segunda-feira, 13 de julho de 2026

ATIVIDADE DE ARTETERAPIA: EXPLORANDO TEXTURAS E MEMÓRIAS AFETIVAS

 

Por Anderson Amaral, Adriana Limeira do Nascimento, Talyta Gisllyane da Silva - CE

Introdução

A estimulação multissensorial desempenha um papel fundamental ao longo de todo o ciclo da vida, sendo especialmente relevante durante o processo de envelhecimento. O processamento sensorial constitui uma função essencial do sistema nervoso, permitindo que o indivíduo receba, interprete e responda adequadamente aos estímulos provenientes do ambiente. Com o avanço da idade, alterações fisiológicas podem comprometer a eficiência desse processamento, impactando habilidades relacionadas à atenção, memória, orientação, comunicação e interação com o meio. Esse cenário torna-se ainda mais significativo entre idosos que convivem com comprometimento cognitivo ou diferentes formas de demência, uma vez que as dificuldades no processamento das informações sensoriais podem intensificar limitações funcionais e reduzir a participação em atividades cotidianas. Nesse contexto, intervenções que estimulam simultaneamente diferentes sentidos, como tato, visão, audição e olfato, configuram-se como estratégias importantes para promover o engajamento, favorecer a evocação de memórias, estimular funções cognitivas preservadas e contribuir para o bem-estar emocional e a qualidade de vida dessa população (MANEEMAI et al., 2024).

Entre as estratégias utilizadas nesse contexto, destaca-se a arteterapia, que integra experiências sensoriais, cognitivas e emocionais por meio de atividades criativas e expressivas. Essa abordagem favorece a ativação de diferentes circuitos neurais e pode contribuir para a manutenção das funções cerebrais ao longo do envelhecimento. Estudos apontam que a arteterapia pode beneficiar tanto idosos saudáveis quanto aqueles com comprometimento cognitivo leve ou em estágios iniciais da doença de Alzheimer, estimulando capacidades como atenção, memória, linguagem, planejamento e expressão emocional (SOUZA; GOMES; MORAES, 2022).

Objetivo

Relatar uma atividade de arteterapia voltada à estimulação tátil e à evocação de memórias afetivas, realizada com pessoas idosas, utilizando diferentes grãos presentes no cotidiano como recurso terapêutico e expressivo.

Participantes

Participaram da atividade oito idosas residentes em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), com idades variando entre 70 e 90 anos. As participantes apresentavam comprometimento cognitivo leve e diferentes níveis de limitação funcional decorrentes do processo de envelhecimento. Algumas eram usuárias de cadeira de rodas, enquanto outras apresentavam dificuldades de mobilidade e dependência parcial para a realização de determinadas atividades do cotidiano.

Todas as etapas foram adaptadas às necessidades e capacidades individuais das participantes, respeitando seu ritmo, limitações e potencialidades, garantindo um ambiente acolhedor, seguro e inclusivo.

Materiais e Método

Foram utilizadas quatro caixas sensoriais opacas com abertura para exploração tátil, contendo arroz, feijão, milho e cuscuz (flocos de milho). Também foram utilizados cola e uma folha de atividade dividida em quatro quadrantes identificados com os respectivos grãos.


      Feijão / Arroz
Cusvuz / milho

A proposta foi desenvolvida em três etapas: exploração sensorial tátil, compartilhamento de experiências e produção artística. Inicialmente, os participantes exploraram os materiais sem visualizá-los, utilizando apenas o tato para tentar identificar os grãos. Em seguida, os materiais foram revelados e utilizados como estímulo para diálogo e evocação de memórias. Por fim, os participantes realizaram uma atividade artística de colagem utilizando os próprios grãos.

Relato da Experiência

A atividade teve início com a apresentação das caixas sensoriais ao grupo. A proposta de descobrir o conteúdo das caixas utilizando apenas o tato despertou curiosidade, expectativa e entusiasmo entre os participantes. Para muitos idosos, tratava-se de uma experiência nova, capaz de despertar interesse e promover envolvimento desde os primeiros momentos.

Antes da exploração sensorial, foi realizado um breve momento de acolhimento e relaxamento em grupo, favorecendo a concentração e preparando os participantes para a vivência. Em seguida, cada idoso foi convidado a inserir as mãos nas caixas e explorar livremente os materiais, observando características como textura, formato, tamanho e consistência, com o objetivo de identificar qual grão estava presente em cada recipiente.

 


        


Observou-se que o arroz, o feijão e o milho foram facilmente reconhecidos pela maioria dos participantes, provavelmente por fazerem parte de seu cotidiano alimentar e apresentarem texturas bastante características. O cuscuz, entretanto, despertou maior curiosidade e gerou mais dúvidas. Alguns idosos associaram sua textura a diferentes tipos de farinha, demonstrando como a percepção sensorial está intimamente relacionada às experiências individuais construídas ao longo da vida.

As tentativas de identificação foram acompanhadas por sorrisos, risadas e comentários espontâneos, criando um ambiente acolhedor e descontraído. A cada descoberta, percebia-se o aumento do engajamento e da curiosidade dos participantes, que compartilhavam hipóteses, comparavam sensações e buscavam validar suas percepções junto aos colegas. Esse momento favoreceu não apenas a estimulação tátil, mas também a interação social, a comunicação e a participação ativa do grupo.

Após a revelação dos materiais presentes nas caixas, iniciou-se um rico momento de diálogo e compartilhamento de experiências. Os diferentes grãos despertaram inúmeras memórias afetivas relacionadas ao preparo de comidas típicas, receitas tradicionais e vivências familiares. Muitos participantes recordaram refeições preparadas por mães e avós, almoços em família, encontros festivos e hábitos alimentares característicos de suas comunidades.

O cuscuz, o feijão e o arroz, por estarem fortemente presentes na cultura alimentar dos participantes, evocaram lembranças carregadas de significado emocional. Alguns idosos compartilharam histórias da infância, da vida no campo e de momentos vividos ao lado de familiares. As narrativas revelaram recordações de cuidado, união, pertencimento e afeto, permitindo que experiências positivas do passado fossem revisitadas e valorizadas.

Além de favorecer a socialização e a troca de experiências, a atividade possibilitou a ressignificação de lembranças e trajetórias de vida. Ao compartilharem suas histórias, os participantes encontraram um espaço de valorização de suas experiências, saberes e memórias, fortalecendo sua identidade e senso de pertencimento.

Na etapa seguinte, cada participante recebeu uma folha dividida em quatro quadrantes identificados com os nomes dos respectivos grãos. Utilizando cola, os idosos realizaram a colagem do feijão, milho, arroz e cuscuz nos espaços correspondentes, construindo uma composição artística baseada na experiência sensorial vivenciada anteriormente.

    







Essa produção artística estimulou a coordenação motora fina, a atenção, a organização visuoespacial e a criatividade, além de reforçar o reconhecimento dos materiais explorados durante a atividade.

Discussão

A experiência evidenciou o potencial da estimulação multissensorial associada à arteterapia como estratégia para promover o engajamento cognitivo, motor, afetivo e social de pessoas idosas. A exploração tátil dos materiais favoreceu a atenção, percepção, memória, associação de textura e formas, a discriminação sensorial e a curiosidade, enquanto os momentos de diálogo possibilitaram a evocação de memórias autobiográficas e afetivas.

Os relatos compartilhados demonstraram que estímulos simples do cotidiano podem funcionar como importantes gatilhos para a recuperação de lembranças significativas, fortalecendo a identidade pessoal estimulando recordações relacionadas à cultura alimentar, às tradições familiares e às experiências de vida, contribuindo para o bem-estar emocional. Além disso, a atividade artística permitiu transformar essas experiências em uma produção concreta, favorecendo a expressão criativa e a valorização das vivências individuais.

Considerações Finais

A experiência demonstrou que elementos simples do cotidiano podem se transformar em importantes recursos terapêuticos quando associados à estimulação sensorial, estimulação cognitiva e à arteterapia. A atividade promoveu momentos significativos de descoberta, interação, criatividade e resgate de memórias afetivas, contribuindo para o bem-estar emocional, a participação social e o fortalecimento dos vínculos entre os participantes.

Mais do que identificar texturas ou realizar uma produção artística, os idosos tiveram a oportunidade de revisitar histórias, compartilhar experiências e atribuir novos significados às suas trajetórias de vida. Dessa forma, a atividade reafirmou o potencial da arteterapia como estratégia de promoção da saúde, humanização do cuidado e valorização da pessoa idosa.

 

 

Referência

MANEEMAI, O. et al. Sensory Integration: A Novel Approach for Healthy Ageing and Dementia Management. Brain Sciences, Basel, v. 14, n. 3, p. 285, 2024. DOI: 10.3390/brainsci14030285

SOUZA, L.B.R.; GOMES, Y.C.; MORAES, M.G.G.. The impacts of visual Art Therapy for elderly with Neurocognitive disorder: a systematic review. Dementia & Neuropsychologia, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 8-18, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-5764-DN-2021-0042

 

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Sobre os autores:

 Anderson Amaral 



Arteterapeuta formado pelo Espaço Psi Rio de Janeiro. Mestre em Tecnologia no Espaço Hospitalar, Pós-graduação em Neurociência com ênfase em Envelhecimento. Pós-graduado em Geriatria e Gerontologia, Pós-graduação em Neuropsicologia ênfase em Reabilitação Cognitiva. Arteterapeuta do Instituto Amantino Câmara. Autor dos Livros Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora; Jogos cognitivos: Um olhar multidisciplinar - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo - WAK Editora

 Adriana Limeira do Nascimento 



Arteterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Pós-graduação em Saúde Menta, Pós-graduação em Saúde Pública e Brinquedista pela ABBri – Autora do Livro Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora - WAK Editora e Co autora do livro Tratado do jogo: das regras às regras em jogo e do livro Jogos cognitivos: Um olhar multidisciplinar - WAK Editora

 Talyta Gisllyane da Silva



 Graduada em Psicomotricidade, Discente de Terapia Ocupacional, Pós-graduada em TEA e TGD e Pós-graduada em ABA.

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