segunda-feira, 5 de outubro de 2026

PERFECCIONISMO E O MEDO DE ERRAR: O QUE ACONTECE QUANDO A PESSOA NÃO CONSEGUE SIMPLESMENTE EXPERIMENTAR



Por Isa Ramos – RJ

@psicologaisaramos

Site:www.psicologaisaramos.com.br


“E se eu fizer errado?”

Para algumas pessoas, essa pergunta aparece antes de quase tudo. Antes de começar um projeto, falar em uma reunião, fazer um curso, aprender alguma coisa nova ou até mesmo tentar uma atividade por diversão.

O medo de errar pode ser tão grande que, muitas vezes, a pessoa prefere nem tentar.

Ela pensa demais, planeja, pesquisa, compara, espera o momento certo e tenta se preparar o máximo possível, mesmo assim, sente que nunca está pronta.

E é aí que o perfeccionismo pode começar a atrapalhar.

Ser uma pessoa cuidadosa, responsável e gostar de fazer as coisas bem não é um problema. A dificuldade aparece quando a pessoa sente que precisa fazer tudo muito bem o tempo todo e que qualquer erro pode significar que ela não é boa o suficiente.

Nesse caso, errar deixa de ser apenas errar.

O erro passa a parecer uma prova de incapacidade.

E quando isso acontece, experimentar algo novo pode se tornar muito difícil.

Imagine, por exemplo, alguém que sempre quis aprender a pintar. Ela compra os materiais, escolhe algumas referências e começa a pesquisar técnicas, mas, quando chega o momento de colocar a tinta no papel, pensa: “Eu não sei fazer isso”, “Vai ficar feio”, “Não tenho talento para isso”.

Talvez ela nem comece.

Ou comece e apague tudo na primeira tentativa.

Ou fique comparando o que fez com trabalhos de outras pessoas e conclua que nunca vai conseguir.

Perceba que, nesse caso, o problema não está necessariamente na pintura. Está na relação que essa pessoa tem com o erro e com a própria cobrança.

Isso também pode acontecer em outras áreas da vida.

Uma pessoa pode querer mudar de emprego, mas ter medo de não dar conta. Pode querer começar um curso, mas pensar que deveria saber mais antes de entrar. Pode ter uma ideia e não compartilhar porque acha que ainda não está boa o suficiente.

Também pode acontecer nos relacionamentos.

Algumas pessoas têm tanto medo de falar algo errado, decepcionar ou serem julgadas que acabam pensando demais antes de se posicionar. Outras tentam ser a pessoa perfeita para todo mundo e se sentem muito mal quando percebem que não conseguiram agradar.

Aos poucos, a vida pode ficar cheia de regras.

“Tenho que fazer certo.”

“Tenho que dar conta.”

“Não posso demonstrar insegurança.”

“Preciso estar preparado.”

“Não posso decepcionar ninguém.”

E, com tantas regras, experimentar fica cada vez mais difícil.

Afinal, experimentar significa não saber exatamente o que vai acontecer.

E é justamente isso que o perfeccionismo costuma tentar evitar.

Quando errar parece algo muito maior do que realmente é

Errar faz parte de aprender.

Quando uma criança está aprendendo a andar, ela cai. Quando alguém está aprendendo um idioma, troca palavras. Quando uma pessoa começa a cozinhar, algumas receitas não dão certo.

Ninguém espera que alguém seja excelente em algo que acabou de começar.

Mas, quando existe uma cobrança muito grande, a pessoa pode esquecer disso.

Ela pode olhar para o próprio erro e pensar:

“Eu deveria saber fazer isso.”

“Todo mundo consegue, menos eu.”

“Eu sou muito ruim nisso.”

“Se eu errar, vão perceber que não sou tão bom quanto imaginam.”

O erro deixa de ser visto como uma parte do processo e passa a ser visto como algo que precisa ser evitado a qualquer custo.

Isso pode levar à procrastinação, à insegurança e até à desistência.

É mais fácil não tentar do que tentar e descobrir que não conseguiu fazer exatamente como imaginava.

Só que existe um problema nessa estratégia: quando evitamos errar, também evitamos aprender.

E onde entra a Arteterapia?

A Arteterapia pode ser um espaço interessante para trabalhar essa relação com o erro porque a proposta não precisa estar ligada a fazer algo bonito ou perfeito.

Uma atividade artística pode ser usada para experimentar.

Pode ser desenhar, pintar, trabalhar com colagem, argila, escrita ou outros materiais. O objetivo não é avaliar se a pessoa tem talento artístico.

O mais importante pode estar no processo.

Por exemplo: o que acontece quando você recebe uma folha em branco e não sabe o que fazer?

Você fica nervoso?

Pergunta o que deveria desenhar?

Fica tentando imaginar qual seria a resposta certa?

Tem vontade de desistir?

Começa e apaga várias vezes?

Fica comparando seu trabalho com o de outras pessoas?

Ou consegue simplesmente começar?

Essas pequenas situações podem trazer informações importantes sobre a forma como a pessoa lida com a cobrança e com o medo de errar.

Talvez ela perceba que precisa ter certeza antes de começar.

Talvez perceba que fica muito incomodada quando algo sai diferente do planejado.

Talvez descubra que tem dificuldade de aceitar uma produção que não ficou exatamente como imaginava.

E isso pode abrir espaço para conversar sobre outras situações da vida.

Porque a forma como lidamos com uma atividade pode ser parecida com a forma como lidamos com outras experiências.

Uma pessoa que não consegue começar um desenho porque não sabe se ficará bom pode também ter dificuldade para começar um projeto no trabalho.

Quem apaga várias vezes uma produção porque não ficou perfeita pode fazer algo parecido com suas próprias escolhas, sempre pensando que poderia ter feito melhor.

Quem precisa saber exatamente o que fazer antes de começar pode ter muita dificuldade quando a vida apresenta situações que não podem ser totalmente planejadas.

É importante deixar claro que não existe uma interpretação pronta para cada desenho ou atividade.

Uma cor não significa necessariamente uma coisa. Um desenho não possui um significado único.

O que importa é o que aquela experiência representa para a própria pessoa e o que ela percebe durante o processo.

Por isso, algumas perguntas podem ser mais importantes do que o resultado:

“O que você sentiu enquanto fazia?”

“O que passou pela sua cabeça quando não ficou como esperava?”

“Você teve vontade de continuar ou de desistir?”

“Você conseguiu aceitar que poderia ficar diferente do que imaginou?”

“Você percebeu alguma cobrança em você?”

Essas perguntas podem ajudar a pessoa a olhar para si de uma maneira diferente.

Nem tudo precisa sair perfeito

Talvez uma das maiores dificuldades para quem vive o perfeccionismo seja entender que fazer algo de forma diferente do esperado não significa necessariamente que aquilo deu errado.

Às vezes, simplesmente ficou diferente.

E tudo bem.

Uma atividade pode não ficar bonita.

Uma ideia pode precisar ser modificada.

Uma apresentação pode não sair exatamente como planejado.

Uma conversa pode ter algumas falhas.

Um projeto pode precisar ser refeito.

Isso não significa que a pessoa fracassou.

Significa que ela está vivendo uma experiência real, em que nem tudo está sob seu controle.

Na terapia, aprender a lidar melhor com isso pode ser um processo importante.

Não significa deixar de se importar ou passar a fazer tudo de qualquer jeito.

Significa conseguir fazer o melhor possível sem transformar cada erro em uma prova de que você não é capaz.

Também significa permitir-se aprender.

Porque ninguém começa sabendo.

E talvez seja justamente essa ideia que uma pessoa muito perfeccionista precise experimentar: não é necessário saber fazer perfeitamente para começar.

É possível começar sem ter certeza.

É possível aprender no caminho.

É possível mudar de ideia.

É possível fazer de outro jeito.

E é possível errar sem transformar aquele erro em uma definição sobre quem você é.

O que você faria se não tivesse medo de errar?

Essa pode ser uma pergunta simples, mas muito importante.

Se você tivesse certeza de que ninguém iria rir, criticar ou julgar, o que teria vontade de experimentar?

Qual curso faria?

Que projeto começaria?

Que ideia colocaria em prática?

Que atividade faria apenas por prazer, sem precisar ser bom nela?

Talvez algumas respostas apareçam.

E talvez elas mostrem que, por trás do medo de errar, existem muitas coisas que a pessoa gostaria de viver.

O problema é que, quando a necessidade de acertar é muito grande, a pessoa pode passar tanto tempo tentando evitar o erro que acaba deixando de experimentar.

A Arteterapia pode ajudar justamente nesse caminho de experimentar, observar e refletir.

Sem precisar acertar.

Sem precisar produzir algo perfeito.

Sem precisar provar nada.

Afinal, nem tudo na vida precisa virar uma avaliação sobre o nosso desempenho.

Algumas coisas podem simplesmente ser vividas.

E talvez aprender a experimentar sem exigir perfeição seja uma forma de abrir espaço para mais liberdade, curiosidade e leveza no dia a dia.

 

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Sobre a autora: Isa Ramos



Meu nome é Isa Ramos, sou psicóloga atuando na área clínica e formada em Administração. Concluí uma Pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Positiva, um MBA em Gestão Empresarial e uma Pós-graduação em Gestão de Sistemas Integrados em QSMS/SGI – Qualidade, Saúde, Meio ambiente e Segurança

Trilhei toda a minha caminhada profissional em corporações de médio e grande porte gerindo pessoas e administrando conflitos, porém ao percorrer essa jornada e com as