segunda-feira, 7 de março de 2022

O REPENSAR DAS RELAÇÕES – Parte 2



Por Eliana Moraes – MG

naopalavra@gmail.com

 

Sigo refletindo sobre a importância de se trabalhar com grupos arteterapêuticos no ano de 2022, reflexão que abriu o ciclo de publicação de textos deste ano. Sabemos que o trabalho com grupos possui um grande potencial na sustentação de um espaço regular de encontros, criação de vínculos e pertencimento. Sem dúvida, em um cenário pandêmico com grande redução do repertório relacional e/ou hiperconvivências, o grupo se faz como uma grande oportunidade para encontros, diálogos, espelhamentos, o relacionar-se com o diferente, o modular a forma de comunicar-se, além de proporcionar trocas afetivas, reabastecimentos emocionais e a criação de uma rede de apoio mútuo. Entendemos que a sensação de pertencimento é uma necessidade do ser e que os grupos terapêuticos colaboram em muito para que indivíduos se percebam quanto à esta necessidade e como a estão vivendo.

Entretanto, acredito que seja necessário compreendermos mais profundamente sobre as especificidades de se trabalhar com grupos nos tempos atuais, quando uma gama de fenômenos coletivos mostram-se bastante aquecidos, portanto desafiadores. É  importante observarmos no social, fenômenos como a polarização dos discursos, as disputas políticas/religiosas, o clima de intolerância e ódio, que possuem um potencial de progressão devido aos eventos eleitorais de 2022. Naturalmente estes fenômenos coletivos comparecem na escuta clínica quando os indivíduos trazem como demandas terapêuticas suas relações interpessoais sendo por aqueles afetados diretamente, em suas famílias, parcerias amorosas, amigos, relações profissionais e sociais... São recorrentes os questionamentos sobre a manutenção das relações, ou se mantê-las, de que maneira. 

É um tempo em que enxergar o “outro” como um “estranho” é cotidiano e a questão “como lidar com o outro ‘diferente’ de mim?”, está na ordem do dia. O que foge à consciência de muitos é que, não raras vezes, aquilo que eu rejeito no outro nada mais é do que o espelhamento da minha sombra, aquilo que eu não vejo em mim, mas (me) enxergo refletido no outro.

Neste contexto, o grupo se faz como uma modalidade terapêutica que propõe um processo de autoconhecimento na presença do outro:

 

Na psicoterapia individual, o paciente fala de suas relações e atualiza sua forma de se relacionar com o terapeuta – fenômeno denominado transferência. A psicanálise sustenta que o terapeuta estará nesta relação não como um sujeito, mas como uma função, pois a partir de sua técnica espelhará estes comportamentos relacionais ao paciente, e assim se dará o processo terapêutico. Mesmo a partir de outras abordagens teóricas que sustentam uma relação entre terapeuta-paciente, o senso comum é que o terapeuta não agirá com seu paciente da mesma forma que se relaciona com seus amigos, familiares e relações pessoais, pois de toda forma é baseado em uma técnica terapêutica.

Em grupos terapêuticos a configuração é outra, pois no setting haverá outras pessoas na mesma condição de sujeito que comporão um grupo, e as relações se manifestarão de forma natural. A oportunidade da relação com outros sujeitos atualizada dentro de um setting terapêutico abrirá um campo para atuações não antes percebidas e pensadas. (MORAES, 2018, p 115) 

“Como a presença do outro me afeta ou me atravessa? E o que esse atravessamento fala sobre mim?” Estas são as perguntas que, de forma dita ou não dita, reverberam em um setting terapêutico grupal.

Sendo sempre o grupo terapêutico uma fração das dinâmicas sociais de seu tempo, é muito importante que o terapeuta sustentador do setting nos dias de hoje, reconheça e se instrumentalize para lidar com os “sintomas grupais” característicos da atualidade: intolerâncias, imposição de ideias, movimentos autodestrutivos das relações, introdução de assuntos outros que dispersam do propósito maior – a criação de possibilidades para a  sustentação da relação. É importante que o terapeuta permaneça reverberando as perguntas: “Podemos permanecer na relação em torno daquilo que nos une? Podemos permanecer em roda, mantendo a energia mobilizadora do criar?”

Desta forma, acredito que em 2022 poderemos exercer nossa micropolítica: através dos grupos arteterapêuticos, contribuir para uma contracultura, sustentando um espaço de permanência, de estar ao lado, de diálogo, de criações/produções coletivas ou individuais na companhia de outros. Poderemos contribuir para construção de redes sociais mais saudáveis e criativas (na arte e na vida), pois no grupo os participantes viverão ensaios em suas formas de se relacionar que certamente reverberarão em outros grupos sociais. 

Grupos arteterapêuticos

Como arteterapeutas, é importante pensarmos, dentro  desse contexto, quais são as especificidades da Arteterapia que contribuem para esta modalidade terapêutica. Primeiramente, vale ressaltar que uma das bases de nossa formação é a modalidade terapêutica grupal, nas vivências durante o curso de formação e na maioria das vezes nas práticas do estágio. Nossa formação já nos colabora para a construção de uma grande experiência e vasto repertório de práticas grupais. 

Outro ponto interessante se dá quando visualizamos a multiplicidade de modalidades arteterapêuticas, principalmente àquelas que possuem uma proposta semiestruturadas (quando o tema é escolhido, construído, proposto e estimulado pelo arteterapeuta e o grupo se propõe a vivenciá-lo). A partir desta modalidade o arteterapeuta poderá desenvolver sua escuta e exercer um manejo consciente sobre quais propostas (temas, técnicas e consignas) desenvolverão as habilidades sociais dos experienciadores do seu grupo. Destaco aqui as práticas criativas colaborativas, aquelas que durante o processo criativo contam com a colaboração, a participação ou até a interferência do outro.

Por fim, em tempos de projeções de conteúdos sombrios no outro – “o estranho” – os grupos arteterapêuticos possuem um grande diferencial: eles são mediados pela arte. Isto nos remete à especificidade da Arteterapia sobre o manejo da transferência/projeção que se dá na forma da tríade paciente-terapeuta-material. Nesta dinâmica, o material divide com o terapeuta (e com o grupo) o investimento de energia psíquica no fluxo projetivo. Em resumo, o material promove um olhar para si, na relação com o outro: movimento ao qual o arteterapeuta poderá estimular e manejar com a devida consciência sobre esta especificidade teórica da Arteterapia, a medida que lhe for necessário diante dos movimentos grupais.   

Concluo este texto trazendo uma poesia de Madalena Freire, que me foi apresentada pela querida professora Lidia Lacava, a qual acredito que sintetiza em versos o que estudamos em teoria. 

EU NÃO SOU VOCÊ, VOCÊ NÃO É EU

Madalena Freire

 

Eu não sou você

Você não é eu

Mas sei muito bem de mim

Vivendo com você.

E você, sabe muito de você vivendo

comigo?

Eu não sou você

Você não é eu.

Mas encontrei comigo e me vi

Enquanto olhava pra você

Na sua, minha insegurança

Na sua, minha desconfiança

Na sua, minha competição

Na sua, minha birra infantil

Na sua, minha omissão

Na sua, minha firmeza

Na sua, minha impaciência

Na sua, minha prepotência

Na sua, minha fragilidade doce

Na sua, minha mudez aterrorizada

E você se encontrou e se viu, enquanto

olhava pra mim?

Eu não sou você

Você não é eu.

Mas foi vivendo minha solidão

Que conversei com você

E você, conversou comigo na sua solidão?

Ou fugiu dela, de mim e de você?

Eu não sou você

Você não é eu

Mas sou mais eu, quando consigo lhe ver.

Porque você me reflete

No que eu ainda sou

No que já sou e

No que quero vir a ser…

Eu não sou você

Você não é eu

Mas somos um grupo, enquanto somos

capazes

de, diferenciadamente,

eu ser eu, vivendo com você e


                                                                    você ser você, vivendo comigo.

Referência Bibliográfica:

MORAES, Eliana. Pensando a Arteterapia Volume 1. Semente Editoral, ES. 2018.

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Sobre a autora: Eliana Moraes




Arteterapeuta e Psicóloga.


Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Dá aula em cursos de formação em Arteterapia em SP e MS. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

DIÁLOGOS ENTRE ARTE, TARÔ E ARTETERAPIA: O CARRO E OS CAMINHOS DE CHIQUINHA GONZAGA


Por Mercedes Duarte - RJ

Esse é mais um texto da sequência de reflexões acerca dos 22 arcanos maiores do tarô, associados a elementos da arte que possam nos aproximar desses arquétipos. Nesse artigo, trago o Arcano VII, o Carro, em diálogo com a biografia da artista Chiquinha Gonzaga.

 

Aqui não há a pretensão de esgotar as dimensões do arquétipo, o que seria inalcançável, tampouco explanar com profundidade a biografia da artista. O escopo é trazer um recorte que privilegie as afinidades entre ambos.

 

O intuito desse diálogo, portanto, entre arte e tarô, como já mencionado e aprofundado em outro texto[1], é o de proporcionar reflexões e possibilidades arteterapêuticas - experimentadas na Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô[2] - que permeiam esses elementos em diálogo, buscando, assim, contribuir para a ampliação do repertório arteterapêutico. 

O Carro – Arcano VII 


O carro parece simbolizar com propriedade o poder transportante da psique. A psique não é um objeto, uma coisa; é um processo.

Sua essência é o movimento (NICHOLS, 1997, p. 150).



 
                                                                        Tarô de Marselha

                                                                                                        Tarô de Waite e Smith


O arcano VII, apesar de a imagem do Carro, ou Carruagem, parecer estar parada – como no Tarô de Marselha com suas rodas ao fundo, em posição não favorável ao deslocamento, ou, como no Tarô de Waite e Smith, com duas esfinges deitadas a frente da carruagem - ele nos fala de movimento, desenvolvimento, deslocamento, travessia. Não por acaso esse arcano encarna o número sete, o sétimo lugar dos arcanos. De acordo com diferentes tradições, a escala de evolução é setenária. Desse modo, na organização do tarô que Sallie Nichols (1997) se apropria, há uma divisão constituída por três fileiras de sete cartas.[3] O Carro, portanto, compõe a última posição da primeira fileira, como vemos abaixo, encerrando a síntese de uma primeira escala evolutiva. Do Reino dos Deuses - essa primeira fileira onde o herói entra em contato com grandes poderes, sejam as divindades ou os arquétipos da Mãe, do Pai e do primeiro Mestre -, o Carro nos transporta para a segunda fileira, o Reino da Realidade Terrena, do Caminho das leis e da Consciência do ego.     


     

Partindo da concepção de que os arcanos maiores do tarô podem representar etapas de nosso desenvolvimento psíquico e pessoal, compreende-se um diálogo entre as etapas. O Enamorado, arcano anterior ao Carro, pressupõe uma escolha que pode envolver abandonar antigos paradigmas, ou mesmo o seio familiar, e ir em direção ao Reino da Realidade Terrena, com intuito de conquistar um lugar no mundo. É nesse processo, contemplado pela fileira intermediária, que o indivíduo, ou o herói, que pode ser representado pelo Arcano 0, o Louco, desenvolve a consciência de leis que regem o mundo e a experiência humana, assim como a consciência de seu ego. 

É o Carro então que anuncia que o herói está pronto para conquistar um novo reino. Entretanto, é preciso equilibrar e integrar as dualidades constitutivas da psique, encarnadas seja nos dois cavalos ou nas duas esfinges, para que o carro não se desgoverne, para que seja possível um movimento efetivo ao passo que as charadas, das esfinges, forem desvendadas. 

Chiquinha Gonzaga e o Carro 

A musicista, maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935) nos aproxima desse arquétipo do Carro ao tomarmos contato com sua história. Chiquinha Gonzaga compôs mais de 2.000 músicas que integravam mundos distintos, polaridades da cultura brasileira. Uniu o erudito e o popular em gêneros variados como choros, valsas, polcas, quadrilhas, fados, serenatas, maxixes, lundus, tangos e mazurcas. 

Curiosamente a artista era filha de uma mulher negra, integrante das camadas populares, Rosa Maria de Lima, filha de uma ex-escrava. E de um homem branco, aristocrata, José Basileu Neves Gonzaga, general do exército imperial brasileiro, que constituía a tradicional família de Duque de Caxias. Chiquinha, portanto, integrava em si dois universos distintos, exprimindo assim tal união em sua música, a qual a fez ganhar o mundo. 

Entretanto, sua ascensão no mundo não foi algo que obteve com facilidade. Precisou abrir mão dos padrões de conduta vigentes, esperados de uma “moça de família”, e lutar contra sua família e organização social em várias instâncias. Não era aceito na época da artista, finais do século XIX, que uma mulher desenvolvesse uma carreira profissional. As mulheres eram formadas para serem mães e esposas. As moças de famílias abastadas aprendiam a tocar piano apenas para o entretenimento familiar. Não se esperava que uma mulher lançasse mão desse recurso para disputar o palco de teatros, bares e salões com outros homens. 

Mas Chiquinha, apesar de ter toda uma configuração social e familiar desfavorável a sua atuação profissional, não se rendeu, e chegou em lugares que até então não haviam sido conquistados antes. Como o posto de primeira maestrina brasileira.  

Vemos em sua história uma série de semelhanças com o arquétipo do Carro, seja relativa à integração e equilíbrio entre dualidades, o que Chiquinha Gonzaga representa com seu próprio corpo e sua música, seja pela decisão de abrir mão de seu seio familiar para conquistar o mundo, o reino intermediário da Realidade Terrena. E, por fim, conquistou seu lugar, com toda a coragem e movimento diretivo encerrado pelo Carro. 

Proposta Terapêutica 

Na oficina da Jornada Arteteterapêutica Arte e Tarô, com algumas músicas da Chiquinha Gonzaga, as participantes dançaram com o lápis sobre o papel, desenhando linhas, caminhos, de modo espontâneo. Após esse exercício, buscaram observar as imagens que emergiam dos traçados espontâneos, e coloriram essa formação identificada. O estímulo era para perceberem as linhas desenhadas, e imagens, como os seus próprios caminhos, propósitos e diretivas. 

O que me chamou atenção foi que na maior parte das imagens que surgiram estavam presentes elementos relativos a asas, pássaros e, sobretudo, voo.

O voo

                                                                                               Asas para voar

                                                                                Escolhe, aconchega, ilumina e voa


                                                                                      O andar, o voo e o mergulho


A participante da primeira imagem dizia sobre começar a sentir o momento necessário de alçar voo em sua vida profissional, o que começou a ocorrer em seguida da produção dessa imagem. Sem dúvida esse voo já estava sendo gestado por longo período. 

A noção de voo nos remete à ideia de expandir horizontes, de crescer (abrir as asas), se desenvolver (movimentar-se), de libertar-se do que limita, do que aprisiona. É relevante salientar que não houve menção a essa palavra, ou a nenhuma outra relativa, ao longo da apresentação da oficina, o que nos aponta para uma metáfora que atravessa o imaginário social, ou o inconsciente coletivo, quando falamos de caminhos em desenvolvimento. 

Aqui é possível refletir também sobre que a cada passo dado para dentro, para baixo, ou seja, rumo ao conhecimento interior, crescemos para fora, nos desenvolvendo familiar e socialmente. E é essa jornada que o tarô e a arteterapia propõem. Não por acaso, a cada fileira que percorremos da sequência do tarô, adotada aqui, adentramos um nível inferior, relativo ao anterior. E especialmente no Reino da Realidade Terrena, a maior parte das personagens das cartas estão a realizar movimentos para baixo, apontando assim para o Reino da Auto-realização. 



[1] DUARTE, Mercedes. Diálogos entre Arte e Tarô: uma introdução. Blog Não-Palavra. 31 de maio, 2021. http://nao-palavra.blogspot.com/2021/05/

[2] A Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô consiste em oficinas, remotas, inspiradas nos arcanos maiores do tarô em diálogo com determinados elementos da arte.

[3] Esse tema foi explanado no texto Diálogos entre Arte e Tarô: uma introdução, (DUARTE, 2021). Blog Não-Palavra. 31 de maio, 2021. http://nao-palavra.blogspot.com/2021/05/


Referências bibliográficas 

DINIZ, Edinha (2009). Chiquinha Gonzaga: uma história de vida. Editora Zahar, 2009. 

DUARTE, Mercedes. Diálogos entre Arte e Tarô: uma introdução. Blog Não-Palavra. 31 de maio, 2021. http://nao-palavra.blogspot.com/2021/05/

NICHOLS, Sallie (1997). Jung e o Tarô: Uma Jornada Arquetípica. Trad. Laurens Van Der Post. Editora Cultrix: São Paulo.

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Sobre a autora: Mercedes Duarte


Arteterapeuta, Mestre em Ciências Sociais, pesquisadora autônoma de arte, terapia e oráculos

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

AH, O TEMPO...

 


Releitura da obra “A Persistência da Memória” - Salvador Dalí

por Claudia Abe

 

Por Claudia Maria Orfei Abe - São Paulo/SP

Instagram: @claudia_abe_

 

Ah, o tempo...o que você fez com o tempo que lhe foi dado em 2021?

Essa pergunta fez parte da vivência que ofereci para várias pessoas, em atendimento individual e grupal, em dezembro de 2021, como uma proposta de encerramento de ciclo.

A vida é um fluxo constituído de ciclos... Mutação e ciclo são necessários para que aconteça a renovação da vida. É preciso ir para ciclos novos, evoluir. Quando respeitamos os ciclos, a vida flui, se renova e permitimos nossa própria evolução. (OTSU, 2006, p. 25-27)

Participaram desta vivência públicos diferentes, ao longo de uma semana, em atendimento online, e trabalhamos logo de início com uma pintura de Salvador Dalí – “A Persistência da Memória” (1931), cuja obra original está exposta no Museu de Arte Moderna (MoMA) em Nova York, Estados Unidos.

Salvador Dalí, pintor espanhol, pertenceu ao movimento Surrealista. Suas obras são capazes de nos deixar perplexos, provocar muitas reflexões, além de atiçar nossa curiosidade. Na cidade onde nasceu, Figueres, construiu um lindo e enorme museu – o Teatro - Museu Dalí, onde logo na entrada, num pátio aberto, várias estátuas douradas recebem os visitantes de braços abertos. Há um curioso Cadillac estacionado, cujo interior está repleto de plantas artificiais por sobre alguns bonecos/manequins, estes representando um motorista e um casal sentado no banco traseiro. Ao depositar uma moeda de euro, literalmente chove no interior do automóvel. Suas obras instigantes estão expostas ao longo de todo o museu. Dalí presenteou Gala, sua esposa e musa inspiradora, com um castelo medieval em Púbol – a Casa-Museu Gala Dalí – e teve como residência uma casa em Portlligat, hoje também museu. Todos na região da Catalunha, Espanha. Vale a pena uma visita a esse três locais!

Com a imagem da pintura “A Persistência da Memória”, na tela de seus computadores e aparelhos celulares, pedi aos participantes que escrevessem três momentos, a partir da observação da obra:

          1-    O que você vê? Faça uma descrição, observe cada detalhe.

          2-    O que você sente ao ver a obra? Deixe suas emoções virem, anote suas sensações e sentimentos.

      3-    O que você imagina? O que você acha que está acontecendo nesta cena ou o que pode vir a acontecer?

E assim foram surgindo:

       1-  Relógios deformados, árvore seca, um entardecer na praia com as falésias ao fundo, areia escura, rochedo, mar, perfil humano, piscina suspensa. Três relógios de bolso derretem ao tempo.

      2-    Sinto que o tempo passa... ansiedade, tristeza, solidão, sem vida, tudo é fluido, o tempo é fluido, incontrolável...me dá tristeza, solidão, dureza do cubo, a rigidez do inútil.

      3-    Imagino a imensidão do tempo para alguns e o momento (brevidade) para outros. O mar nos traz uma espécie desconhecida. A praia – inquietação do mundo científico. Local abandonado. Fim, sensação de morte, finitude incontrolável. Praia e montanha eternos, calmos, destoam do resto.

Surpreendente o que cada participante observou, aliás, nem eu havia percebido tantos detalhes na pintura, pois ouvi relatos de muitas pessoas que passaram por esta experiência.

Passamos para o momento de relaxamento onde fui conduzindo os participantes, de olhos fechados, a fazerem uma retrospectiva sobre o seu trajeto ao longo do ano de 2021, ainda em período de pandemia pela Covid-19.

Percorremos os meses, fazendo uma profunda reflexão sobre como haviam utilizado o tempo em relação à sua própria pessoa, sua saúde, seus relacionamentos com família e amigos, seu trabalho, estudos, lazer, finanças e o tempo que utilizaram para se reconectarem com aquilo que acreditam, com a sua fé.

Fizemos uma pausa para reflexão do momento atual, no caso, dezembro 2021. E em seguida, pedi para planejarem como pretendiam utilizar o tempo no novo ano que iria iniciar.

Passaram para a construção de seus relógios, de posse da imagem da obra de Dalí, e com os materiais escolhidos por cada participante. Considerei como materiais obrigatórios folhas sulfite brancas e lápis de cor. Tesoura e cola se estivessem disponíveis. Percorreram seus espaços para encontrarem mais dois materiais usando a intuição nessa escolha (sugerido: papel de alumínio, lãs, linhas, botões, grãos, lantejoulas, papéis coloridos etc.).

Qual o significado do tempo para você? – Essa foi a grande pergunta.

 

Compartilhamento

Nesse momento, alguns dos participantes mostraram seus trabalhos pelo vídeo, fazendo um breve relato. De acordo com Hungria (2020, p.101), “...dois artistas não produzem trabalhos iguais, mesmo que a partir de um mesmo tema e técnica. Uma obra é o fruto das vivências do seu criador: suas emoções, percepções, sentimentos e valores.” 


 “Relógio da Vida”

Palavra final: Reflexão

“Procurei colocar no relógio as partes que usei e como vou usar o tempo em cada área da vida. Percebo que tudo está conectado...então, temos que nos dedicar a tudo!!!!”

 


“Reflexo do Tempo – Um Oásis no Deserto”

Palavra final: Surpreendente

“Explorando as possibilidades dos materiais. Apenas criando. No término do Tempo. Surpresa do resultado. Visão do Todo e decodificando a impressão inconsciente e expressa na imagem.” 


“Gratidão pela Vida”

Palavra final: Busca

“Muita gratidão por estar viva e poder planejar meu futuro: viver com meus amados. Buscar a felicidade e a simplicidade. Buscar minhas verdades. Minha essência. Viver! Amar! Aproveitar o tempo que me resta, vivendo com os seres vivos que amo.” 


“O Único Tempo”

Palavra final: Precioso

“Diferente de Dalí, o tempo é macio e suave. A hora é única, tudo é 1. Sempre em movimento. Único, não é igual, não tem mostrador, não consegue marcar. Tem uma borboleta fluindo. O relógio inteiro anda. Cores para o movimento. Pássaros voando. Indo no amanhecer e no entardecer. Muitas coisas únicas fluindo, indo junto.”

 

E agora eu te pergunto:

Ah, o tempo...o que você fará com o tempo que lhe está sendo dado em 2022?

 

Nota: fotos e relatos autorizados pelos participantes.

 

Bibliografia:

HUNGRIA, Heloisa Soares. Um percurso compartilhado entre Arte Contemporânea e Arteterapia. Arteterapia no processo do envelhecimento. Selma Ciornai, Marcia Bombarda Pires de Oliveira, Renata Gabriel Schwinden ( orgs.). Rio de Janeiro: Wak Editora, 2020.

OTSU, Roberto. A sabedoria da natureza. Taoísmo, I Ching, Zen e os ensinamentos essênios. São Paulo: Ágora, 2006.

https://www.wikiart.org/pt/salvador-dali/a-persistencia-da-memoria-1931 : Acessada em 10 dezembro 2021.

https://www.salvador-dali.org/en/museums/  : Acessada em 03 janeiro 2022.

 

Se você quiser ler meus textos anteriores neste blog, são eles:

As Cores em Marilyn Monroe – 13/12/21

Um Desafio – 11/10/21

O Branco no Branco – 23/08/21

Tudo Começa em Pizza – 28/06/21

Um Material Inusitado – O Carimbo de Placenta – 10/05/21

As Vistas do Monte Fuji – 22/03/21

É Pitanga! – 07/12/20

O que é que a Baiana tem? – 26/10/20

Escrita prá lá de criativa – 27/09/20

Fazer o Máximo com o Mínimo – 01/06/20

Tempo de Corona Vírus, Tempo de se Reinventar – 13/04/20

Minha Origem: Itália e Japão – 17/02/20

Salvador Dalí e “As Minhas Gavetas Internas” – 11/11/19

“’O olhar que não se perdeu’: diálogos arteterapêuticos entre pai e filha” – 19/08/19

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Sobre a autora: Claudia Maria Orfei Abe 


 

Arteterapeuta e Farmacêutica-Bioquímica

Atuei em instituição com o projeto “Cuidando do Cuidador”, para familiares e acompanhantes dos atendidos. Atuei também em instituição de longa permanência para idosos com o projeto “Mandalas”, sua maioria com Doença de Alzheimer.

Voluntária com o projeto online “Cuidando do Cuidador”, para cuidadores familiares de pessoas com a Doença de Alzheimer, no grupo GAIAlzheimer, São Paulo.

Idealizadora do projeto “Simplesmente Eu” com atendimento grupal online, para pessoas que não conhecem a arteterapia.

Autora do texto “Salvador Dalí e as minhas gavetas internas”, publicado no livro Escritos em Arteterapia: Coletivo Não Palavra – organizado por Eliana Moraes, 2020, Semente Editorial.

Participante da Live “Cuidados na Doença de Alzheimer” do Instituto Alzheimer Brasil – IAB – com o tema “Arteterapia”, disponível no canal do IAB no Youtube, 2021.

Palestrante especialista do tema Arteterapia na disciplina "Cuidado integral ao longo do ciclo da vida à luz das Práticas Integrativas" – Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo – EACH – USP, 2021.

Atendo em domicílio e online, individual e grupal.