segunda-feira, 18 de julho de 2016

ARTETERAPIA E NOVAS MIDIAS – Rompendo as fronteiras da geografia



Por Eliana Moraes
elianapsiarte@gmal.com


O blog Não Palavra nasceu em 2013 a partir do meu desejo de compartilhar meu dia a dia de estudo e prática da Arteterapia. Esta empreitada que começou como um diário de bordo, já trazia em seu codinome “Pensando a Arteterapia” a linha mestra deste desejo. A palavra “pensando” colocada no gerúndio, demonstra a premissa a partir da qual me autorizei a iniciar este ousado projeto: este é um caminho de reflexão, um processo, não há nada pronto e isto inclusive me permite escrever e mais a frente me desdizer se for necessário.

De fato, com este propósito em mente, eu não poderia caminhar sozinha. Com o passar do tempo ganhei como parceiras diretas Flávia Hargreaves e Maria Cristina Resende que tanto foram me enriquecendo, constituindo e me “provocando” em articulações de ideias, contribuindo para minha prática como arteterapeuta e construções teóricas.

Mas além delas, nomes já conhecidos, outras pessoas foram fundamentais neste processo: os leitores do blog. Estes são grandes parceiros, que no início eram pessoas conhecidas e amigas mas com o passar do tempo novas pessoas foram se aproximando. Hoje já atingimos um número expressivos de leitores, parceiros e amigos do blog Não Palavra, que se identificaram com nosso propósito de pensar a Arteterapia como saber, técnica e profissão. Identificaram-se também com nosso estilo de trabalho de contemplar e buscar tantos outros possíveis embasamentos teóricos para instrumentalizar o arteterapeuta em seu trabalho e para que este profissional possa atuar e se posicionar no mercado de trabalho de forma consistente.

Naturalmente, muitas das pessoas que agregaram essa construção, não estão perto de nós geograficamente. Cada vez mais estamos recebendo contatos de pessoas de outros estados do Brasil nos perguntando sobre material impresso e sobre nossas palestras, cursos, eventos e aulas.

Compartilho com os leitores que cada um destes contatos me toca de forma pessoal e profissional. Primeiramente por ser alguém bastante empática com pessoas que demonstram ter o desejo (no sentido mais profundo do termo) de aprender sobre a Arteterapia e em segundo lugar por ser uma grande militante para que ela seja uma profissão respeitada e inserida no mercado de trabalho. Isto se dá pelo fato de que, a partir da minha prática e estudo, eu acredito na Arteterapia! Aqueles que estão próximos a mim sabem o quanto eu a amo e como trabalho com ela (e por ela) com (e por) paixão.

A partir destes contatos fiquei me perguntando como me aproximar das pessoas que estão longe geograficamente, mas que se interessam em dialogar com aquilo que o Não Palavra vem desenvolvendo. Movida por este desejo, no mês de agosto estarei em Minas Gerais ministrando a palestra “Ressignificando uma biografia através da arte” no espaço AREA Arteterapia em Belo Horizonte e na Medley Escola de Música e Artes em Sete Lagoas, através da parceria com o "Café com Cultura". Abrir a porta de dividir o que tenho aprendido e vivenciado em Arteterapia para além do Rio de Janeiro está sendo mais um passo instigante neste meu caminhar.

Entretanto esta é uma prática que demanda organização de tempo e agenda além de um investimento financeiro considerável. Infelizmente não é algo possível de se realizar com tanta frequência. E assim, surgiu a ideia de lançar mão de recursos tão próprios da nossa contemporaneidade: as novas mídias.

Em 2016 o blog Não Palavra fez uma parceria com o site Centro de Humanas Episteme e tenho desenvolvido materiais de cursos on line em Arteterapia com o conteúdo que já tenho compartilhado em cursos livres presenciais, mas que a distância impede que tantos interessados possam participar. Neste seguimento, não me proponho a formar arteterapeutas, mas a passar adiante o que tenho aprendido e vivenciado, pois acredito que é isto que se deve fazer com o conhecimento.

Naturalmente, quando iniciei este projeto imaginei que alguns questionamentos me seriam feitos pelo fato da Arteterapia ser vivencial, por essência uma experiência com os materiais, técnicas expressivas e linguagens da Arte. Alias, eu mesma me fiz estas perguntas antes de aceitar o desafio. E o aceitei e investi o melhor de mim (dentro da maturidade de cada fase deste caminho) quando me dei conta que o Rio de Janeiro é um lugar com grande oferta de material, eventos e cursos na área. Mas pude perceber que esta não é a realidade em todo o país, sobretudo fora das capitais. Em segundo lugar porque acredito que embora a Arteterapia seja vivencial, ela tem teoria (própria e outros possíveis embasamentos teóricos) ao qual o arteterapeuta ou o interessado em Arteterapia precisa se debruçar, se instrumentalizando de forma consistente para esta prática.

Eu, por vocação, sou alguém estimulada por pessoas e arte, não sou a maior das interessadas em tecnologia e os métodos de comunicação mediados por ela. Mas, pegando emprestado o título de um dos textos da minha parceira Flávia Hargreaves, “a necessidade faz o sapo pular”. E a partir de então tenho pesquisado sobre as novas mídias e como elas podem colaborar para a expansão do Não Palavra e da Arteterapia como saber e profissão no nosso país. Longe de ser um movimento de banalização da Arteterapia, mas de cooperação para seu avanço.

Na primeira aula do meu curso “Grupos em Arteterapia”, para responder o porquê trabalhar com grupos terapêuticos na atualidade, faço menção ao paradoxo da tecnologia, ao qual ao mesmo tempo tem o potencial de aproximar e afastar as pessoas em suas relações interpessoais. Justifico ao grupo arteterapêutico que mantenho no meu espaço que se comprometer com aquele grupo é uma subversão ao convite tão subjetivo de nossa cultura, pois eles têm a oportunidade de saírem de sua zona de conforto, se deslocarem ao encontro de outros seres humanos e se perceberem, se pensarem como sujeitos (de) em relação. Sendo assim, escrevo, dou aulas e mantenho grupos em arteterapia também por micropolítica, para que os seres humanos não se percam de experienciar suas relações em sua profundidade.

Por outro lado, penso que a tecnologia não é vilã em si. É uma ferramenta que pode ser bem usada ou mal usada. Assim, tenho me proposto a me instrumentalizar para utilizá-la de forma responsável, por mim, pelo projeto Não Palavra e pela Arteterapia.

De toda forma, sendo esta uma ideia que venho construindo ao longo do meu caminho e crendo que não existe o caminhar sozinha, gostaria de ouvir a opinião dos leitores, parceiros e amigos do Não Palavra sobre a relação da Arteterapia com as novas mídias. Seja a oferta de material escrito, como por exemplo o blog, as ferramentas de transmissão de palestras on line (um dos meus desejos atuais) e os cursos on line inseridos na proposta do Ensino a Distância (EAD), uma questão tão atual e amplamente discutida na educação e em diversos seguimentos.

Certamente a sincera opinião de cada um que se disponibilizar a participar desta discussão, irá colaborar para meus próximos passos no caminho Não Palavra que continua.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

MATERIALIDADE EM ARTETERAPIA

Por Flávia Hargreaves
fmhartes@gmail.com

Ilustração: Flávia Hargreaves.
Tinta acrílica aplicada com esponja e lápis aquarelado sobre papel schoeler 4R. Anos 90.

“Cada materialidade[1] abrange de início, certas possibilidades de ação e outras tantas impossibilidades. Se as vemos como limitadoras para o curso criador, devem ser reconhecidas também como orientadoras, pois dentro das delimitações, através delas, é que surgem sugestões para se prosseguir um trabalho e mesmo para se ampliá-lo em direções novas. De fato, só na medida em que o homem admita e respeite os determinantes da matéria com que lida como essência de um ser, poderá seu espírito criar asas e levantar vôo, indagar o desconhecido.” (OSTROWER, 1997, p. 32)

Este pensamento irá se desdobrar sobre a questão do que a autora designou “imaginação criativa” que seria “um pensar específico sobre um fazer concreto”. O imaginar criativo precisa levar em consideração a materialidade com a qual trabalha. A partir desta afirmação poderemos colocar que se estivermos tratando de materiais das artes plásticas como, por exemplo, o papel, precisamos entender suas propriedades, sua cor, flexibilidade, resistência, suas possibilidades e suas impossibilidades, o que não significa seguir regras, mas sim ter consciência da realidade com a qual se está lidando. Toda a ação sobre o material terá consequências.

Outra questão, ainda no que se refere aos materiais de arte, a autora coloca que o material não é somente físico, “para o homem as materialidades se colocam num plano simbólico [...].” (OSTROWER, 1997, p. 33) Tanto a matéria como as formas carregam valores culturais, nos falam de uma época, de um lugar, etc.

A autora faz um paralelo entre as potencialidades da matéria e as nossas e nos diz que:

“[...] na forma a ser dada configura-se todo um relacionamento nosso com os meios e conosco mesmo. [...] o imaginar – esse experimentar imaginativamente com formas e meios – corresponde a um traduzir na mente certas disposições que estabeleçam uma ordem maior, da matéria, e ordem interior nossa. Indaga-se através das formas entrevistas, sobre aspectos novos nos fenômenos, ao mesmo tempo que se procura avaliar o sentido que esses fenômenos novos podem ter para nós”.  (OSTROWER, 1997, p. 34)

Determinantes da matéria: possibilidades e impossibilidades de ação

Em Arteterapia sempre defendi a importância do conhecimento dos materiais pelo profissional no que diz respeito às suas propriedades físicas, ou seja, ao que seria determinante naquela matéria a ser manipulada e transformada no setting. Observa-se uma predominância da utilização dos meios plásticos, o que torna este conhecimento fundamental. Conhecer os materiais na sua dimensão física irá compor com os valores expressivos e culturais dos quais vem impregnada, um conhecimento essencial para lidarmos com esta materialidade.

O conhecimento dos materiais não se limita a oferecer uma base para a aplicação de técnicas de arteterapia, mas, ao contrário, oferece suporte para a ampliação no uso dos materiais, sustentando o  “estar ao lado” do cliente diante do “não saber se vai dar certo”, permitindo as inovações e transgressões tão fundamentais para a criação.

Houve muitas ocasiões em que meus clientes quiseram fazer algo inusitado, e me perguntaram “e se eu fizer assim? vai dar certo?” e eu pude responder “não sei, vamos descobrir”. Preciso abrir um parênteses: Certa vez, e é importante que se compartilhe também os erros, me envolvi demasiadamente em auxiliar o cliente na busca de soluções técnicas para uma proposta desafiadora e fui chamada a atenção. O cliente me repreendeu: “Você está buscando soluções pra mim!” Lição anotada. E, sim, ele estava buscando soluções para a própria vida.

De qualquer modo, enquanto o arteterapeuta se sentir inseguro diante da materialidade da sua prática ele não poderá criar este espaço seguro para que o cliente se lance na experimentação. Quando propomos uma técnica diretiva, corremos menos riscos, mas para lançar mão de uma proposta de livre experimentação dos materiais como me proponho a fazer é importante ter se experimentado nesta labuta do ateliê, no aprendizado com estas matérias. Como diz a artista Louise Bourgeois: “Fazer, Desfazer, Refazer” entendendo que cada desfazer e cada refazer é um fazer novo. E é isso mesmo, labuta, trabalho, suor, insistência, cair e levantar.

Direções Novas

Como escreveu Eliana Moraes, no texto deste blog “Micro e macro, arte e vida”[2] (28/04/2014), o micro seria o trabalho produzido no setting e o seu desdobramento seria no macro, na própria vida. Maria Cristina de Resende corrobora com este pensamento em seu texto “Observações da clínica”[3] (20/06/2016) colocando que “[...]a realidade que se cria dentro do consultório precisa ser potencializada até que transborde para fora daquele espaço terapêutico, e então as experimentações de materiais se transformam em experimentações na vida e, portanto, de vida!”

Experimentar novos meios, novos materiais também significa experimentar novos modos, novas direções na vida, descobrindo potencialidades adormecidas ou desconhecidas. Esta experiência nos fortalece, amplia nossas possibilidades de ação.

Ostrower (1997, p. 39) nos diz que “a imaginação criativa nasce do interesse, do entusiasmo de um indivíduo pelas possibilidades maiores de certas matérias ou certas realidades. [...] para poder ser criativa, a imaginação necessita identificar-se com uma materialidade.”

Finalizando volto a afirmar que a prática da Arteterapia exige do profissional certo nível de intimidade com os materiais plásticos, e para tanto este profissional não pode ocupar um lugar de estranheza com os mesmos, ou ainda estar limitado a repetição de receitas, sem se ocupar do conhecimento das qualidades e potenciais de cada material. Quando digo qualidades não me refiro somente a certo material evocar certo sentimento, etc., mas também a algo muito mais primário, como: se este material dilui em água? Demora para secar? O que acontece se eu fizer isso ou aquilo? A dimensão laboratório, cozinha das artes plásticas. E, é claro, eles também terão o seu lugar marcado na história, e este também será um estudo fundamental.

REFERÊNCIAS
OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. 12ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1997.
MORAES, Eliana. Micro e macro, arte e vida. publicado em 28/04/2014. Disponível em <http://nao-palavra.blogspot.com.br/2014/04/micro-e-macro-arte-e-vida.htmlpublicado> Acessado em 20/06/2016.
RESENDE, Maria Cristina. Observações da clínica. publicado em 20/06/2016. Disponível em <http://nao-palavra.blogspot.com.br/2016/06/observacoes-da-clinica.html > Acessado em 20/06/2016.

NOTAS

[1] Ostrower se refere à “materialidade” em um sentido amplo abrangendo “tudo o que está sendo formado e transformado pelo homem.” Podendo referir-se tanto à pedras como a pensamentos, conceitos, sons, afetos, etc.
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segunda-feira, 4 de julho de 2016

OBSERVAÇÕES DA CLÍNICA # parte 2

Por Maria Cristina de Resende
crisilha@hotmail.com

No último texto divulgado neste blog, a respeito das observações da prática da Arteterapia na clínica, falei um pouco sobre o quanto a experimentação das técnicas e materiais na pode se tornar estímulo para a experimentação da vida e de vida. Hoje, dando continuidade a estas observações, trago o tema já mencionado por Eliana Moraes sobre o repetir, recordar e elaborar, conceito da psicanálise que fala sobre uma repetição criativa, produtiva onde o individuo repete e elabora suas questões diminuindo a amplitude entre consciente e inconsciente.

E quando esta fala se torna neuroticamente repetida?

Assim podemos falar de um quadro difícil de conduzir na clínica que são os indivíduos com estilos obsessivos de ver e estar no mundo. Se no texto anterior abordamos um individuo tido como imaturo, mas que na verdade seu estilo puer o conduz a uma instigante experimentação de mundo, o individuo obsessivo, regido por senex, teme esta experimentação e por isso permanece em seu confortável círculo de experiências conhecidas. Estratégia ilusória de manutenção do controle das variáveis, ou como tenho gostado de falar, das “acontecências” da vida.

Ao longo dos atendimentos com um indivíduo com este estilo, poucos trabalhos foram sendo produzidos por ele. Mas um, especificamente, foi revelador deste movimento neuroticamente circular.

Em algum ponto de seu processo terapêutico ele foi convidado a buscar livremente materiais que o capturasse e pudessem expressar seu presente momento. Mas esta livre experimentação pode se tornar um momento de angústia para aqueles que temem qualquer movimento não planejado, sendo assim, materiais seguros e de fácil controle se tornam bem atrativos. E assim foi neste caso, um suporte de papel canson e lápis de cor preto. Mas a falta de condução o leva a não saber o que fazer, e me pergunta: “O que é pra eu fazer?”. A necessidade de alguma referência revela a dificuldade de entrar em contato com o próprio desejo e manifestá-lo plenamente através de novas experiências, que neste caso são os próprios materiais.

Respondo então que ele poderia fazer o que quisesse e que talvez fosse interessante fechar os olhos e sentir o movimento das mãos com o lápis sobre o papel. O mínimo de interferência como gatilho para o processo. E assim aconteceu. Traços não delimitados, soltos, livres, mas que retornam para um ponto em comum.

Depois de um tempo, pouco tempo, ele abre os olhos e vê o que fez. Peço então que olhe e sinta o que aquela imagem tem a dizer. “Medo, retorno ao mesmo lugar”.

O que dizer de tais frases! Por um tempo esta obra foi ressoando em nossos encontros. Porém seu impacto foi realmente sentido um ano após sua produção.

Depois de rever alguns trabalhos realizados em seu processo, ele se depara com este e percebe que suas queixas permanecem as mesmas, ainda que depois de um ano.  Esta percepção nos coloca novamente em contato com o tema repetir, recordar e elaborar, onde podemos ver que sua repetição não o leva a uma elaboração do tema, mas sim a uma manutenção do status quo que faz perdurar seus sintomas e suas queixas, pois assim o conduz por um caminho conhecido e de fácil manipulação.

O que a Arteterapia tem a oferecer em casos como este?

A experiência de manipular diferentes materiais e texturas, de produzir diferentes formas e dialogar com tais produções pode fazer com que indivíduos obsessivos se permitam, a seu tempo, a abrir espaços para novas formas, novas cores e nuances em sua vida. O ato criativo na clínica como um ensaio para novos atos criativos na vida, suavizando cada vez mais os traços rígidos do senex que rege a vida de tais pessoas. Podemos compreender este ato criativo, que aqui se aproxima do agir criativo, falado por Eliana Moraes, como uma potencialização do aspecto puer desta sizígia puer-senex.
Este par de forças inconscientes que estruturam, desestruturam e renovam nosso estado de ser e estar no mundo nos conduz a vivenciar o vir a ser, confiando nesse fluxo do devir despindo-nos da ilusória realidade de controle e de permanência. Logo, a Arteterapia atua como força propulsora para o devir, estado tão ameaçador para o estilo senex de ser.



segunda-feira, 27 de junho de 2016

A ESCUTA DO AGIR – Da Psicanálise para especificidades da Arteterapia


Por Eliana Moraes

Dando continuidade à série de reflexões sobre as especificidades da Arteterapia, tenho pensado sobre a escuta do arteterapeuta, uma vez que este é um profissional que lida com alguns elementos específicos dentre as técnicas terapêuticas. A escuta é o ofício primeiro de todo e qualquer terapeuta, mas o arteterapeuta deve desenvolver, apurar e instrumentalizar sua escuta nas especificidades da sua prática e profissão. 

Esta reflexão foi iniciada em um texto anterior deste blog, chamado “A percepção de si dentro do agir – Especificidades da Arteterapia”, tomando como referência a fala de Fayga Ostrower: “A percepção de si dentro do agir é um aspecto relevante que distingue a criatividade humana.”. Para ela, o criar:

não representa um relaxamento ou um esvaziamento pessoal, nem uma substituição imaginativa da realidade; criar representa uma intensificação do viver, um vivenciar-se no fazer; e, em vez de substituir a realidade, é a realidade.” (OSTROWER)

Tenho proposto o conceito do “agir criativo” como uma especificidade da Arteterapia. E quando compreendemos que o agir criativo é objeto de nossa escuta, observação e manejo, uma gama de articulações teóricas são necessárias para instrumentalizar o arteterapeuta.

Para embasar minha prática venho articulando a Arteterapia com conceitos da Psicanálise, buscando seus encontros e desencontros (1). Uma das referências teóricas que tomo para minha orientação como arteterapeuta é o texto “Recordar, Repetir e Elaborar” de Freud, que defende:

“... podemos dizer que o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber o que está repetindo.”  (FREUD)

Neste texto Freud alerta ao analista para que tenha escuta sobre os comportamentos de seu paciente. A maneira como ele se comporta em relação ao analista (a transferência) e os relatos sobre como se comporta em tudo aquilo que empreende em sua vida. Afinal o paciente iniciará seu tratamento justamente angustiado por uma destas repetições. E afirma que:

“Enquanto o paciente se acha em tratamento, não pode fugir a esta compulsão à repetição; e no final, compreendemos que esta é a sua maneira de recordar... Logo percebemos que a transferência é, ela própria, apenas um fragmento da repetição e que a repetição é uma transferência do passado esquecido, não apenas para o médico, mas também para todos os outros aspectos da situação atual.... o paciente se submete à compulsão, à repetição, que agora substitui o impulso a recordar, não apenas em sua atitude pessoal para com o médico, mas também em cada diferente atividade e relacionamento que podem ocupar sua vida na ocasião - se, por exemplo, se enamora, incumbe-se de uma tarefa ou inicia um empreendimento durante o tratamento.” (FREUD)

Podemos perceber neste fragmento que Freud estimula ao analista que esteja atento ao que o paciente apresenta como comportamentos repetidos - além das relações - em cada atividade que ele invista em sua vida e traga como relato para a análise.

Aqui destaco uma das especificidades da Arteterapia. Nas palavras de Maria Cristina Urrutigaray:

“... a atuação autônoma atualizada em comportamentos... encontram na arteterapia um continente adequado à sua manifestação.” (URRUTIGARAY, p 79)

“A materialização, proporcionada pelas formas surgidas, propicia o confronto com realidades subjetivas não conscientizadas, apesar de atuadas nos comportamentos emitidos.” (URRUTIGARAY, p 83)

Esta especificidade se dá porque a partir de cada proposta de técnica expressiva, instrumento de trabalho do arteterapeuta, haverá um convite para que o paciente aja. Ali, não mais uma “atuação irresponsável”, uma repetição inócua em seu cotidiano. Mas um agir através da criação, e este será amparado pelo continente do setting arteterapêutico.

A maneira como o paciente lida com cada material, quando ele tem dificuldade de iniciar seu trabalho, quando este trabalho fica vazio ou cheio, demasiadamente organizado ou desorganizado, com cores intensas ou cores pastéis, se se debruça sobre ele ou o executa de forma rasa, seus movimentos corporais, suas sensações, são apenas alguns exemplos de quando o paciente repete-se durante o agir criativo.

Freud estrutura todo seu texto na observação clínica de que o paciente repete ao invés de recordar, e repete sob as condições da resistência: quanto maior a resistência, mais extensivamente a atuação (repetição) substituirá o recordar.

Podemos conclur que se cabe ao terapeuta atentar-se para o que o paciente relata sobre seus comportamentos repetidos nas atividades do seu dia a dia, nós arteterapeutas devemos escutar, observar e manejar aquilo que nos é próprio como técnica de trabalho: o agir criativo e durante ele os comportamentos que se repetem, que tanto promovem a angústia naquele paciente que espera pela nossa escuta.

Em um próximo texto darei continuidade nesta reflexão, trazendo novos aspectos sobre a escuta do Arteterapeuta.



(1)  Veja também o texto “Psicanálise e Arteterapia – Encontros e Desencontros (Parte 1)

FREUD, Sigmund. “Recordar, repetir e elaborar.”

OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. 12ª ed. Petrópolis, Editora Vozes, 1997.


URRUTIGARAY, Maria Cristina. Arteterapia - A transformação pessoal pelas imagens. Rio de Janeiro, Editora Wak, 2011.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

OBSERVAÇÕES DA CLÍNICA

Por Maria Cristina de Resende
crisilha@hotmail.com


Foto: Fernando Hargreaves # Não Palavra Arteterapia

Ao longo desta semana, durante os atendimentos da clínica, comecei a observar mais profundamente o impacto das experiências de experimentação livre dos materiais expressivos usados na Arteterapia. Sabemos que o uso de tais ferramentas expressivas expõem diversos conteúdos emocionais que habitam nossa alma mais profunda e que as imagens produzidas a partir de técnicas diretivas ou não, podem (ou não), nos indicar áreas emocionais muito afetadas. Mas o que minha observação começou a apontar era o quanto o processo de experimentação livre pode abrir caminhos para uma experimentação maior na vida e de vida!

Essa é a história de um jovem rapaz que durante muito tempo fora visto como um ser diferente, um pouco mais acanhado, com dificuldades de ir para o mundo. Um dia ele precisou seguir adiante, mas algo o impedia de fazer: a insegurança. Sua mãe sabia que era hora de ir para o mundo, mas seus olhos e gestos sutis não permitiam que o jovem seguisse, “ele é muito imaturo, não sabe se virar”. Um a um, os que conheciam conquistavam novas etapas da vida enquanto seu desejo de conquistar aumentava, assim como suas dúvidas.

Em um dos atendimentos sugeri: “Vamos até os materiais e observe aqueles que te capturam”. Assim ele fez, escolheu materiais, a princípio desconexos, texturas diferentes, cores diversas e nenhum direcionamento. Apenas a sugestão: “O que você pode fazer com as escolhas que fez?” E então, o olhar foi longe, como Pollock diante de uma tela em branco, assim mergulhou o olhar do jovem rapaz. Distante, duvidoso e inseguro, sem saber o que fazer, nem por onde começar. O tempo era dele, não do relógio, e eu estava li, ao seu lado, paciente, apenas ao seu lado.

E então ele começou a se aproximar dos materiais, sentir suas possibilidades, organizá-los diante do suporte e imaginar. Sim, o fundamental: imaginar! E então alguma coisa foi sendo construída, alguma relação foi sendo estabelecida e no final a surpresa e o sorriso. “Sim, eu consegui fazer”. Sim, ele consegue, mas sua insegurança o impede de se aproximar de suas habilidades e naquele momento ele experimentou fazer algo mesmo sem saber o quê, fazer algo mesmo com medo de não saber fazer. Porém, o ato de fazer o estimulou a continuar fazendo até que sua libido fosse satisfeita, até que sua obra estivesse terminada.

Essa experiência pode ser considerada uma metáfora para a vida. O estímulo ao uso de materiais estimula o indivíduo a perceber o que o captura, aproximando-o de seus desejos, estimula sua imaginação abrindo caminho para que novas imagens surjam em sua mente sem a censura do certo e errado.  E principalmente estimula o “fazer criativo”, ou seja, o que Argan chama de agido, ou seja, o processo, o movimento de fazer algo com consciência de si dentro deste processo. Assim ele fez, percebeu que a insegurança diante de materiais aparentemente sem relação não o impediu de criar, e enquanto fazia, enquanto se entregava ao devir, a insegurança se tornou a certeza de que “eu sou capaz”.
“[...] a arte é a consciência de algo de que, de outra forma, não se teria consciência: não há dúvida de que ela amplia a experiência que o homem tem da realidade e lhe abre novas possibilidades de ação.”[1]
O que a experiência da clínica me mostrou ao longo de quase uma década de atendimentos é que a realidade que se cria dentro do consultório precisa ser potencializada até que transborde para fora daquele espaço terapêutico, e então as experimentações de materiais se transformam em experimentações na vida e, portanto, de vida!



[1] ARGAN, Giulio. Arte Moderna. 5ª reimpressão. Ed. Companhia das Letras. 1998.

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segunda-feira, 13 de junho de 2016

A importância da produção textual na Arteterapia

Por Maria Cristina de Resende
crisilha@hotmail.com

Quase um ano se completa desde as primeiras publicações que fiz para este Blog e de lá para cá vários foram os temas abordados dentro da Arteterapia, como as observações acerca da prática do profissional, o desenvolvimento de outras metodologias possíveis, chegando a necessária hybris de novas construções conceituais. Acredito que esta evolução foi possível devido ao próprio ato de escrever.


Segundo Anne Lamott, citada por Donna Kaiser, editora da Revista de Arteterapia da Associação Americana de Arteterapia,

Writting has much to give, so much to teach, so many surprises. That thing you have to force yourself to do – the actual act of writing – turns out to be the best part. It´s lie discovering that while you thought you needed the tea ceremony for the caffeine, what you really needed was the tea ceremony. The act of writing turns out to be its own reward. (1995, p xxvi)
Escrever tem tanto a dar, tanto a ensinar, tantas surpresas. Aquela coisa que você precisa se esforçar para fazer – o ato de escrever em si – se torna a melhor parte. É como descobrir que enquanto você pensava que precisava da cerimônia do chá para tomar o chá, o que você realmente precisa é da cerimônia em si. O ato de escrever se transforma na própria recompensa. (Tradução livre da autora)

Conforme eu, Flávia e Eliana fomos mergulhando neste hábito semanal de escrever sobre nossas práticas, sobre nossas ideias, sobre nossos devaneios teóricos, fomos aos poucos descobrindo que o ato de escrever nos exige a cada texto uma superação na forma, no conteúdo, na fundamentação e, principalmente, na dedicação e responsabilidade que devemos ter com nossas práticas e estudos. Muitas conversas foram travadas acerca deste movimento no nosso meio da Arteterapia e nos perguntamos onde mais encontramos colegas dispostos a enveredar por este caminho de troca, de partilha e de construção pessoal e coletiva, pois ao mesmo tempo que a escrita nos impulsiona para um desenvolvimento profissional pessoal, ela também impulsiona todo um coletivo que compartilha dessa produção textual, e por isso, se beneficia dessa produção.

Por isso, este texto de hoje é dedicado aqueles que estão construindo a profissão de Arteterapia no Brasil. Colegas que, como nós, praticam e estudam a Arteterapia em suas diversas formas de atuação, e para vocês eu tenho uma pergunta: Por que não escrever sobre o que vocês fazem?
Kaiser continua sua ideia sobre o ato de escrever quando discorre acerca da importância dos profissionais estarem contribuindo tanto para a profissão, quanto para outros colegas iniciantes que serão os representantes da categoria: “it is vital for practicing art therapy to educate their colegues about what they are doing” – “é vital para o praticante de arteterapia ensinar seus colegas sobre o que eles estão fazendo” (tradução livre da autora).
Entretanto, escrever, ainda que seja uma operação, que no fim opera sobre nós, como Lamott afirma, acima citado, não é algo que deva ser tratado de forma leviana e desarrumada. É importante escrever, e escrever bem.

O que seria escrever bem?

Uma boa escrita deve antes de tudo ser clara, coesa e atraente, ou seja, deve convidar a cada parágrafo o leitor a continuar a história. Porém o aspecto conceitual do texto deve ser tomado com significativa importância. Ainda Kaiser, “It is importante to tell your stories within conceptual frameworks that guide practice.” – “É importante contar suas historias com os conceitos estruturais que guiam esta prática” (tradução livre da autora), ou seja, não é só escrever o que se faz, mas também fundamentar sua prática a partir de teorias que sustentem a terapêutica daquela prática, e é neste ponto que escrever sobre nosso trabalho nos faz crescer enquanto profissionais e nos coloca a pensar sobre nossa dedicação e responsabilidade com este saber, que deve ser construído e reforçado por cada arteterapeuta formado em nossa cidade, estado e país.

Seguir regras de construção textual também nos ajuda a acessar áreas de saberes que claramente possuíam grande resistência com nossa prática, pois além de desconhecerem, não têm acesso a materiais com equivalência conceitual em suas áreas, ou seja, se somos formados para nos tornarmos terapeutas com quais profissionais ao nosso redor estaremos atuando? Psiquiatras, Neurologistas, Geriatras, Psicólogos, Pedagogos e atualmente empresários e gestores de instituições públicas e privadas. Que linguagem usamos quando estamos diante desses profissionais? Como mostrar a eles que nossa prática possui um bom alicerce que garante a eficiência de sua utilização nesses meios?

Com estas contestações não afirmo que necessitamos convencer nenhum outro profissional da qualidade de nossa prática, mas devemos sim conquistar o respeito de nossa atuação e do nosso profissionalismo, e para tanto saber falar outras linguagens técnicas se torna absolutamente fundamental, e com isso escrever sobre elas se torna igualmente necessário. É nossa responsabilidade zelar pela qualidade de nossa prática e pelo respeito de outros profissionais. Acredito que só conseguiremos conquistar esse lugar quando os profissionais que formam esse coletivo buscarem aprimorar sua prática, desenvolver um processo de escrita afim de registrar, compartilhar e ensinar sobre ela, favorecendo toda a camada profissional que dará continuidade a esta bela potencia terapêutica.

Sendo assim, convido cada profissional recém formado ou não a buscar ritualizar esta prática de escrever a partir dos seus próprios estudos de caso, fazendo o simples relatório de atendimento se tornar um artigo em potencial. Para que esta ideia se torne concreta convidamos os interessados em fortalecer esta corrente a participar do Grupo de Estudos onde eu e Flávia Hargreaves oferecemos um espaço de construção coletiva de novas ideias, novas possibilidades de estudo, de perspectiva a partir da leitura e discussão de textos da Arteterapia, Psicologia e Arte produzidos pelos nossos profissionais brasileiros mas também de outros autores de outras nacionalidades, discussão e supervisão de casos clínicos e claro, a produção textual de cada participante. Aqui não existem hierarquias, mas um coletivo que busca qualidade na atuação e no desenvolvimento teórico e prático.

Referência:

Donna H. Kaiser (2016) The Importance of Writing (and Writing Well), Art Therapy, 33:1, 2-3, DOI: 10.1080/07421656.2016.1132100
disponível em <http://dx.doi.org/10.1080/07421656.2016.1132100> acessado em 04/06/2016

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segunda-feira, 6 de junho de 2016

A ARTE COMO INSTRUMENTO EM GRUPOS TERAPÊUTICOS – Especificidades da Arteterapia


Por Eliana Moraes


Recentemente iniciei uma série de textos que se propõe a pensar a prática da Arteterapia com grupos, uma modalidade de trabalho tão comum em nossa área, porém em minha percepção, ainda pouco embasada teoricamente em suas especificidades. Minha motivação se deu a partir dos cinco anos de prática em grupos arteterapêuticos na UIP do Hospital Adventista Silvestre e finalizada esta etapa percebi que chegava a hora de embasar teoricamente muito do que tive a oportunidade de testemunhar, observar e atuar intuitivamente. Convido aos leitores interessados pelo tema, a buscarem os textos anteriores desta série (1) para que acompanhem a reflexão.

Em minha busca por literatura que abordasse este tema pude encontrar várias abordagens teóricas sobre grupos terapêuticos que me sustentaram para criar o curso “Grupos em Arteterapia” que acontece atualmente no Espaço Não Palavra. Em literatura específica da Arteterapia, pude encontrar dois livros que também contribuíram para minha proposta e recomendo a leitura: “Arteterapia com Grupos: Aspectos teóricos e práticos” organizado por Maíra Bonafé Sei e
Tatiana Fecchio Gonçales e “Grupos em Arteterapia – Redes Criativas para Colorir Vidas” de Ângela Philippini,

Entretanto, ainda sim, senti falta de alguma literatura que abordasse aspectos específicos da utilização da arte e do processo criativo como instrumento no trabalho com grupos terapêuticos. Mais uma vez me senti convocada para uma das minhas grandes motivações profissionais neste ano: pensar as especificidades da Arteterapia. Neste contexto, me perguntei: Quais são as especificidades da Arteterapia com grupos?

Inicialmente, a partir de meus estudos e da troca com alunas do curso e colegas, pude ressaltar três especificidades da Arteterapia aos quais se apresentam a partir da utilização da arte, das técnicas expressivas e processos criativos no manejo com grupos.

Sobre a linguagem e a observação

Em grupos terapêuticos predomina-se a comunicação verbal entre os participantes e o manejo desta escuta. Quando utilizamos das técnicas expressivas no setting terapêutico grupal abrimos canais de comunicação para além da expressão verbal. Através da arte, fazemos um convite especial para as linguagens não verbais que tanto compõem a comunicação humana.

Além disso, ao lado da escuta, cria-se a oportunidade da observação do outro, em todo o processo do seu agir criativo e sua obra/imagem produzida. O olhar atento para o outro e a percepção de suas expressões mais sutis é um hábito que tem se perdido nas relações atuais, tão “líquidas” (2) ou tão atravessadas pela tecnologia. E a prática nos mostra que esta observação é bastante mobilizadora de questões individuais e também muito enriquecedora na construção do sujeito em terapia

Sobre o agir criativo



A teoria nos diz que a finalidade do grupo terapêutico se dá porque:

No grupo, o indivíduo dá-se conta de capacidades que são apenas potenciais enquanto se encontra em comparativo isolamento. O grupo, dessa maneira, é mais que um conjunto de indivíduos, porque um indivíduo num grupo é mais que um indivíduo em isolamento.” (ÁVILA)

’Fazer grupo’, ou seja, criar um dispositivo clínico grupal é por pessoas em conjunto para que a sua intersubjetividade inerente se revele o mais claramente possível, demonstrando sua articulação e sua composição” (ÁVILA)


Em um texto anterior iniciei uma série de reflexões sobre as especificidades da Arteterapia ao qual defendi que a partir do processo criativo:

O agir amparado pelo continente do setting arteterapêutico é uma espeficifidade da Arteterapia dentre as técnicas terapêuticas. Desta forma, o setting se configura como um ambiente suportado pela transferência com o arteterapeuta para que o paciente vivencie-se no fazer. Que perceba-se em suas dificuldades e resistências e tenha a oportunidade de enfrentá-las. Que em meio a esta experiência ele possa tomar decisões sobre este enfrentamento (ou não) e que assim ele se responsabilize por ela e por si como autor e protagonista da sua obra/história. (MORAES)

Se pensarmos neste conceito no contexto do grupo, percebemos que o agir criativo grupal se apresenta como uma oportunidade para que os participantes vivenciem-se na relação com o outro, “no fazer”.

Para além das propostas em Arteterapia mais comuns, em que cada participante do grupo produz seu trabalho e em seguida todos compartilham sua experiência, uma grande oportunidade de manejo de grupo que o arteterapeuta dispõe é propor técnicas que envolva um processo criativo grupal. Estas propostas estimulam diversas reflexões sobre o indivíduo no grupo, sua interação, postura, comunicação, atuação. (Sobre possíveis questões despertadas em técnicas expressivas grupais no setting arteterapêutico pretendo me aprofundar em uma outra oportunidade)

A prática mostra que em grupos arteterapêuticos, as técnicas expressivas grupais são riquíssimos instrumentos no manejo do arteterapeuta, para que os participantes percebam-se, tomem consciência de suas formas de se relacionarem e façam movimentos de mudança e regulação interna. Estes movimentos naturalmente transbordarão para as relações além do setting arteterapêutico, cooperando para a construção de grupos sociais mais saudáveis e harmônicos.


Sobre o fenômeno do grupo



Um dos princípios que a teoria de grupo nos apresenta é que o todo é mais do que a soma das partes. Ou seja, o grupo é mais do que um ajuntamento de pessoas:
“Grupo não é o que parece... Precisamos de teoria para forjar esta noção. A partir dela podemos vislumbrar o que está mais além da aparência dos grupos, sua fachada, composta de indivíduos independentes, autônomos. O Grupo é invisível. O que realmente interessa do grupo é o invisível, como sugerido pela Hidra de Lerna mitológica – sete cabeças num animal só. O grupo é uma entidade distinta do simples fato de termos sete pessoas andando juntas. A dimensão invisível, latente, inconsciente, é a dimensão real do grupo. De um grupo fazem parte tais e tais pessoas, fenomenicamente. Eu vejo as pessoas, mas o grupo real é algo formado a partir das relações entre as pessoas.” (ÁVILA)

Desta forma, do grupo emerge um fenômeno, inconsciente, invisível. E é para este fenômeno que o terapeuta deve aguçar sua mais refinada escuta. Quando um grupo se forma, torna-se um organismo vivo, com características peculiares e uma identidade própria.

Em Arteterapia o agir criativo grupal e a imagem/obra produzida pelo grupo devem aguçar a escuta mais apurada do Arteterapeuta. Durante o agir criativo grupal se manifesta o fenômeno do grupo em ato, como uma cena a ser assistida e observada atentamente. A obra final, deve ser olhada como uma sombra, um reflexo deste fenômeno que é invisível, mas que se constela na imagem produzida pelo grupo, tornando alguma parte do fenômeno visível, passível de observação pelo terapeuta e pelo grupo e tornando-se subsídio para elaboração das questões individuais e coletivas.

Dentro destas três especificidades ainda há outras nuances a serem pensadas e além delas, outras especificidades do uso da arte no manejo com grupos terapêuticos podem ser apontadas. Esta reflexão é uma construção ainda em aberto para mim e aberta àqueles que quiserem deixar sua contribuição.

(1)   Textos anteriores:
“Arteterapia ‘High Touch’ – Reflexões sobre o trabalho com grupos arteterapêuticos”
“Arteterapia em Grupo: Um depoimento”, “
Grupos Arteterapêuticos – Um estudo (Parte 2)”

(2) Referência à teoria da Modernidade Liquida de Zygmunt Bauman.

Referências Bibliográficas:
ÁVILA, Lazsio Antônio. O Eu é plural: grupos: a perspectiva psicanalítica

MORAES, Eliana. A percepção de si dentro do agir: Especificidades da Arteterapia.