações" subjetivas, associativas, simbólicas ou interpretativas mostrou-se uma tarefa árdua, escorregadia e que foi realizada individualmente ao longo da semana. 

Segue um fragmento do texto utilizado para trabalhar o tema LUZES, SOMBRAS E REFLEXOS:
“O efeito dessa junção entre o objeto e a superfície em que está apoiado é garantir a diferença entre o tipo de reflexos registrados na parte inferior da forma e aqueles da sua parte superior. Prenhe de formas distorcidas de luz e sombra refletidas a partir do ambiente em que o objeto é contemplado, a forma lisa da metade superior é contorcida por uma profusão de incidentes visuais cambiantes. A parte inferior, por outro lado, limita-se a refletir o disco que serve de base, e tal reflexo tem o fluxo harmônico ininterrupto de uma gradual extinção de luz. Ali, onde o objeto toca o disco, o reflexo que recebe é a sombra de seu próprio lado inferior projetada de volta na sua superfície, como que por uma ação capilar.” (KRAUSS, 2001, p. 106-107).

E o desdobramento realizado no nosso trabalho de campo por Regina Diniz, arteterapeuta e psicóloga:
"[...] No reflexo, a seção superior da estrela transforma-se em inferior, mais disforme ainda e mais escura, em alguns pontos. Esse jogo de luzes, brilhos e sombras faz surgir uma imagem que se assemelha a de um lobo, cujos olhos luminosos encontram os olhos do espectador que observa, de frente, o reflexo da estrela." (trecho do texto sobre a imagem abaixo).
 Fotografia de Regina Diniz, no Boulevard Olímpico, 
destaque para a escultura de Frank Stella, entitulada, "Puffed Star II"


Ainda me sinto impregnada pela experiência percebendo a importância de apurar nossa percepção estética diante da realidade e tornar consciente o ato de capturá-la  e congelá-la em uma fotografia. Estávamos no espaço aberto, mas ainda "protegidos" pelo grupo ... olhávamos para fora pra descobrirmos conteúdos nossos ... muitas questões se abriram para repensar minha prática como professora e arteterapeuta que ainda pretendo compartilhar com vocês neste blog.

SOBRE ESTAR NA RUA, O TEMPO E A ANSIEDADE ...

A primeira questão que se colocou foi a de estarmos expostos ao TEMPO, ora com medo da chuva, ora com a visão ofuscada pelo Sol, o que dificultou antever as imagens a serem clicadas. Havia movimento, outras pessoas passando, coisas acontecendo, invadindo nosso campo. O tempo parecia ter sido estendido e todos tiveram tempo suficiente para explorar o ambiente aberto sem pressa, sem saber exatamente o que procuravam, aguardando que algum acontecimento, um reflexo, uma sombra, uma luz, lhes despertasse o interesse. Algo de fora precisava nos capturar para ser capturado pela câmera.

O movimento era OLHAR PARA FORA e trazer para DENTRO, e este também se colocou como uma situação nova no nosso trabalho. Não íamos olhar para dentro, entrar em contato com o silêncio, num lugar protegido, sagrado, teríamos que encontrar tudo isto ali, no campo aberto onde a vida acontece. De repente, estava tudo ao contrário, e neste ponto a Arte faz toda a diferença.

O exercício e o envolvimento do grupo foi intenso com muitos desdobramentos ao longo da semana, o que nos leva novamente a questão do tempo, como digo com frequência: "A imagem precisa de tempo para se revelar!!!!" O artista pode levar muito tempo, anos, décadas para a conclusão de uma obra, e o arteterapeuta muitas vezes se mostra ansioso na sua prática, querendo mudar de técnica ou material quando isto não é uma necessidade para o processo terapêutico. 

O ARTETERAPEUTA E A ARTE

A obra “Princípio do Mundo” é o resultado de uma pesquisa de dezoito anos, e não me espanta que digam que é só uma forma oval !!! Mas foram necessários quase duas décadas de elaboração para que o artista a aceitasse e isto não se dá apenas na Arte, mas na vida. E é por isto que insisto na importância da experiência e do estudo da Arte para o arteterapeuta, tanto na dimensão do fazer, do elaborar como em simplesmente estar exposto a ela. É preciso aproximação, intimidade e, também, experiência na busca de soluções materiais para a problemática que a feitura da obra exige. 

O contato com a Arte muda a nossa percepção do tempo e do espaço e acredito que contribua para combater a ansiedade do arteterapeuta diante da "produção" do seu cliente, entendendo a necessidade de se deter o tempo exigido no processo de criação e o momento posterior de elaboração do que foi realizado. Pode ser necessário muito tempo para que uma única imagem se materialize e outro tanto de tempo para que ela se revele e, quanto ao grupo, as imagens ainda estão em processo e as propostas do ateliê tendem a ter seu tempo estendido e cada um irá tomar do tempo o tempo necessário.

E, quanto a você leitor: Aguardo seus comentários,sugestões e críticas !!!!

Referência
KRAUSS, Rosalind E. Caminhos da Escultura Moderna. São Paulo: Editora Martins Fontes. 2001.
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terça-feira, 16 de agosto de 2016

ARTETERAPIA E OS QUATRO ELEMENTOS - A ORIGEM

Por Maria Cristina de Resende
crisilha@hotmail.com

Nos mais variados cursos de Arteterapia o aluno sempre passa pela disciplina que aborda os quatro elementos da natureza e as técnicas expressivas correspondentes a cada um deles. Entretanto, de onde vierem essas formulações sobre a correspondência desses elementos e o homem? Qual a verdadeira importância de saber sobre esses elementos estruturantes da natureza e da dinâmica psíquica do homem? Onde buscar uma correlação que de fato faça sentido e traga resultado para nossa prática?

Em muitos lugares podemos ver a correlação desses elementos com os quatro tipos psicológicos de Jung, mas ele mesmo nunca fizera essa relação, não por escrito!

Nas minhas buscas por saberes complementares, tanto para a psicologia quanto para minha busca pessoal de auto-conhecimento, cheguei no Xamanismo, cuja base de explicação para a criação do mundo está baseada na sagrada Roda de Cura, cuja representação para muitas culturas nativas é o casco de uma tartaruga, lugar onde fora criado nosso planeta. Ali, estão contidos todos os clãs de todos os povos, a regência dos animais de poder, das pedras, das plantas e, também, dos quatro elementos.


Também encontramos a regência das quatro direções, Norte, Sul, Leste e Oeste e em cada uma delas habita um desses quatro elementos. Essa Roda explica não só a criação do mundo, segundo a visão indígena, mas também explica os ciclos da vida tanto na natureza quanto do homem. Toda a visão de criação está alinhada com os processos da natureza, principalmente com a jornada que o Sol faz a cada dia e a cada ano. Sendo assim, temos uma correlação entre os elementos, as direções, os ciclos da natureza e, portanto, o homem, uma vez que não estamos separados da natureza.


Caminhado mais nesta busca pessoal, que por sua vez alimenta minha prática profissional, cheguei até o Oriente, mais especificamente na Índia e sua milenar Medicina Ayurveda, cuja existência data de mais de 3.000 anos, conhecidos e provados, mas há estudos que datam mais de 5.000 anos de existência, e sua prática é até hoje regida pelos mesmos textos sagrados de milhares de anos atrás.
Segundo a Medicina Ayurveda “cada individuo é a única expressão de um processo cósmico que se torna primorosamente reconhecível no tempo e no espaço”[1], sendo assim,

“o indivíduo, que é coisa rara, somente um, um evento sem repetição, existe como um microcosmo do macrocosmo da Existência. Esses dois sistemas, humano e cósmico, estão conectados permanentemente, pois ambos são feitos dos mesmos básicos elementos. Todos os elementos contidos no macrocosmo estão também presentes no microcosmo ”[2]

O que a Ayurveda nos ensina é que tanto o homem quanto o cosmos são feitos das mesmas substâncias, e que não só o homem, mas tudo que há neste planeta está em ressonância com esses elementos básicos, a cadeira em que estou sentada agora para escrever este texto, a folha de papel que o leitor usa para lê este texto, minhas mãos, seus olhos, o computador, os meus gatos sentados ao meu lado, o café que bebo agora, a roupa que visto e claro, os materiais que usamos no setting de Arteterapia.


Quando enxergamos esta conexão básica entre tudo que existe no universo, então entendemos que existe uma força manifesta através dos elementos, cujas características são específicas de cada um, mas que todos possuem, e então entendemos que quando usamos um material de Arteterapia para ajudar nosso cliente a expressar e reconhecer melhor sua manifestação aqui como ser humano, não é só uma imagem, mas é um pedaço dessa manifestação que possui em si ressonância com o indivíduo que a fez e com o universo inteiro, pois possuem os mesmos elementos básicos.

Ao compreender que os elementos da natureza (água, terra, ar, fogo e éter, para a Ayurveda), estão presentes em tudo, não precisamos mais literalmente trabalhar com água para acessar determinados aspectos que consideremos ressonantes com este elemento, podemos buscar nos materiais que possuímos em nosso ateliê quais são aqueles que possuem mais água em sua manifestação, por exemplo. Para tanto é importante compreender as características, funções e finalidades de cada um desses elementos.

A Arteterapia antroposófica já faz este tipo de trabalho. Baseada na medicina hipocrática, do conhecido pai da medicina Hipócrates, ela se baseia na teoria humoral, ou os 4 humores

O corpo do homem contém sangue, fleuma, bile amarela e bile negra – esta é a natureza do corpo, através da qual adoece e tem saúde. Tem saúde, precisamente, quando estes humores são harmônicos em proporção, em propriedade e em quantidade, e sobretudo quando são misturados.[3]

Nela são trabalhados apenas materiais que estejam em ressonância com esses elementos e com a natureza. Para saber mais sobre esta modalidade consulte o texto publicado aqui no blog pelo arteterapeuta Ismael Rodrigues Fraga http://nao-palavra.blogspot.com.br/2015/08/arteterapia-pelo-mundo-arteterapia.html.

Sendo assim, podemos compreender melhor de onde veio grande parte das associações entre os quatro elementos, os materiais de Arteterapia e a dinâmica psíquica do homem. Após este texto podemos compreender que eles não são só apenas associações, mas extensões dessa manifestação cósmica, ratificando uma reflexão que há tempos venho expondo em minhas explanações, a de que a arteterapia vai além da expressão de uma emoção através de uma imagem, ela é a continuação psíquica manifesta nos materiais, trazendo consciência através da materialidade, ou como diz Flávia Hargreaves, da coisificação das emoções e dos pensamentos que habitam o homem.




[1]  Each individual is the unique expression of a recognizable finely turned cosmic process occurring in time and space. Birgit Heyn – Ayurveda, The Indian Arte of Natural Medicine e Life Extension.
[2] The individual, who is a one-off, a once-only, unrepeatable event, exists as a microcosm in the macrocosmo of Being. The two systems, humam and cosmic, are linked permanently, since both are built from the same basic elements. All the elements contained in the macrocosm are also present in the microcosm. Birgit Heyn – Ayurveda, The Indian Arte of Natural Medicine e Life Extension.
[3] Joffre Marcondes de Rezende - Dos quatro humores às quatro bases. 


Referências Bibliográficas

HEYN, Birgit. Ayurveda, The Indian Arte of Natural Medicine e Life Extension. Ed. Healing Arts Press, Rochester, Vermont, 1990.

REZENDE, JM. À sombra do plátano: crônicas de história da medicina [online]. São Paulo: Editora
Unifesp, 2009. Dos quatro humores às quatro bases. pp. 49-53. ISBN 978-85-61673-63-5. Available
from SciELO Books <http://books.scielo.org>.

http://www.xamanismo.com.br/Roda/SubRoda1191072387008

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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

SOBRE A TRANSFERÊNCIA E A CONTRATRANSFERÊNCIA EM GRUPOS ARTETERAPÊUTICOS


Por Eliana Moraes
elianapsiarte@gmail.com


Tenho me dedicado atualmente a dois objetos de estudo e pesquisa: o trabalho com grupos em Arteterapia (1) e as especificidades da Arteterapia como saber, prática e profissão. Durante o primeiro semestre estive pensando sobre o fenômeno da projeção/transferência no setting arteterapêutico (2) (3). A proposta de hoje é fazer uma articulação entre estes dois temas.



No contexto da clínica, temos a projeção de um sujeito (o paciente) para outro ser humano  (o terapeuta, que se apresenta não como sujeito, mas como função), e assim é denominado o fenômeno da transferência. A outra via deste fenômeno, do terapeuta ao paciente, contratransferência (4).


Já em grupos terapêuticos a configuração é outra:
“A prática da terapia grupal tem algumas características que a diferencia do atendimento individual, sendo que a primeira delas é a presença de vários pacientes/clientes no setting terapêutico. Essa simples constatação já implica uma maior complexidade dos habituais fenômenos da transferência e contratransferência, que são inevitáveis... O grupo se configura como um jogo de espelhos, onde cada pessoa pode se ver refletida na outra, olha e é vista ao mesmo tempo por outras pessoas que não apenas o coordenador do grupo, que se encontra igualmente exposto.” (SEI, 2010 p 51)
Uma especificidade da Arteterapia se dá pela introdução de um terceiro elemento na relação projetiva dentro do recorte clínico: o "material", ao qual divide com o terapeuta o fenômeno da projeção (aqui entendendo o material de forma ampla: o material plástico, o agir criativo, a imagem). Nas palavras de Cláudia Brasil:

Na relação terapêutica estabelecida em consultório, em que apenas duas pessoas se encontram, as projeções e a transferência são experimentadas de forma direta à pessoa, sem intermediações. Por isso, o uso de materiais plásticos e de recursos técnicos criativos promove o deslocamento da transferência entre duas pessoas e passa a ser uma tríade, na qual o terceiro elemento é o material utilizado. Assim, os complexos ativados são projetados para além do terapeuta, nos materiais. Nessa perspectiva, tanto o terapeuta quanto o cliente podem observar o produto final e a energia do complexo pulsando nas cores e formas. (BRASIL, 2013)

Partindo destes princípios, cabe pensarmos sobre os fenômenos da transferência e contratransferência no contexto de grupos arteterapêuticos, pois a trama de forças projetivas se darão de forma específica. É necessário que o arteterapeuta perceba e visualize esta intensa dinâmica e se instrumentalize para manejá-la de forma consciente e consistente.
Podemos destacar quatro fluxos projetivos:
- A transferência/contratransferência entre paciente e terapeuta: de fato, todo processo terapêutico contempla estes fenômenos e desta forma cabe a todo terapeuta se aprofundar nestes conceitos.
A teoria nos diz que ao projetar conteúdos próprios no terapeuta, o paciente repetirá com ele seu modo de se relacionar, que é muitas das vezes sua fonte de angústia. Ao terapeuta cabe visualizar este convite à repetição, não ceder a ele e cooperar para a transformação dessas repetições “irresponsáveis” em “memórias” conscientes. Assim o terapeuta faz outros convites: a tomada de consciência de si por parte do paciente e a partir daí uma atualização de suas modalidades de relacionamento.
Em grupo esta dinâmica se repete com cada participante simultaneamente.
- A projeção a partir da entrada do terceiro elemento, o material: na dinâmica de espelhamento característica do processo terapêutico, o material será um objeto que se relacionará tanto com o paciente quanto com o terapeuta “...não apenas como um depositário de imagens, mas como troca significativa...” (BRASIL, 2013 p 53) de energia psíquica e projeções, muitas vezes tornando-se até o centro do processo. Ao terapeuta cabe estar o mais consciente possível de suas questões pessoais e consequentemente de suas próprias projeções para deslocar-se delas e manejar com as projeções do paciente.
Naturalmente, em grupo esta dinâmica se repete com cada participante simultaneamente.
- A transferência entre pacientes: em grupo terapêutico, para além da relação paciente/terapeuta, haverá outras pessoas na mesma condição de sujeito compondo o grupo e assim as relações se manifestarão de forma natural, a partir da oportunidade de cada “eu” se revelar em suas interações com os outros e se fazer nos vínculos apresentados. A relação com outros sujeitos atualizada dentro do setting terapêutico abrirá um campo para atuações não inócuas, mas propícias para a percepção de si e ao autoconhecimento.
Ao terapeuta cabe proporcionar e sustentar um ambiente propício para escuta, tomadas de consciência e movimentos de mudança de sujeitos (de) em relação.
- A projeção pela presença do terceiro elemento dos outros pacientes: a prática nos mostra que a observação do material do outro é bastante mobilizadora de questões individuais e coletivas. Mais uma vez, entendendo material de forma ampla: os materiais plásticos, todo o agir criativo e a imagem produzida pelo outro podem capturar o olhar do participante de um grupo de forma intensa. Além disto, esta oportunidade de observação mostra-se bastante enriquecedora na construção do sujeito em terapia.

Aqui reside uma grande especificidade da Arteterapia como técnica para grupos terapêuticos. E cabe ao arteterapeuta instrumentalizar-se para visualizar e manejar as possibilidades que se abrem a partir dela.

Este texto é um resumo de um dos temas abordados no curso “Grupos em Arteterapia” ao qual tenho me dedicado, no desejo de compartilhar o que pude aprender na prática com grupos arteterapêuticos e o posterior aprofundamento teórico. Em agosto se inicia a segunda turma deste curso presencial. E seu conteúdo foi adaptado e está sendo produzido em curso on line para os interessados pelo tema que estão longe geograficamente. Vai ser um prazer compartilhar com você este caminho de estudo e prática em Arteterapia!

Informações e inscrições para o curso presencial e online escreva para elianapsiarte@gmail.com

(1)   Veja textos anteriores
“Arteterapia ‘High Touch’ – Reflexões sobre o trabalho com grupos arteterapêuticos”
“Arteterapia em Grupo: Um depoimento”, “
Grupos Arteterapêuticos – Um estudo (Parte 2)”
“A arte como instrumento em grupos terapêuticos – Especificidades da Arteterapia”

(2)   Veja textos anteriores
“O manejo do fenômeno da projeção em Arteterapia (Parte I)”
“O manejo do fenômeno da projeção em Arteterapia (Parte II)

(3)   Veja minicurso on line “O fenômeno da projeção/transferência em Arteterapia” no site www.centrodehumanas.com.br
(4)   Sobre este tema, sempre cito e indico o livro “O encontro analítico: Transferência e Relacionamento Humano” Mario Jacoby
BIBLIOGRAFIA:
BRASIL, Claudia. Cores, Formas e Expressão: Emoção de lidar e Arteterapia na Clinica Junguiana. Ed. Wak. Rio de Janeiro, RJ. 2010.

SEI, Maíra Bonafé. GONÇALVES, Tatiana Fecchio. (Org). Arteterapia com Grupos: Aspectos teóricos e práticos. Ed. Casa do Psicólogo. São Paulo, SP. 2010.


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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A ARTE CONTEMPORÂNEA E A ARTETERAPIA

Por Flávia Hargreaves

B17 Bólide Vidro 5 (Homenagem a Mondrian)
1965 | Hélio Oiticica vidro, tela pintada, cimento, água e telas de nylon
Reprodução fotográfica Cortesia Galeria São Paulo
Fonte: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa48/helio-oiticica

Este texto traz uma reflexão sobre a palestra “Buscando potenciais na Arte Contemporânea na prática da Arteterapia”apresentada por mim em 08/07/2016 no II Ciclo de Palestras Não Palavra.

Nos últimos 3 anos minha pesquisa em torno do tema História da Arte e suas contribuições para a prática da Arteterapia se voltaram para a Arte Moderna, em especial os movimentos Dadá e Surrealismo e a Arte Abstrata.

Em 2016, retomo com outros olhos um estudo anterior quando trouxe a obra de Louise Bourgeois (1911-2010) e Jackson Pollock (1912-1956) para o Grupo de Estudos em Arteterapia, com Eliana Moraes (2009), que dei continuidade no projeto Ateliê para Arteterapeutas (2010). Revendo minha experiência em ateliê, em sala de aula e como arteterapeuta, percebo um campo imenso a ser explorado com relação aos potenciais da Arte Contemporânea para a nossa profissão.

Trabalho realizado no curso: "Conhecendo os Materiais e Aprendendo a Usá-los" 
a partir de texto sobre a obra de Louise Bourgeois. Junho 2016.

Mas quais seriam os diferenciais da Arte Contemporânea, para a qual, é importante destacar, muitos ainda torcem o nariz? Buscando definições no Google, encontro a enquete: “Afinal, o que é arte contemporânea?” no site itaucultural (VERUNCHK). Nela, Márcio Harum responde citando o pintor Honoré Daumier (1808-1873): “É preciso ser de seu tempo” e continua: “Preciso ser mesmo do meu tempo, mas que tempos são esses, afinal?” O que me leva a pensar no filme "Meia-noite em Paris"de Woody Allen (2011), para quem não viu, fica a dica.

Segundo Fernando Cochiarale (2007) “Um dos grandes obstáculos para entender a arte contemporânea é o fato de ela ter-se tornado parecida demais com a vida. [...]” e continua citando o crítico Thierry de Duve “[...] quando alguém estava diante de um quadro sabia que era arte, mas não se era belo. Ele diz que no mundo atual o ‘isto é belo?’ foi substituído pelo ‘isto é arte?’ Mas, na verdade, essa não é uma pergunta que se faça só para a arte.”

Segundo Sara Paín (2009), somente após a Arte Contemporânea podemos trazer o nome ARTE para a ARTETERAPIA, “porque a arte liberou-se de toda a norma canônica, de toda a obrigação que não emane das regras de jogo que o próprio artista inventou” e diz ainda que “[...] a arteterapia ajuda a compreender a arte contemporânea.”

Outras questões importantes são a participação ativa do espectador que é chamado para interagir com a obra, que muitas vezes está integrada a paisagem natural ou urbana. São muitas as mídias, as linguagens e os modos de expressão disponíveis, abrem-se as possibilidades.

Resumindo, estamos diante de uma Arte que ainda causa estranheza na sua recepção, “isto não é arte!”; nos obriga a rever a questão das habilidades na Arte, “não sou artista, não sei desenhar”; e ao aproximar a Arte da vida cotidiana nos autoriza, ampliando seus meios, “isso até eu posso fazer”. Voltando para a Arteterapia, a Arte Contemporânea se contrapõe a afirmações recorrentes como: “Arteterapia não tem nada a ver com Arte” ou “Eu não sou artista, não sei desenhar.”

Tive a oportunidade de testemunhar a mudança de atitude de muitos alunos dos cursos de formação em Arteterapia, onde sou professora da disciplina Ateliê de Artes e História da Arte, diante da Arte Contemporânea. Ao colocá-los diante de reproduções de obras dos séculos XVI a XIX e técnicas e materiais tradicionais de arte, houve um momento de encantamento e um sentimento de exclusão. “Isto eu não sou capaz de fazer.” A arte mostrou-se como algo distante, inatingível, a ser contemplada, fechada para a possibilidade do sujeito se experimentar como artista/autor. Na sequencia da aula os elementos foram substituídos por materiais dos mais diversos, apresentadas imagens de arte a partir dos anos 60 e dei um tema que poderia ser trabalhado com qualquer material e linguagem. Neste momento foi como se houvesse sido lançado um jato de energia, todos acordaram para a sua possibilidade de criar. Escreveram, pintaram, criaram sons com os celulares, realizaram performances, e, a partir daquele momento, todos se sentiram incluídos na possibilidade de criar. Em seus depoimentos disseram ter se sentido mais à vontade e livres, a arte estava próxima.

Voltando à citação “É preciso ser de seu tempo [...] mas que tempos são esses, afinal?”, acredito na importância de estar conectado com o seu tempo e para tanto é fundamental dialogar com a arte atual, que a propósito propõe exatamente esta relação dialógica deixando muitas questões em aberto, provocando o público a uma postura mais ativa. A experiência com a Arte Contemporânea colabora para o entendimento do fazer Arte no processo terapêutico e autoriza terapeuta e cliente a uma relação estreita com a Arte na sua prática. É importante destacar que quando uso o termo Arte, me refiro à Arte sim, mas excluo seus aspectos e implicações profissionais e de mercado.

Atualmente tenho desenvolvido este trabalho no “Ateliê de Artes para terapeutas”, cujo “ensaio” data de 2010, onde trabalho a partir do estudo de artistas contemporâneos explorando seus potenciais para a prática da Arteterapia em suas inúmeras articulações. Este estudo também está presente na minha abordagem dos materiais para a Arteterapia e na minha prática como arteterapeuta. Estarei compartilhando com vocês neste espaço os desdobramentos desta pesquisa teórica e prática, que ainda dá os seus primeiros passos.

Referências:
COCHIARALE, Fernando. QUEM TEM MEDO DE ARTE CONTEMPORÂNEA.  1º reimpressão. Fundação Joaquim Nabuco. Editora Massangana. Recife, 2007.
HARUM, Márcio. In: VERUNCHK, Micheliny. Afinal, o que é arte contemporânea? Disponível em <http://www.itaucultural.org.br/materiacontinuum/marco-abril-2009-afinal-o-que-e-arte-contemporanea/> Acessado em 28/06/2016.
PAÍN, Sara. Os Fundamentos da Arteterapia. Petrópolis. Ed. Vozes. 2009.
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