segunda-feira, 20 de setembro de 2021

GRANDES ARTISTAS NAS PRÁTICAS DA ARTETERAPIA: REMEDIOS VARO

 


                                                                            “Encontro”

Eliana Moraes – MG

naopalavra@gmail.com

Ao longo de minha construção continuada como arteterapeuta, tenho investido em criar meu repertório de obras artísticas que possam dialogar com as questões terapêuticas recorrentes na escuta clínica. Estas expressões podem advir das mais variadas linguagens da arte, as quais poderão afetar, atravessar e provocar o experienciador da Arteterapia:

Como técnica arteterapêutica, com este recurso, estamos explorando o fenômeno da projeção, que se dá como um processo inconsciente automático, pelo qual um conteúdo inconsciente para o sujeito é transferido para um objeto, fazendo com que este conteúdo pareça pertencer ao objetoSegundo Jung, "a razão geral e psicológica das projeções é sempre um inconsciente ativado que busca expressão.” (SHARP, 1991, 127) e é este conteúdo inconsciente ativado que precisamos ouvir.  (MORAES, 2020) 

Eventualmente elejo um artista para me debruçar sobre sua história, obras e referências, buscando possíveis instrumentos para estímulos projetivos, disparadores de reflexões e processos criativos. E neste contexto as imagens oníricas surrealistas possuem um lugar especial. Elas carregam um grande potencial de impactar o espectador porque, assim como os sonhos, provocam a sensação de que são ao mesmo tempo familiares, porém estranhas:

... familiar em razão do estilo minuciosamente realista que permite ao espectador o reconhecimento dos objetos pintados; desconhecido, por causa da estranheza dos contextos em que eles aparecem... (BRADLEY, 1999, 34) 

Sendo assim, são imagens não óbvias, não literais, ricas em simbolismos, metáforas, paradoxos, carregando um grande potencial de identificação pelo espectador, provocando variadas projeções as quais entendemos como conteúdos inconscientes ativados em busca de expressão – ainda que apareçam acompanhadas de incômodos e resistências.   

Dos pintores surrealistas mais conhecidos podemos citar Salvador Dali, René Magritte, Max Ernst, Yves Tanguy. Porém, o que não muitas pessoas sabem é que existiram mulheres surrealistas com obras interessantíssimas ao nosso conhecimento. E a protagonista deste texto é uma destas mulheres as quais decidi dialogar, uma por vez.

Remedios Varo (Espanha, 1908 – México, 1963)


Diante da perda da filha, a catalã Ignacia Uranga se viu inconsolável. Aos seus olhos, somente outra gravidez poderia apaziguar a dor de uma mãe em luto. Foi então que, em 1908, nasceu María de los Remedíos Varo.

Aos 15 anos, candidatou-se a uma vaga na mais próspera e conceituada academia de artes espanhola, que tinha em seu currículo de formação pintores como Pablo Picasso. Aceita, tornou-se uma das primeiras mulheres da história a estudarem no instituto. Mais tarde, em 1935, já inserida no movimento surrealista de André Breton, dividiu mesas de discussão com o conterrâneo e colega catalão, Salvador Dalí, e outros artistas de renome da época. 

Em uma vida conduzida por problemas cardiovasculares, também teve sua trajetória marcada por fugas. Primeiro, da Guerra Civil Espanhola e seu ditador Francisco Franco. Depois, quando já estabelecida em Paris, fugitiva da ofensiva nazista de Hitler, assim como outros artistas anarquistas da época, encontrou refúgio no México.

Sua obra é marcada por personagens femininas, fugindo do olhar de pintores surrealistas que ainda as objetificava. Remedios pintou misteriosas magas, anciãs e bruxas, donas de seus mundos oníricos e pessoais. Suas pinturas são ricas em personagens mitológicos,  fantasias, alquimia, magia, mundos lúdicos, por vezes parecendo serem ilustrações de histórias e contos de fadas.

 

Práticas arteterapêuticas

“Les feiulles mortes”

Tenho utilizado algumas pinturas de Remedios Varo como estímulos projetivos em grupos arteterapêuticos e atendimentos individuais. A partir destas experiências é muito interessante observar que, apesar de em senso comum as pinturas da artista transmitirem um aspecto denso e sombrio, não podemos subestimar o poder da projeção: cada espectador enxergará nas imagens aquilo que lhe pertence e lhe é necessário integrar à consciência, sejam aspectos desagradáveis ou agradáveis.

Das obras da artista, percebo que selecionei para meu repertório aquelas que fazem um convite para a introversão, um olhar para dentro, ao encontro de conteúdos psíquicos mais íntimos. Utilizo estas imagens quando intento convidar o paciente para olhar para si com uma escuta mais atenta e profunda, como que puxando um fio daquilo que precisamos ouvir e acolher no campo terapêutico.

A partir da estimulação projetiva através da obra é possível propor uma escrita criativa ou uma releitura da obra em desenho ou pintura. Mas uma orientação essencial se faz em não dizer o nome da obra antes do encontro puro do olhar do espectador, pois saber o nome poderá atravessar em muito sua projeção.

Remedios Varo e suas imagens oníricas podem servir de grande contribuição ao repertório do arteterapeuta e meu desejo é que este texto possa estimular ao leitor que busque conhece-la melhor e mais de sua obra, em sua intensidade e potência!

“Insônia”

Para conhecer as obras de Revebios Varo acesse: www.remedios-varo.com


Referências Bibliográficas:

BRADLEY, Fiona. Surrealismo – Movimentos da Arte Moderna. Ed Companhia das letras, São Paulo. 1999. 

MORAES, Eliana. Expressões artísticas e as questões terapêuticas. Blog Não Palavra, 26/08/19

SHARP, Daryl. Léxico Junguiano. Ed Cultrix, SP, 1991.

__________________________________________________________________________________

Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga.


Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Dá aula em cursos de formação em Arteterapia em SP e MS. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

BARALHO DE SENTIMENTOS E SEUS CONTEÚDOS TERAPÊUTICOS


Por Vera de Freitas - RJ

verafguimaraes@gmail.com


          Trabalhar com os sentimentos, com as emoções e a subjetividade do ser humano, passa do desafio para o arteterapeuta para ser um trabalho complexo, muito rico, interessante e acima de tudo surpreendente, pelo fato de sermos seres únicos, individuais, com reações e manifestações próprias para cada estímulo apresentado. Quantas vezes nos percebemos espantados com a transformação, com o novo olhar ou mesmo com as reações e atitudes inesperadas de alguém que acompanhamos, estimulamos e observamos?

            Foi em um desses momentos de espanto, num atendimento de grupos arteterapêuticos, que pude observar quando uma pessoa muito rígida e bastante negativa, verbalizava exatamente o oposto de tudo que expressava nas imagens, apesar do longo tempo participando do grupo, já familiarizada com os exercícios, estímulos, atividades e as produções plásticas. A princípio você pensa que houve alguma transformação, mas não, simplesmente é possível o uso de palavras descontextualizadas, ou automáticas numa resposta positiva, sem um contato verdadeiro.

            A partir daí entendi a importância de nomear cada sentimento, saber do que falamos e por que falamos. Foi assim que experimentamos algumas dinâmicas com cores e linhas para representar o que realmente se sente. Olhamos e analisamos o que sentimos. E como resultado desses exercícios, dessa atividade de prestar atenção ao que se sente, encontramos resultados significativos para os participantes, como o orgulho, a animação, o otimismo, a motivação, etc.

            Por isso seguimos com esse tema, confeccionando cartas e o baralho de sentimentos, com estímulos variados e algumas linguagens que poderiam auxiliar no aprofundamento, e no encontro de significado e expressão. E assim se deu.



            Primeiro com a produção de cartas, com algumas atividades para a escolha e representação do sentimento. Cada carta, um sentimento, uma imagem. Com interferência do desenho de linhas de determinadas cores, e a escrita criativa, espontânea – alternativas e sugestões para a melhor compreensão daquele sentimento, facilitando o que se pode expressar e trazendo mais clareza.

            Com algumas cartas prontas, passamos a trabalhar o seu próprio baralho, ou seja, os seus próprios sentimentos. E com inúmeras e diferentes dinâmicas, poderíamos nos ver, nos perceber e mesmo escolher modificar.

            Um trabalho muito delicado, sutil e individual. Experimentamos diversos exercícios, estímulos, linguagens tanto para confecção de cartas como para sua utilização, de forma terapêutica, para análise de si mesmo, para o autoconhecimento e a possibilidade de fazer as mudanças que acharíamos convenientes para uma vida emocional e psiquicamente mais saudável.

            Algumas das propriedades e características terapêuticas deste trabalho de confecção de cartas, ou construção do seu baralho de sentimentos são: a ordenação, a síntese e a integração. A documentação, a organização e a compreensão. Além de ativar a expressividade, o olhar e a autoanálise, promovendo diálogos internos.

            Já as propriedades oriundas das atividades relacionadas à utilização das cartas, que servem de estímulos geradores para inúmeras possibilidades terapêuticas, dependerão de cada proposta, porém sempre fazendo uma conexão com conteúdos inconscientes, acessando a função intuição, nossa voz interior e especialmente elaborando e trazendo notícias importantes para a consciência.

            Trabalhamos durante vários encontros, muitas atividades, de acordo com o desejo e/ou a necessidade do grupo, muitas descobertas, várias conclusões. Experimentaram, compartilharam assuntos dos mais variados, mergulharam e se encontraram.

            Os grupos produziram lindos baralhos, falaram de importantes sentimentos e muitos conseguiram se perceber de uma nova forma. Com respeito, aceitação e autocuidado.

_____________________________________________________________________________________________

Sobre a autora: Vera de Freitas 



Advogada, Fomação e Pós Graduação em Arteterapia (POMAR)

Cursando Pós Graduação Envelhecimento Ativo (POMAR)

Administradora do Instituto VENHA CONOSCO - Tijuca, RJ

Professora de Iniciação Artística - Instituto ZECA PAGODINHO

Facilitadora de Grupo de Arteterapia  para adultos, atendimento individual e Grupo de Desenho Livre.

Ateliê  de PAPEL MACHÊ

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

DIÁLOGOS ENTRE ARTE, TERAPIA E TARÔ: A IMPERATRIZ E A ISADORA DUNCAN

  

Por Mercedes Duarte - RJ

duarte.mercedes@gmail.com

Esse é mais um texto da sequência de reflexões acerca dos 22 arcanos maiores do tarô, associados a elementos da arte que possam nos aproximar desses arquétipos. Hoje, na sequência, trago o Arcano III, a Imperatriz, em diálogo com a dançarina Isadora Duncan, uma das precursoras da arte moderna. 

O intuito desse diálogo entre arte e tarô, como já mencionado e aprofundado em outro texto[1], é o de proporcionar reflexões propositivas, possibilidades terapêuticas - experimentadas na Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô[2] - que permeiam esses elementos em diálogo, inspirando assim uma possível ampliação do repertório arteterapêutico. 

A Imperatriz e a Natureza     


A Imperatriz, assim como a Papisa, é representante no tarô do feminino, mas, em contraponto às características soturnas da última, ela emerge à luz, num movimento de abertura, comunicação e expansão criativas. A Imperatriz, encarnada no número 3, é o resultado do encontro do 1 (Mago) e do 2 (Papisa). É desse encontro que um terceiro elemento surge, como num movimento dialético, quando algo novo emerge do encontro de duas substâncias, ou partes. Podemos associar esse evento ao contato da semente com a terra, que se desdobra em um terceiro elemento: a germinação; ou à comunicação que se realiza na aproximação de dois indivíduos; ou ao alimento que surge na interação entre a terra e o agricultor; ou ainda ao ventre quando preenchido de vida após o encontro de dois amantes. 

Assim, a Imperatriz condensa o caráter criador do Mago (número 1), que encerra a polaridade yang, e a amorosidade da Papisa (número 2), representada pela polaridade yin. A Imperatriz representa a Terra, a grande mãe que a tudo nutre com os frutos que produz. Ela é a própria natureza com seus ciclos de vida e morte. Entretanto, apesar do inverno, ela é continuamente generosa, gestando sempre uma nova fase de abundância.   

A Imperatriz marca, especialmente, os processos de expansão, nutrição e criatividade. Existe nela uma potência de vida e multiplicação constitutivas. Não à toa, é sempre associada à gestação e à realização do parto, seja de um projeto ou de um indivíduo (um terceiro elemento, como ela mesma o é). 

A Papisa e a Imperatriz também podem ser concebidas como duas faces da mesma Deusa. Enquanto a Papisa recebe, vela e nutre o que é divino, o ovo da vida, que, todavia, não eclodiu; a Imperatriz é a eclosão, a explosão criativa, a força de vida sendo materializada, a própria manifestação da divindade. 

Por ser essa força de união de dois polos, a Imperatriz está associada à união, à comunicação e fertilidade. Rege então seu império por meio da comunhão, da celebração e do amor. No entanto, não possui planejamentos, uma meta de realização e materialização ordenadas. Seu movimento é de inspiração e transbordamento do fluxo natural e contínuo de tudo o que é vida. 

Isadora Duncan e seu corpo natural

 

"Desde o nascimento, não fiz mais do que dançar minha vida” (DUNCAN, 1989)

“A minha primeira ideia do movimento da dança veio-me certamente do ritmo das águas” (DUNCAN, 1989, p. 3).

 

Isadora Duncan (1877-1927), dançarina de inícios do século XX, traz uma série de características que nos aproxima do arquétipo da Imperatriz, como veremos no desenrolar de sua apresentação. Nascida nos Estados Unidos, na Califórnia, Duncan rompeu com o balé clássico. Não agradando a seus conterrâneos, Duncan busca expansão profissional longe de sua terra natal. Considerada hoje uma das precursoras da dança moderna, junto a Loïe Fuller (1862-1928) e Ruth Saint-Denis (1879- 1969), a artista fundou algumas escolas, ao longo de sua trajetória, em distintos países. As mais referenciadas foram implementadas na Alemanha, França e Rússia. 

            Duncan se opunha ao balé clássico, acadêmico, tecnicista. Considerava uma dança artificial que produzia um corpo deformado, de movimentos geométricos e rígidos, que resistiam à gravidade, e, portanto, confrontavam os preceitos da natureza (BISSE, 1999). Compreendia que as técnicas dessa dança seriam resultados da separação tradicional entre corpo e mente, em que a mente se sobrepõe e domina o corpo. Duncan, em contraponto, propõe um corpo e uma dança naturais:

 

(...) minha vontade é libertar a arte da dança das distorções inaturais que são produto do balé moderno, e devolver-lhe os movimentos naturais. Vemos em animais, plantas, ondas e ventos a beleza desses movimentos. Todas as coisas da natureza têm formas de movimento correspondentes ao seu ser mais íntimo.

(DUNCAN, 1996, p. 29, apud DANTAS, 2007, p.152).                                                          



A artista inaugura uma nova concepção de dança. Uma dança que expressaria a vida e a liberdade do corpo. Duncan se inspira em danças pagãs e nos movimentos da natureza. Propunha uma nova escola, na qual a dança não conduzisse uma narrativa, mas sim movimentos gerados a partir da alma. Buscava expressar seu mundo interior, considerando, em sua dança, a respiração e o chacra do plexo solar, que compreendia ser o centro de força dos movimentos. Entretanto, não se preocupou tanto em desenvolver uma técnica, mas suas propostas inovadoras fundam “o que seria a essência da dança moderna: um vocabulário coreográfico original e pessoal que recusava a convenção e a coincidência entre um movimento e uma intenção” (BISSE, 1999, p. 65). 

A proposta de um corpo natural – “natural” compreendido como aquilo que é espontâneo e sem artifícios - se expressava em seus pés descalços, em seus vestidos soltos, livres de espartilhos, em suas caminhadas, corridas e gestos esvoaçantes, sugerindo fluidez e organicidade, em seus movimentos ondulatórios e na ausência de ruptura rítmica (DANTAS, 2006). 

Isadora Duncan e a Imperatriz 

            Como podemos ver, Duncan se aproxima da Imperatriz em sua proposta de se acercar de um corpo natural, em produzir uma dança que expressasse aquilo que tem de mais verdadeiro em seu mundo interior, se inspirando na Natureza. A espontaneidade de Duncan, sua entrega, seu movimento fluído e expansivo, estão em consonância com o espírito da Imperatriz, cujo reino é o da Natureza, espontâneo, fluído, cíclico e expansivo. 

            A Imperatriz, arquétipo que manifesta na matéria a divindade, é considerada regida por Vênus - planeta do amor, da harmonia e da beleza. Por sua vez, Duncan propõe manifestar as emoções, a beleza e o sagrado a partir de seu corpo, de sua matéria pulsante. Ela diz: "Eu cheguei à Europa para provocar um renascimento da religião através da dança, para expressar a beleza e santidade do corpo humano através do movimento" (DUNCAN, 1989, apud BISSE, 2008, p.65). 

            É interessante notar que ambas se aproximam do lugar da maternidade. Duncan além de ter concebido duas crianças, que vieram a falecer em um acidente de carro ainda pequenas, de acordo com alguns registros, também foi mãe adotiva de seis de suas alunas, matriculadas na Escola que fundou, em 1904, na Alemanha, onde acolhia crianças das camadas populares. Essas alunas ficaram conhecidas por “As Isadoráveis”, o que expressava o afeto e o vínculo com Duncan.  

            Além de mãe e representante da natureza, que expressaria seu lado yin, Duncan pode ser considerada uma mulher revolucionária por diferentes motivos, o que compreende sua polaridade yang. Encerra em si as polaridades da Imperatriz. A artista, não apenas introduziu no cenário da dança uma nova proposta de movimento, mas também seu comportamento era considerado escandaloso para a época. Viveu com dois companheiros sem que formalizasse o vínculo, tendo um filho de cada um deles. Casou-se somente com o terceiro parceiro, porque era russo e precisava da permanência nos Estados Unidos. Libertar-se dos espartilhos do balé era mais uma forma simbólica de afrouxar as amarras sociais que amordaçavam, limitavam, disciplinavam as mulheres de sua época.

 

Na segunda metade do século XIX, surge e se intensifica o movimento feminista nos Estados Unidos, opondo-se ao puritanismo americano e reagindo, notadamente, contra o uso do espartilho e dos acessórios que compunham a indumentária feminina: a liberação do corpo e de sua expressão é uma reivindicação comum ao movimento feminista e a esta nova dança que está surgindo (DANTAS, 2006, p. 151).

 

Como sabemos, o conceito de natureza no Ocidente sempre foi associado ao caos, à desordem, contrariamente à ideia de civilização, concebida como a expressão da racionalidade humana, do controle, do ordenamento e intervenção do homem na natureza. Assim, natureza e cultura, natureza e civilização, estão em polos opostos, associados, respectivamente, aos gêneros feminino e masculino. Não por acaso, a ideia de que o homem deveria intervir na “natureza feminina” atravessa a história das sociedades. 

Duncan propõe um retorno à Natureza, à potência natural do movimento, não de modo caótico, mas de modo fluído, em uma busca pela libertação dos corpos moldados pela civilização enrijecida.

 

O retorno à natureza do corpo evidencia uma tentativa de se contrapor ao modelo hegemônico do corpo balético, mas evidencia também uma busca de superação de um corpo perdido em séculos de pensamento dualista e um desejo de instauração do corpo como um espaço de liberdade (DANTAS, 2006, p.160).

 

Ambos estilos de dança, a dança natural de Duncan e o balé, podem ser associados aos arquétipos da Imperatriz e do Imperador (que veremos no próximo texto), respectivamente: de um lado, o corpo natural como espaço de liberdade e fluidez; de outro, o corpo artificial, moldado a partir de critérios rígidos e geométricos, minuciosamente calculados, expressando assim a intervenção humana sobre a matéria e a tradicional separação ocidental entre corpo e mente. 

Proposta Terapêutica 

            Para possibilitar a aproximação com o arquétipo da Imperatriz, além do contato com a dança de Duncan na Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô, foi proposta a impressão corporal com tintas naturais. Pés, mãos, dedos, braços, seios foram impressos. O intuito era de que se apropriassem de seus corpos e ocupassem espaços, assim como a natureza que ocupa os espaços com vida, cores, vitalidade, e seus processos de crescimento, e transformação. 

            Uma das participantes registrou duas imagens de seu trabalho em momentos diferentes. Por ter exposto ao sol a pintura, e não ter adicionado um fixador às tintas naturais, as cores desbotaram. O que em um primeiro momento provocou certo desapontamento, em um segundo momento gerou reflexões fecundas.            


Conexão-Vida



Conexão-Tempo

Percebeu que o tempo, que atravessa a vida, que faz da natureza expressão de permanente transformação, estava ali representado pela metamorfose das cores. Assim, a natureza foi capturada de maneira viva, em seu estado puro, em seus tons cambiantes, em seus processos de vida e morte. A experiência, portanto, vivida na carne impressa, possibilitou a consciência, simbolizada em imagem, da única certeza de que temos: de que tudo se transforma.


[1] DUARTE, Mercedes. Diálogos entre Arte e Tarô: uma introdução. Blog Não-Palavra. 31 de maio, 2021. http://nao-palavra.blogspot.com/2021/05/

[2] A Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô consiste em oficinas quinzenais, facilitadas por mim, inspiradas nos arcanos maiores do tarô que são associados a determinados aspectos da arte.

 Referências Bibliográficas

BISSE, J. de Meira. (2008). Dança e Modernidade. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação. Campinas- SP. 

DANTAS, M. (2007). O corpo natural de Isadora Duncan e o natural no corpo em educação somática: apontamentos para uma história do “corpo natural” em dança. In: Garimpando memórias: esporte, educação física, lazer e dança. Silvana Vilodre Goellner e Angelita Alice Jaeger (Orgs). Porto Alegre: Editora da UFRGS: Porto Alegre. 

DUNCAN, I. Minha vida (1989). Editora José Olímpio: Rio de Janeiro. 


________________________________________________________________________________

Sobre a autora: Mercedes Duarte


Arteterapeuta, Mestre em Ciências Sociais, pesquisadora autônoma de arte, terapia e oráculos

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

ABC – QUEBRA DE PARADIGMA NA ARTETERAPIA

 


Por Silvia Quaresma

othila.arteterapia@gmail.com 

Algum tempo atrás certamente acreditaria que dois raios não caem no mesmo lugar, mas a ciência já desmistificou esta teoria quando afirmou que em áreas de grande incidência podem cair não somente dois, mas diversos raios. Então, é render-se aos fatos e aceitá-los.

Atendo a dois artistas plásticos. Em ambos os casos os processos terapêuticos convencionais já não estavam surtindo efeito e como pessoas totalmente envolvidas com arte, Arteterapia pareceu ser um caminho lógico, como abordado por Moraes:

 

É comum que a clínica da Arteterapia seja procurada por pessoas que já têm a prática nas artes: trabalhos manuais, artesanato, artes visuais. Por um lado, o conhecimento de algumas técnicas é interessante pois o paciente sente-se à vontade no manuseio dos materiais. Tais pessoas, porém, são muito comprometidas com a estética, com o belo, até porque essas produções necessitam de aprovação do público, além da preocupação com “o que é vendável” (MORAES, 2018, p.36).

 

Fato é que o conhecimento de algumas técnicas facilita, mas tem um fator limitador considerável para o processo arteterapêutico.   Dois artistas habilidosos cujo contato com a tinta traz um grande nível de racionalização, encontram dificuldade para entregar-se a fluidez quando esta representa para eles momento de profunda racionalização: sistemático uso do pincel, quantidade de tintas “matematicamente” calculada, perspectivas, etc.

A princípio pensei na escrita não simplesmente para registro de uma experiência, mas como disparador, como recurso expressivo. Contava com a possibilidade da palavra transformar-se em imagem, em símbolo, conforme cita Philippini quando fala das estratégias para o uso da escrita criativa no processo arteterapeutico:

 

Abordarei algumas destas estratégias, mas priorizando as experimentações imagéticas em torno da palavra, consideramos como um estímulo gerador para chegar a processos visuais e plásticos, sonoros e/ou corporais. Assim abordarei a questão da utilização da palavra, além de sua importância como ponte para uma produção literária mais fluente; examinando a função da palavra como fonte geradora na produção de IMAGENS. (PHILIPPINI, 2018, p.108)

 

Ofereci cinco folhas, contendo as seguintes imagens: A, B C, D e E.

Pedi que escolhessem duas e que fizessem um registro das impressões em folha separada. Surgiram várias palavras iniciadas com a forma escolhida.

Foi observado pelos clientes não formas, mas letras e com letras é preciso fazer palavras. A reflexão começou quando tiveram que abandonar um padrão pré-estabelecido, instigados pela pergunta: Como sabem que são letras?

A produção aconteceu quando foi solicitado o uso das imagens como formas e não como convencionalmente se conhece.

O resultado fascinou os clientes, surpreendidos pelo leque de possibilidades apresentados pela Arteterapia: B, de suposta letra transformou-se em óculos, D em aquário, e E, grandes garras.



O processo arteterapêutico deve focar na criação e permitir que o ato criativo, tenha como objetivo a expressão e a obtenção de novos símbolos, como lembra Philippini:

 

Cada imagem produzida no “setting” arteterapêutico tem o potencial de transformar-se em “imagem-matriz”, ou seja, imagem geradora de uma série de outras imagens, ao longo do percurso arteterapêutico, de significados correlatos. .(PHILIPPINI, 2018, p.108)

 

A quebra de paradigmas como neste caso, onde letras assumiram novos significados, contribuiu para o esquecimento das listas com inúmeras palavras e deu origem a outros relatos trazidos pelas imagens produzidas.

O arteterapeuta deve colaborar para a obtenção de novos recursos e usos auxiliando na elaboração psíquica de seus clientes instrumentalizando-os.

Afinal de contas, quem disse que eram letras?


Bibliografia 

MORAES, E. Pensando a Arteterapia. Rio de Janeiro: Semente Editorial, 2018. 

PHILIPPINI. A Linguagens e Materiais expressivos em Arteterapia: uso, indicações e propriedades.  Rio de Janeiro: Wak. 2018.

 ______________________________________________________________________________

Sobre a autora: Silvia Quaresma



Arteterapeuta

Graduada em Letras

Pós-Graduada em Finanças

Pós-Graduada em Arteterapia e Criatividade

Professora especialista de artesanato

Idealizadora do Projeto Customizando Emoções –Interface entre Artesanato e Arteterapia

Idealizadora de Othila Arteterapia em Ação

Coordenadora de Grupos de Arteterapia em Instituição para cuidadores e voluntários

Atendimento individuais e em grupos em Arteterapia

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O BRANCO NO BRANCO

 

Algodão branco

 

Por Claudia Maria Orfei Abe - São Paulo/SP

Instagram: @claudia_abe_ 

Que tal trabalhar com algodão branco sobre sulfite branco? O branco no branco. A inspiração veio da técnica que vivenciei com a psicóloga e arteterapeuta Camila Patah, no Grupo de Estudos Vivências Arteterapêuticas Online, coordenado pela arteterapeuta e arte reabilitadora Tania Freire. Esse é um grupo de estudos que se reúne semanalmente há mais de um ano, e que se iniciou logo após a pandemia da Covid-19 se instalar no Brasil. Arteterapeutas formadas por diferentes escolas e abordagens (Gestalt, Psicologia Analítica etc.). É muito bom trabalhar com um grupo de pessoas com olhares e saberes diferentes, pois sempre agregamos conteúdos e as trocas são muito interessantes. 

E assim, fiz a minha proposta para a cliente K, que estava em atendimento comigo, online. Na verdade, a proposta inicial para a sessão havia sido outra, mas como a cliente não tinha em casa o material solicitado, precisei imediatamente colocar o meu cérebro para funcionar e propor uma nova atividade para sua sessão arteterapêutica.

Enviei para ela uma foto pelo celular, para mostrar que iríamos trabalhar com algodão branco. Poderia ser daqueles de rolo, ou bolinha, contanto que desse para desfiar (foto no início do texto). 

Quando iniciamos a sessão arteterapêutica, perguntei se ela estava com o algodão em mãos. Prontamente ela me mostrou um quadradinho branco prensado. Logo perguntei: o que é isso? E ela me respondeu:

- Algodão! Eu uso isso para limpar meu filho na troca das fraldas.

- Juraaaaa?????? Eu nunca vi isso. Não é aquele algodão prensado para retirar maquiagem, é? Eu sou do tempo do rolo de algodão, que vem com uma longa folha roxa enrolando-o e que é uma delícia puxar em chumaços.

 Bem, após a surpresa inicial, expliquei para K como ela iria trabalhar. A proposta era trabalharmos os sonhos. Ir além dos sonhos que surgem enquanto dormimos.

 Fui conduzindo o início da proposta, pedindo para que K, de olhos fechados, fosse sentindo o algodão em sua pele. Só depois deveria abrir seus olhos para manipular o algodão.

 K iniciou desfiando dois quadradinhos de algodão. Amassou, jogou o algodão para o alto, sentiu-o nas mãos, esfregou-o nos braços com seus olhos fechados. E continuou desfiando mais e mais quadradinhos de algodão. Fez uma bola com todo algodão, jogou-a para o alto. Observou.

 Depois pedi para que fosse colocando o algodão sobre o papel branco. “Quando vem os sonhos, o que vem para você?” – perguntei para K. “O que está surgindo como imagens para você? Demore-se. Assim que achar formas e concluir que está pronto, aí sim, pode finalizar com a colagem”.

 

Durante o exercício da colagem, o potencial criativo é estimulado, o que leva a busca de soluções e recursos ao mesmo tempo interiores e exteriores, desenvolvendo princípios ordenadores tanto do fazer como do pensar que possibilitam uma avaliação não só do trabalho mas também de si mesmo que acabam gerando um equilíbrio interno e externo. (CARRANO e REQUIÃO, 2013, pág. 52)

 

A experiência com a colagem é na maioria das vezes um momento de tranquilidade, pois foi antecedido por um período de escolha das imagens e, por vezes, de objetos que irão compor o tema proposto. (CARRANO e REQUIÃO, 2013, pág. 53)

 

Assim que terminou sua colagem, orientei K a observar seu trabalho em diferentes posições, até mesmo de cabeça para baixo. Observar as formas que surgiram, os detalhes. Observar os pensamentos, memórias e sensações que foram surgindo. O que a imagem final lhe provocou. Propus uma escrita criativa logo em seguida.

 Ao compartilhar, K me trouxe lembranças de quando cortava papéis com as mãos, e as sensações que apareciam ao fazê-lo. Questionou-se sobre seus sonhos, se tinha e quais eram, e no mesmo instante começou a narrar vários de seus desejos, em relação a ela mesma e aos seus familiares. Concluiu que precisava de foco. Sua palavra final para esta sessão foi “Leve”.

 Pedi para K levantar seu trabalho para que eu pudesse ver a imagem. Para mim, surgiu uma imagem que parecia uma cena de Benjamin Franklin empinando sua pipa durante uma tempestade, em posição invertida (pelo menos foi isso o que eu imaginei).


Logo, percebemos que os materiais tomam uma dimensão, adquirem importância para o cliente e também para o terapeuta. A criação por meio do uso dos materiais torna-se o centro do processo, e, em muitas situações, o cliente volta-se para sua obra de forma intensa, como uma mãe volta-se para o filho que nasce. O terapeuta fica em uma posição lateral, preservado e menos solicitado afetivamente.  (BRASIL, 2013, pág. 56)

“Empinando nuvens do céu e da terra”

 

Preciso confessar que adorei seu trabalho!

 

Bibliografia:

BRASIL, Claudia. Cores, formas e expressão; emoção de lidar e arteterapia na clínica junguiana. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013.

CARRANO, Eveline e REQUIÃO, Maria Helena – Materiais de arte: sua linguagem subjetiva para o trabalho terapêutico e pedagógico. – Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013.

 

Se você quiser ler meus textos anteriores neste blog, são eles:

Tudo Começa em Pizza – 28/06/21

Um Material Inusitado – O Carimbo de Placenta – 10/05/21

As Vistas do Monte Fuji – 22/03/21

É Pitanga! – 07/12/20

O que é que a Baiana tem? – 26/10/20

Escrita prá lá de criativa – 27/09/20

Fazer o Máximo com o Mínimo – 01/06/20

Tempo de Corona Vírus, Tempo de se Reinventar – 13/04/20

Minha Origem: Itália e Japão – 17/02/20

Salvador Dali e “As Minhas Gavetas Internas” – 11/11/19

“’O olhar que não se perdeu’: diálogos arteterapêuticos entre pai e filha” – 19/08/19

 ________________________________________________________________________________

Sobre a autora: Claudia Maria Orfei Abe


Arteterapeuta – atuei em instituição com o projeto “Cuidando do Cuidador”, para familiares e acompanhantes dos atendidos. Atuei também em instituição de longa permanência para idosos com o projeto “Mandalas”, sua maioria com Doença de Alzheimer.

Voluntária com o projeto online “Cuidando do Cuidador”, para cuidadores familiares de pessoas com a Doença de Alzheimer, no grupo GAIAlzheimer, São Paulo.

Idealizadora do projeto “Simplesmente Eu” em atendimento grupal online, para pessoas que não conhecem a arteterapia.

Autora do texto “Salvador Dalí e as minhas gavetas internas”, publicado no livro Escritos em Arteterapia: Coletivo Não Palavra – organizado por Eliana Moraes, 2020, Semente Editorial.

Atendo em domicílio e online.