segunda-feira, 8 de setembro de 2025

BEATRIZ MILHAZES E A ARTETERAPIA



Por Vera deFreitas - RJ

As obras da artista plástica brasileira e contemporânea Beatriz Milhazes (1960), são compostas por pinturas, colagens, gravuras, xilogravura, serigrafia, móbile e técnica mista. Elas trazem um estilo próprio e múltiplos elementos que se integram e se harmonizam de forma organizada e equilibrada. Com liberdade criativa, Milhazes mistura abstração, geometria, modernismo, pop art, concreto e neoconcretismo, valorizando a expressividade, a sensibilidade, e a subjetividade.

Trabalha com cores intensas, formas e padronagens que atraem olhares e intensificam sensações. A artista investe na produção manual, na confecção, na montagem e na pesquisa de novas técnicas e materiais diversos. Busca recursos, possibilidades e soluções. E assim constrói o seu mundo, um caminho autoral, uma identidade criativa.



Suas obras são construídas por camadas sobrepostas de cores, formas, elementos e materiais diversos, possuindo a complexidade da técnica mista (mixed media), a partir de coisas simples. A simplicidade e a infinita complexidade se encontram em suas obras, que apresentam uma beleza exuberante e colorida.

Beatriz Milhazes se inspira inicialmente na artista Tarsila do Amaral, também brasileira, com suas pinturas que expressam a possibilidade de pensar uma linguagem pessoal, o seu estilo de criar. Em suas colagens ela integra embalagens de doces e chocolates, cartões, tickets, ingressos e objetos do cotidiano, que pertencem à vida real e são, a princípio, estranhos ao trabalho artístico. Contudo, esses objetos representam valiosos relicários que não devem ser esquecidos, transformando trabalhos carregados de significados, simbolismos e histórias.

As propriedades e qualidades das obras e dos processos criativos da artista, nos remetem aos benefícios da Arteterapia, como a representação da expressividade, da liberdade e da criatividade. Suas obras retratam a identidade, a singularidade e a subjetividade, falando do indivíduo e da alma humana.

A história e sua arte de Beatriz Milhazes servem de inúmeras inspirações, apoio e embasamento para as atividades plásticas e expressivas no processo arteterapêutico, a partir da diversidade de linguagens e materiais utilizados em camadas, numa produção plástica – técnica mista. Proporcionando muita prática e experimentação, buscando soluções criativas, autonomia e liberdade de expressão, ampliando e aprofundando o olhar, acessando questões importantes como o autoconhecimento e facilitando o encontro consigo mesmo.

Experiência pessoal



Segundo Beatriz Milhazes, numa tela em branco pode-se construir seu mundo, desenvolver suas ideias e conceitos. Foi a partir disso que baseei minhas experimentações e estudos monográficos do curso de Pós-graduação (2019), pela Pomar/Favi, sobre estratégias expressivas em técnica mista, ativando o processo criativo em Arteterapia.

Verifiquei o potencial curativo e terapêutico pela utilização do método criado, partindo do pressuposto que o processo criativo pode ser organizador, restaurador, recuperador e liberador do fluxo de energia psíquica, levando ao bem-estar, à expressividade e à saúde. Fui criando imagens, utilizando diversas linguagens na mesma produção, como pintura, desenho com materiais variados, colagens de revistas e de papéis diversos, e inserindo objetos (botões, rendas, plantas e flores naturais e artificiais etc.). Foram muitas experimentações, criações e novas possibilidades.

Prática arteterapêutica



A partir de uma metodologia criativa, com orientação e supervisão, montei um Projeto Piloto, de 4 encontros para 4 grupos distintos, com um total de 35 participantes. Os resultados dessa experiência foram muitas atividades e produções expressivas. Os participantes perceberam seus estilos de criar, possibilidades, caminhos e encontros. Entenderam o trabalho em etapas, precisando de tempo para compor, gestar e formar. Experenciaram o caminho do “fazer arte”, o caminho que seguimos para dentro, para encontrar a criatividade e a alegria de praticar a sua forma de criar. Construíram um estilo próprio, buscaram sua singularidade e seu aprimoramento. Se descobriram e se encontraram. Trabalharam a integração, a estruturação, a organização e a composição.

Assim, como as obras de Beatriz Milhazes, que trazem todos esses conceitos, além da liberdade de criar a própria ordem, e ainda sugerem a ideia de abundância, tornando a vida mais bela e agradável.



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Sobre a autora: Vera de Freitas



Advogada, Fomação e Pós Graduação em Arteterapia e Envelhecimento Ativo,  Subjetividade e Arte(POMAR).

Administradora do Instituto VENHA CONOSCO - Tijuca, RJ

Professora de Iniciação Artística - Instituto ZECA PAGODINHO 

Professora de Ateliê Terapêutico/Curso de Formação - POMAR

Diretora Administrativa  da AARJ 

Facilitadora de Grupo de Arteterapia  para adultos e Grupo de Desenho Livre.

Ateliê  de PAPEL MACHÊ e Diário Criativo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

PRIMAVERA DA VIDA: O IPÊ COMO METÁFORA DO ENVELHECIMENTO ATIVO



Por Débora Castro - RJ

@deborarteterapia

A primavera da vida não é uma estação que pertence apenas à juventude. Ela pode florescer em qualquer idade especialmente na maturidade, quando os frutos da experiência se encontram com a vontade de viver com propósito, saúde e alegria. O envelhecimento ativo é justamente esse convite: viver com autonomia, manter o corpo em movimento, cultivar vínculos e continuar aprendendo, criando e se reinventando.

Assim como a natureza se renova a cada primavera, homens e mulheres na terceira idade podem descobrir novos talentos, paixões e formas de se expressar. O envelhecimento ativo não nega o tempo ele o abraça com dignidade, reconhecendo que cada fase da vida tem sua beleza única. É sobre manter-se engajado com o mundo, com a comunidade e consigo mesmo.

Em uma tarde luminosa, sob a inspiração da árvore Ipê  símbolo de força, beleza e renovação explorei esse tema com um grupo de  idosas para viver essa experiência transformadora. A atividade, voltada ao envelhecimento ativo, foi mais que um encontro: foi um florescimento coletivo.

Assim como o Ipê floresce em meio à seca, revelando sua exuberância quando tudo parece estagnado, essas mulheres mostraram que a maturidade pode ser uma estação fértil de descobertas, criatividade e movimento. A proposta foi simples, mas profunda: refletir sobre a própria trajetória, reconhecer conquistas e cultivar novos sonhos, tudo isso por meio de dinâmicas sensoriais, expressão artística e rodas de conversa.

Durante a atividade, cada participante escolheu uma cor de Ipê que representasse seu momento atual. Algumas se identificaram com o amarelo vibrante da coragem, outras com o rosa da afetividade, e houve quem escolhesse o roxo da sabedoria. Pinturas, colagens e palavras brotaram como flores em papel seda, revelando histórias de superação, humor, saudade e esperança.

                           


Participante S – Meu Ipê representa minha FORTALEZA

O Ipê, com suas raízes profundas e flores que desafiam o tempo, tornou-se metáfora viva da potência que habita cada mulher ali presente. Envelhecer, afinal, não é apagar-se  é transformar-se. É permitir que novas flores surjam, mesmo quando o mundo espera silêncio.

Para finalizar a atividade “Primavera da Vida: O Ipê como Metáfora do Envelhecimento Ativo”, o grupo de mulheres idosas se reuniu em um círculo de partilha, onde cada uma teve a oportunidade de falar sobre seu processo criativo e emocional ao longo da vivência. O ambiente, repleto de cores, risos e acolhimento, tornou-se um verdadeiro jardim de histórias e afetos.


 

Participante L – Meu Ipê é pura RESILIÊNCIA

Com alegria e leveza, elas revelaram como o exercício de olhar para seu “Ipê interior”  aquele que floresce mesmo após períodos de seca  despertou sentimentos profundos de coragem, resiliência e esperança. Algumas falaram sobre perdas que foram transformadas em força, outras sobre redescobertas pessoais que brotaram como flores inesperadas. Houve quem se emocionasse ao perceber que, mesmo com os desafios da idade, ainda há muito a viver, criar e compartilhar.

O Ipê, escolhido como símbolo da atividade, tornou-se espelho da alma de cada participante. Ao reconhecer suas próprias cores, formas e raízes, essas mulheres encontraram uma nova maneira de se conectar com sua história e com o presente. Mais do que uma árvore, o Ipê passou a representar a capacidade de seguir em frente com dignidade, beleza e coragem  em todas as estações do ano.



Meu Ipê deseja ESPERANÇA todos os dias

A partilha foi marcada por abraços, olhares cúmplices e palavras de incentivo. E assim, encerramos a atividade com a certeza de que o envelhecimento ativo é também um florescer contínuo  onde cada mulher é, ao seu modo, um Ipê em flor.

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Sobre a autora: Débora Castro




Sou Débora de Castro, educadora apaixonada pelo poder da arte e do conhecimento. Graduada em Pedagogia e Educação Artística, com pós-graduação em Psicopedagogia e Educação Especial e Inclusiva, sigo aprofundando minha jornada acadêmica como graduanda em Psicologia.

Com formação em Arteterapia (AARJ/1411), atuo há mais de 28 anos na área da Educação, compartilhando saberes como professora de Artes Visuais e História da Arte. Atualmente, dedico-me à coordenação de um grupo de Arteterapia para Mulheres e à condução de oficinas arte terapêuticas, tanto no formato online quanto presencial.


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

PONTO A PONTO: HISTÓRIAS FEMININAS EM CORES NO SETTING ARTETERAPÊUTICO

 

Por Débora Castro - RJ

@deborarteterapia

 

O pontilhismo, movimento artístico caracterizado pela criação de imagens por meio de pequenos pontos de cor, revela-se uma poderosa ferramenta expressiva no setting arteterapêutico com grupos de mulheres. Sua técnica, minuciosa e repetitiva, favorece a concentração e permite o acesso à interioridade de forma suave e simbólica. Ao trabalhar com pontos, cada mulher se conecta com o ritmo do próprio corpo e mente, criando um espaço de escuta interna que favorece o autoconhecimento e a regulação emocional.

 


Tarde de domingo na Ilha de Grande Jatte (1884-1886), tela de Seraut.

A obra Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte (1884–1886), de Georges Seurat, é um ícone do neoimpressionismo que se destaca pela técnica do pontilhismo, na qual pequenos pontos de cor são aplicados com precisão para formar uma imagem coesa e vibrante. A composição revela uma cena de lazer às margens do rio Sena, com figuras humanas rígidas e silenciosas, quase escultóricas, que transmitem uma sensação de ordem e contemplação. Os aspectos expressivos da tela se manifestam na harmonia cromática, na organização espacial e na atmosfera serena que convida à introspecção. Seurat transforma o cotidiano em algo quase ritualístico, onde cada elemento parece cuidadosamente calculado para provocar equilíbrio visual e emocional.

No contexto terapêutico, o pontilhismo pode refletir aspectos da vivência feminina: a construção paciente da própria identidade, os fragmentos de memórias que emergem ponto a ponto e a rede de apoio simbólica entre mulheres que compartilham seus processos criativos. Ao pintar utilizando essa técnica, o grupo pode explorar temas como pertencimento, reconstrução, delicadeza, força e resiliência.

Além disso, o aspecto não verbal da arte permite que emoções difíceis de nomear ganhem forma e cor, oferecendo a cada participante  um espaço seguro de expressão. A repetição dos pontos pode funcionar como um recurso de autorregulação, especialmente em contextos de ansiedade, traumas ou processos de cura emocional.

No grupo, as produções compartilhadas criam conexões entre as histórias individuais, favorecendo o acolhimento e o fortalecimento da identidade coletiva. Assim, o pontilhismo não é apenas uma técnica artística, mas um instrumento terapêutico potente que, em mãos femininas, pontilha caminhos de cuidado, afeto e transformação.

Algumas das produções das participantes do grupo de Arteterapia na modalidade continuada, revelam sensibilidade, expressão única e profundas narrativas visuais.

 


 Participante J

Minha vida é feita de fases, ciclos e momentos. A sessão de hoje me fez pensar que cada ponto, cada cor, revela minha história. A minha expressão plástica fala sobre quem eu sou  as cores traduzem a minha luz interna, minhas escolhas e toda a força da minha ancestralidade.

 


Participante – D

Partindo do girassol que se abre para o sol, para a luz, envolto pelo céu, onde o azul representa a emoção, eu me expando. O girassol é a expressão da minha luz e da minha sabedoria. Essa expansão acontece pelas raízes que crescem entre folhas verdes  símbolo da vida  e se conecta às cores: o amarelo da luz, o azul da emoção, e o violeta da transformação. Cada tom é um reflexo do meu caminho interior.

A pluralidade do grupo enriquece o processo: mulheres de diferentes trajetórias compartilham olhares, cores e impressões, pontilhando juntas um mural simbólico que fala de cuidado, força e transformação. A arte feita ponto a ponto torna-se símbolo da construção paciente da identidade, da reconstrução das partes fragilizadas e da celebração das potências femininas.

Esse trabalho não é apenas estético é profundamente terapêutico. Ao entrelaçar cores e histórias, as mulheres se reconhecem, se acolhem e se fortalecem. Cada pontinho é um sopro de vida, um gesto de cura, um convite à escuta de si e do outro. Assim, o pontilhismo floresce como caminho de expressão, conexão e empoderamento no universo da Arteterapia.

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Sobre a autora: Débora Castro



Sou Débora de Castro, educadora apaixonada pelo poder da arte e do conhecimento. Graduada em Pedagogia e Educação Artística, com pós-graduação em Psicopedagogia e Educação Especial e Inclusiva, sigo aprofundando minha jornada acadêmica como graduanda em Psicologia.

Com formação em Arteterapia (AARJ/1411), atuo há mais de 28 anos na área da Educação, compartilhando saberes como professora de Artes Visuais e História da Arte. Atualmente, dedico-me à coordenação de um grupo de Arteterapia para Mulheres e à condução de oficinas arte terapêuticas, tanto no formato online quanto presencial.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

REGULAÇÃO EMOCIONAL NA ABORDAGEM DA TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC) E ARTETERAPIA: TAMBÉM EM MOMENTOS DE CRISE



Por Juliana Mello - RJ

@vivendotccearte 


Sr. Miyagi: Confie na sua intuição.

Daniel: E como vou saber se é o certo?

Sr. Miyagi: Se vier de dentro de você é sempre certo.

(Karate Kid: A Hora Da Verdade,1984)

 

No texto anterior falei um pouco sobre as emoções e a importância da regulação emocional. É importante flexibilizarmos a nossa forma de sentir emoções. Por exemplo, em uma situação de perigo ou catástrofe é importante regular a emoção e ativar o pensamento mais racional, para um comportamento mais adequado e seguro possível. Por outro lado, em uma situação agradável, como conquistar um objetivo (fazer exercícios, passar em uma prova), sentir a emoção de forma intensa fortalece nossas memórias afetivas e a forma como nos percebemos. Esse equilíbrio entre sentir e expressar as emoções com consciência é o que chamamos de Inteligência Emocional, e ela se desenvolve justamente por meio da Regulação Emocional.

De acordo com as emoções desagradáveis adotamos comportamentos disfuncionais, que em muitos casos, reforçam as sensações “ruins”: esquiva (evitar ou fugir da situação estressora), compensação (descontar as emoções em ingestão de comida e/ou bebidas), ruminação (ficar preso em pensamentos repetitivos e negativos) e a manutenção (ações automáticas que só reforçam o estado emocional difícil). De acordo com Leahy e seus colaboradores:

“Expressão e validação são úteis na medida em que normalizam, melhoram a compreensão, diferenciam várias emoções, reduzem a culpa e a vergonha e ajudam a aumentar a crença na tolerabilidade da experiência emocional” (2013).

Ou seja, o objetivo não é deixar de sentir, mas acolher, aceitar e expressar de forma funcional, aprendendo a lidar com o que sentimos e reconhecendo os sinais que o corpo nos dá.

Para relembrar nosso funcionamento na TCC:

  • Pensamento: automático, surge sem nosso controle — como se “caísse” na nossa mente.
  • Sentimento/emoção: também não controlamos o que vamos sentir, pois ela está conectada ao pensamento. Mas é possível aprender a regular a intensidade.
  • Comportamento: aqui está nosso ponto de escolha. Entendendo como pensamos e sentimos, podemos decidir agir conscientemente, em vez de apenas reagir.

A TCC nos ajuda a ressignificar pensamentos, emoções e comportamentos, ampliando a forma como percebemos e lidamos com as situações. Ressignificar é um processo, e exige dedicação ao autoconhecimento. Quanto tempo você pensa, sente e se comporta da maneira atual? Lembre-se: se você age de um certo jeito há muito tempo, não se cobre mudanças da noite para o dia. Mas mudança pode acontecer antes do que você imagina, desde que você se comprometa com você mesmo(a).

 

Mas, na prática, como podemos trabalhar isso?

A Terapia Cognitivo-Comportamental nos oferece várias técnicas eficazes, que podem nos auxiliar:

-Treinamento de habilidades emocionais na psicoterapia: O processo terapêutico é um espaço seguro para aprender como funcionamos emocionalmente. Ali, vamos identificando padrões e treinando, na relação terapêutica segura, novas formas de agir e reagir.

- Flexibilidade cognitiva: que é a habilidade de ver uma situação por vários pontos de vista, adaptar nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos diante de mudanças e imprevistos, deixando de lado uma ideia fixa quando ela já não serve mais e tentar novas estratégias. Favorece o uso da reestruturação cognitiva.

- Reestruturação Cognitiva: Técnica terapêutica de identificar, questionar e reformular pensamentos. É um método estruturado para mudar crenças disfuncionais.

- Reavaliação dos resultados: É um momento de pausa para refletir: qual era meu objetivo? O que fiz para alcançá-lo? Quais foram os resultados? Ao identificar o que funcionou (ou não) através de evidências (fatos inquestionáveis), podemos ajustar rotas, criar novas estratégias e fortalecer o autoconhecimento. Avaliar e criar estratégias mais adequadas, auxilia na regulação emocional, pois é possível acessar previamente momentos que podem ser desregularizadores.

- Escrever: Auxilia a não perder o controle da situação, dando tempo para pensar. Colocar no papel o que se passa na cabeça ajuda a organizar os pensamentos e as emoções. Não precisa se preocupar com ortografia ou estrutura — é uma escrita livre e criativa, que serve como canal de expressão e autorregulação.

- Respiração consciente: Uma sugestão simples: inspire contando até 4, segure por 2 segundos e expire contando até 4. Mãos sobre a barriga ajudam a perceber o movimento. Outra opção é usar os dedos (indicador e mínimo) para alternar as narinas ao inspirar e expirar. São técnicas que ajudam a regular a intensidade emocional.

- Mindfullness (Atenção Plena): Muito utilizado atualmente, o mindfulness ajuda a nos manter no presente, o que é essencial para lidar com ansiedade (futuro) e depressão (passado). Podemos meditar até nas pequenas atividades do dia: ao beber água, tomar banho, lavar louça ou caminhar. Recomendo sempre o vídeo no YouTube chamado “Meditação em um minuto”, que mostra como meditar de forma prática é possível, quebrando a ideia de que meditar é parar tudo e “esvaziar a mente”.

 

Como reconhecer que é hora de usar uma técnica de regulação emocional?

 

Tudo começa com reconhecer que estamos sentindo algo. O corpo sempre dá sinais — quanto mais intensa a emoção, mais evidente será a resposta fisiológica (como sudorese, taquicardia, tensão muscular, etc). Esses sinais são como um termômetro emocional. Ao percebê-los, conseguimos escolher qual técnica aplicar naquele momento.

É importante destacar: as técnicas precisam ser praticadas mesmo quando você estiver bem, para que o cérebro registre e torne essas estratégias mais acessíveis e naturais no momento de crise

E quando o emocional “explode”? Técnicas emergenciais:

- Mudança de foco: olhe ao redor e descreva o ambiente. Note as cores, os objetos, o número de móveis, pessoas ou sons. Isso ajuda a "aterrar" sua atenção e reduzir a intensidade emocional.

- Gelo nas mãos: segure um cubo de gelo enrolado num pano. A sensação térmica ajuda a mudar o foco e traz o corpo de volta para o presente.

- Atividade física: Uma caminhada rápida, pular corda ou dançar pode ajudar seu cérebro a sair do “modo alerta”. A atividade física libera substâncias que reduzem a tensão e trazem bem-estar. Além disso, o movimento desvia o foco da mente para o corpo, favorecendo o retorno ao presente e interrompendo ciclos de ruminação ou pensamentos catastróficos."

 

E como a Arteterapia auxilia na regulação emocional, inclusive como técnica emergencial?

a Arteterapia também pode ser uma estratégia eficaz em momentos de desregulação emocional.

Quando colocamos nossas emoções em forma de desenho, colagem, pintura ou escrita espontânea, ativamos áreas do cérebro relacionadas ao autocontrole e à autorregulação.


Além disso, o ato de criar nos ajuda a sair do piloto automático, focar no presente e processar sentimentos de maneira segura e simbólica. Não é preciso “saber desenhar” — o que importa é permitir que o corpo e a emoção se expressem, sem julgamento. O movimento do pincel, o rasgar do papel ou o toque do lápis já são formas de ‘esvaziar’ o que está sobrecarregado internamente. Também não é preciso saber escrever, a ideia não é fazer uma redação, mas expressar livremente os conteúdos internos.

Uma outra forma é escolher uma música, cantar e dançar de forma livre, além de criar movimentos livres em uma folha de papel. Posteriormente, pintar os espaços com as cores que as emoções representam naquele momento, de formar a mapear, organizar e regular a intensidade das emoções presentes.

 

“Você não pode impedir que as ondas cheguem, mas pode aprender a surfar” (Jon Kabat-zinn – criador do Mindfulness baseado na redução de estresse)

 

 

Bibliografia:

LEAHY, Robert L.; TIRCH, Dennis; NAPOLITANO, Lisa A. Regulação Emocional em Psicoterapia: um guia para o terapeuta cognitivo-comportamental. Porto Alegre: Artmed, 2013.

KOTSOU, Ilios. Caderno de exercícios de inteligência emocional. Coleção cadernos: praticando o bem-estar. 4ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.

KOTSOU, Ilios. Caderno de exercícios de Atenção Plena. Coleção cadernos: praticando o bem-estar. 4ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.

SMEDT, Marc de. Caderno de exercícios de meditação no cotidiano. Coleção cadernos: praticando o bem-estar. 5ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2016.


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Sobre a autora: Juliana Mello



Psicóloga, Arteterapeuta e Coach

Atendimento clínico  individual e grupo om criança, adolescente, adulto e idoso.
Abordagem em Terapia Cognitivo- Comportamental e Arteterapia

Palestras e Workshop motivacionais.

GRUPO DE ESTUDOS: "TCC e técnicas expressivas"

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

RESPIRAÇÃO, PRANAYAMAS E A ARTETERAPIA: INTEGRAÇÕES POSSÍVEIS



por Karine Drumond - MG


“O que a arte oferece é um tipo de espaço de respiro para a alma” – em livre tradução de John Updike


Recentemente participei de uma vivência conduzida pela arteterapeuta Eliana Moraes onde exploramos o tema dos caminhos da vida, seus percalços e singularidades. A vivência foi muito rica e particularmente despertou em mim reflexões profundas sobre carreira e minhas escolhas. Durante o momento de exploração artística surgiu a produção que chamei de “O Caminho-Pulmão". Esta imagem e as conexões que ela evoca dialogam profundamente com meu momento atual. Após mais de 15 anos atuando como designer, experimento um processo de transição de carreira, me formando em Arteterapia e paralelamente me preparando para me tornar também instrutora de Yoga Integral. Nestes estudos, vislumbro muitos diálogos possíveis e sinergias nestas duas áreas de saber. 


A ideia deste artigo, nasce, portanto, destas reflexões sobre os diálogos possíveis entre os ensinamentos da Yoga Integral e Arteterapia. Quais são estes diálogos? De que maneira podem se complementar e potencializar as vivências arteterapêuticas? Neste artigo, em especial, proponho começarmos explorando os diálogos possíveis entre os pranayamas – as práticas respiratórias do yogae Arteterapia.

Pranayama e arteterapia: uma base em comum

A palavra pranayama é composta de dois termos: prana, que significa respiração, alento primordial, energia vital, e ayama, que significa pausa, retenção. Literalmente, pranayama, quer dizer, portanto, retenção da energia vital. Segundo Blay (1996), Pranayama é a parte do Yoga que trata do domínio das energias psíquicas mediante a regulação do movimento respiratório. 


Tanto o pranayama quanto a arteterapia partem da experiência presente.

Enquanto a arteterapia dá forma às sensações internas por meio da expressão visual, as técnicas de pranayama nos convidam a mergulhar em nosso ritmo respiratório como ponto de conexão entre corpo e psique. Ambos criam um espaço para que o que está latente — emoções, imagens, memórias, impulsos — possa emergir com mais clareza. Além do que, compartilham o mesmo objetivo: a integração do Eu superficial com o Eu mais profundo, levando ao desenvolvimento pessoal. 

Aspectos psíquicos da respiração e a arteterapia

Como sabemos, a respiração, enquanto ato ao mesmo tempo voluntário e involuntário, reflete e influi nos estados mentais dos indivíduos. Um dos objetivos primordiais do controle da respiração, no Yoga, consiste em promover um diálogo saudável e nutritivo entre a energia contida na personalidade profunda (inconsciente) com a personalidade superficial (consciente).  Esta integração, na ordem fisiológica, leva a integração de todos os seus sistemas nervosos (central, simpático e parassimpático).  No Hatha Yoga, a integração no nível psíquico leva a integração no nível fisiológico e vice e versa. A respiração é o primeiro ato do ser humano ao nascer, é o ato vital que o mantém em contato permanente com o mundo que o rodeia. Ao integrar práticas de respiração em Arteterapia, um primeiro diálogo importante que podemos fazer é explorar as fases ou tempos da respiração e suas relações simbólicas, como veremos a seguir.

Inspiração e expansão (puraka)

Fisiologicamente é o movimento do aparelho respiratório que permite a entrada do ar nos pulmões. Psicologicamente é o ato pelo qual o indivíduo recolhe ou deixa entrar o ar de que necessita; relaciona-se diretamente com a afirmação do indivíduo dentro de si mesmo. O desenvolvimento da inspiração profunda representa o ato de acolher o novo, nutrir-se, abrir-se às possibilidades.


Na arteterapia, associada a técnicas de pranayamas, podemos explorar as relações simbólicas que surgem desse ato. O que pode traduzir-se, por exemplo, na pergunta-reflexão: “O que preciso inspirar agora na minha vida? Como posso dar forma a esse desejo criativamente?” “Do que preciso me nutrir para crescer?” 

Expiração e entrega  (rechaka)

Fisiologicamente é o movimento do aparelho respiratório que expulsa o ar dos pulmões. Psicologicamente, é o ato com o que o indivíduo expulsa ou se desprende do ar viciado de seus pulmões. Relaciona-se com a expansão da personalidade e com as formas que adota.


No ateliê terapêutico, esse momento pode ser explorado com convites à experimentações com práticas que permitem evocar desapego. Pergunta-reflexão: “Do que preciso abrir mão para que algo novo possa surgir em mim e na minha vida?”

Pausa entre as respirações (kumbhaka)

As retenções são como uma suspensão criadora, um momento de espera e integração entre o que foi e o que virá. A retenção com pulmão cheio, corresponde psicologicamente a um ato assimilador, retentor e conservador, em seu duplo aspecto fisiológico e psíquico. É uma fase ou movimento de equilíbrio relativamente estável. A retenção com os pulmões vazios é um ato pelo qual se mantém em estado de vazio, de ausência de ar, do mundo e dos conteúdos do eu. Momento de equilíbrio instável, abstração ou morte. Feito de forma natural, evoca o distanciar-se do vaivém das coisas. Em Arteterapia podemos indagar:

“Como posso habitar o intervalo entre o conhecido e o desconhecido? O que há neste intervalo? Como dar forma a esse momento de pausa?”


Ritmo e ciclos

A cadência da respiração nos lembra que tudo na vida é cíclico, um vai-e-vem entre dar e receber. A própria observação consciente dos ciclos respiratórios pode inspirar mandalas, padrões gráficos, imagens circulares que tragam senso de continuidade e equilíbrio.

Em ateliê terapêutico podemos explorar visualmente “Como meu ritmo interno se manifesta visualmente? O que ele me ensina sobre o fluxo da minha própria vida?”


Respiração alternada (nadi shodhana)

No Yoga, ao trabalhar técnicas de respiração alternada, busca-se equilibrar os dois canais da respiração (narina direita = positiva, narina esquerda=negativa), criamos uma disponibilidade para a harmonização das polaridades (razão e emoção, ação e entrega, luz e sombra, atividade e descanso). Pergunta-reflexão: “Que opostos dentro de mim buscam diálogo? Como eu os simbolizaria criativamente?”

Possibilidades para integrar pranayama e arteterapia na prática

Explorando alguns possíveis diálogos, vimos como as práticas de respiração do Yoga podem propiciar e potencializar o autoconhecimento, funcionando como um meio de ampliar a percepção sobre si mesmo e seus estados mentais, promovendo um diálogo interno mais harmônico. Um exemplo comum, na condução de uma sessão, o terapeuta pode começar guiando um pranayama simples e curto — o suficiente para que o participante entre em contato com a própria respiração. Depois, com os olhos ainda fechados, pode-se propor que a pessoa observe as imagens que emergem durante a prática e que as transponha para o papel, a argila, a colagem ou o material que preferir. Ao final, a reflexão sobre o que foi criado ganha ainda mais profundidade quando relacionada às qualidades da própria respiração, criando uma ponte entre o que foi vivido corporalmente e o que foi expresso visualmente.


Pesquisando, descobri algumas outras possibilidades interessantes. Como por exemplo, o relato de uma arteterapeuta que colaborou em parceria com uma instrutora de yoga, em sessões para grupos de veteranos em habilitação assistida, com foco em cessação ao tabagismo e manejo do estresse. A intenção foi oferecer estratégias alternativas de enfrentamento — como arte, movimento e atenção plena — em sessão integrativa, unindo psicoeducação, práticas respiratórias e experiências arteterapêuticas. Após o momento de respiração, os participantes foram convidados para criar mandalas com aquarela sobre círculo desenhado à base de giz branco. A técnica com giz resistiu à tinta, fazendo a forma circular emergir sob camadas de cor. Essa mandala simbólica representou o “espaço de respiração interno”, funcionando como metáfora de proteção emocional e lembrança visual a ser mantida mesmo em camadas de vida e tensão. O grupo refletiu sobre o valor de criar fronteiras que protejam momentos de desaceleração e introspecção. A mandala funcionou como lembrança visual desse espaço interno sempre acessível.


Concluindo, o pranayama aquieta a mente e equilibra o sistema nervoso, ampliando a presença e a consciência de si. Esse estado pode potencializar a expressão simbólica, permitindo que as imagens que surgem no processo criativo sejam mais autênticas e conectadas àquilo que precisa ser visto, sentido e elaborado. Pensando nisso, essa integração entre respiração consciente e expressão artística enriquece o próprio caminho de autoconhecimento. Em ateliê arteterapêutico o ritmo da respiração pode virar traço, a inspiração pode virar cor, a pausa pode virar forma, e a entrega pode virar imagem. Respiração em arteterapia pode ser tanto usada como técnica auxiliar, potencializadora das práticas, quanto também como objeto-foco da sessão terapêutica, com ricas possibilidades.

Dessa maneira, o pranayama e a arteterapia se encontram como práticas e saberes que se entrelaçam e abrem novas vias para o florescimento pessoal e criativo.

Este entrelaçar dos dois saberes não acaba aqui, é apenas o começo, continuo seguindo minha curiosidade, ávida por descobrir novas tramas dessa costura.


Referências


BLAY, Antonio. Fundamento e prática do hatha yoga: Loyola, 1996


ROIZEN, Sara. BREATHING SPACE COLLABORATION ~ WITH VETERANS. Art Therapy Spot, 17 nov. 2013. Disponível em: https://arttherapyspot.com/2013/11/17/breathing-space-collaboration-wi/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 22 jun. 2025.



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Sobre a autora: Karine Drumond




Karine Drumond tem uma formação em Design, Arte Educação. Pós graduanda em Arteterapia pelo INTEGRATE - MG. Com sólida experiência facilitando processos criativos para mulheres e crianças entre 7 e 14 anos. Atuou como pesquisadora e professora em Design na PUC Minas por mais de 10 anos. Recentemente atuou na ONG Projeto Reconstruir, utilizando a arte como ferramenta de expressão e transformação social. Atualmente, está à frente do EquilibrArte, projeto em construção que pretende promover vivências que integram yoga, arteterapia e autoconhecimento para resgatar o bem-estar e a criatividade pessoal e coletiva.