segunda-feira, 15 de novembro de 2021

O USO DA LINHA NAS PRÁTICAS DA ARTETERAPIA

 


Por Eliana Moraes - MG

naopalavra@gmail.com 

No processo de formação da minha identidade profissional como arteterapeuta, entendi que era necessário me aprofundar nos estudos sobre as teorias da arte, dentre elas a História da Arte, as teorias da criação e os elementos visuais. Sem dúvida, há um vasto universo teórico no campo da arte, mas como terapeuta, minha (lenta e cuidadosa) pesquisa e estudo continuado estão norteados pelas aplicabilidades destas teorias na realidade, proposta e práticas da Arteterapia. 

Ao longo deste caminho, percebi que os elementos visuais fazem parte dos estudos do arteterapeuta, para que possamos conhecê-los e nos instrumentalizarmos de suas propriedades, para seu manejo consciente. Nas palavras de Fayga Ostrower:

 

Há um dado deveras interessante! Se fôssemos perguntar de quantos vocábulos se constitui a linguagem visual, de quantos elementos expressivos, a resposta seria: de cinco. São cinco apenas: a linha, a superfície, o volume, a luz e a cor. Com tão poucos elementos, e nem sempre reunidos, formulam-se todas as obras de arte, na imensa variedade de técnicas e estilos…

 

É verdade que os significados dos elementos visuais ficam em aberto, mas deve haver alguma coisa de definível nesses elementos para que possamos reconhecer identidades expressivas diferentes. (OSTROWER, 1983, p 65) 

É importante sinalizar que neste trecho Fayga não menciona “o ponto”, outro elemento visual carregado de simbolismos. De toda forma, a noção de que os elementos visuais carregam “identidades expressivas” específicas nos chama atenção como arteterapeutas. 

Venho escrevendo sobre o elemento cor nos últimos anos, estando alguns destes textos compilados no livro “Pensando a Arteterapia Volume 2”. Mas atualmente tenho direcionado minhas leituras, reflexões e registros de aplicabilidades do elemento linha. Dentre a vasta literatura disponível sobre o tema, no campo da arte, elegi dois teóricos que já tenho uma relação de identificação: Fayga Ostrower e Wassily Kandinsky e no texto de hoje trago o percurso construído até aqui. 

A linha

Se, porém, perguntarmos: o que vem a ser uma linha?... Seria necessário perguntar: o que faz uma linha? E mais especificamente: o que faz a linha em termos de estrutura espacial?... (OSTROWER, 1983, p 65)

 

Isso nos interessa muito, porque do tipo de espaço que a linha pode caracterizar, dependem as qualificações expressivas. (OSTROWER, 67) 

A linha possui qualificações expressivas específicas, o que fica mais claro quando a comparamos com outros elementos visuais:

 

Se compararmos, por exemplo, linhas com cores, sentimos de imediato, o clima expressivo diferente. Enquanto que a linha evoca toda uma ambiência intelectual, a cor é antes de tudo sensual. (OSTROWER, 1983, p 68)

 

Acompanhando essas explicações, mostrei dois desenhos e uma pintura. Todos datam aproximadamente da mesma época. Mas com elementos visuais diferentes – linha no desenho e cores na pintura – definem diferentes modos de ser e sentir. Comparando-as entre si, podemos observar nessas obras... o quanto o sentido de refinamento torna-se mais intelectual no desenho, muito menos sensual do que na pintura. (OSTROWER, 1983, p 68)

No aprofundamento deste estudo, podemos teorizar em diálogo com a Psicologia Analítica junguiana que o elemento cor traz como função auxiliar a função sensação, através da qual é sentida sua vibração, alcançando sua função principal, o contato com os sentimentos. Por outro lado, podemos dizer que o elemento linha, por sua propriedade mais intelectual, racional, tem como função principal a função pensamento.

Já em comparação com o elemento ponto:

 

A linha... É o rasto do ponto em movimento, logo seu produto. Ela nasceu do movimento – e isso pela aniquilação da imobilidade suprema do ponto. Produz-se aqui o salto do estático para o dinâmico... (KANDINSKY,2016, p 49)

 

Essas linhas são totalmente estranhas ao ponto fixado no plano, nada mais tendo da calma inicial do ponto. (KANDINSKY, 2016, p 54) 

Para Kandinsky, este é o ponto zero. Na linguagem, o lugar do silêncio. É caracterizado por ser estático, imóvel. É também introvertido. Porém, o ponto também é o lugar do impulso. Extremamente fecundo, é cheio de possibilidades. Afinal, como nos diz o autor “Tudo começa num ponto.” 

Ao nascer a linha, algumas propriedades expressivas específicas são destacadas. 

Movimento 

Mas existe outra força, que nasce não no ponto mas fora dele. Essa força se precipita sobre o ponto preso no plano, arranca-o daí e empurra-o para uma direção qualquer.

 

Assim, a tensão concêntrica do ponto vê-se destruída e o ponto desaparece, dele resultando um novo ser, dotado de uma vida autônoma e submetido a outras leis.

 

É a linha. (KANDINSKY, 2016, p 45)

 

[A linha] ... nasceu do movimento... Produz-se aqui o salto do estático para o dinâmico... A “tensão” é a força viva do elemento. Ela constitui apenas uma parte do “movimento” ativo. A outra parte é a “direção”, também ela definida pelo “movimento”.  (KANDINSKY, 2016, p  49-50)

 

No caso da linha: ela vai configurar um espaço linear, de uma dimensão. Através dela apreendemos um espaço direcional... Essas linhas funcionam como setas, dirigindo nossa atenção e dizendo: siga nesta direção ou siga naquela. (OSTROWER, 1983, 66) 

O que compreendemos através destes trechos é que a linha nasce de uma tensão que a torna viva e desta forma aciona uma força que a coloca em movimento. Este movimento admite uma direção, como uma seta que gera e direciona possíveis caminhos. Estes caminhos registrados pelo elemento linha podem se tornar subsídios para riquíssimos experimentos arteterapêuticos. 

Tempo, Ritmo 

Como uma das principais propriedades da linha está no movimento, consequentemente, a dimensão temporal torna-se parte do campo:

 

... em todos os casos em que aparece a linha, configura-se o espaço de uma só dimensão. A essa dimensão única é acoplado o tempo, pois qualquer elaboração formal que façamos com a linha terá, necessariamente, caráter rítmico. Introduzindo-se pausas e modulando-se as velocidades das linhas, modula-se o fluir do tempo. (OSTROWER, 1983, p 67)

 

O elemento tempo é, em geral, mais perceptível na linha do que no ponto – o comprimento corresponde a uma noção de duração. Em compensação, seguir uma linha reta ou uma linha curva requer uma duração diferente, mesmo que o comprimento das duas seja semelhante, e, quanto mais uma linha curva é movimentada, mais se alonga em duração. A linha oferece, pois, quanto ao tempo, uma grande diversidade de expressão... Talvez se trate, na verdade, de comprimentos diferentes, o que poderia se explicar psicologicamente. O elemento tempo não deve, pois, ser subestimado numa composição linear... (KANDINSKY, 2016, p 86)

 

Aqui se apresenta o eixo tempo e espaço. E a linha colabora para o registro do tempo no espaço. Em seus escritos, Kandinsky frequentemente busca o diálogo entre as linguagens da arte, e aqui nos presenteia com o diálogo entre o desenho e a dança:

 

 Na dança todo o corpo e, na dança contemporânea, cada dedo desenham linhas de expressões precisas... Todo o corpo do dançarino, até a ponta dos dedos, constitui em todo instante uma composição linear ininterrupta... (KANDINSKY, 1983, p 88) 

Podemos nos inspirar neste diálogo entre a dança e o desenho em momentos dentro do setting arteterapêutico em que o terapeuta entenda ser interessante trazer para a imagem o ritmo e movimento do corpo do paciente. É possível propor que ele faça contato com seu ritmo corporal, que deixe este ritmo se apossar do seu corpo e deixe que seu braço conduza o movimento do lápis, registrando-o em uma folha de papel. Este registro do movimento corporal pode servir de valiosas elaborações e processos de autopercepções. 

Podemos ainda nos inspirar no que diz Fayga Ostrower: “Existem possibilidades de se modular o movimento da linha.” (OSTROWER, 1983, p 66). Assim, é possível intencionalmente promover o contato com determinado movimento em específico, como por exemplo, a partir de um estímulo musical (ritmo, movimento, vibração) ou acesso a sentimentos e memórias afetivas, e a partir do ritmo corporal por eles gerados, permitir que a linha registre este movimento tornando-o visível. 

Gera forma 

Outra das grandes propriedades da linha, nas palavras de Kandinsky: “Estamos tratando aqui de uma das características específicas da linha – seu poder de criar superfícies.” (KANDINSKY, 1983, p 53), o que chamamos também de formas. 

Como exemplo, em Arteterapia, temos em nosso repertório cotidiano o desenho cego ou desenho espontâneo, que André Masson, artista surrealista chamava de desenho automático. Esta é uma prática a qual através de um emaranhado de linhas espontâneas, propõe-se a busca de imagens, formas, superfícies. 

Esta é uma prática através da qual trabalhamos o fenômeno da projeção, pois o olhar do espectador fatalmente encontrará símbolos que o pertencem: vale destacar, símbolos espontâneos, não escolhidos, não planejados, não racionalizados, consequentemente advindos de conteúdos inconscientes riquíssimos para a leitura e escuta simbólica dentro do setting arteterapêutico. 

Limites 



Mas sem dúvida, em minha experiência clínica a propriedade da linha mais atualizada dentro de um setting terapêutico se dá ao encontro de demandas terapêuticas sobre os limites, sejam eles entre o sujeito e o outro ou os limites internos de cada indivíduo. É possível utilizá-las como metáfora no diálogo terapêutico, mas também como experimentos criativos e produção de imagens, a partir do repertório do arteterapeuta. 

As queixas terapêuticas recorrentes giram em torno de invasões, transbordamentos, excessos, dificuldade de dizer não e impor limites (a si e ao outro), dificuldade de delimitar o que pertence a um e ao outro. Neste contexto, como palavras chave para o elemento linha, podemos destacar: limites, contornos, bordas, fronteiras. Delinear, circunscrever, separar, discriminar (um e outro).  

Para compreensão da analogia, podemos trabalhar com nossos pacientes que a linha simboliza seus contornos, suas bordas, aquilo que faz o limite entre um elemento e outro, entre o que está dentro e o que está fora. É análogo à nossa pele: ela nos protege para que o que está dentro não vaze para fora e o que está fora não penetre no que está dentro.  A linha muitas vezes é protetora de invasões, nos resguarda e preserva também de transbordamentos e exposições de nossos conteúdos. Na tradução para a imagem, utilizando lápis de cor ou tintas, o experienciador poderá trabalhar o preenchimento de espaços gerados pelas linhas, respeitando os limites por ele mesmo gerado. 

Em síntese, através de experimentos com a linha podemos trabalhar a compreensão de que o limite é estruturante e também um ato de amor, ao outro e a si mesmo.

 

O estudo sobre os elementos visuais seguem seu curso. Ainda inspirada em Fayga:

 

Deveríamos poder chegar diante de um quadro e, ao olhá-lo, apreender de pronto – assim como se distinguem as palavras ouvidas numa frase – quais os principais elementos que foram elaborados pelo artista. (OSTROWER, 1983, p 69) 

Que possamos desenvolver nossa escuta terapêutica, nas linguagens da palavra ou da imagem, na arte e na Arteterapia, nas imagens já expressadas ou naquelas que buscam expressão.

 

Bibliografia:

KANDINSKY, WASSILY. “Ponto e linha sobre plano”. Editora WMF Martins Fontes, SP. 2012.

OSTROWER, FAYGA. “Universo da Arte”. Editora Campus, 1983.

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Sobre a autora: Eliana Moraes


Arteterapeuta e Psicóloga.


Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Dá aula em cursos de formação em Arteterapia em SP e MS. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

POESIA E ARTETERAPIA: DRUMMOND E OS ELEMENTOS VISUAIS



Por Eliana Moraes – MG

naopalavra@gmail.com

 

A poesia sempre fez parte do meu caminhar arteterapêutico, tanto no desenvolvimento de minha escuta clínica às questões humanas que aparecem no setting terapêutico mas também na construção do meu repertório de estímulos projetivos e geradores de práticas vivenciais. E encontrei eco de minha relação com a poesia nas palavras de Beatriz Cardella:

 

Podemos contemplar e refletir sobre o humano a partir de um diálogo... entre a Poesia e a Psicologia.

 

A Psicologia nos ensina sobre o humano, a Poesia nos recorda do humano...  A Psicologia é o estudo sobre dimensões do humano, a Poesia é revelação dos fundamentos, o que nos faz humanos.

 

A Psicologia nos informa, a Poesia nos comove.

 

A Poesia fala à nossa sensibilidade, mexe em nossos afetos, toca nossa intimidade; a Poesia fala à inteligência do coração, e para compreendê-la, precisamos nos despir do orgulho da razão; a Poesia nos oferece um espelho, é expressão pura da nossa humanidade. (CARDELLA, 154) 

Ao longo de minha jornada, fui construindo uma relação tanto profissional quanto pessoal com alguns poetas, sendo um dos principais, Carlos Drummond de Andrade. Percebi que periodicamente escrevo por ele inspirada, e ao me pensar, percebo a principal das identificações: Drummond foi um mineiro que viveu boa parte de sua vida no Rio de Janeiro – definitivamente nossas formas de enxergar o mundo têm suas aproximações.

No livro “Pensando a Arteterapia Volume 1” publiquei um texto que articulava o tão conhecido poema “José” com os percursos teóricos arteterapêuticos, mas no texto de hoje desejo atualizar a experiência de José em uma vivência arteterapêutica. Afinal:

A poesia de Drummond impacta-me quando retrata aquele momento de crise fatalmente conhecida por nós: “E agora?”. Drummond revela esse momento como algo tão humano, que escolhe para o personagem o nome José, um dos nomes mais comuns de nossa cultura, convidando-nos a pensar no José que há em cada um de nós e que sua crise nos pertence. (MORAES, 2018, 166) 

Principalmente nos últimos tempos, desde que o fenômeno pandemia nos atravessou, a escuta clínica nos mostra o quanto a experiência de vazio e incerteza ou sentimentos  de desesperança e solidão nos afetou de alguma forma, inseridos nos enredos de nossa história. Sendo este um tema tão humano, e da mesma forma, tão atual, é importante que nossa leitura do poema esteja atenta à aproximação que existe entre José e cada um de nós. Eis o poema.

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,

cuspir já não pode,
a noite esfriou,

o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

 

Onde está você, leitor, na experiência de José? Pessoalmente, por muitas vezes me identifiquei com o trecho em que José procura o mar (do Rio de Janeiro) e não o encontra. Então busca Minas, mas aquela Minas de suas memórias não existe mais. Eis então a experiência do vazio, do não-lugar e do não pertencimento que eventualmente assombra aqueles que vivenciam o estrangeirismo.

Se procurarmos bem, perceberemos que existe um José em cada um de nós.


Prática Arteterapêutica 



Meu reencontro com o poema “José” se deu concomitante com meus estudos sobre os elementos visuais e pude perceber um paralelo entre a experimentação de alguns deles com a jornada de José. Esta experiência foi vivenciada no “Grupo Quiron: encontros com o curador ferido”* e com alguns de meus pacientes individuais. 

O primeiro momento se dá na contemplação da folha em branco como a experiência de vazio, quando tudo se foi, tudo se perdeu. “E agora José?” 

Em um segundo momento é solicitado que o experienciador faça um ponto, onde ele se localiza nesse vazio. É importante se pensar sobre os simbolismos do ponto. Para Kandinsky, este é o “ponto zero”. Um lugar de silêncio. Imóvel, estático. E introvertido. Mas também, é do ponto que nasce o impulso, onde o “ponto morto” torna-se um ser vivo. Assim, o ponto se faz extremamente fecundo, carrega em si múltiplas possibilidades. Como nos diz Kandinsky, “Tudo começa num ponto”. E Drummond nos diz “se você morresse... Mas você não morre, você é duro, José!” 

E assim descobrimos a linha, que nasce do movimento e torna-se dinâmica. Para seu surgimento é necessário uma força, o resultado de uma tensão a qual Drummond traduz como “você marcha, José!”. Assim estimulamos que o experienciador explore na superfície do papel o elemento linha de forma que seu movimento gere um caminho. Este caminho ainda não tem destino certo, é um caminhar intuitivo, o que na poesia percebemos que seu fim se dá com uma pergunta não respondida: “José, para onde?” 

Por  fim, exploramos mais uma propriedade da linha, que é gerar formas, superfícies. E orientamos que o experienciador observe seus caminhos gerados intuitivamente. Que contemple suas formas figurativas ou abstratas, e que de posse do elemento cor invista de sua energia psíquica para o a apropriação e o firmar destes caminhos. 

Alguns relatos que pude acompanhar desta vivência, mostraram que ao mesmo tempo que simples, nela reside um grande potencial de identificação e aprofundamento de questões pessoais. Além da poesia tão próxima de nossas experiências de vida, o uso dos elementos visuais também se mostra como um instrumento riquíssimo de possibilidades em práticas arteterapêuticas. 

Venho estudando os elementos visuais e suas aplicabilidades na Arteterapia. Nos últimos anos venho explorando bastante o elemento cor em conteúdos para o Não Palavra, mas em uma próxima oportunidade, pretendo escrever e compartilhar minhas reflexões sobre o elemento linha. 

Sigamos nossa marcha. (Para onde?) 



* Grupo Quíron é um grupo vivencial online oferecido pelo Não Palavra e Espaço Crisântemo para terapeutas e estudantes que desejam separar um tempo e um espaço para seu contato pessoal com o ato criativo e a produção de imagens.

Referências Bicliográficas:

CARDELLA, Beatriz. De volta para casa.

KANDINSKY, Wassily. Ponto e linha sobre plano.

MORAES, Eliana. Pensando a Artetrapia Vol 1. 
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Sobre a autora: Eliana Moraes




Arteterapeuta e Psicóloga.


Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Dá aula em cursos de formação em Arteterapia em SP e MS. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia online, sediada em Belo Horizonte, MG. 

Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

Organizadora do livro "Escritos em Arteterapia - Coletivo Não Palavra"

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

DIÁLOGOS ENTRE ARTETERAPIA, ARTE E TARÔ: O PAPA E WASSILY KANDISNKY

 

Por Mercedes Duarte - RJ  

Esse é mais um texto da sequência de reflexões acerca dos 22 arcanos maiores do tarô, associados a elementos da arte que possam nos aproximar desses arquétipos. Nesse artigo, trago o Arcano V, o Papa, em diálogo com o artista plástico Wassily Kandinsky.

 O intuito desse diálogo entre arte e tarô, como já mencionado e aprofundado em outro texto[1], é o de proporcionar reflexões, possibilidades terapêuticas - experimentadas na Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô[2] - que permeiam esses elementos em diálogo, buscando, assim, contribuir com o repertório arteterapêutico. 

O Papa

 

O arquétipo do Papa nos fala de um elo entre Deus e a humanidade. Uma outra denominação desse papel social é a de Pontífice, exprimindo a ponte entre céu e terra. O Papa, por ser um comunicador, um mediador, representa também a comunicação entre aquilo que é interno e externo, entre o feminino e o masculino. Em geral, essa carta do Tarô, apresenta dois indivíduos, de costas e à frente do Pontífice, que são representados em uma escala menor que a do Papa. Esse fator nos indica a comunicação entre o arquétipo que representa a divindade, em escala maior, e a humanidade, em tamanho menor, a sua frente. 

            O Papa, ainda que seja o representante celeste de Deus, também é humano e está entronado na terra. Não por acaso está encarnado no arcano de número cinco que sintetiza o número Um, do espírito, e os quatro elementos da matéria. O número cinco também é o número da humanidade, pois temos cinco sentidos e cinco dedos em cada mão e pé (NICHOLS, p. 134). 

Esse arquétipo simboliza o professor, ou instâncias da vida que nos apresentam problemas morais e filosóficos, estimulando o desenvolvimento da consciência humana. De acordo com Jung (apud NICHOLS, 1997, p.130) a interação entre o humano e o transcendente é necessária para a libertação dos caprichos cegos dos instintos, e amadurecimento da consciência e espírito humanos. 


Wassily Kandinsky 

O essencial, na questão da forma, é saber se ela nasceu de uma necessidade interior.

(Kandinsky, 2000, p. 145)

 

Kandinsky foi um artista plástico russo que viveu entre os anos de 1866 e 1944. Considerado o precursor do abstracionismo, pinta sua primeira obra abstrata em 1910. Em 1912 publica o livro “Do Espiritual na Arte”, numa busca por espiritualizar a arte. O artista também foi professor da escola alemã de design, arte e arquitetura, Bauhaus, até o ano de 1933. 

            Kandinsky defendia que toda produção artística deveria ser orientada por uma instância espiritual, pelo que chamou de “necessidade interior”. Portanto, o artista, antes de atuar, deveria primeiramente entrar em contato com sua alma para possibilitar uma profundidade artística, tornando desse modo necessária uma sacralização dos procedimentos da arte através de tal justificação interior. 

            A música, para o artista, teve papel preponderante para a busca da “necessidade interior”. Kandinsky percebeu que era possível fazer contato com imagens internas a partir da audição musical. Considera, portanto, que a música possui qualidades que ligam o indivíduo a sua alma, a seu universo interior. A abstração, portanto, tornou-se o caminho para exprimir aquilo que a música incitava internamente, ou mesmo para exprimir o “som interno”:

 

Rumo à “necessidade interior”, seu objetivo tornou-se criar “paisagens sonoras” (...) telas que permitissem ao espectador ouvir o “som interno” de uma cor. Isso significou a eliminação de ainda mais referências do mundo real. Kandinsky raciocinava que o “som interno” só podia ser ouvido quando uma pintura não possuía um “significado convencional” para distrair o espectador-ouvinte. (GOMPERTZ, 2013, p 173)

 

Abaixo está a obra de Kandinsky, Impressão III (Concerto), de 1911, inspirada em um concerto de música atonal do compositor vienense Arnold Schoenberg:

 

 

 

As formas e, sobretudo, as cores possuíam um papel de destaque em sua obra. Através delas buscava compor “paisagens sonoras”. Considerava que as cores continham a capacidade de atingir a alma através de suas vibrações, de um modo que nenhuma palavra é capaz de atingir. 

De acordo com Kandinsky, a arte, produzida a partir do contato com a “necessidade interior”, viabilizaria o renascimento de uma arte espiritual, conteúdo esse, espiritual, que somente a arte teria o poder de capturar e exprimir:

 

a partir do instante em que, da maneira que lhes é própria, da experiência íntima do artista e a força de emoção que a torna comunicável aos outros transparecem, a arte entra no caminho ao término do qual reencontrará o que perdeu, o que voltará a ser fermento espiritual de seu renascimento. O objeto de sua busca não é o objeto material concreto a que o artista se prendia exclusivamente na época precedente (...) mas será o próprio conteúdo da arte, sua essência, sua alma (...) Esse conteúdo, só a arte pode captá-lo, só ela pode exprimi-lo claramente com os meios que lhe pertencem. (KANDINSKY, 2000, p. 38-39) 

Desse modo, de acordo com Kandinsky (2000), o artista que mergulhar “nas profundezas da sua arte, em busca de tesouros invisíveis, trabalha para erguer essa pirâmide espiritual " (p.59). Assim, o artista e sua arte tornam-se meios de contato com aquilo que é da ordem do divino, possibilitando o desenvolvimento espiritual de toda uma sociedade.

 

O Papa e Kandinsky 

Como podemos perceber, Kandinsky e o arquétipo do Papa dialogam no sentido de produzirem um elo entre céu e terra, entre humanidade e transcendência, com o intuito de possibilitarem um amadurecimento humano e espiritual. 


Proposta Terapêutica 

Como vimos, a contribuição de Kandinsky à arte pode ser considerada uma valiosa herança para Arteterapia, como discute Eliana Moraes em “Contribuições de Kandinsky ao arteterapeuta” (2019). Na vivência da Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô, inspirada no Papa em diálogo com Kandinsky, a proposta terapêutica, portanto, foi guiada pelas contribuições de Kandinsky para a elaboração de um trabalho artístico. 

Lançamos mão do contato com a vibração das cores e da música para que as participantes acessassem um lugar mais profundo de sensibilidade. A proposta era de que deixassem a produção da arte ser guiada pelas emoções, formas, e cores que as músicas suscitassem. Selecionei algumas músicas, entre elas de Erik Satie, Yann Tiersen, Paul Desmond, Chopin e Duke Ellington, que embalaram a produção das participantes. 

            O que me chamou bastante atenção nas obras foi que sete dos nove trabalhos plásticos realizados possuíam uma linha transversal que atravessava a folha, o que se assemelha a uma obra específica de Kandinsky que não havia sido apresentada na oficina, cujo título é justamente “Linha Transversal” (1923): 

 

 

Trago apenas dois exemplos dos trabalhos que apareceram com essa linha por questões de limites do texto: 

 


Título: Sintonia 

 


Título: Conexão 

Todas perceberam que a música pôde ser um elemento desencadeador de formas e cores. Mas aqui ressalto a representação do que podemos chamar do que Jung denomina por sincronicidade, que se define por elementos que convergem em significado no tempo e espaço. Essa linha que atravessa o papel de cima a baixo, que conecta a esquerda e a direita, como elaborado na partilha do grupo, estaria expressando esse elemento mediador que conecta céu e terra, interior e exterior, que caracteriza o próprio arquétipo do Papa, capturado pela maioria do grupo.

 

Referências Bibliográficas 

DUARTE, Mercedes (2021). Diálogos entre Arte e Tarô: uma introdução. Blog Não-Palavra. 31 de maio. Disponível em http://nao-palavra.blogspot.com/2021/05/ 

GOMPERTZ, Will. Isso é arte? 150 anos de arte moderna do impressionismo até

Hoje (2013). Editora Zahar: Rio de Janeiro. 

JUNG, Carl G. (2005). Sincronicidade. 13ª Edição. Trad. Pe. Dom Mateus Ramalho

Rocha. Editora Vozes: Petrópolis. 

MORAES, Eliana (2019). Contribuições de Kandinsky ao arteterapeuta. Trabalho de

Conclusão de Curso. Apresentado à Pós-graduação em História da Arte. Universidade

Estácio de Sá – Rio de Janeiro. 

NICHOLS, Sallie (1997). Jung e o Tarô: Uma Jornada Arquetípica. Trad. Laurens Van

Der Post. Editora Cultrix: São Paulo. 

KANDINSKY, Wassily (2000). Do Espiritual na Arte. Editora Martins Fontes: São Paulo.

 


[1] DUARTE, Mercedes. Diálogos entre Arte e Tarô: uma introdução. Blog Não-Palavra. 31 de maio, 2021. http://nao-palavra.blogspot.com/2021/05/

[2] A Jornada Arteterapêutica Arte e Tarô consiste em oficinas quinzenais, facilitadas por mim, inspiradas nos arcanos maiores do tarô que são associados a determinados aspectos da arte.

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Sobre a autora: Mercedes Duarte



Arteterapeuta, Mestre em Ciências Sociais, pesquisadora autônoma de arte, terapia e oráculos