segunda-feira, 16 de maio de 2022

AS BAILARINAS DE DEGAS

 


 “Bailarina de catorze anos” – Edgar Degas

Exposta no MASP – São Paulo

Por Claudia Maria Orfei Abe - São Paulo/SP

Instagram: @claudia_abe_

 

Comecei a sessão arteterapêutica contando que iríamos pintar e falar sobre mais algumas obras de Edgar Degas, pintor francês impressionista. Meu pai falou para minha tia: “Depois a gente vai para a França ver o que a gente errou”.

Assim iniciamos a sessão 59 ocorrida em 14/out/2019, meu pai então com 85 anos e minha tia materna com 92 anos. Continuamos o trabalho de estimulação cognitiva na residência deles.

A Arteterapia, em sua riqueza de possibilidades e materiais, apresenta-se como um rico instrumento para a estimulação cognitiva de pacientes idosos. O processo criativo em Arteterapia propõe ao paciente a autonomia na medida em que o indivíduo torna-se independente do terapeuta no fazer, mantendo-se ativo enquanto cria. Ela é eficaz também no trabalho com pacientes já com declínio cognitivo. (MORAES, 2018, p. 97)

Resolvi desta vez, trabalhar com duas obras de Degas: “Duas Bailarinas no Palco” e “A Aula de Dança”. Em dois momentos diferentes, abordei pai e tia sobre o que eles viam e o que eles sentiam ao ver cada obra.


 “Duas Bailarinas no Palco” – Edgar Degas

 

Primeiramente, ao mostrar no livro de arte a obra “Duas Bailarinas no Palco”, perguntei à minha tia o que ela “via”, e ela fez uma descrição literal da cena.

Meu pai assim narrou o que “sentia” ao ver a cena: “A concentração é total nas pernas e nos braços. Eu admiro a posição dos pés, os braços alertando para um movimento que elas farão, sem ficar sem graça”.

 

“A Aula de Dança” – Edgar Degas

 

Na obra seguinte, “A Aula de Dança”, meu pai trouxe uma riqueza de detalhes na descrição, detalhes que ele imaginava e não necessariamente via. “Piso não escorregadio feito de madeira para que as bailarinas evitem quedas ou deslize da sapatilha. A vestimenta delas na parte superior é justa. Na parte inferior elas são rodadas, são amplas para fazer parte do movimento. Laços de fitas são necessárias para manter tudo no lugar. Agora, as sapatilhas são especialmente feitas com materiais antiderrapantes e bem aconchegantes aos pés, à pele do pé. Na cabeça geralmente tem um enfeite de flores para dar um toque harmonioso...”.

Minha tia falou o que sentia ao ver esta obra:

“Eu estou notando que elas estão muito interessadas em aprender. Eu estou achando que é difícil aprender a fazer essa dança. Interesse que as meninas têm de aprender a dançar”.

Deixei o livro aberto com as obras como inspirações, distribuí pequenas bailarinas em gesso para eles pintarem com tinta guache.

A tinta guache é uma tinta opaca e à base de água, de fácil manuseio, e sua secagem é rápida. Tem uma textura semelhante à pintura a dedo, mas seu uso é realizado com o auxílio do pincel ou outro instrumento de pintura, o que leva a um certo “afastamento” do material. Neste caso, não temos o contato direto com o material, como na pintura a dedo...Pode ser aplicada em diferentes superfícies e materiais, tais como: gesso, argila, tela, isopor, vidro, tecido etc. (CARRANO E REQUIÃO, 2013, p. 115)

Meu pai iniciou a pintura com a cor salmão. Em seguida pegou a preta, mas desistiu de usar. Passou para o azul, voltou para o salmão e começou a pintar o rosto da bailarina. Usou depois o amarelo e o laranja.

Minha tia iniciou a pintura dos cabelos da bailarina em marrom. Foi para o rosa choque e utilizou água para diluir a tinta durante sua pintura monocromática.

Monocromia é utilização de apenas uma cor e suas tonalidades em uma determinada composição. (FERREIRA, 2013, p. 42)

Aproveitei para colocar músicas clássicas de fundo.

Meu pai ao utilizar a cor preta para os cabelos e pintar os olhos de azul, falou: “Não dá para pintar de uma vez só. Aqui na arte não tem descanso”.

 

Compartilhamento

 

 

Pai: “Pausa para bailarina durante o espetáculo”

Palavra final: Relembrando a beleza do balé

Pai: “Eu acho que a bailarina para a gente pintar deveria ser uma pose de bailado e não de pausa. Já pensou no futebol? O cara no vestiário todo arriado... tem que ser num lance!”

 


Tia: “Descanso da Bailarina”

Palavra final: Interessante

Tia: “Ela já dançou, se cansou e resolveu descansar”.

Meu pai fez uma observação: “Você (tia) pôs descanso e eu pus pausa”.

Terminamos a sessão conversando um pouco mais sobre as obras e alguns detalhes descritos no livro.

Depois de encerrados os trabalhos, meu pai queria colar a bailarina de gesso numa folha e colocar uma moldura em volta.

 

Nota 1: Por curiosidade minha, resolvi dar uma olhada no livro Psicologia das Cores, de Kacianni Ferreira, para ler um pouco sobre a Simbologia das cores nas roupas, em referência às cores utilizadas por meu pai e tia, na pintura em gesso.

Roupa amarela: transmite alegria, atrai a atenção e favorece a comunicação.

Roupa laranja: proporciona descontração verbal e corporal, é jovial, causa leveza, alegria e bom humor. É uma cor antidepressiva, ajuda a elevar a autoestima e liberar emoções e expressões.

Roupa rosa-choque: cor curadora, cria o desejo de expressar o amor físico e o amor pelo mundo.

Nota 2: Agradeço a amiga e arteterapeuta Silvia Quaresma por me ceder gentilmente as bailarinas de gesso.

Nota 3: Se quiser, leia meu texto anterior a este: Degas e as Mulheres. Publicado em 21 de março de 2022 neste blog.

 

Bibliografia:

CARRANO, Eveline e REQUIÃO, Maria Helena. Materiais de arte: sua linguagem subjetiva para o trabalho terapêutico e pedagógico. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013.

FERREIRA, Kacianni. Psicologia das cores. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013.

MORAES, Eliana. Pensando a Arteterapia. 1.ed. Divino de São Lourenço, ES: Semente Editorial, 2018.

Os Grandes Artistas – Vida, obra e inspiração dos maiores pintores. Degas. Volume I. Romantismo e Impressionismo. São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda., 1986.

Acesse algumas das obras de Edgar Degas:

https://www.wikiart.org/pt/edgar-degas

Visite o MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

 

Se você quiser ler meus textos anteriores neste blog, são eles:

Degas e as Mulheres – 21/03/22

Ah, o Tempo... – 14/02/22

As Cores em Marilyn Monroe – 13/12/21

Um Desafio – 11/10/21

O Branco no Branco – 23/08/21

Tudo Começa em Pizza – 28/06/21

Um Material Inusitado – O Carimbo de Placenta – 10/05/21

As Vistas do Monte Fuji – 22/03/21

É Pitanga! – 07/12/20

O que é que a Baiana tem? – 26/10/20

Escrita prá lá de criativa – 27/09/20

Fazer o Máximo com o Mínimo – 01/06/20

Tempo de Corona Vírus, Tempo de se Reinventar – 13/04/20

Minha Origem: Itália e Japão – 17/02/20

Salvador Dalí e “As Minhas Gavetas Internas” – 11/11/19

“’O olhar que não se perdeu’: diálogos arteterapêuticos entre pai e filha” – 19/08/19

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Sobre a autora: Claudia Maria Orfei Abe

 


 Arteterapeuta e Farmacêutica-Bioquímica

Atuei em instituição com o projeto “Cuidando do Cuidador”, para familiares e acompanhantes dos atendidos. Atuei também em instituição de longa permanência para idosos com o projeto “Mandalas”, sua maioria com Doença de Alzheimer.

Voluntária com o projeto online “Cuidando do Cuidador”, para cuidadores familiares de pessoas com a Doença de Alzheimer, no grupo GAIAlzheimer, São Paulo.

Idealizadora do projeto “Simplesmente Eu” com atendimento grupal online, para pessoas que não conhecem a arteterapia.

Autora do texto “Salvador Dalí e as minhas gavetas internas”, publicado no livro Escritos em Arteterapia: Coletivo Não Palavra – organizado por Eliana Moraes, 2020, Semente Editorial.

Participante da Live “Cuidados na Doença de Alzheimer” do Instituto Alzheimer Brasil – IAB – com o tema “Arteterapia”, disponível no canal do IAB no Youtube, 2021.

Palestrante especialista do tema Arteterapia na disciplina "Cuidado integral ao longo do ciclo da vida à luz das Práticas Integrativas" – Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo – EACH – USP, 2021.

Atendo em domicílio e online, individual e grupal.

 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

CINEMATERAPIA, AS PRIMEIRAS EXPERIMENTAÇÕES SOBRE O PROCESSO TERAPÊUTICO NO MUNDO E SUAS APLICABILIDADES – PARTE 2



Por Milena Medeiros - Volta Redonda - RJ
milolmedeiros@gmail.com
 
O filme serve para exercitar o homem nas novas percepções e reações exigidas por um aparelho técnico cujo papel cresce cada vez mais em sua vida cotidiana. Fazer do gigantesco aparelho técnico do nosso tempo o objeto das enervações humanas – é essa a tarefa histórica cuja realização dá ao cinema o seu verdadeiro sentido. (BENJAMIN, 1996, p.174).
 
Dando continuidade à tônica como a arte do cinema, em Películas Cinematográficas, pode, como recurso, influenciar no processo arteterapêutico, o primeiro texto comunicou como introdução:  o Cinema, a Sétima Arte e o que ela representou na Sociedade. O texto de hoje, parte 2 da série, informará em recortes temáticos a cronologia sobre a Cinematerapia e as primeiras experimentações sobre o processo terapêutico no mundo, características, modalidades e identificação de técnicas, assim como a postura terapêutica na aplicação.
 
Oliva, Vianna e Neto (2010), profissionais da área de Psiquiatria e Psicologia, explicam que o cinema tem sido aplicado com a proposta de intervenção psicoterápica, por meio de indicação de películas, com enfoques científico e educacional - sobre a neurologia e a psiquiatria - já no período do Cinema Mudo Alemão - final do século dezenove e início do vinte. Mas foi a partir dos anos cinquenta que se iniciaram as experiências através de películas com pacientes diversos de um hospital psiquiátrico. A reação dos pacientes passou a ser observada durante a exibição fílmica, na busca da interpretação psicanalítica e dos mecanismos de defesa do paciente, junto aos comportamentos de excitação e de silêncio.
 
Como resultado em seus efeitos terapêuticos de grupo, observou-se alterações positivas sobre as variáveis comportamentais da educação, da resistência e da ansiedade, entre outros. Na década de sessenta as películas começaram a ser exibidas particularmente com foco nos impactos que poderiam exercer no paciente. Nesse contexto, técnicas comportamentais eram analisadas. A partir disso, ensaios randômicos[1],  com pessoas aleatórias começaram   a ser realizados e os resultados demonstraram uma melhora significativa nos comportamentos analisados, inclusive, em repetições fílmicas envolvidas na estratégia em demais ensaios ao longo do tempo.
 
Vários outros estudiosos deram continuidade às pesquisas com a abordagem da técnica sobre o uso de películas comerciais (filmes populares) em psicoterapia, o que possibilitou a partir dos resultados, conteúdos relevantes tanto sobre a utilização da linguagem expressiva no que diz respeito ao comportamento dos pacientes, quanto sobre a postura do terapeuta.
 
 De acordo com Berg-Cross et al. (1190, p.135-57), conforme citado por Oliva et al. (2010, p. 140), “enfatizaram que na Cinematerapia, assim como em qualquer outra tarefa de casa de um processo terapêutico, o terapeuta precisaria”: Selecionar, planejar e preparar adequadamente o paciente para a técnica;  realizar o quanto antes a discussão sobre a película assistida; não indicar muitos filmes de uma só vez, correndo-se o risco de falhar a técnica; pedir ao paciente que anotasse os pensamentos e sentimentos em relação ao filme, para serem explicitados nas sessões; as películas seriam indicadas como reforço de uma ideia introduzida na terapia e  como estimulo a busca de autocritica por parte do paciente e não seria fundamental que a película interira fosse discutida.  
                 
Segundo Hesley e Hesley (2001, n. p.), conforme citado por Oliva et al. (2010, p. 140), “explicitaram as vantagens peculiares da Cinematerapia: alta aderência, pelo pouco tempo cedido por parte do paciente a uma tarefa e possível interação com todo o contexto; de fácil acessibilidade; maior disponibilidade de interação do paciente com os familiares; curiosidade no paciente por descobrir quais razões de o terapeuta indicar determinada película; familiaridade com a atividade e evolução da relação terapeuta-paciente, sendo a técnica uma experiencia comum a ambos.”
 
Conforme Berg-Cross et al. (1190, p.135-57),  citado por Oliva et al. (2010, p. 140), “indicaram que o impacto da Cinematerapia no paciente poderia acontecer de diferentes maneiras”:    melhora na comunicação entre terapeuta-paciente; compreensão mais profunda de sua personalidade, a técnica  capacitaria o paciente a praticar fora da terapia o que foi aprendido; progresso terapêutico, ocorrência sobre os estágios evolutivos no paciente, partindo de conceitos psicanalíticos: a dissociação, pois o paciente perceberia o retrato das pessoas no filme como distante do seu. Em seguida, a identificação e a internalização - aumentando a chance de o paciente aceitar o tratamento e observar comportamentos relevantes em outras pessoas, com problemas semelhantes, desenvolvendo assim a empatia.
 
Ainda segundo Hesley e Hesley (2001, n. p.), conforme citado por Oliva et al. (2010, p. 140), “foram os únicos a indicar de forma mais sistematizada os vários objetivos para os quais a Cinematerapia poderia ser utilizada”: oferecer esperança e encorajamento ao paciente por meio da narrativa fílmica; reformular problemas a partir das crises ficcionais dos personagens e fornecer modelos comportamentais de referência; identificar e reforçar forças internas; potencializar emoções; melhorar a comunicação, para pacientes que não conseguem se comunicar bem verbalmente.
 
Oliva et al. (2010) complementa que o recurso da Cinematerapia seria indicado para pacientes que apresentassem problemas de relação interpessoal. As contraindicações estariam designadas para os grupos de primeira e segunda infâncias, pacientes com transtornos mentais graves, casal com histórico de violência, históricos traumáticos que de alguma maneira se inserem na narrativa fílmica e para as situações de vulnerabilidade que, por sugestão dos autores, as cenas emocionalmente fortes, poderiam ser descritas pelo terapeuta para que o próprio paciente desistisse de assistir a narrativa no caso de se sentir mal e perturbado com o relato.
 
Muitos estudos intercederam a favor da técnica sobre o uso da Cinematerapia, alguns limitando-se apenas a relatos pessoais e estudos de casos, outros como evidenciados, mais fundamentados apontando para a eficácia do seu uso. Desde então, muitos são os profissionais da área da Psicologia e Desenvolvimento Humano que se utilizam da técnica seja no formato individual ou de grupo.           Marcelo Gianini[2], psico-oncologista e especialista em luto utilizam essa técnica em seu trabalho e explica que tal estratégia apoia cognitivamente situações experenciadas pelas pessoas, concluindo que: “elas aprendem a pensar em novas maneiras de agir e isso ajuda na reflexão sobre os padrões comportamentais adotados na atualidade”.  São variados os temas abordados nas sessões de cinema desde nascimento, conflitos, enfoques sociais como o preconceito a espiritualidade, adoecimento, envelhecimento chegando ao luto.
 
Denise Deschamps (2008), psicóloga e autora de Cinematerapia: Entendendo Conflitos, explica que as indicações que realiza aos seus pacientes acontecem após as questões apresentadas em seus atendimentos e ressalta que a técnica como ferramenta auxilia, funcionando como um recurso extra no processo terapêutico. Deschamps complementa que a Cinematerapia pode ser aplicada com foco em variados transtornos psicológicos.
 
Para a eficácia da técnica, a discussão sobre o conteúdo que marcou e/ou revelou algo ao paciente pós sessão é primordial. Chamando a atenção para o processo de identificação entre paciente e narrativa fílmica a psicóloga Walnei Arenque destaca: “[...] a pessoa deve estar atenta às sensações e aos sentimentos que foram despertados ao assistir ao filme”, pois a narrativa pode fazer com que o paciente passe pelo processo que ela chama de catarse cinematográfica:
 
A Catarse se dá num processo no qual o expectador sofre uma descarga de desordens emocionais, obtidas por meio da personagem com a qual ele se identificou no filme, e pode se libertar, ou mesmo ter uma melhor compressão de seus conflitos pessoais, revivendo suas experiencias. (PERIN e SILVA, 2010, p.951).
 
A finalidade da indicação de películas no processo psicoterapêutico é o de alcançar junto ao paciente uma possível alteração sobre determinada situação vivenciada, colaborando para o processo terapêutico.
 
E a técnica da Cinematerapia em um Setting Arteterapêutico? Você deve estar curioso(a) sobre como ocorre a aplicação da técnica e o que ela pode implicar no processo arteterapêutico com suas expressões simbólicas de referência e  ênfase sobre todo o processo - como um fator de ativação à compreensão a consciência grupal e individual - certo? Afinal, há em nosso escopo de trabalho o mediador, o que compõe a tríade junto ao Arteterapeuta e o Paciente/Cliente: o material! E com ele uma das funções do Arteterapeuta, a de facilitar o caminho do agir criativo pela materialidade, essa criada pelo paciente/cliente a partir do contexto fílmico trabalhado.
 
Por essa perspectiva, convido você para a terceira e última parte da série, com enfoque na aplicação das sessões Cinematográficas no setting de Arteterapia. Conheceremos dois cases: O primeiro, pela película britano-estadunidense Chocolat (2001) que apresentará o percurso de um processo arteterapêutico breve, aplicado em um grupo de colaboradores em ambiente empresarial e na modalidade presencial. A segunda, pelo filme A Odisseia, baseado na Odisseia de Homero e levada às telas americanas em maio de 1997. Essa aplicada em ambiente online, no processo arteterapêutico de modalidade continuada, durante a pandemia COVID-19, no ano de 2021.
 
Espero então, vê-lo(a) em breve!
Até lá!
 
 

[1] Estudo experimental de grupos, com o propósito de investigação sobre os efeitos relacionados às práticas de intervenções na saúde. Disponível em  http://www.fmrp.usp.br/revista,acesso em 27/08/20.

[2] GIANINI, Marcelo. Os Segredos da Cineterapia. Guia da Semana, São Paulo, 10, abril 2012.Disponível em:<https://www.guiadasemana.com.br/compras/noticia/os-segredos-da-cinematerapia>. Acesso em 27/08/20. 


REFERÊNCIAS
 
     GONÇALVES, Renata.  Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes, São Joao Del Rei, Ano 4, n 4, jan/ dez 2008. Disponível em: <https://ufsj.edu.br/portal2- repositorio/File/existenciaearte/Edicoes/4_Edicao/renata_goncalves.pdf>Acesso em:20 jul.2020.
 
OLIVA, Vitor; VIANNA, Andréa; NETO, Francisco. Cineterapia como Intervenção psicoterápica: características, aplicações e identificação de técnicas cognitivo-comportamentais. Revista Psiquiatria Clínica, São Paulo, v.37, n.3, 2010. Disponível em: <  https://doi.org/10.1590/S0101-60832010000300008 > Acesso em: 20 jul.2020.
 

 GIANINI, Marcelo. Os Segredos da Cineterapia. Guia da Semana, São Paulo, 10, abril 2012.Disponível em:<https://www.guiadasemana.com.br/compras/noticia/os-segredos-da-cinematerapia>. Acesso em 27/08/20. 

 
SILVA, Maria Isabel; PERIN, Laís. Cinema é Considerado Terapia -  Rudge Ramos Jornal - Universidade Metodista de São Paulo, ed. 951, 2010. Disponível em:< http://www.metodista.br/rronline/rrjornal/2010/ed-951/cinema-e-considerado-terapia>Acesso em:27jul.2020.

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Sobre a autora: Milena Medeiros




Arteterapeuta AARJ1122

Olá, Sou Milena Medeiros, uma arteterapeuta com mais de 15 anos de experiência em Gestão de Pessoas no mercado Corporativo. Decidi-me por unir ambas as experiências e hoje atuo, além dos atendimentos individuais arteterapêuticos online, com a Arteterapia no ambiente empresarial.

Algumas formações como preparação a minha profissão de arteterapeuta foram concretizadas e hoje também as utilizo como abordagem no settingPracticioner em PNL (Programação Neuro Linguística); Análise Transacional - UNAT Brasil - Abordagem psicológica de Erick Berne que trata de maneira prática e compreensível os aspectos importantes da personalidade e das relações entre as pessoas; Visão Sistêmica pessoal e Organizacional com base psicoterapêutica de Bert Hellinger. Também sou Colagistas Digital e analógica, processo que aprendi pós introdução à técnica de Soul Collage®. Como Hobbie, tenho a alimentação Viva no coração, também conhecida como crudivorismo que aplico no setting como técnica expressiva com o foco na memória afetiva por meio dos sentidos sensoriais. A pintura com aquarela faz parte de minha vida e por meio dessa técnica estou finalizando a ilustrações de um livro infantil. 

Maior do que um prazer é a alegria por estar no espaço “Não Palavra”! Esses são os meus contatos: (24)999619963, Instagram: @milenaoliveiramedeiros. 

segunda-feira, 2 de maio de 2022

PSICOLOGIA E LITERATURA, ENTRE(LAÇOS) NA CONSTRUÇÃO DE MODOS DE EXISTÊNCIA

 


Por Katia Santos - RJ

kreginapsi@gmail.com 

Em sua crônica “A função da arte”, presente em “O livro dos abraços”, Eduardo Galeano nos permite perceber que muitas vezes, temos dificuldade em dar conta daquilo que é belo, precisando assim, compartilhar nossas vivências, olhares e percepções, com o outro. Quando relata que o menino Diego, ao encontrar pela primeira vez, com o mar, fica extasiado, impactado, “mudo de beleza”, só conseguindo falar uma frase: “Pai, me ajuda a olhar”, o autor nos confirma a necessidade de partilharmos aquilo que nos emociona, nos afeta, e que, de alguma forma, nos leva em direção à nossa humanidade. 

A literatura se apresenta como um eficiente instrumento terapêutico que nos auxilia, não só a contemplar o belo, mas também, a olhar para dentro de nós mesmos. Isso porque, a leitura literária, incluindo poesias, contos, crônicas, romances, narrativas orais, entre outros, possui o que chamamos de linguagem simbólica, ou seja, são textos ricos em metáforas que, uma vez sendo responsáveis por afetar o leitor, são capazes de penetrar em lugares profundos de nosso ser, promovendo o reavivamento de memórias, a possibilidade de se falar sobre temas até então muito guardados e pouco falados e o processo catártico da liberação das emoções. 

O encontro do livro com o leitor é um momento de troca mútua, isto é, ambos oferecem aquilo que os constitui, suas histórias. E essas, são capazes de interferir nas formas de existência daqueles que as leem ou as escutam. A leitura atua como um dispositivo despertador de curiosidade, reflexão, introspecção, identificação, catarse, entre outras. E esses e outros conceitos, estão sistematizados em produções científicas, referentes à Biblioterapia, que de acordo com Clarice Caldin, “é o cuidado com o desenvolvimento do ser humano por meio das histórias, sejam elas, lidas, narradas ou dramatizadas”. (Caldin, 2010, Apud, Souza, 2021). Para a autora, a compreensão e a definição de cuidado, são vistas como uma condição existencial, como um facilitador nas relações interpessoais e como caminho para o resgate de processos saudáveis.

 

Os livros não mentem nem mudam de tema para nos distrair; não nos mandam brincar quando temos vontade de chorar; nem batem a porta no nosso nariz. Fazem, apenas, nos “co-mover”: nos dão a permissão de sentir com os outros, nos emprestam a experiência, a longa experiência da espécie para que possamos ver como outros viveram; como se viraram para viver; como se defrontaram com situações que, no fundo, são tão pouco originais, tão humanas. (REYES, 2012, p. 83/84)

 

 A Biblioterapia, ao cuidar do ser humano, o percebe de forma integral, não dissociando corpo e mente, uma vez que formam um todo ativo e participante. Ela apresenta possibilidades que convidam o sujeito a sair de seu desequilíbrio, avaliando e ressignificando suas posturas. Esse processo se dá através da linguagem, que é capaz de trazer autoconhecimento, beleza, bem-estar, aceitação e alegria. 

A utilização da Biblioterapia no trabalho do profissional da Psicologia, não é só um processo que envolve dois sujeitos. A Literatura no setting terapêutico, passa a envolver três sujeitos, ou seja, o profissional, o autor e o cliente. Assim, o autor, de certa forma, atua como coterapeuta neste cenário, uma vez que existe um compartilhar da atenção, em algo comum a ambos ou a todos os envolvidos. O leitor vive um processo que, simultaneamente ao seu autoconhecimento, vai descobrindo a obra que lê, em um movimento contínuo ao estabelecer leituras e releituras, ao escrever sobre o que lê e acabando por ler a si próprio.

 

Sendo a leitura um encontro entre o texto e o leitor, é sempre o leitor que, tornando-se agente e iniciador da ação, deve escolher entre as múltiplas proposições de justeza ética veiculada pela leitura. A identidade poética de um ser humano está em constante movimento. Pela leitura, pelo dinamismo, pela expressão e interpretação, quando é nesse momento que o texto é continuado, logo, ele não para de ser feito, desfeito e refeito. (OLIVEIRA, 2017, p.47)

 

Um texto que possua um potencial terapêutico, poderá provocar os diferentes componentes biblioterápicos, que são a catarse, a identificação e a introspecção. Tais componentes não se apresentam da mesma forma com todos os leitores. Cada pessoa, a partir de suas experiências de vida, desejos, alegrias, tristezas etc. recebe o texto de uma forma singular, e suas reações e afetações em relação a ele, é que fazem a diferença em seu processo de humanização através da literatura.

 

O que está em jogo a partir da leitura é a conquista ou a reconquista de uma posição de indivíduo. Pois os leitores são ativos, se apropriam do que leem, dão outro significado aos textos lidos, deslizam seus desejos, suas fantasias e suas angústias entre as linhas, desenvolvem toda uma atividade mental. Na leitura há algo mais do que o prazer, algo que é da ordem de um trabalho psíquico, no mesmo sentido de quando falamos em trabalho de luto, trabalho de sonho ou trabalho da escrita. Um trabalho psíquico que permite encontrar um vínculo com aquilo que nos constitui, que nos dá lugar, que nos dá vida. (PETIT, 2013, p.68)

 

 Na catarse, reações de choro ou de riso, revelam a transição entre um estado de tensão, para um estado de alívio ou harmonia,  na identificação, o sujeito vivencia situações no seu imaginário, atrelando a fantasia às emoções, apresentando várias personagens ficcionais que assumem caracteres passíveis de projeção ou introjeção, e na introspecção, pela observação podemos ter noção do que se passa no outro,  revivendo experiências dolorosas ou não, significando o fato psicológico ocorrido, e consequentemente o seu efeito, verificando que o que se sente, é algo próprio dos seres humanos, e sendo assim, encontrar possibilidades de convivência com tais demandas.

 

Na Biblioterapia, advoga-se que essa interação de subjetividades, essa interação de personagens ficcionais permite ao leitor, ouvinte ou espectador compreender seus conflitos à luz dos conflitos vivenciados pelas personagens de uma forma segura, indolor e prazerosa. (CALDIN, 2010, p.165)

 

O método biblioterapêutico pode ser aplicado de duas maneiras, ou seja, o Psicólogo em seu local de trabalho, atuando com um cliente, casal ou família, desenvolve a chamada Biblioterapia Clínica, onde a demanda específica é o foco para a escolha criteriosa de textos literários estimuladores dos componentes biblioterapêuticos próprios de cada situação. Entretanto, profissionais de outras áreas poderão atuar com a Biblioterapia de Desenvolvimento, quando seu trabalho estiver focado em grupos de pessoas que estejam interessadas em vivências em Biblioterapia, sem o viés psicoterapêutico, mas sim no seu autoconhecimento, fruição dos textos literários etc., ou seja, temas comuns a todos os seres humanos. 

O objetivo da Biblioterapia Clínica não é desviar do sofrimento, mas ir ao encontro dele, através de leituras que acessam o mais profundo e oculto por motivos vários, acolhendo-o para permitir sua expressão e para amenizar as dores da alma. (SEIXAS, 2014, p.80)

 

Um aspecto relevante sobre a utilização da Literatura, tanto na Biblioterapia Clínica como na de Desenvolvimento, é o fato de que após a leitura dos textos, o diálogo que, frequentemente ocorre, pode ser realizado através de um processo de dinamização, ou seja, uma forma de inspirar os participantes a se envolverem, ainda mais com as palavras que lhes atravessaram e consequentemente, os tocaram. Assim, são utilizadas diferentes estratégias de contato, sendo que uma das mais aplicadas é a Arte, em seus diferentes modos de apresentação.

 

As distintas formas de arte utilizam-se de materiais diversos como instrumentos de trabalho. No caso da literatura, a ferramenta de trabalho é a palavra, que comunica, interage e cria a possibilidade de expressar, através dos variados estilos literários, as demais formas artísticas, provocando emoções, produzindo efeitos estéticos e permitindo viagens infinitamente criativas. Da mesma forma, a Psicologia tem na palavra seu campo de atuação que, pela união com a literatura, pode encontrar nas possibilidades presentes no cotidiano, formas de desvendar o sofrimento e compreender a condição humana e suas maneiras de viver. (SANTOS, K.R.,2019, p.8)

 

No trabalho com literatura, os livros infanto-juvenis são bastante utilizados, não só com crianças e adolescentes, mas também com adultos e idosos. Isso porque sua apresentação, através de metáforas escritas ou visuais, possui um poder enorme sobre as pessoas, desencadeando todo o processo biblioterapêutico. Neste universo, é relevante abordarmos a importância do livro imagem, que não se trata apenas de um livro sem texto, mas uma opção do autor em traduzir sua história da palavra escrita para a linguagem artística, com cenários coloridos, de efeitos visuais encantadores.

Ao concluirmos este artigo, reforçamos a certeza de que há um entre(laçar) na construção de modos de existências, a partir da utilização da literatura no trabalho psicoterapêutico, uma vez que nossa experiência, tanto com a Biblioterapia Clínica como com a de Desenvolvimento, reflete esta realidade, mostrando a efetiva ação dos textos literários sobre a existência de cada pessoa envolvida no processo. Encerro com as palavras do escritor Bartolomeu Campos de Queirós que, apesar de nunca ter utilizado a palavra Biblioterapia, era, em sua essência, um maravilhoso biblioterapeuta:

 

Ler é um ato operatório. Por meio da leitura toda a nossa intimidade, mesmo a mais secreta, vem à tona – em liberdade – para desvendar o que as palavras nos reservam. Pela leitura, nossa realidade mais profunda é buscada para participar dessa prosa. Diante do texto literário, nos revelamos e nos abrimos para paisagens até então insuspeitadas. Viver se torna possível pela força da ficção. (QUEIRÓS, 2019, p.90)

                                                                  

Referências Bibliográficas: 

CALDIN, C.F. Biblioterapia: um cuidado com o ser. São Paulo, SP: Porto de Ideias, 2010, p.165. 

GALEANO, E. O livro dos abraços. Porto Alegre, RS: L&PM, 1997, p.15. 

OLIVEIRA, S. Janela da alma – pela prática da Biblioterapia. Natal, RN: CJA, 2017, p.47. 

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Sobre a autora: Katia Regina dos Santos


Formação: Psicóloga Clínica com orientação em Gestalt Terapia, graduada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Pedagoga; Bióloga; Especialização em Psicopedagogia; Formação em Biblioterapia; Pós-Graduanda/Especialização em Biblioterapia e Mediação da Leitura Literária

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