segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O ARTETERAPEUTA, A ARTE, A CIDADE...

por Flávia Hargreaves
fmhartes@gmail.com

RIO 2016

Nos primeiros dias de agosto, quando muitos profissionais autônomos como eu viviam as incertezas olímpicas (RIO 2016), fomos surpreendidos por um feriado surpresa no dia 4 de agosto. Minha primeira reação foi de irritação pois tinha aula marcada, mas aos poucos a irritação foi se rendendo ao entusiasmo. Ocorreu que ao passar a notícia do cancelamento ao grupo via whatsapp alguém sugeriu: 

         "Gente! Por que não vamos ter aula ao ar livre?"  SUSTO  \O/

O desejo de ir para a rua, para a vida, sair da proteção das quatro paredes envolveu a maioria e fez com que nos esquecêssemos dos protestos iniciais. E fomos para a nossa aula em pleno Boulevard Olímpico, na Praça Mauá. Ninguém mais falou sobre as previstas dificuldades de locomoção na cidade. Nossos corações se aquietaram e resolveram se render a beleza da cidade pronta pra festa.

VAMOS PRA RUA!

A pesquisa do grupo entre as quatro paredes da sala de aula explorava a articulação da Arteterapia com a Arte Contemporânea, destacando o exercício do olhar sobre a qualidade dos materiais transparentes e seus reflexos. E, embora ainda não tivesse tomado consciência, o fato é que o local parecia ter sido construído por encomenda. Em seu aspecto formal, estava tudo lá: Linhas, Formas, Transparências, Opacidades, Espelhos, Texturas, Luzes e Sombras. Mas a questão fundamental era IR PARA A RUA, e isto nos aproximava de fato às discussões atuais sobre o papel da Arte e do artista, o que trouxe outra questão: E a Arteterapia? E o arteterapeuta? Como poderíamos lidar com esta faceta da Arte? Qual seria a contribuição desta experiência para nós na nossa prática? Será que podemos levar a Arte para o processo terapêutico sem passar pela rua? Estaríamos dispostos a esta exposição diante da realidade pulsante da cidade, este espaço “DESPROTEGIDO?” ... perguntas ainda em busca de respostas.

LUZES SOMBRAS E REFLEXOS

Retornando ao episódio em questão para podermos nos situar melhor, trata-se de um grupo de arteterapeutas que, após concluírem o meu curso sobre materiais em arteterapia, teve o desejo de dar continuidade ao trabalho o que me levou a reativar um projeto antigo: Ateliê de Artes para arteterapeutas.

“Princípio do Mundo”(1924 ?) de Constantin Brancusi (Romênia 1876/França 1957)

Na véspera do feriado, lendo Rosalind Krauss me deparo com um texto sobre a obra “Princípio do Mundo”(1924) de C. Brancusi (1876/ 1957), onde faz uma descrição objetiva da forma utilizando expressões no mínimo instigantes para nós arteterapeutas. Decidi utilizar o texto como disparador para uma posterior exploração do ambiente por meio da fotografia e/ou do desenho e o exercício de escrever sobre a imagem criada focada na descrição da forma, objetiva.

Nossa proposta era criar um texto descritivo, objetivo, a partir da observação da forma criada, que poderia ser relido subjetivamente em um segundo momento. O exercício de olhar a imagem e descrevê-la sem as "distrações" subjetivas, associativas, simbólicas ou interpretativas mostrou-se uma tarefa árdua, escorregadia e que foi realizada individualmente ao longo da semana. 

Segue um fragmento do texto utilizado para trabalhar o tema LUZES, SOMBRAS E REFLEXOS:
“O efeito dessa junção entre o objeto e a superfície em que está apoiado é garantir a diferença entre o tipo de reflexos registrados na parte inferior da forma e aqueles da sua parte superior. Prenhe de formas distorcidas de luz e sombra refletidas a partir do ambiente em que o objeto é contemplado, a forma lisa da metade superior é contorcida por uma profusão de incidentes visuais cambiantes. A parte inferior, por outro lado, limita-se a refletir o disco que serve de base, e tal reflexo tem o fluxo harmônico ininterrupto de uma gradual extinção de luz. Ali, onde o objeto toca o disco, o reflexo que recebe é a sombra de seu próprio lado inferior projetada de volta na sua superfície, como que por uma ação capilar.” (KRAUSS, 2001, p. 106-107).

E o desdobramento realizado no nosso trabalho de campo por Regina Diniz, arteterapeuta e psicóloga:
"[...] No reflexo, a seção superior da estrela transforma-se em inferior, mais disforme ainda e mais escura, em alguns pontos. Esse jogo de luzes, brilhos e sombras faz surgir uma imagem que se assemelha a de um lobo, cujos olhos luminosos encontram os olhos do espectador que observa, de frente, o reflexo da estrela." (trecho do texto sobre a imagem abaixo).
 Fotografia de Regina Diniz, no Boulevard Olímpico, 
destaque para a escultura de Frank Stella, entitulada, "Puffed Star II"


Ainda me sinto impregnada pela experiência percebendo a importância de apurar nossa percepção estética diante da realidade e tornar consciente o ato de capturá-la  e congelá-la em uma fotografia. Estávamos no espaço aberto, mas ainda "protegidos" pelo grupo ... olhávamos para fora pra descobrirmos conteúdos nossos ... muitas questões se abriram para repensar minha prática como professora e arteterapeuta que ainda pretendo compartilhar com vocês neste blog.

SOBRE ESTAR NA RUA, O TEMPO E A ANSIEDADE ...

A primeira questão que se colocou foi a de estarmos expostos ao TEMPO, ora com medo da chuva, ora com a visão ofuscada pelo Sol, o que dificultou antever as imagens a serem clicadas. Havia movimento, outras pessoas passando, coisas acontecendo, invadindo nosso campo. O tempo parecia ter sido estendido e todos tiveram tempo suficiente para explorar o ambiente aberto sem pressa, sem saber exatamente o que procuravam, aguardando que algum acontecimento, um reflexo, uma sombra, uma luz, lhes despertasse o interesse. Algo de fora precisava nos capturar para ser capturado pela câmera.

O movimento era OLHAR PARA FORA e trazer para DENTRO, e este também se colocou como uma situação nova no nosso trabalho. Não íamos olhar para dentro, entrar em contato com o silêncio, num lugar protegido, sagrado, teríamos que encontrar tudo isto ali, no campo aberto onde a vida acontece. De repente, estava tudo ao contrário, e neste ponto a Arte faz toda a diferença.

O exercício e o envolvimento do grupo foi intenso com muitos desdobramentos ao longo da semana, o que nos leva novamente a questão do tempo, como digo com frequência: "A imagem precisa de tempo para se revelar!!!!" O artista pode levar muito tempo, anos, décadas para a conclusão de uma obra, e o arteterapeuta muitas vezes se mostra ansioso na sua prática, querendo mudar de técnica ou material quando isto não é uma necessidade para o processo terapêutico. 

O ARTETERAPEUTA E A ARTE

A obra “Princípio do Mundo” é o resultado de uma pesquisa de dezoito anos, e não me espanta que digam que é só uma forma oval !!! Mas foram necessários quase duas décadas de elaboração para que o artista a aceitasse e isto não se dá apenas na Arte, mas na vida. E é por isto que insisto na importância da experiência e do estudo da Arte para o arteterapeuta, tanto na dimensão do fazer, do elaborar como em simplesmente estar exposto a ela. É preciso aproximação, intimidade e, também, experiência na busca de soluções materiais para a problemática que a feitura da obra exige. 

O contato com a Arte muda a nossa percepção do tempo e do espaço e acredito que contribua para combater a ansiedade do arteterapeuta diante da "produção" do seu cliente, entendendo a necessidade de se deter o tempo exigido no processo de criação e o momento posterior de elaboração do que foi realizado. Pode ser necessário muito tempo para que uma única imagem se materialize e outro tanto de tempo para que ela se revele e, quanto ao grupo, as imagens ainda estão em processo e as propostas do ateliê tendem a ter seu tempo estendido e cada um irá tomar do tempo o tempo necessário.

E, quanto a você leitor: Aguardo seus comentários,sugestões e críticas !!!!

Referência
KRAUSS, Rosalind E. Caminhos da Escultura Moderna. São Paulo: Editora Martins Fontes. 2001.
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terça-feira, 16 de agosto de 2016

ARTETERAPIA E OS QUATRO ELEMENTOS - A ORIGEM

Por Maria Cristina de Resende
crisilha@hotmail.com

Nos mais variados cursos de Arteterapia o aluno sempre passa pela disciplina que aborda os quatro elementos da natureza e as técnicas expressivas correspondentes a cada um deles. Entretanto, de onde vierem essas formulações sobre a correspondência desses elementos e o homem? Qual a verdadeira importância de saber sobre esses elementos estruturantes da natureza e da dinâmica psíquica do homem? Onde buscar uma correlação que de fato faça sentido e traga resultado para nossa prática?

Em muitos lugares podemos ver a correlação desses elementos com os quatro tipos psicológicos de Jung, mas ele mesmo nunca fizera essa relação, não por escrito!

Nas minhas buscas por saberes complementares, tanto para a psicologia quanto para minha busca pessoal de auto-conhecimento, cheguei no Xamanismo, cuja base de explicação para a criação do mundo está baseada na sagrada Roda de Cura, cuja representação para muitas culturas nativas é o casco de uma tartaruga, lugar onde fora criado nosso planeta. Ali, estão contidos todos os clãs de todos os povos, a regência dos animais de poder, das pedras, das plantas e, também, dos quatro elementos.


Também encontramos a regência das quatro direções, Norte, Sul, Leste e Oeste e em cada uma delas habita um desses quatro elementos. Essa Roda explica não só a criação do mundo, segundo a visão indígena, mas também explica os ciclos da vida tanto na natureza quanto do homem. Toda a visão de criação está alinhada com os processos da natureza, principalmente com a jornada que o Sol faz a cada dia e a cada ano. Sendo assim, temos uma correlação entre os elementos, as direções, os ciclos da natureza e, portanto, o homem, uma vez que não estamos separados da natureza.


Caminhado mais nesta busca pessoal, que por sua vez alimenta minha prática profissional, cheguei até o Oriente, mais especificamente na Índia e sua milenar Medicina Ayurveda, cuja existência data de mais de 3.000 anos, conhecidos e provados, mas há estudos que datam mais de 5.000 anos de existência, e sua prática é até hoje regida pelos mesmos textos sagrados de milhares de anos atrás.
Segundo a Medicina Ayurveda “cada individuo é a única expressão de um processo cósmico que se torna primorosamente reconhecível no tempo e no espaço”[1], sendo assim,

“o indivíduo, que é coisa rara, somente um, um evento sem repetição, existe como um microcosmo do macrocosmo da Existência. Esses dois sistemas, humano e cósmico, estão conectados permanentemente, pois ambos são feitos dos mesmos básicos elementos. Todos os elementos contidos no macrocosmo estão também presentes no microcosmo ”[2]

O que a Ayurveda nos ensina é que tanto o homem quanto o cosmos são feitos das mesmas substâncias, e que não só o homem, mas tudo que há neste planeta está em ressonância com esses elementos básicos, a cadeira em que estou sentada agora para escrever este texto, a folha de papel que o leitor usa para lê este texto, minhas mãos, seus olhos, o computador, os meus gatos sentados ao meu lado, o café que bebo agora, a roupa que visto e claro, os materiais que usamos no setting de Arteterapia.


Quando enxergamos esta conexão básica entre tudo que existe no universo, então entendemos que existe uma força manifesta através dos elementos, cujas características são específicas de cada um, mas que todos possuem, e então entendemos que quando usamos um material de Arteterapia para ajudar nosso cliente a expressar e reconhecer melhor sua manifestação aqui como ser humano, não é só uma imagem, mas é um pedaço dessa manifestação que possui em si ressonância com o indivíduo que a fez e com o universo inteiro, pois possuem os mesmos elementos básicos.

Ao compreender que os elementos da natureza (água, terra, ar, fogo e éter, para a Ayurveda), estão presentes em tudo, não precisamos mais literalmente trabalhar com água para acessar determinados aspectos que consideremos ressonantes com este elemento, podemos buscar nos materiais que possuímos em nosso ateliê quais são aqueles que possuem mais água em sua manifestação, por exemplo. Para tanto é importante compreender as características, funções e finalidades de cada um desses elementos.

A Arteterapia antroposófica já faz este tipo de trabalho. Baseada na medicina hipocrática, do conhecido pai da medicina Hipócrates, ela se baseia na teoria humoral, ou os 4 humores

O corpo do homem contém sangue, fleuma, bile amarela e bile negra – esta é a natureza do corpo, através da qual adoece e tem saúde. Tem saúde, precisamente, quando estes humores são harmônicos em proporção, em propriedade e em quantidade, e sobretudo quando são misturados.[3]

Nela são trabalhados apenas materiais que estejam em ressonância com esses elementos e com a natureza. Para saber mais sobre esta modalidade consulte o texto publicado aqui no blog pelo arteterapeuta Ismael Rodrigues Fraga http://nao-palavra.blogspot.com.br/2015/08/arteterapia-pelo-mundo-arteterapia.html.

Sendo assim, podemos compreender melhor de onde veio grande parte das associações entre os quatro elementos, os materiais de Arteterapia e a dinâmica psíquica do homem. Após este texto podemos compreender que eles não são só apenas associações, mas extensões dessa manifestação cósmica, ratificando uma reflexão que há tempos venho expondo em minhas explanações, a de que a arteterapia vai além da expressão de uma emoção através de uma imagem, ela é a continuação psíquica manifesta nos materiais, trazendo consciência através da materialidade, ou como diz Flávia Hargreaves, da coisificação das emoções e dos pensamentos que habitam o homem.




[1]  Each individual is the unique expression of a recognizable finely turned cosmic process occurring in time and space. Birgit Heyn – Ayurveda, The Indian Arte of Natural Medicine e Life Extension.
[2] The individual, who is a one-off, a once-only, unrepeatable event, exists as a microcosm in the macrocosmo of Being. The two systems, humam and cosmic, are linked permanently, since both are built from the same basic elements. All the elements contained in the macrocosm are also present in the microcosm. Birgit Heyn – Ayurveda, The Indian Arte of Natural Medicine e Life Extension.
[3] Joffre Marcondes de Rezende - Dos quatro humores às quatro bases. 


Referências Bibliográficas

HEYN, Birgit. Ayurveda, The Indian Arte of Natural Medicine e Life Extension. Ed. Healing Arts Press, Rochester, Vermont, 1990.

REZENDE, JM. À sombra do plátano: crônicas de história da medicina [online]. São Paulo: Editora
Unifesp, 2009. Dos quatro humores às quatro bases. pp. 49-53. ISBN 978-85-61673-63-5. Available
from SciELO Books <http://books.scielo.org>.

http://www.xamanismo.com.br/Roda/SubRoda1191072387008

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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

SOBRE A TRANSFERÊNCIA E A CONTRATRANSFERÊNCIA EM GRUPOS ARTETERAPÊUTICOS


Por Eliana Moraes
elianapsiarte@gmail.com


Tenho me dedicado atualmente a dois objetos de estudo e pesquisa: o trabalho com grupos em Arteterapia (1) e as especificidades da Arteterapia como saber, prática e profissão. Durante o primeiro semestre estive pensando sobre o fenômeno da projeção/transferência no setting arteterapêutico (2) (3). A proposta de hoje é fazer uma articulação entre estes dois temas.



No contexto da clínica, temos a projeção de um sujeito (o paciente) para outro ser humano  (o terapeuta, que se apresenta não como sujeito, mas como função), e assim é denominado o fenômeno da transferência. A outra via deste fenômeno, do terapeuta ao paciente, contratransferência (4).


Já em grupos terapêuticos a configuração é outra:
“A prática da terapia grupal tem algumas características que a diferencia do atendimento individual, sendo que a primeira delas é a presença de vários pacientes/clientes no setting terapêutico. Essa simples constatação já implica uma maior complexidade dos habituais fenômenos da transferência e contratransferência, que são inevitáveis... O grupo se configura como um jogo de espelhos, onde cada pessoa pode se ver refletida na outra, olha e é vista ao mesmo tempo por outras pessoas que não apenas o coordenador do grupo, que se encontra igualmente exposto.” (SEI, 2010 p 51)
Uma especificidade da Arteterapia se dá pela introdução de um terceiro elemento na relação projetiva dentro do recorte clínico: o "material", ao qual divide com o terapeuta o fenômeno da projeção (aqui entendendo o material de forma ampla: o material plástico, o agir criativo, a imagem). Nas palavras de Cláudia Brasil:

Na relação terapêutica estabelecida em consultório, em que apenas duas pessoas se encontram, as projeções e a transferência são experimentadas de forma direta à pessoa, sem intermediações. Por isso, o uso de materiais plásticos e de recursos técnicos criativos promove o deslocamento da transferência entre duas pessoas e passa a ser uma tríade, na qual o terceiro elemento é o material utilizado. Assim, os complexos ativados são projetados para além do terapeuta, nos materiais. Nessa perspectiva, tanto o terapeuta quanto o cliente podem observar o produto final e a energia do complexo pulsando nas cores e formas. (BRASIL, 2013)

Partindo destes princípios, cabe pensarmos sobre os fenômenos da transferência e contratransferência no contexto de grupos arteterapêuticos, pois a trama de forças projetivas se darão de forma específica. É necessário que o arteterapeuta perceba e visualize esta intensa dinâmica e se instrumentalize para manejá-la de forma consciente e consistente.
Podemos destacar quatro fluxos projetivos:
- A transferência/contratransferência entre paciente e terapeuta: de fato, todo processo terapêutico contempla estes fenômenos e desta forma cabe a todo terapeuta se aprofundar nestes conceitos.
A teoria nos diz que ao projetar conteúdos próprios no terapeuta, o paciente repetirá com ele seu modo de se relacionar, que é muitas das vezes sua fonte de angústia. Ao terapeuta cabe visualizar este convite à repetição, não ceder a ele e cooperar para a transformação dessas repetições “irresponsáveis” em “memórias” conscientes. Assim o terapeuta faz outros convites: a tomada de consciência de si por parte do paciente e a partir daí uma atualização de suas modalidades de relacionamento.
Em grupo esta dinâmica se repete com cada participante simultaneamente.
- A projeção a partir da entrada do terceiro elemento, o material: na dinâmica de espelhamento característica do processo terapêutico, o material será um objeto que se relacionará tanto com o paciente quanto com o terapeuta “...não apenas como um depositário de imagens, mas como troca significativa...” (BRASIL, 2013 p 53) de energia psíquica e projeções, muitas vezes tornando-se até o centro do processo. Ao terapeuta cabe estar o mais consciente possível de suas questões pessoais e consequentemente de suas próprias projeções para deslocar-se delas e manejar com as projeções do paciente.
Naturalmente, em grupo esta dinâmica se repete com cada participante simultaneamente.
- A transferência entre pacientes: em grupo terapêutico, para além da relação paciente/terapeuta, haverá outras pessoas na mesma condição de sujeito compondo o grupo e assim as relações se manifestarão de forma natural, a partir da oportunidade de cada “eu” se revelar em suas interações com os outros e se fazer nos vínculos apresentados. A relação com outros sujeitos atualizada dentro do setting terapêutico abrirá um campo para atuações não inócuas, mas propícias para a percepção de si e ao autoconhecimento.
Ao terapeuta cabe proporcionar e sustentar um ambiente propício para escuta, tomadas de consciência e movimentos de mudança de sujeitos (de) em relação.
- A projeção pela presença do terceiro elemento dos outros pacientes: a prática nos mostra que a observação do material do outro é bastante mobilizadora de questões individuais e coletivas. Mais uma vez, entendendo material de forma ampla: os materiais plásticos, todo o agir criativo e a imagem produzida pelo outro podem capturar o olhar do participante de um grupo de forma intensa. Além disto, esta oportunidade de observação mostra-se bastante enriquecedora na construção do sujeito em terapia.

Aqui reside uma grande especificidade da Arteterapia como técnica para grupos terapêuticos. E cabe ao arteterapeuta instrumentalizar-se para visualizar e manejar as possibilidades que se abrem a partir dela.

Este texto é um resumo de um dos temas abordados no curso “Grupos em Arteterapia” ao qual tenho me dedicado, no desejo de compartilhar o que pude aprender na prática com grupos arteterapêuticos e o posterior aprofundamento teórico. Em agosto se inicia a segunda turma deste curso presencial. E seu conteúdo foi adaptado e está sendo produzido em curso on line para os interessados pelo tema que estão longe geograficamente. Vai ser um prazer compartilhar com você este caminho de estudo e prática em Arteterapia!

Informações e inscrições para o curso presencial e online escreva para elianapsiarte@gmail.com

(1)   Veja textos anteriores
“Arteterapia ‘High Touch’ – Reflexões sobre o trabalho com grupos arteterapêuticos”
“Arteterapia em Grupo: Um depoimento”, “
Grupos Arteterapêuticos – Um estudo (Parte 2)”
“A arte como instrumento em grupos terapêuticos – Especificidades da Arteterapia”

(2)   Veja textos anteriores
“O manejo do fenômeno da projeção em Arteterapia (Parte I)”
“O manejo do fenômeno da projeção em Arteterapia (Parte II)

(3)   Veja minicurso on line “O fenômeno da projeção/transferência em Arteterapia” no site www.centrodehumanas.com.br
(4)   Sobre este tema, sempre cito e indico o livro “O encontro analítico: Transferência e Relacionamento Humano” Mario Jacoby
BIBLIOGRAFIA:
BRASIL, Claudia. Cores, Formas e Expressão: Emoção de lidar e Arteterapia na Clinica Junguiana. Ed. Wak. Rio de Janeiro, RJ. 2010.

SEI, Maíra Bonafé. GONÇALVES, Tatiana Fecchio. (Org). Arteterapia com Grupos: Aspectos teóricos e práticos. Ed. Casa do Psicólogo. São Paulo, SP. 2010.


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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A ARTE CONTEMPORÂNEA E A ARTETERAPIA

Por Flávia Hargreaves

B17 Bólide Vidro 5 (Homenagem a Mondrian)
1965 | Hélio Oiticica vidro, tela pintada, cimento, água e telas de nylon
Reprodução fotográfica Cortesia Galeria São Paulo
Fonte: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa48/helio-oiticica

Este texto traz uma reflexão sobre a palestra “Buscando potenciais na Arte Contemporânea na prática da Arteterapia”apresentada por mim em 08/07/2016 no II Ciclo de Palestras Não Palavra.

Nos últimos 3 anos minha pesquisa em torno do tema História da Arte e suas contribuições para a prática da Arteterapia se voltaram para a Arte Moderna, em especial os movimentos Dadá e Surrealismo e a Arte Abstrata.

Em 2016, retomo com outros olhos um estudo anterior quando trouxe a obra de Louise Bourgeois (1911-2010) e Jackson Pollock (1912-1956) para o Grupo de Estudos em Arteterapia, com Eliana Moraes (2009), que dei continuidade no projeto Ateliê para Arteterapeutas (2010). Revendo minha experiência em ateliê, em sala de aula e como arteterapeuta, percebo um campo imenso a ser explorado com relação aos potenciais da Arte Contemporânea para a nossa profissão.

Trabalho realizado no curso: "Conhecendo os Materiais e Aprendendo a Usá-los" 
a partir de texto sobre a obra de Louise Bourgeois. Junho 2016.

Mas quais seriam os diferenciais da Arte Contemporânea, para a qual, é importante destacar, muitos ainda torcem o nariz? Buscando definições no Google, encontro a enquete: “Afinal, o que é arte contemporânea?” no site itaucultural (VERUNCHK). Nela, Márcio Harum responde citando o pintor Honoré Daumier (1808-1873): “É preciso ser de seu tempo” e continua: “Preciso ser mesmo do meu tempo, mas que tempos são esses, afinal?” O que me leva a pensar no filme "Meia-noite em Paris"de Woody Allen (2011), para quem não viu, fica a dica.

Segundo Fernando Cochiarale (2007) “Um dos grandes obstáculos para entender a arte contemporânea é o fato de ela ter-se tornado parecida demais com a vida. [...]” e continua citando o crítico Thierry de Duve “[...] quando alguém estava diante de um quadro sabia que era arte, mas não se era belo. Ele diz que no mundo atual o ‘isto é belo?’ foi substituído pelo ‘isto é arte?’ Mas, na verdade, essa não é uma pergunta que se faça só para a arte.”

Segundo Sara Paín (2009), somente após a Arte Contemporânea podemos trazer o nome ARTE para a ARTETERAPIA, “porque a arte liberou-se de toda a norma canônica, de toda a obrigação que não emane das regras de jogo que o próprio artista inventou” e diz ainda que “[...] a arteterapia ajuda a compreender a arte contemporânea.”

Outras questões importantes são a participação ativa do espectador que é chamado para interagir com a obra, que muitas vezes está integrada a paisagem natural ou urbana. São muitas as mídias, as linguagens e os modos de expressão disponíveis, abrem-se as possibilidades.

Resumindo, estamos diante de uma Arte que ainda causa estranheza na sua recepção, “isto não é arte!”; nos obriga a rever a questão das habilidades na Arte, “não sou artista, não sei desenhar”; e ao aproximar a Arte da vida cotidiana nos autoriza, ampliando seus meios, “isso até eu posso fazer”. Voltando para a Arteterapia, a Arte Contemporânea se contrapõe a afirmações recorrentes como: “Arteterapia não tem nada a ver com Arte” ou “Eu não sou artista, não sei desenhar.”

Tive a oportunidade de testemunhar a mudança de atitude de muitos alunos dos cursos de formação em Arteterapia, onde sou professora da disciplina Ateliê de Artes e História da Arte, diante da Arte Contemporânea. Ao colocá-los diante de reproduções de obras dos séculos XVI a XIX e técnicas e materiais tradicionais de arte, houve um momento de encantamento e um sentimento de exclusão. “Isto eu não sou capaz de fazer.” A arte mostrou-se como algo distante, inatingível, a ser contemplada, fechada para a possibilidade do sujeito se experimentar como artista/autor. Na sequencia da aula os elementos foram substituídos por materiais dos mais diversos, apresentadas imagens de arte a partir dos anos 60 e dei um tema que poderia ser trabalhado com qualquer material e linguagem. Neste momento foi como se houvesse sido lançado um jato de energia, todos acordaram para a sua possibilidade de criar. Escreveram, pintaram, criaram sons com os celulares, realizaram performances, e, a partir daquele momento, todos se sentiram incluídos na possibilidade de criar. Em seus depoimentos disseram ter se sentido mais à vontade e livres, a arte estava próxima.

Voltando à citação “É preciso ser de seu tempo [...] mas que tempos são esses, afinal?”, acredito na importância de estar conectado com o seu tempo e para tanto é fundamental dialogar com a arte atual, que a propósito propõe exatamente esta relação dialógica deixando muitas questões em aberto, provocando o público a uma postura mais ativa. A experiência com a Arte Contemporânea colabora para o entendimento do fazer Arte no processo terapêutico e autoriza terapeuta e cliente a uma relação estreita com a Arte na sua prática. É importante destacar que quando uso o termo Arte, me refiro à Arte sim, mas excluo seus aspectos e implicações profissionais e de mercado.

Atualmente tenho desenvolvido este trabalho no “Ateliê de Artes para terapeutas”, cujo “ensaio” data de 2010, onde trabalho a partir do estudo de artistas contemporâneos explorando seus potenciais para a prática da Arteterapia em suas inúmeras articulações. Este estudo também está presente na minha abordagem dos materiais para a Arteterapia e na minha prática como arteterapeuta. Estarei compartilhando com vocês neste espaço os desdobramentos desta pesquisa teórica e prática, que ainda dá os seus primeiros passos.

Referências:
COCHIARALE, Fernando. QUEM TEM MEDO DE ARTE CONTEMPORÂNEA.  1º reimpressão. Fundação Joaquim Nabuco. Editora Massangana. Recife, 2007.
HARUM, Márcio. In: VERUNCHK, Micheliny. Afinal, o que é arte contemporânea? Disponível em <http://www.itaucultural.org.br/materiacontinuum/marco-abril-2009-afinal-o-que-e-arte-contemporanea/> Acessado em 28/06/2016.
PAÍN, Sara. Os Fundamentos da Arteterapia. Petrópolis. Ed. Vozes. 2009.
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segunda-feira, 18 de julho de 2016

ARTETERAPIA E NOVAS MIDIAS – Rompendo as fronteiras da geografia



Por Eliana Moraes
elianapsiarte@gmal.com


O blog Não Palavra nasceu em 2013 a partir do meu desejo de compartilhar meu dia a dia de estudo e prática da Arteterapia. Esta empreitada que começou como um diário de bordo, já trazia em seu codinome “Pensando a Arteterapia” a linha mestra deste desejo. A palavra “pensando” colocada no gerúndio, demonstra a premissa a partir da qual me autorizei a iniciar este ousado projeto: este é um caminho de reflexão, um processo, não há nada pronto e isto inclusive me permite escrever e mais a frente me desdizer se for necessário.

De fato, com este propósito em mente, eu não poderia caminhar sozinha. Com o passar do tempo ganhei como parceiras diretas Flávia Hargreaves e Maria Cristina Resende que tanto foram me enriquecendo, constituindo e me “provocando” em articulações de ideias, contribuindo para minha prática como arteterapeuta e construções teóricas.

Mas além delas, nomes já conhecidos, outras pessoas foram fundamentais neste processo: os leitores do blog. Estes são grandes parceiros, que no início eram pessoas conhecidas e amigas mas com o passar do tempo novas pessoas foram se aproximando. Hoje já atingimos um número expressivos de leitores, parceiros e amigos do blog Não Palavra, que se identificaram com nosso propósito de pensar a Arteterapia como saber, técnica e profissão. Identificaram-se também com nosso estilo de trabalho de contemplar e buscar tantos outros possíveis embasamentos teóricos para instrumentalizar o arteterapeuta em seu trabalho e para que este profissional possa atuar e se posicionar no mercado de trabalho de forma consistente.

Naturalmente, muitas das pessoas que agregaram essa construção, não estão perto de nós geograficamente. Cada vez mais estamos recebendo contatos de pessoas de outros estados do Brasil nos perguntando sobre material impresso e sobre nossas palestras, cursos, eventos e aulas.

Compartilho com os leitores que cada um destes contatos me toca de forma pessoal e profissional. Primeiramente por ser alguém bastante empática com pessoas que demonstram ter o desejo (no sentido mais profundo do termo) de aprender sobre a Arteterapia e em segundo lugar por ser uma grande militante para que ela seja uma profissão respeitada e inserida no mercado de trabalho. Isto se dá pelo fato de que, a partir da minha prática e estudo, eu acredito na Arteterapia! Aqueles que estão próximos a mim sabem o quanto eu a amo e como trabalho com ela (e por ela) com (e por) paixão.

A partir destes contatos fiquei me perguntando como me aproximar das pessoas que estão longe geograficamente, mas que se interessam em dialogar com aquilo que o Não Palavra vem desenvolvendo. Movida por este desejo, no mês de agosto estarei em Minas Gerais ministrando a palestra “Ressignificando uma biografia através da arte” no espaço AREA Arteterapia em Belo Horizonte e na Medley Escola de Música e Artes em Sete Lagoas, através da parceria com o "Café com Cultura". Abrir a porta de dividir o que tenho aprendido e vivenciado em Arteterapia para além do Rio de Janeiro está sendo mais um passo instigante neste meu caminhar.

Entretanto esta é uma prática que demanda organização de tempo e agenda além de um investimento financeiro considerável. Infelizmente não é algo possível de se realizar com tanta frequência. E assim, surgiu a ideia de lançar mão de recursos tão próprios da nossa contemporaneidade: as novas mídias.

Em 2016 o blog Não Palavra fez uma parceria com o site Centro de Humanas Episteme e tenho desenvolvido materiais de cursos on line em Arteterapia com o conteúdo que já tenho compartilhado em cursos livres presenciais, mas que a distância impede que tantos interessados possam participar. Neste seguimento, não me proponho a formar arteterapeutas, mas a passar adiante o que tenho aprendido e vivenciado, pois acredito que é isto que se deve fazer com o conhecimento.

Naturalmente, quando iniciei este projeto imaginei que alguns questionamentos me seriam feitos pelo fato da Arteterapia ser vivencial, por essência uma experiência com os materiais, técnicas expressivas e linguagens da Arte. Alias, eu mesma me fiz estas perguntas antes de aceitar o desafio. E o aceitei e investi o melhor de mim (dentro da maturidade de cada fase deste caminho) quando me dei conta que o Rio de Janeiro é um lugar com grande oferta de material, eventos e cursos na área. Mas pude perceber que esta não é a realidade em todo o país, sobretudo fora das capitais. Em segundo lugar porque acredito que embora a Arteterapia seja vivencial, ela tem teoria (própria e outros possíveis embasamentos teóricos) ao qual o arteterapeuta ou o interessado em Arteterapia precisa se debruçar, se instrumentalizando de forma consistente para esta prática.

Eu, por vocação, sou alguém estimulada por pessoas e arte, não sou a maior das interessadas em tecnologia e os métodos de comunicação mediados por ela. Mas, pegando emprestado o título de um dos textos da minha parceira Flávia Hargreaves, “a necessidade faz o sapo pular”. E a partir de então tenho pesquisado sobre as novas mídias e como elas podem colaborar para a expansão do Não Palavra e da Arteterapia como saber e profissão no nosso país. Longe de ser um movimento de banalização da Arteterapia, mas de cooperação para seu avanço.

Na primeira aula do meu curso “Grupos em Arteterapia”, para responder o porquê trabalhar com grupos terapêuticos na atualidade, faço menção ao paradoxo da tecnologia, ao qual ao mesmo tempo tem o potencial de aproximar e afastar as pessoas em suas relações interpessoais. Justifico ao grupo arteterapêutico que mantenho no meu espaço que se comprometer com aquele grupo é uma subversão ao convite tão subjetivo de nossa cultura, pois eles têm a oportunidade de saírem de sua zona de conforto, se deslocarem ao encontro de outros seres humanos e se perceberem, se pensarem como sujeitos (de) em relação. Sendo assim, escrevo, dou aulas e mantenho grupos em arteterapia também por micropolítica, para que os seres humanos não se percam de experienciar suas relações em sua profundidade.

Por outro lado, penso que a tecnologia não é vilã em si. É uma ferramenta que pode ser bem usada ou mal usada. Assim, tenho me proposto a me instrumentalizar para utilizá-la de forma responsável, por mim, pelo projeto Não Palavra e pela Arteterapia.

De toda forma, sendo esta uma ideia que venho construindo ao longo do meu caminho e crendo que não existe o caminhar sozinha, gostaria de ouvir a opinião dos leitores, parceiros e amigos do Não Palavra sobre a relação da Arteterapia com as novas mídias. Seja a oferta de material escrito, como por exemplo o blog, as ferramentas de transmissão de palestras on line (um dos meus desejos atuais) e os cursos on line inseridos na proposta do Ensino a Distância (EAD), uma questão tão atual e amplamente discutida na educação e em diversos seguimentos.

Certamente a sincera opinião de cada um que se disponibilizar a participar desta discussão, irá colaborar para meus próximos passos no caminho Não Palavra que continua.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

MATERIALIDADE EM ARTETERAPIA

Por Flávia Hargreaves
fmhartes@gmail.com

Ilustração: Flávia Hargreaves.
Tinta acrílica aplicada com esponja e lápis aquarelado sobre papel schoeler 4R. Anos 90.

“Cada materialidade[1] abrange de início, certas possibilidades de ação e outras tantas impossibilidades. Se as vemos como limitadoras para o curso criador, devem ser reconhecidas também como orientadoras, pois dentro das delimitações, através delas, é que surgem sugestões para se prosseguir um trabalho e mesmo para se ampliá-lo em direções novas. De fato, só na medida em que o homem admita e respeite os determinantes da matéria com que lida como essência de um ser, poderá seu espírito criar asas e levantar vôo, indagar o desconhecido.” (OSTROWER, 1997, p. 32)

Este pensamento irá se desdobrar sobre a questão do que a autora designou “imaginação criativa” que seria “um pensar específico sobre um fazer concreto”. O imaginar criativo precisa levar em consideração a materialidade com a qual trabalha. A partir desta afirmação poderemos colocar que se estivermos tratando de materiais das artes plásticas como, por exemplo, o papel, precisamos entender suas propriedades, sua cor, flexibilidade, resistência, suas possibilidades e suas impossibilidades, o que não significa seguir regras, mas sim ter consciência da realidade com a qual se está lidando. Toda a ação sobre o material terá consequências.

Outra questão, ainda no que se refere aos materiais de arte, a autora coloca que o material não é somente físico, “para o homem as materialidades se colocam num plano simbólico [...].” (OSTROWER, 1997, p. 33) Tanto a matéria como as formas carregam valores culturais, nos falam de uma época, de um lugar, etc.

A autora faz um paralelo entre as potencialidades da matéria e as nossas e nos diz que:

“[...] na forma a ser dada configura-se todo um relacionamento nosso com os meios e conosco mesmo. [...] o imaginar – esse experimentar imaginativamente com formas e meios – corresponde a um traduzir na mente certas disposições que estabeleçam uma ordem maior, da matéria, e ordem interior nossa. Indaga-se através das formas entrevistas, sobre aspectos novos nos fenômenos, ao mesmo tempo que se procura avaliar o sentido que esses fenômenos novos podem ter para nós”.  (OSTROWER, 1997, p. 34)

Determinantes da matéria: possibilidades e impossibilidades de ação

Em Arteterapia sempre defendi a importância do conhecimento dos materiais pelo profissional no que diz respeito às suas propriedades físicas, ou seja, ao que seria determinante naquela matéria a ser manipulada e transformada no setting. Observa-se uma predominância da utilização dos meios plásticos, o que torna este conhecimento fundamental. Conhecer os materiais na sua dimensão física irá compor com os valores expressivos e culturais dos quais vem impregnada, um conhecimento essencial para lidarmos com esta materialidade.

O conhecimento dos materiais não se limita a oferecer uma base para a aplicação de técnicas de arteterapia, mas, ao contrário, oferece suporte para a ampliação no uso dos materiais, sustentando o  “estar ao lado” do cliente diante do “não saber se vai dar certo”, permitindo as inovações e transgressões tão fundamentais para a criação.

Houve muitas ocasiões em que meus clientes quiseram fazer algo inusitado, e me perguntaram “e se eu fizer assim? vai dar certo?” e eu pude responder “não sei, vamos descobrir”. Preciso abrir um parênteses: Certa vez, e é importante que se compartilhe também os erros, me envolvi demasiadamente em auxiliar o cliente na busca de soluções técnicas para uma proposta desafiadora e fui chamada a atenção. O cliente me repreendeu: “Você está buscando soluções pra mim!” Lição anotada. E, sim, ele estava buscando soluções para a própria vida.

De qualquer modo, enquanto o arteterapeuta se sentir inseguro diante da materialidade da sua prática ele não poderá criar este espaço seguro para que o cliente se lance na experimentação. Quando propomos uma técnica diretiva, corremos menos riscos, mas para lançar mão de uma proposta de livre experimentação dos materiais como me proponho a fazer é importante ter se experimentado nesta labuta do ateliê, no aprendizado com estas matérias. Como diz a artista Louise Bourgeois: “Fazer, Desfazer, Refazer” entendendo que cada desfazer e cada refazer é um fazer novo. E é isso mesmo, labuta, trabalho, suor, insistência, cair e levantar.

Direções Novas

Como escreveu Eliana Moraes, no texto deste blog “Micro e macro, arte e vida”[2] (28/04/2014), o micro seria o trabalho produzido no setting e o seu desdobramento seria no macro, na própria vida. Maria Cristina de Resende corrobora com este pensamento em seu texto “Observações da clínica”[3] (20/06/2016) colocando que “[...]a realidade que se cria dentro do consultório precisa ser potencializada até que transborde para fora daquele espaço terapêutico, e então as experimentações de materiais se transformam em experimentações na vida e, portanto, de vida!”

Experimentar novos meios, novos materiais também significa experimentar novos modos, novas direções na vida, descobrindo potencialidades adormecidas ou desconhecidas. Esta experiência nos fortalece, amplia nossas possibilidades de ação.

Ostrower (1997, p. 39) nos diz que “a imaginação criativa nasce do interesse, do entusiasmo de um indivíduo pelas possibilidades maiores de certas matérias ou certas realidades. [...] para poder ser criativa, a imaginação necessita identificar-se com uma materialidade.”

Finalizando volto a afirmar que a prática da Arteterapia exige do profissional certo nível de intimidade com os materiais plásticos, e para tanto este profissional não pode ocupar um lugar de estranheza com os mesmos, ou ainda estar limitado a repetição de receitas, sem se ocupar do conhecimento das qualidades e potenciais de cada material. Quando digo qualidades não me refiro somente a certo material evocar certo sentimento, etc., mas também a algo muito mais primário, como: se este material dilui em água? Demora para secar? O que acontece se eu fizer isso ou aquilo? A dimensão laboratório, cozinha das artes plásticas. E, é claro, eles também terão o seu lugar marcado na história, e este também será um estudo fundamental.

REFERÊNCIAS
OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. 12ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1997.
MORAES, Eliana. Micro e macro, arte e vida. publicado em 28/04/2014. Disponível em <http://nao-palavra.blogspot.com.br/2014/04/micro-e-macro-arte-e-vida.htmlpublicado> Acessado em 20/06/2016.
RESENDE, Maria Cristina. Observações da clínica. publicado em 20/06/2016. Disponível em <http://nao-palavra.blogspot.com.br/2016/06/observacoes-da-clinica.html > Acessado em 20/06/2016.

NOTAS

[1] Ostrower se refere à “materialidade” em um sentido amplo abrangendo “tudo o que está sendo formado e transformado pelo homem.” Podendo referir-se tanto à pedras como a pensamentos, conceitos, sons, afetos, etc.
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segunda-feira, 4 de julho de 2016

OBSERVAÇÕES DA CLÍNICA # parte 2

Por Maria Cristina de Resende
crisilha@hotmail.com

No último texto divulgado neste blog, a respeito das observações da prática da Arteterapia na clínica, falei um pouco sobre o quanto a experimentação das técnicas e materiais na pode se tornar estímulo para a experimentação da vida e de vida. Hoje, dando continuidade a estas observações, trago o tema já mencionado por Eliana Moraes sobre o repetir, recordar e elaborar, conceito da psicanálise que fala sobre uma repetição criativa, produtiva onde o individuo repete e elabora suas questões diminuindo a amplitude entre consciente e inconsciente.

E quando esta fala se torna neuroticamente repetida?

Assim podemos falar de um quadro difícil de conduzir na clínica que são os indivíduos com estilos obsessivos de ver e estar no mundo. Se no texto anterior abordamos um individuo tido como imaturo, mas que na verdade seu estilo puer o conduz a uma instigante experimentação de mundo, o individuo obsessivo, regido por senex, teme esta experimentação e por isso permanece em seu confortável círculo de experiências conhecidas. Estratégia ilusória de manutenção do controle das variáveis, ou como tenho gostado de falar, das “acontecências” da vida.

Ao longo dos atendimentos com um indivíduo com este estilo, poucos trabalhos foram sendo produzidos por ele. Mas um, especificamente, foi revelador deste movimento neuroticamente circular.

Em algum ponto de seu processo terapêutico ele foi convidado a buscar livremente materiais que o capturasse e pudessem expressar seu presente momento. Mas esta livre experimentação pode se tornar um momento de angústia para aqueles que temem qualquer movimento não planejado, sendo assim, materiais seguros e de fácil controle se tornam bem atrativos. E assim foi neste caso, um suporte de papel canson e lápis de cor preto. Mas a falta de condução o leva a não saber o que fazer, e me pergunta: “O que é pra eu fazer?”. A necessidade de alguma referência revela a dificuldade de entrar em contato com o próprio desejo e manifestá-lo plenamente através de novas experiências, que neste caso são os próprios materiais.

Respondo então que ele poderia fazer o que quisesse e que talvez fosse interessante fechar os olhos e sentir o movimento das mãos com o lápis sobre o papel. O mínimo de interferência como gatilho para o processo. E assim aconteceu. Traços não delimitados, soltos, livres, mas que retornam para um ponto em comum.

Depois de um tempo, pouco tempo, ele abre os olhos e vê o que fez. Peço então que olhe e sinta o que aquela imagem tem a dizer. “Medo, retorno ao mesmo lugar”.

O que dizer de tais frases! Por um tempo esta obra foi ressoando em nossos encontros. Porém seu impacto foi realmente sentido um ano após sua produção.

Depois de rever alguns trabalhos realizados em seu processo, ele se depara com este e percebe que suas queixas permanecem as mesmas, ainda que depois de um ano.  Esta percepção nos coloca novamente em contato com o tema repetir, recordar e elaborar, onde podemos ver que sua repetição não o leva a uma elaboração do tema, mas sim a uma manutenção do status quo que faz perdurar seus sintomas e suas queixas, pois assim o conduz por um caminho conhecido e de fácil manipulação.

O que a Arteterapia tem a oferecer em casos como este?

A experiência de manipular diferentes materiais e texturas, de produzir diferentes formas e dialogar com tais produções pode fazer com que indivíduos obsessivos se permitam, a seu tempo, a abrir espaços para novas formas, novas cores e nuances em sua vida. O ato criativo na clínica como um ensaio para novos atos criativos na vida, suavizando cada vez mais os traços rígidos do senex que rege a vida de tais pessoas. Podemos compreender este ato criativo, que aqui se aproxima do agir criativo, falado por Eliana Moraes, como uma potencialização do aspecto puer desta sizígia puer-senex.
Este par de forças inconscientes que estruturam, desestruturam e renovam nosso estado de ser e estar no mundo nos conduz a vivenciar o vir a ser, confiando nesse fluxo do devir despindo-nos da ilusória realidade de controle e de permanência. Logo, a Arteterapia atua como força propulsora para o devir, estado tão ameaçador para o estilo senex de ser.