Por Claudia
Maria Orfei Abe - São Paulo / SP
leonardo.claudia@gmail.com
Relato
aqui neste blog, uma experiência incrível que tive utilizando criatividade e
manejo arteterapêutico. Momentos únicos, uma construção de memórias entre pai e
filha.
Meu pai
tem 85 anos, dentista aposentado, viúvo há 2 anos, diagnosticado com doença de
Alzheimer em estágio inicial, quando foi realizado este trabalho. A
doença está progredindo. Já não lembra que tem bisneto, está esquecendo dos netos, do nome do meu marido ... tem horas que não fala “lé com cré”... às vezes
sua escrita tem erros de português ou não tem nexo.
Por
conta disto, tenho feito com ele estimulação através de atividades
arteterapêuticas.
Este ano participei do curso “Apreciação Estética:
Arte e Natureza”, oferecido gratuitamente pela Prefeitura de São Paulo, na
UMAPAZ (Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz). Fiquei
encantada com as aulas e vi ali uma oportunidade de levar o conteúdo das aulas
para o meu pai, apreciador de arte quando criança.
Escolhi algumas obras apresentadas durante o curso e
usando um pouco do manejo arteterapêutico, ele produziu os trabalhos e
compartilhamos.
As imagens das obras originais que
serviram de inspiração, os leitores poderão buscar na internet.
Seguem seus trabalhos:
1. As formas vegetais da natureza, 2019.
Gravetos s/ papel.
“Só tive que arrumar círculos devido a matéria
prima ser semicircular. Tive que fazer círculos, não ia endireitar. Fiquei
alegre pela oportunidade de fazer montagens semicirculares e a beleza do marrom
sobre o branco.”
2. Harmonia da natureza dos galhos, 2019.
Colagem de ramo vegetal s/ papel.
"já pode ir colando? Não pode fazer uma coisa
muito firme... o jeito era encostar o galho e ver só onde encostava no papel e
colar... porque se colocar algo por cima (peso) perde a graça... tem que ficar
as folhas naturais... prender só o principal... deixar solto... as folhas estão
todas à vontade... não está como uma gravura assim pintada... se puser mais
coisa tira toda a beleza dos galhos que está bom.. .não é uma pintura. Deixar a
coisa natural ".
Ele ergue o trabalho e mostra que as folhas têm que
ter movimento.
3. Copos e taças do vinho, 2019.
Esferográfica em sulfite.
Inspirado em Natureza Morta de Caravaggio.
Com este tema, fez também um exercício de escrita
criativa...
4. Ser humano observando a natureza, 2019.
Esferográfica e lápis preto aquarelável s/ papel.
Inspirado em pintura da paisagem de Caspar David
Friedrich.
Utilizada a técnica de desenho rápido em cinco
minutos.
No dia seguinte, peguei a obra dele e perguntei: “O
que você acha desta obra? Conhece ao autor?” Ele fez que não. Daí mostrei sua
assinatura. Ele reconheceu e deu uma risadinha.
5. Sol, nuvem e montanhas, modernamente
construídos, 2019.
Colagem s/ papel.
Inspirado em pintura da paisagem de Julian Opie.
Nesta atividade, ele se levanta, caminha até a
cristaleira e pega um cálice para riscar o molde do sol. Ao término de cada atividade, ele fala: “Muito
obrigado pela oportunidade”.
Como finalização do curso, cada aluno apresentou um
trabalho para a exposição lá nos corredores da UMAPAZ. Por sugestão da amiga
Rita Maria, reuni os cinco trabalhos realizados por meu pai, ele deu o título a
cada trabalho, e na obra final, coloquei o título “O Olhar que não se perdeu”. Meu
marido falou que o título deveria ter a palavra OLHAR, então eu criei o título,
considerando que meu pai perdeu praticamente a visão do olho direito por causa
de glaucoma.
Consegui levar meu pai para ver a exposição, num
sábado, no meio de um feriado, com a UMAPAZ em silêncio, e praticamente vazia. Ele
não lembrou que fez, mas reconheceu seu nome nos títulos e sua assinatura nas
obras.
Com minha ajuda, ele confeccionou o caderno do
artista, que acompanhou a obra.
Após o encerramento da exposição, lemos juntos os
recados escritos no Caderno do Artista.
“Agora
eu quero fazer um trabalho para agradecer as pessoas que foram apreciar minhas
obras. Mas quero fazer algo planejado”.
Para mim, além de todo esse processo vivido, o
principal é inspirar pessoas a construírem memórias com os seus idosos. No
Alzheimer, o que importa é o momento vivido porque logo em seguida ele será
esquecido...
Ele que era um apreciador de artes quando criança,
agora é um apreciador das artes.
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Arteterapeuta
e Farmacêutica
Farmacêutica-Bioquímica
graduada pela UNESP Araraquara-SP.
Especialista
em Farmácia Homeopática pela USP-SP.
Especialista
em Organização de Serviços em Dependência Química pela UNIFESP-SP.
Especialista
em Gestão da Assistência Farmacêutica pela UFSC-Universidade Federal de Santa
Catarina-SC
Especialista
em Arteterapia e Criatividade pela Faculdade Vicentina-PR
Focalizadora
de Danças Circulares pela Prefeitura do Município de São Paulo-SP













