segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O JOGO DE PINTAR, O CLOSLIEU E AS CONTRIBUIÇÕES PARA A ARTETERAPIA

 


Por Soraya Lucato

“Heureux comme un enfant qui peint” (“Feliz como uma criança que pinta”). Esta frase de Arno Stern resume a essência do Jogo de Pintar realizado no Closlieu — ou Cloliê: um espaço de felicidade que nasce da satisfação de uma necessidade humana fundamental: desenhar.

Ao traçar, a criança — e também o adulto que reencontra sua criança interna — toma consciência de suas próprias faculdades, reconhece a si mesmo e fortalece uma autonomia que, muitas vezes, a sociedade tenta limitar. O desenho, nesse contexto, não aparece como exercício artístico ou produção estética, mas como manifestação vital do ser humano.

Como o próprio nome indica, o Closlieu é um “lugar abrigado”. Trata-se de um espaço cuidadosamente concebido para o Jogo de Pintar, onde cada detalhe responde não a escolhas decorativas, mas a necessidades biológicas, corporais e sensoriais. É um ambiente sem janelas para o exterior, com iluminação e clima permanentes. Essa estabilidade técnica cria o que Stern chama de “estabilidade estrutural”.

Quando conheci Stern e a Semiologia da Expressão, em 2010, compreendi que, para o ser humano expressar-se em profundidade, não devemos corrigi-lo, conduzi-lo ou interpretá-lo constantemente. Precisamos, antes, criar as condições necessárias para que ele possa reencontrar aquilo que já existe dentro de si. O Jogo de Pintar revelou-se, para mim, como uma experiência profunda de auto regulação, presença e reconexão com a própria natureza humana.

Acreditar que uma criança — ou um adulto — quando protegido do julgamento e acolhido com dignidade, é capaz de reorganizar-se internamente e expressar algo essencial de si, representa um contraponto sensível à lógica de controle, desempenho e excesso de estímulos que atravessa a vida contemporânea. No Closlieu, não se busca resultado, interpretação ou análise da imagem. Busca-se oferecer um território seguro onde o gesto possa existir sem medo.

Minha trajetória de dezesseis anos como facilitadora (servant) e, hoje, como difusora direta desses estudos na América do Sul, tem sido atravessada por essa escuta do humano em sua dimensão mais profunda. Adaptar o rigor do Closlieu à densidade dos nossos territórios brasileiros e à vitalidade da nossa cultura não significou suavizar seus fundamentos, mas fortalecer sua potência terapêutica. O Closlieu brasileiro tornou-se, para mim, um espaço de resistência sensível, onde a precisão do material e a delicadeza da presença sustentam o direito à expressão livre de expectativas externas.

Embora o Jogo de Pintar não tenha sido concebido originalmente como prática arteterapêutica, sua estrutura oferece contribuições extremamente valiosas para a Arteterapia contemporânea. O Cloliê amplia a compreensão sobre o cuidado, a expressão espontânea e a construção de um espaço terapêutico verdadeiramente protegido.

Uma de suas maiores contribuições está na criação de um ambiente estável e previsível. A permanência da organização espacial, dos materiais, da iluminação e dos rituais oferece ao sistema nervoso uma sensação profunda de segurança. Para o arteterapeuta, essa compreensão transforma a maneira de pensar o setting terapêutico: o espaço deixa de ser apenas um local de atendimento e passa a atuar diretamente como elemento regulador da experiência emocional e corporal.

O Cloliê também auxilia o profissional a desenvolver uma presença menos invasiva e mais sustentadora. A postura do servant ensina que nem todo processo precisa ser conduzido, interpretado ou estimulado verbalmente. Muitas vezes, o que permite a emergência da expressão é justamente a qualidade silenciosa da presença. Essa perspectiva enriquece profundamente a prática arteterapêutica, especialmente em atendimentos com crianças, pessoas neuro divergentes, indivíduos traumatizados ou sujeitos que tiveram sua espontaneidade interrompida pelo excesso de controle externo.



Entretanto, talvez a maior contribuição do Jogo de Pintar para a Arteterapia esteja na compreensão do desenho a partir da Formulação. Na perspectiva desenvolvida por Stern, os traços que emergem no Jogo de Pintar não são entendidos como produções artísticas nem como representações simbólicas destinadas à interpretação. Eles pertencem à Formulação — manifestação de uma memória orgânica, portanto corporal e universal presente no ser humano.

Os códigos basais da Formulação são materializações dos gestos que o corpo humano aprendeu a realizar ao longo da existência da própria espécie humana. Esses movimentos fundamentais, registrados na memória orgânica desde a vida intrauterina, constituem a base de toda construção gráfica posterior.

A Formulação não pertence apenas à história individual de quem pinta. Ela pertence antes de tudo à espécie humana. Está ligada a uma memória ancestral do gesto, presente no próprio DNA humano, anterior à cultura, à linguagem e aos sistemas simbólicos. Por isso, determinadas figuras, ritmos e organizações gráficas emergem de forma recorrente em diferentes povos, tempos e contextos, independentemente de aprendizado técnico ou influência estética.

É a partir desses gestos primordiais que o ser humano desenvolve infinitas possibilidades de expressão. Antes do símbolo, antes da narrativa e antes da intenção de comunicar algo ao outro, existe o traço como necessidade corporal e vital. O desenho surge, primeiro, como manifestação do movimento humano em sua dimensão mais profunda.

O ato de traçar é, portanto, o registro visível de um gesto que o corpo da espécie aprendeu e continua precisando expressar. Cada linha, repetição, ritmo ou organização espacial carrega essa memória motora ancestral. O desenho, nessa perspectiva, não nasce inicialmente para representar o mundo externo, mas para responder a uma necessidade interna de inscrição, movimento e existência.

O corpo vem antes de tudo — e o desenho não escapa a essa origem. Antes de se tornar instrumento de comunicação, narrativa ou representação simbólica, o desenho é uma experiência física. É prolongamento do gesto, da respiração, do ritmo corporal e da presença no espaço.

Certamente, essa é uma das maiores contribuições de Stern: revelar que o desenho não começa na imagem, mas no corpo. Não começa no significado, mas no movimento. E compreender isso transforma profundamente a maneira como nos relacionamos com a expressão humana.

Para o arteterapeuta, essa compreensão produz uma mudança profunda de olhar. O profissional aprende a observar o processo expressivo em sua dimensão mais orgânica: o gesto, a repetição, o ritmo, a ocupação do espaço, a relação corporal com o suporte e a permanência de determinadas estruturas gráficas ao longo do tempo.

Nem toda imagem deseja ser traduzida em palavras. Muitas vezes, o excesso de leitura simbólica interrompe uma experiência que precisa permanecer no campo do vivido, do sensorial e do espontâneo. A Formulação nos lembra que existe uma inteligência do traço anterior à linguagem racional.

Outro aspecto fundamental é o reconhecimento da repetição como necessidade estruturante e não como bloqueio criativo. No Jogo de Pintar, formas e movimentos retornam porque participam de processos profundos de organização interna.

Diferente de um ateliê convencional, as paredes do Closlieu não funcionam apenas como divisórias. Elas se tornam parte viva do jogo. Recobertas por camadas de papel e vestígios de cores deixados ao longo do tempo, transformam-se em uma espécie de “pele” do ateliê — uma memória silenciosa das presenças e dos gestos.

Essas paredes sustentam o papel na altura adequada ao corpo do pintante, permitindo que o movimento aconteça de maneira livre e orgânica. O suporte vertical favorece a participação do corpo inteiro no ato de pintar. A gravidade auxilia o braço a encontrar firmeza e fluidez no traço, evitando tensões frequentemente causadas pela posição horizontal de uma mesa.

No Jogo de Pintar, o corpo não é separado do desenho. O gesto nasce inteiro: do movimento, da respiração, da presença e da necessidade profunda de deixar marcas.

O suporte vertical, a liberdade gestual e a participação do corpo inteiro no ato de pintar oferecem contribuições importantes para práticas arteterapêuticas voltadas à integração sensório-motora. O corpo deixa de ser apenas instrumento da expressão e passa a atuar como território ativo de reorganização emocional, relacional e perceptiva.

Além disso, o Jogo de Pintar e o espaço Cloliê mostram ao arteterapeuta a importância de proteger o espaço da comparação, da avaliação e da exposição. Em uma sociedade marcada pela performance e pela necessidade constante de validação, criar um território onde a pessoa possa existir sem precisar corresponder torna-se, por si só, um gesto terapêutico profundamente reparador.

Talvez seja justamente aí que reside a força mais silenciosa do Jogo de Pintar: recordar ao ser humano que ele não precisa produzir imagens para ser aceito, nem transformar sua expressão em linguagem compreensível para o outro. Existe um saber no gesto que antecede a explicação. Existe uma inteligência no corpo que se organiza enquanto traça.

O Jogo de Pintar nos convida, portanto, a retornar ao essencial: ao movimento, à presença, ao ritmo e à experiência de existir através do traço.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LUCATO, Soraya. Desenho Ancestral - Introdução aos estudos de Arno Stern e outras teorias sobre o desenho espontâneo. São Paulo - e-book Amazon

STERN, Arno. Heureux comme un enfant qui peint. Paris: Éditions du Rocher, 2005.


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Sobre a autora: Soraya Lucato



Arteterapeuta, artista plástica e arte-educadora


5 comentários:

  1. Além de trazer informações valiosas, teu texto é de extrema sensibilidade. Absolutamente necessário para repensarmos práticas escolares e modelos de sociedade que as redes sociais têm estimulado e valorizado. Obrigada por trazer e traduzir este maravilhoso trabalho

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  2. Muito bom! Acredito na potência do clolie e do jogo de pintar com o trabalho do arteterapeuta, ambos se complementam e se potencializam.

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  3. Já tive a oportunidade de ser pintante e a experiência é incrível, fui tomada por uma paz tremenda. Mesmo sem saber o que fazer, o desenho flui de maneira leve e prazerosa.

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  4. Muito rico esta visão do jogo de pintar para nossa conduta arteterapêutica e de vida!

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  5. Sou Servant, e arteterapeuta, vivencio semanalmente este embalar dos traços, cores e movimentos no jogo de pintar. E sei o quanto é potente e profundo unir o olhar do Arteterapia a essa experiência. Compreender a essência humana no caminho da expressão, sem julgamento, sem a necessidade de produto final, apenas por se permitir viver o momento, a liberdade, e o ambiente organizador em meio a tantas tintas e água, é surpreendente.

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