segunda-feira, 12 de outubro de 2026

OS CONTOS FOLCLÓRICOS E AS HISTÓRIAS LONGEVAS

 

“Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do pasado. A memória não é sonho é trabalho”.

Ecléa Bossi

                        Quem conto um conto aumenta um ponto... Frase bem conhecida de todos nós, porém no trabalho realizado com grupos de longevos essa dinâmica vai além de aumentar um ponto.

                        Ao trabalharmos com os contos folclóricos resgatamos memórias de tempos longínquos, das quais cada participante a revive como se estivesse ali, no momento acontecido.

                        A importância desse resgate é que além de ativarmos a memória sensorial afetiva, estimulamos a comunicação, a linguagem e a criatividade. Em cada história contada, algo mágico acontece, o grupo se une como se todos estivessem vivendo aquela situação compartilhada, estimulando assim o poder de fala de todos.

                        Era uma vez, uma história que chamou a minha atenção e a partir dela, resgatei memórias de um tempo distante... Tempo este que infelizmente não volta mais, mas que continua vivo através das minhas lembranças.

                        Todos temos histórias para contar... Todos temos memórias lindas para compartilhar e por que não fazemo-las através de livre associação com os contos folclóricos?



                        A "Chapelinho Vermelho"*, por exemplo, traz diversas lembranças afetivas, como a casa onde o participante nasceu, os bolos que comia quando criança e ainda fazem parte da sua história.

                        A figura das avós, na maioria das vezes, são lembradas como personas doce e afetuosas, tendo um papel muito importante na criação dos participantes.

                        Ainda conseguimos colocar o papel de avós no  grupo, questionando como eles eram ou ainda são com os seus netos. Conseguimos também elencar várias discussões, por exemplo, de como são as crianças de hoje em dia e como eram no início do século XX; o que mudou na relação (crianças e mundo), como eram as brincadeiras... Enfim, temos material de sobra para explorar não só a mente, mas as expressões visual, corporal e escrita.

                        O poder da fala, através das lembranças trazem benefícios como identidade, visibilidade, pertencimento, linguagem, escuta, partilha.

 

                        Quando solicitamos que contem as suas histórias, percebemos mudanças no humor, na postura corporal, no tônus muscular. A cada momento que as histórias são contadas propiciamos aos nossos atendidos momentos de satisfação e criatividade.

                        Ao solicitarmos uma expressão visual vemos lindas imagens de jardins, de casas antigas... A reprodrução tenta ser fiel ao que vivenciaram e mesmo para aqueles idosos com comprometimento cognitivo mais severo, vemos a representação de flores, cores de suas casas saindo nas paredes da silhuetas oferecidas e a comunicação continua na pintura e no verbal.

                        Em alguns atendidos não é a cor ou o traço, é o nome de um ente querido.

 

 

                        Traz a lembrança da casa simples, mas que tinha um piano na sala principal para que a filha pudesse tocar, e agora não toca mais.

 

          

            Ou a lembrança da casa é tão boa, que o atendido quer representá-la em todos os seus detalhes.


                       

                        Ou ainda aquilo que não pode ser expresso, mas pode ser contado, como: “eu aprendi a fazer bolo com a minha avó... Quando eu chegava na casa dela, tinha aquele bolo de chocolate, maravilhoso, me esperando. A minha avó cozinhava muito bem, mas eu não. Os meus bolos (coloca a mão na boca) solam... Não crescem... (risos) ficam horríveis (risos) e esse é um dos motivos de eu não ir tanto para a cozinha para cozinhar, mas para comer... (risos altos) para comer pode me chamar que eu vou”...

                        São essas lembranças que fazem com que eles sintam-se pertencentes a esse mundo onde se valoriza a juventude, o efêmero e se despreza a simplicidade de viver.

                        E para aqueles que são mais preservados podemos solicitar a escrita dessas histórias.

                        Já para o profissional mais ousado, pode-se propor que os participantes recontem essas histórias através de exercícios/improvisação ou até mesmo uma esquete teatral.

*O Conto “Chapelinho Vermelho” leva esse nome por ser um conto oral, resgatado por Luís da Câmara Cascudo.


Referências Bibliográficas 

BERNADES, Claudine e GAMA, Flávia. Contos que curam.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos.

CASCUDO, Luís da Câmara. Contos Tradicionais Brasileiros.

CIORNAI, Selma. Percursos em Arteterapia.

                           . Arteterapia no processo de envelhecimento.

CORALINA, Cora. De medo e assombração.

CARRANO, Eveline e REQUIÃO, Maria Helena. Materiais de Arte.

JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação.

 

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Sobre a autora: Milena Cavalheiro de Siqueira 



É atriz, arteterapeuta, estimuladora cognitiva e mestranda em Gerontologia. Trabalha em ILPI’s desde 2017. O trabalho desenvolvido com idosos surgiu de maneira inesperada e apaixonante. Realiza atendimentos em Clínica de transtornos alimentares e já trabalhou em clínica de desospitalização com atendidos de diversas idades, ampliando a sua visão sobre as possibilidades de ampliação no campo da Arteterapia e expansão da criatividade.

É movida pela arte. Adora compartilhar conhecimento.

Atendimentos: individual, em grupos. Hoje facilita grupos de estudo sobre Arteterapia e Envelhecimento.

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