Por Isa Ramos – RJ
@psicologaisaramos
Site:www.psicologaisaramos.com.br
“E se eu fizer errado?”
Para algumas pessoas, essa pergunta
aparece antes de quase tudo. Antes de começar um projeto, falar em uma reunião,
fazer um curso, aprender alguma coisa nova ou até mesmo tentar uma atividade
por diversão.
O medo de errar pode ser tão grande
que, muitas vezes, a pessoa prefere nem tentar.
Ela pensa demais, planeja, pesquisa,
compara, espera o momento certo e tenta se preparar o máximo possível, mesmo
assim, sente que nunca está pronta.
E é aí que o perfeccionismo pode
começar a atrapalhar.
Ser uma pessoa cuidadosa, responsável
e gostar de fazer as coisas bem não é um problema. A dificuldade aparece quando
a pessoa sente que precisa fazer tudo muito bem o tempo todo e que qualquer
erro pode significar que ela não é boa o suficiente.
Nesse caso, errar deixa de ser apenas
errar.
O erro passa a parecer uma prova de
incapacidade.
E quando isso acontece, experimentar
algo novo pode se tornar muito difícil.
Imagine, por exemplo, alguém que
sempre quis aprender a pintar. Ela compra os materiais, escolhe algumas
referências e começa a pesquisar técnicas, mas, quando chega o momento de
colocar a tinta no papel, pensa: “Eu não sei fazer isso”, “Vai ficar feio”,
“Não tenho talento para isso”.
Talvez ela nem comece.
Ou comece e apague tudo na primeira
tentativa.
Ou fique comparando o que fez com
trabalhos de outras pessoas e conclua que nunca vai conseguir.
Perceba que, nesse caso, o problema
não está necessariamente na pintura. Está na relação que essa pessoa tem com o
erro e com a própria cobrança.
Isso também pode acontecer em outras
áreas da vida.
Uma pessoa pode querer mudar de
emprego, mas ter medo de não dar conta. Pode querer começar um curso, mas
pensar que deveria saber mais antes de entrar. Pode ter uma ideia e não
compartilhar porque acha que ainda não está boa o suficiente.
Também pode acontecer nos
relacionamentos.
Algumas pessoas têm tanto medo de
falar algo errado, decepcionar ou serem julgadas que acabam pensando demais
antes de se posicionar. Outras tentam ser a pessoa perfeita para todo mundo e
se sentem muito mal quando percebem que não conseguiram agradar.
Aos poucos, a vida pode ficar cheia de
regras.
“Tenho que fazer certo.”
“Tenho que dar conta.”
“Não posso demonstrar insegurança.”
“Preciso estar preparado.”
“Não posso decepcionar ninguém.”
E, com tantas regras, experimentar
fica cada vez mais difícil.
Afinal, experimentar significa não
saber exatamente o que vai acontecer.
E é justamente isso que o
perfeccionismo costuma tentar evitar.
Quando errar parece algo muito maior
do que realmente é
Errar faz parte de aprender.
Quando uma criança está aprendendo a
andar, ela cai. Quando alguém está aprendendo um idioma, troca palavras. Quando
uma pessoa começa a cozinhar, algumas receitas não dão certo.
Ninguém espera que alguém seja
excelente em algo que acabou de começar.
Mas, quando existe uma cobrança muito
grande, a pessoa pode esquecer disso.
Ela pode olhar para o próprio erro e
pensar:
“Eu deveria saber fazer isso.”
“Todo mundo consegue, menos eu.”
“Eu sou muito ruim nisso.”
“Se eu errar, vão perceber que não sou
tão bom quanto imaginam.”
O erro deixa de ser visto como uma
parte do processo e passa a ser visto como algo que precisa ser evitado a
qualquer custo.
Isso pode levar à procrastinação, à
insegurança e até à desistência.
É mais fácil não tentar do que tentar
e descobrir que não conseguiu fazer exatamente como imaginava.
Só que existe um problema nessa
estratégia: quando evitamos errar, também evitamos aprender.
E onde entra a Arteterapia?
A Arteterapia pode ser um espaço
interessante para trabalhar essa relação com o erro porque a proposta não
precisa estar ligada a fazer algo bonito ou perfeito.
Uma atividade artística pode ser usada
para experimentar.
Pode ser desenhar, pintar, trabalhar
com colagem, argila, escrita ou outros materiais. O objetivo não é avaliar se a
pessoa tem talento artístico.
O mais importante pode estar no
processo.
Por exemplo: o que acontece quando
você recebe uma folha em branco e não sabe o que fazer?
Você fica nervoso?
Pergunta o que deveria desenhar?
Fica tentando imaginar qual seria a
resposta certa?
Tem vontade de desistir?
Começa e apaga várias vezes?
Fica comparando seu trabalho com o de
outras pessoas?
Ou consegue simplesmente começar?
Essas pequenas situações podem trazer
informações importantes sobre a forma como a pessoa lida com a cobrança e com o
medo de errar.
Talvez ela perceba que precisa ter
certeza antes de começar.
Talvez perceba que fica muito
incomodada quando algo sai diferente do planejado.
Talvez descubra que tem dificuldade de
aceitar uma produção que não ficou exatamente como imaginava.
E isso pode abrir espaço para
conversar sobre outras situações da vida.
Porque a forma como lidamos com uma
atividade pode ser parecida com a forma como lidamos com outras experiências.
Uma pessoa que não consegue começar um
desenho porque não sabe se ficará bom pode também ter dificuldade para começar
um projeto no trabalho.
Quem apaga várias vezes uma produção
porque não ficou perfeita pode fazer algo parecido com suas próprias escolhas,
sempre pensando que poderia ter feito melhor.
Quem precisa saber exatamente o que
fazer antes de começar pode ter muita dificuldade quando a vida apresenta
situações que não podem ser totalmente planejadas.
É importante deixar claro que não
existe uma interpretação pronta para cada desenho ou atividade.
Uma cor não significa necessariamente
uma coisa. Um desenho não possui um significado único.
O que importa é o que aquela
experiência representa para a própria pessoa e o que ela percebe durante o
processo.
Por isso, algumas perguntas podem ser
mais importantes do que o resultado:
“O que você sentiu enquanto fazia?”
“O que passou pela sua cabeça quando
não ficou como esperava?”
“Você teve vontade de continuar ou de
desistir?”
“Você conseguiu aceitar que poderia
ficar diferente do que imaginou?”
“Você percebeu alguma cobrança em
você?”
Essas perguntas podem ajudar a pessoa
a olhar para si de uma maneira diferente.
Nem tudo precisa sair perfeito
Talvez uma das maiores dificuldades
para quem vive o perfeccionismo seja entender que fazer algo de forma diferente
do esperado não significa necessariamente que aquilo deu errado.
Às vezes, simplesmente ficou
diferente.
E tudo bem.
Uma atividade pode não ficar bonita.
Uma ideia pode precisar ser
modificada.
Uma apresentação pode não sair
exatamente como planejado.
Uma conversa pode ter algumas falhas.
Um projeto pode precisar ser refeito.
Isso não significa que a pessoa
fracassou.
Significa que ela está vivendo uma
experiência real, em que nem tudo está sob seu controle.
Na terapia, aprender a lidar melhor
com isso pode ser um processo importante.
Não significa deixar de se importar ou
passar a fazer tudo de qualquer jeito.
Significa conseguir fazer o melhor
possível sem transformar cada erro em uma prova de que você não é capaz.
Também significa permitir-se aprender.
Porque ninguém começa sabendo.
E talvez seja justamente essa ideia
que uma pessoa muito perfeccionista precise experimentar: não é necessário
saber fazer perfeitamente para começar.
É possível começar sem ter certeza.
É possível aprender no caminho.
É possível mudar de ideia.
É possível fazer de outro jeito.
E é possível errar sem transformar
aquele erro em uma definição sobre quem você é.
O que você faria se não tivesse medo
de errar?
Essa pode ser uma pergunta simples,
mas muito importante.
Se você tivesse certeza de que ninguém
iria rir, criticar ou julgar, o que teria vontade de experimentar?
Qual curso faria?
Que projeto começaria?
Que ideia colocaria em prática?
Que atividade faria apenas por prazer,
sem precisar ser bom nela?
Talvez algumas respostas apareçam.
E talvez elas mostrem que, por trás do
medo de errar, existem muitas coisas que a pessoa gostaria de viver.
O problema é que, quando a necessidade
de acertar é muito grande, a pessoa pode passar tanto tempo tentando evitar o
erro que acaba deixando de experimentar.
A Arteterapia pode ajudar justamente
nesse caminho de experimentar, observar e refletir.
Sem precisar acertar.
Sem precisar produzir algo perfeito.
Sem precisar provar nada.
Afinal, nem tudo na vida precisa virar
uma avaliação sobre o nosso desempenho.
Algumas coisas podem simplesmente ser
vividas.
E talvez aprender a experimentar sem
exigir perfeição seja uma forma de abrir espaço para mais liberdade,
curiosidade e leveza no dia a dia.
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Sobre a autora: Isa Ramos
Meu nome é Isa Ramos, sou psicóloga
atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação
em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão
Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI –
Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança
Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as

