Por Isa Ramos – RJ
@psicologaisaramos
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Existem sentimentos que demoram para ganhar nome. Às vezes, a vida continua acontecendo normalmente por fora, enquanto por dentro algo já não encontra mais sentido da mesma forma e nem sempre conseguimos explicar isso. Talvez seja por isso que algumas músicas nos atravessam tanto. Não porque contam exatamente a nossa história, mas porque conseguem acessar emoções que ainda estavam silenciosas dentro de nós.
Foi assim que muitas pessoas se sentiram ao ouvir Shallow, de Lady Gaga. A música parece tocar justamente naquele vazio emocional difícil de explicar. Na sensação de estar vivendo na superfície enquanto uma parte interna pede profundidade, conexão e verdade.
"Tell me something, girl… are you happy in this modern world?" ("Me diga uma coisa… você está feliz neste mundo moderno?")
A pergunta da música parece simples, mas emocionalmente ela é enorme. Porque muitas pessoas aprenderam a funcionar no automático. Trabalham, cumprem responsabilidades, cuidam de todos ao redor e seguem a rotina normalmente, mas emocionalmente já não conseguem se sentir presentes dentro da própria vida.
Talvez seja exatamente por isso que a arte emocione tanto. Porque existem sentimentos que ainda não conseguimos dizer, mas conseguimos sentir quando uma música toca, quando uma cena de filme nos atravessa ou quando algo desperta emoções que estavam guardadas em silêncio dentro da gente. Às vezes, a arte alcança lugares que as palavras ainda não conseguiram alcançar.
Na Arteterapia, acredita-se que a expressão artística pode funcionar como uma ponte entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos comunicar. Nem sempre é fácil explicar uma emoção. Muitas vezes, sabemos que algo nos incomoda, nos entristece ou nos inquieta, mas não encontramos as palavras certas para traduzir essa experiência.
É justamente nesse espaço que a arte pode se tornar uma aliada. Seja por meio da música, da pintura, da escrita, da fotografia ou de outras formas de expressão. Ela oferece caminhos para que sentimentos encontrem uma forma de existir fora de nós e quando conseguimos olhar para uma emoção, ainda que através de uma música ou de uma imagem, começamos também a compreendê-la de maneira diferente.
Quem nunca ouviu uma canção e pensou: "É exatamente isso que eu estou sentindo"? Muitas vezes, a identificação acontece porque a música dá forma a algo que ainda estava confuso internamente. Ela organiza emoções, desperta memórias, resgata experiências e nos conecta com partes da nossa história que estavam esquecidas ou guardadas. Curiosamente, a mesma música pode ganhar significados completamente diferentes ao longo da vida. Uma canção que ouvimos na adolescência pode parecer apenas bonita. Anos depois, ao revisitá-la em outro momento da nossa história, ela pode nos emocionar profundamente, não porque a música mudou, mas porque nós mudamos.
As experiências que vivemos transformam a forma como escutamos o mundo. Uma perda, um recomeço, uma decepção, uma conquista ou até mesmo uma fase de maior amadurecimento emocional podem fazer com que determinadas letras passem a fazer sentido de uma maneira que antes não faziam.
Talvez seja por isso que tantas pessoas tenham uma música que marcou uma fase específica da vida. Ao ouvi-la novamente, não escutam apenas a melodia. Revivem lembranças, sensações, cheiros, lugares e versões de si mesmas que existiam naquele momento. A música tem essa capacidade de conectar passado e presente de uma forma muito singular.
E não é apenas a música. Quantas vezes um filme, uma fotografia, um livro ou uma obra de arte despertaram emoções que pareciam adormecidas? A arte possui uma linguagem própria, que muitas vezes ultrapassa aquilo que conseguimos explicar racionalmente.
Em uma sociedade que valoriza tanto a produtividade e as respostas rápidas, nem sempre encontramos espaço para sentir. Somos incentivados a resolver, superar, seguir em frente, mas as emoções não costumam funcionar nessa lógica. Algumas precisam de tempo. Outras precisam de acolhimento e algumas simplesmente precisam ser reconhecidas.
Nesse sentido, a arte nos oferece algo precioso: a possibilidade de pausar. De observar o que está acontecendo dentro de nós sem a obrigação imediata de mudar, corrigir ou controlar aquilo que sentimos. É um convite para a presença.
Talvez seja por isso que tantas pessoas encontrem conforto em determinadas músicas durante períodos difíceis. Não porque elas tragam soluções prontas, mas porque oferecem companhia emocional. De alguma forma, a pessoa percebe que aquilo que sente pode ser compartilhado, compreendido e acolhido.
Quando uma música nos emociona profundamente, ela pode estar funcionando como um espelho. Um espelho que reflete partes de nós que estavam esquecidas, silenciadas ou esperando o momento certo para serem vistas.
No caso de Shallow, a pergunta sobre felicidade e autenticidade continua ecoando justamente porque fala de uma busca que atravessa muitas histórias: a busca por viver de forma mais verdadeira, mais conectada consigo mesmo e menos presa às expectativas externas.
E talvez essa seja uma das maiores contribuições da arte para a saúde emocional: criar espaços de reflexão. Espaços onde não precisamos ter todas as respostas imediatamente. Espaços onde podemos apenas sentir, observar e, aos poucos, compreender melhor quem somos.
Porque, às vezes, antes mesmo de entendermos o que está acontecendo dentro de nós, uma música já encontrou o caminho.
Talvez seja por isso que certas músicas permanecem conosco por tantos anos. Elas não guardam apenas melodias ou letras. Guardam pedaços da nossa história, guardam emoções, lembranças e versões de nós mesmos que existiram em determinados momentos da vida.
No final das contas, talvez a arte não tenha a função de responder todas as perguntas. Talvez sua maior contribuição seja nos ajudar a fazer contato com aquilo que sentimos. E isso, por si só, já pode ser profundamente transformador.
Porque, às vezes, a música entende antes da gente.
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Sobre a autora: Isa Ramos
Psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as experiências já vividas percebi que poderia fazer mais pelo ser humano. Sendo assim, escolhi a Psicologia com o objetivo de acolher a dor do outro e acima de tudo impactar de forma positiva a vida das pessoas.


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