Por Camila Camargo da Silva
/SP
Olhe
ao seu redor por um instante. No metrô, bares, restaurantes e nas salas de
espera a cena se repete como um espelho coletivo: cabeças baixas, dedos num
correr sem fim em telas, fones de ouvido isolando o ambiente. Na era da hiper
conexão cruzamos oceanos virtualmente, acessamos dados e bibliotecas enquanto estamos
falando com pessoas em fusos horários diferentes. Mas por detrás desse
espetáculo tecnológico, um fenômeno silencioso e preocupante tem se instalando
em nós: a dessensibilização.
Mecanizados
pelo ritmo acelerado do mundo contemporâneo, estamos numa espécie de "modo
avião" desconectados da existência. Bombardeados por muito estímulo e pouca
presença. Como disse Byung-Chul Han em sua obra A Sociedade do
Cansaço:
"O
excesso de informação e de estímulos não enriquece a alma; ao contrário, ele a
embota. Vivemos em uma sociedade do cansaço e da hiperatividade, onde a
aceleração destrói a capacidade de contemplação e de escuta profunda de si
mesmo."
Nossos
sentidos anestesiados e afogados em informação; o toque é no vidro liso do
celular, o olhar estreitado em telas e o próprio corpo só é notado na dor
física ou se o mental grita por socorro. Desaprendemos a notar o peso de nossos
passos, a textura do que nos cerca e o ritmo da nossa respiração.
Essa
descolar do mundo e de si mesmo vai em busca de ambientes terapêuticos. Serviços
e dicas de bem-estar se infiltram no ambiente que aumenta o mal-estar.
Profissionais de saúde dispostos a ajudar e aliviar desgaste, cansaço e
ansiedade quase que pandêmicos. Para quem trabalha com Arteterapia isto criou o
grande desafio de não apenas entender o que o paciente vivencia, mas ajudá-lo a
voltar a sentir. No mundo em que sucesso e trabalho se apresentam como
o único caminho para a felicidade, pacientes intelectualizam e racionalizam
suas dores com maestria: sei que tenho ansiedade por conta do problema “Y” ou de
meu trauma “X". Mas o canal de
comunicação com a emoção está meio perdido. A palavra falada, que descreve para
explicar, fica racional demais e reforça a anestesia. É preciso mudar a rota.
É
na rachadura entre o mundo real e o digital que a arteterapia se faz urgente. Afastando-se
das exigências da estética ou da performance da "obra de arte
perfeita", o fazer artístico na terapia funciona como um ancoradouro
seguro. Torna-se a via suave de expressão de sentimentos e dores, armazenados
em áreas não-verbais do cérebro. A expressão criativa pelo desenho, pintura,
modelagem, escrita etc. convidam o paciente/cliente a sujar as mãos com argila,
sentir a resistência do giz de cera ou ver a imprevisibilidade da aquarela
escorrer pelo papel. E isto retira do plano abstrato da mente e devolve ao
reino dos sentidos. Para organizar o que está dentro, é importante primeiro
restabelecer contato com o que está fora.
Quando
um paciente atravessa a porta do ateliê terapêutico, imerso nessa anestesia
contemporânea, o contato com os materiais expressivos tende a disparar um
choque cultural interno. Adestrado na mesmice disfarçada de variedade nas telas
controladas pelos algoritmos, deslizar o dedo apaga erro; o filtro corrige
imperfeições. É o que faz a mente digitalizada buscar essa mesma
previsibilidade no papel. Aí o setting da arteterapia revela sua faceta
provocativa: a matéria resiste.
É
comum nas primeiras sessões observar a ansiedade frente ao real e concreto.
Diante de uma folha em branco, tintas e pincéis, o paciente por vezes paralisa
ou verbaliza um medo quase infantil: "E se eu errar? Tem como
apagar?". Na falta do Ctrl+Z no traço imperfeito, a frustração é imediata.
A aquarela que escorre sem pedir licença, o giz de cera que borra a margem que
limita, ou a argila que racha se for manuseada com pressa, são vistos,
inicialmente, como inimigos.
É
a reação que mostra como a dessensibilização e o imperativo da perfeição
digital andam de mãos dadas. Na vida mediada por telas, o erro se deleta, o
feio se camufla e o tempo é já. A psique humana escapa da lógica matemática ou
linear que se acredita infalível. Ao insistir no controle rígido, o paciente
tenta racionalizar o fazer artístico da mesma forma que racionaliza seus
sintomas. Ele quer um plano, uma técnica, um manual de instruções. Quando
percebe que a matéria exige entrega, o corpo reage: as mãos hesitam em se sujar
de tinta, o toque na argila é feito com a ponta dos dedos, quase com asco,
demonstrando a dificuldade de se deixar afetar pelo mundo físico. Nossas vivências
são multidimensionais e permitem que sentimentos que parecem opostos,
amor e raiva, medo e coragem, coexistam e coabitem.
Testemunhar
essa resistência é o ponto de partida do processo terapêutico. Momento de renunciar
ao intelecto defensivo e deixar o corpo falar. Como afirmava Carl Jung em O
Desenvolvimento da Personalidade:
"Muitas
vezes as mãos resolvem um enigma contra o qual o intelecto lutou em vão."
Sustentar
o desconforto da impossibilidade de apagar o traço, a obrigação de lidar com o
borrão e o exercício de olhar para o "imperfeito" são o ensaio geral
para a vida fora do ateliê terapêutico. Pois nossas escolhas, lutos e encontros
não têm botão de desfazer. Aceitando o erro no papel, o paciente/cliente aos
poucos vai tolerando falhas num pedacinho de sua história de vida.
Se
a mente contemporânea flutua na abstração das nuvens digitais, os materiais da
arteterapia funcionam como âncoras que a puxam de volta para a terra. Cada
textura, densidade e viscosidade oferece um tipo específico de convite ao
corpo. O material expressivo não é um suporte passivo para a mente; possui uma
linguagem própria, densidade e resistência que convocam o corpo do sujeito ao
diálogo. Ao tocar a matéria, o sujeito é, inevitavelmente, tocado por ela.
Manipulando
esses elementos o paciente é obrigado a abandonar o discurso racionalizado que
justifica, para entrar no reino da pura experiência sensorial.
Vou
procurar descrever como recursos tão distintos, como argila e colagem, operam
esse resgate:
A Argila e a Força do Enraizamento
A
argila é, por excelência, o material do confronto e da corporeidade. Diferente
do toque sutil em uma tela de vidro, a argila exige força física, peso e a
musculatura das mãos. Ela é fria, úmida e maleável, mas também impõe seus
limites.
Para
o paciente dessensibilizado, tocar a argila é um choque de realidade. Não dá
para moldá-la sem se sujar, e essa quebra da "limpeza digital" é
profundamente terapêutica. Ao amassar o barro, o paciente descarrega tensões
musculares crônicas que ele sequer notava que carregava. A argila ativa o tato
profundo (a nossa percepção do próprio corpo no espaço) e obriga o sujeito a
estar inteiramente ali: respirando o cheiro da terra, sentindo a temperatura
mudar com o calor das próprias mãos e dando contorno físico ao que antes era
apenas um vazio angustiante na mente. Na argila a forma vai saindo das mãos, ao
invés de chegar dura e já pronta para nossas retinas.
A Colagem e a Reorganização do Caos
Se
a argila convida ao transbordo e à força, a colagem atua na outra extremidade:
a da organização, do limite e da escolha. No mundo digital, somos bombardeados
por fragmentos de imagens que passam pelo nosso feed sem que possamos
digeri-los. A colagem desacelera esse processo, parando o carrossel.
Rasgar
uma revista, sentir a textura do papel que pode ser áspero, jornal ou papelão,
recortar e escolher onde fixar cada elemento é um exercício de foco e
discernimento. O paciente precisa usar as mãos de forma delicada e precisa.
Além disso, a colagem permite que ele pegue os "fragmentos" do mundo
e de si mesmo e os reorganize em um novo espaço com limites claros (as bordas
da folha). É um processo que ajuda a dar contorno e borda para quem se sente
psiquicamente transbordando ou diluído no infinito da internet.
A
matéria não aceita a pressa; ela impõe o próprio tempo. E, ao respeitar o tempo
do material, o paciente finalmente aprende a respeitar o tempo de si mesmo.
Em
um mundo que exige produtividade e respostas imediatas, o ateliê terapêutico
torna-se um "oásis de lentidão". Mais ou menos como a diferença entre
fast-food e cozinhar o que se quer comer. O papel do arteterapeuta não é o de
fornecer soluções rápidas como um algoritmo de rede social, mas o de sustentar
o tempo do fazer: o tempo de secar da tinta, o tempo do silêncio, o tempo da
tentativa e do erro.
Esse
cenário é descrito no conceito de "espaço potencial" trazido pelo
psicanalista Donald Winnicott em O Brincar e a Realidade:
"É
no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fluem em sua
liberdade criativa, e é na criatividade que o indivíduo descobre o si-mesmo
(Self)."
O
ambiente da arteterapia resgata justamente esse espaço sagrado do brincar e do
experimentar sem julgamentos. Nele, as telas são deixadas de lado para que o
sujeito recupere sua capacidade de ser afetado pelo mundo. Diante das cores que
se misturam e das formas que ganham vida, o paciente contemporâneo descobre que
não precisa estar blindado ou anestesiado para sobreviver.
Tocar
a matéria, sujar as mãos e aceitar os caminhos imprevistos da criação, são os
primeiros passos para que o indivíduo saia do "modo avião", reconecte
seus sentidos e volte a habitar, com presença, afeto, autoconhecimento e
bem-estar a sua própria história.
“A
arte não controla e não impõe. Se sente e vivência. O momento de criar é
silencioso, é um estado alterado de consciência” como
bem nos descreve a professora Selma Ciornai.
“Vivemos
a dessensibilização das nossas necessidades de contato que a mesma Selma
Ciornai cita no podcast Gestalt aberta #41 A Gestalt-terapia resiste ao
tempo?
E
você, como tem cuidado da sua presença no mundo hoje?
Que
tal fazer um pequeno combinado consigo mesmo e passar alguns minutos da sua
semana longe das telas, experimentando tocar a matéria seja cozinhando, pintando,
plantando ou arriscando alguns traços no papel? Compartilhe este artigo com
alguém que também esteja precisando desse "oásis de lentidão" e deixe
suas impressões nos comentários!
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Sobre a autora: Camila
Camargo
Idealizadora do Vidaadentro
e grata por ter conhecido a arte de recordar e preservar memórias (Scrapbook), que
me pôs no caminho que me trouxe até a Arteterapia, depois de ser Bacharel em Administração
de Empresas e pós-graduada em Negócios. Venho, passo a passo, procurando
aumentar a presença e a importância da expressão pela arte, como forma de
acolher o ser humano na busca da integração saudável com a natureza e as
pessoas.
Arteterapeuta formada pelo
Instituto Sedes Sapientiae (UBAAT 081239/0325), atuo na mediação de grupos
terapêuticos que acolhem mulheres em situação de violência doméstica. E sou
cofundadora da equipe multidisciplinar Psi+Arte, em que atuo oferecendo
atendimento clínico na modalidade online.




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