segunda-feira, 30 de março de 2015

ARTETERAPIA E TERCEIRA IDADE

SONETO DE ANIVERSÁRIO
Vinícius de Moraes
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.


Por Eliana Moraes



No ano de 2015 estou me dedicando à pós graduação em Gerontologia e a Saúde do Idoso, motivada por meu trabalho na UIP, núcleo de atenção aos pacientes idosos do Hospital Adventista Silvestre - RJ. Fui contratada pela UIP em 2011 como psicóloga e aos poucos fui introduzindo meu trabalho como arteterapeuta em atendimentos individuais, mais a frente em dois grupos terapêuticos e recentemente incluindo técnicas da arteterapia na oficina de estimulação cognitiva.

Minha prática me mostra que a arteterapia tem um extraordinário potencial com o público idoso mas percebo que infelizmente nós ainda não nos instrumentalizamos teoricamente e tecnicamente como profissão para sermos vistos como parte de uma equipe de saúde para a terceira idade. Além disto, pouco pesquisamos e escrevemos sobre este estudo e prática. Por esta reflexão, me propus a elaborar a monografia deste curso com o tema: “Os benefícios psicológicos e cognitivos que a  técnica da arteterapia proporciona ao publico idoso”. E ao longo do ano compartilharei com os amigos do blog “Não Palavra” algumas pinceladas sobre o meu dia a dia nesta jornada.

Dando início a este compartilhar, no ciclo de palestras que o “Não Palavra” promoverá todas as primeiras segundas feiras de cada mês, no próximo dia 06 de abril apresentarei a palestra “Arteterapia e Terceira Idade: aspectos psicológicos e cognitivos” onde colocarei minhas percepções sobre pontos fundamentais que um arteterapeuta precisa conhecer ao trabalhar com o público idoso.

O olhar para o idoso como um ser humano biopsicossocial, os aspectos emocionais e cognitivos no acompanhamento do envelhecimento, os benefícios da arteterapia e o papel do arteterapeuta no trabalho com este público, são alguns dos temas à serem discutidos neste dia. O convite estende-se aos arteterapeutas, curiosos e profissionais que atuam ou desejam atuar com a terceira idade.

contato: naopalavra@gmail.com

segunda-feira, 23 de março de 2015

ARTETERAPIA: O traço é o rastro de um gesto.

por Flávia Hargreaves

 
fotografia de Hans Namut de Jackson Pollock.

Para Kandinsky, "o signo não preexiste como uma letra no alfabeto; é algo que nasce do impulso profundo do artista e, portanto, é inseparável do gesto que o traça.” (1)

Traço – Impressão, marca, sinal.
Rastro – Vestígio.
Gesto – Ação, ato (em geral, brilhante).
(Fonte: Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Folha/Aurélio. Ed. Nova Fronteira. 1994.)
Poderíamos dizer: Uma marca é o vestígio de um ato.

Sobre Pollock e a action painting, Rosalind Krauss descreve sua pintura como “estrutura formal abstrata, superfície com manchas, esteiras multicores e multiformes que são tantos traços de uma passagem, de um movimento, de um gesto, de um corpo em ação (...).” (2)

Eu estava na fase final da minha formação em Arteterapia, 2008, e ainda me perguntava como definir esta nova profissão. E durante o meu período de estágio uma cliente disse, mais ou menos isso: “Agora eu entendi o que é esse negócio de arteterapia. A gente cria provas contra si mesmo.”

E esta afirmação nunca me abandonou. Lendo Nise da Silveira, descobri que, entre as 17 oficinas terapêuticas existentes na Casa das Plameiras, o desenho, a pintura e a modelagem ocupavam um lugar especial. Claro, elas são provas de uma jornada interior. Diante de uma sequencia de imagens estamos diante de um diário, de uma biografia em imagens que expressam o que não pôde ser dito de outra forma.

A Arteterapia que utiliza a produção de imagens (desenhos, pinturas, colagens, esculturas e objetos) produz “coisas”, materializa um gesto, deixa marcas, rastros que podemos revisitar, ver, tocar. Não permite que o gesto se perca, que a voz silencie, dando a esta experiência uma “forma”.

Tudo parece caber nesse lugar de “coisa”. Podemos estar diante de uma “coisa” criada por nós que fala de nós o que não ousamos dizer.  Minha avó diria que ”é coisa dos infernos” e teria razão, se pensarmos no inferno como um submundo desconhecido, caótico, onde mais uma vez, tudo cabe.

Sua qualidade de “coisa” permite estarmos diante de algo que podemos pegar, girar, transformar em outra “coisa”. Ao explorá-la, percebê-la, conhecê-la a partir de diversos pontos de vista, poderemos ouvir o que ela tem a nos dizer. Esta “coisa” concreta, com cor, forma, peso, dimensão, ou seja, visível, palpável, tem menos poder de nos possuir do que o que nos é invisível, desconhecido e impalpável.

Mas mais uma vez precisamos retomar o tema do processo. Quando falo em “coisa” como uma materialização de um “gesto”, esta “coisa” contêm este “gesto”, ou seja, o gesto como o processo, como força, como movimento que a criou é fundamental para que o arteterapeuta seja capaz de dialogar com o seu cliente a partir do que foi produzido em terapia. Olhar a “coisa” ou a “imagem” destituída do gesto, do contexto, é se limitar a superfície e trilhar caminhos muitas vezes equivocados.

(1) ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. 5º reimpressão. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1998.
(2) DUBOIS, Philippe. O Ato Fotográfico. E outros ensaios. Papirus Editora. 1ª. Reimpressão. 2012.

contato: naopalavra@gmail.com

domingo, 15 de março de 2015

CICLO DE PALESTRAS "NÃO PALAVRA": PENSANDO A ARTETERAPIA



Dando seguimento aos nossos projetos de 2015, o ciclo de palestras "Não Palavra: Pensando a Arteterapia", inaugura um espaço presencial para a reflexão de temas relacionados à Arteterapia, sua pratica, seus fundamentos teóricos, e a formação do arteterapeuta.

O blog criado em 2013 por Eliana Moraes, conta hoje com a colaboração das arteterapeutas Flávia Hargreaves e Maria Cristina de Resende, e de autores convidados das áreas de Artes Visuais e Educação.

O ciclo de palestra é voltado para estudantes e profissionais de arteterapia, psicologia, arte, educação e todos os interessados em conhecer a Arteterapia, compartilhar e dialogar sobre os insights e percepções no dia-a-dia do trabalho e no estudo da Arteterapia.

PROGRAMAÇÃO

Dia 6 de abril  | SEG | 18h às 20h
Arteterapia e terceira idade: aspectos emocionais e cognitivos.
com Eliana Moraes

Dia 4 de maio| SEG | 18h às 20h
História da Arte como estímulo projetivo.
com Eliana Moraes e Flávia Hargreaves

 Dia 1 de junho|SEG | 18h às 20h
A imagem e o ato criativo.
com Maria Cristina de Resende

 Dia 6 de julho| SEG | 18h às 20h
Artetrapia e abstração na Arte
com Flávia Hargreaves

Investimento: R$ 15,00 por palestra
Local: Casa 2. Rua Fernandes Guimarães 75, casa 2. Botafogo.


VAGAS LIMITADAS. INSCRIÇÕES ANTECIPADAS  SOMENTE POR EMAIL :  naopalavra@gmail.com


domingo, 8 de março de 2015

EXPOSIÇÃO VIRTUAL: “Usram sie a nie dam sie” – Um relato sobre o reinventar-se em Arteterapia

Por Eliana Moraes

Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, o blog “Não Palavra” traz a exposição virtual “Usram sie nie dam sie” (em polonês, “Vou me cagar mas não vou me entregar”) de Alice Glass, paciente de Arteterapia desde 2012.

Alice nasceu em 1928, em Varsóvia. Em 1947 veio para o Brasil juntamente com a família em resistência ao regime nazista implantado na Polônia. Em 1958 naturalizou-se brasileira e aqui sagrou-se como artista plástica participando de exposições em várias estados do Brasil, Estados Unidos e Canadá.

Como sua arteterapeuta fui testemunha de várias fases em seus trabalhos. Nunca me esqueci do primeiro dia em que ofereci diversos papéis coloridos e ela me pediu os retalhos, dizendo: “Eu sou uma criança da guerra, eu sei aproveitar os retalhos que a vida me dá.”

Em seu processo terapêutico Alice sempre expressou sua grande frustração por ter a visão seriamente comprometida em uma cirurgia de catarata mal sucedida em 2008. Desde então permanece lutando por (si e) seus olhos, nos campos físico, mental e espiritual.

Atualmente Alice iniciou uma nova fase em seus trabalhos, ao qual decidiu lançar mão dos rotineiros exames oftalmológicos, fazer recortes e colagens destas imagens, expressando sua dor através de sua arte. Observando seu processo não pude deixar de lembrar de Frida Kahlo, artista mexicana que para tornar minimamente possível dialogar com suas dores e limitações físicas, pintava impactantes imagens autobiográficas.


Alice aceitou participar desta exposição virtual no blog “Não Palavra” e escolheu pessoalmente o nome, afirmando que este é um ditado típico polonês ao qual retrata sua biografia e sua essência. Não há duvidas de que alguém que foi capaz de se expressar e se reinventar de forma tão admirável ao longo de sua existência, esta exposição é para nós uma lição de alguém que apesar de todos os percalços ou “absurdos” da vida, nunca desistiu de si ou se entregou.  










segunda-feira, 2 de março de 2015

PENSANDO A ARTETERAPIA: PRIMEIRO SEMESTRE 2015


Em 2015 o blog “Não Palavra” dá seguimento em seu propósito de pensar a Arteterapia. É nosso objetivo a produção semanal de textos que compartilhem com arteterapeutas e interessados nosso dia a dia, nossas percepções, nossos estudos, nossa prática. Contaremos também com  convidados especiais que nos contemplarão com suas contribuições.
E dando seguimento ao nosso desejo de contribuir para a Arteterapia, a equipe “Não Palavra” promoverá eventos além do ambiente virtual. Hoje trazemos nossa agenda de cursos e grupos de estudos para o primeiro semestre de 2015.
Mais uma vez ratificamos nosso convite àqueles que têm o desejo de conhecer e se aprofundar no estudo da Arte e a Arteterapia, à compartilhar conosco esta jornada.


AGENDA DE CURSOS E GRUPOS DE ESTUDOS
PRIMEIRO SEMESTRE 2015
CURSOS

A ARTE E AS QUESTÕES TERAPÊUTICAS
Com Eliana Moraes
Objetivo do curso: Conhecer artistas e suas obras, pensá-las como estímulos projetivos e experimentar técnicas expressivas a partir destas inspirações. Em artes visuais, literatura e música.
Público alvo: Psicólogos, Arteterapeutas e estudantes.
Carga horária: 8 encontros de 2 horas.
Dia / Hora: 3as 16h - 18h
Início: 24/03 
Local: Copacabana 
Contato: 987644548 / elianapsiarte@gmail.com

ARTETERAPIA: HISTÓRIA DA ARTE PARA QUÊ?
MÓDULO: DADAÍSMO E SURREALISMO NA PRATICA DA ARTETERAPIA.
Com Eliana Moraes e Flávia Hargreaves
Início: 8 de maio; Sexta feira, das 14:30h às 17:30h
Local: Espaço Terapêutico Luciana Machado
Tijuca - Rio de Janeiro (próximo ao metrô Saens Peña)
Contato: luciana.arteterapia@gmail.com   21 9 8893 8335
  
Formato:
As aulas são divididas em 3 momentos:
I)             Apreciação e discussão sobre os movimentos Dadaísmo e Surrealismo
II)            Experimentação e Percepção sobre os movimentos através de vivências em Arteterapia;
III)           Discussão destes temas a partir da perspectiva da Psicologia e reflexão sobre a prática profissional do arteterapeuta.

ARTETERAPIA E A ABSTRAÇÃO NA ARTE
com  Flávia Hargreaves
Início: 12 MARÇO
Turma 2 : 12 MAR a 16 ABR/2015 - QUINTA -  das 15hh às 18h - 6 aulas - semanal
Local: Botafogo - Rio de Janeiro
INSCRIÇÕES somente por email: fmhartes@gmail.com

ARTETERAPIA: CONHECENDO OS MATERIAIS E APRENDENDO A USÁ-LOS
Com Flávia Hargreaves
De 28 de abril a 30 de junho.
Terça - das 15h às 18h
10 encontros de 3 horas
Local: Botafogo - Rio de Janeiro
Informações e Inscrições: fmhartes@gmail.com

·         Todos os cursos oferecem certificado de participação em sua conclusão.

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GRUPOS DE ESTUDOS EM ARTETERAPIA

A PRÁTICA DA ARTETERAPIA
Com Eliana Moraes
Discussão sobre a profissão do arteterapeuta, sua atuação no setting terapêutico e seu manejo com a tríade paciente-terapeuta-técnica expressiva. Reflexões teóricas e discussão de casos clínicos.
Segundas feiras quinzenais, grupo I) 10h- 12h, grupo II) 18h-20h
Local: Copacabana

O ENCONTRO DA ARTE E DA PSICOLOGIA NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA
com  Flávia Hargreaves e Maria Cristina de Resende.
Segunda-feira - das 18h às 20h - 2 encontros por mês.
Local: Botafogo - Rio de Janeiro

O grupo de estudos tem como objetivo discutir o papel das artes plásticas e da psicologia na pratica da arteterapia a partir do estudo de imagens, de textos, filmes e documentários. Ao longo das discussões, os principais conceitos da teoria junguiana serão abordados e explorados, e serão propostas praticas de arteterapia.

GRUPO DE SUPERVISÃO EM ARTETERAPIA
Com Flávia Hargreaves e Maria Cristina Resende
Grupo de supervisão em arteterapia que aborda questões da psicologia e da utilização dos materiais e técnicas expressivas no setting terapêutico através da apresentação e discussão de casos clínicos trazidos pelos participantes, além das dúvidas existentes sobre atendimentos e questões relativas a relação terapeuta/cliente.
Segunda-feira – 18h às 20h – 1 encontro por mês
Local: Botafogo 



E EM BREVE: CICLO DE PALESTRAS E JORNADA DADAÍSTA

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Kandinsky, Gestalt e a Arteterapia (Parte II)

Por Maria Cristina Resende


Psicologia da Gestalt também é conhecida como Psicologia das Formas, mas não podemos nos confundir ao acreditar que é uma psicologia que preza os formatos, formas é diferente de formatos. Entendemos como formatos os moldes, uma forma que adquiriu um significado e por formas entendemos como a possibilidade de ser qualquer coisa, ou seja, um significante. É assim que Kandinsky expressa sua arte, a partir de formas, de significantes e a Gestalt nos explica como existe uma tendência em traduzirmos essas formas em formatos, ou seja, como nós, seres humanos, tendemos, inata e pelo aprendizado, a organizar essas formas para que elas nos transmitam uma mensagem de melhor conforto para nossa mente consciente, pois é aqui que a Gestalt se se debruça.
Para a Psicologia da Gestalt e, posteriormente, a Gestalt-terapia, a consciência é tudo que temos para analisar, pois é nela onde os fenômenos se apresentam. Não há a preocupação em buscar uma causa ou uma instancia inconsciente que governe nossas ações. Sua abordagem é fenomenológica, e uma de suas fontes filosóficas é o existencialismo.
Nos estudos da Psicologia da Gestalt nos deparamos com alguns conceitos e algumas leis da percepção, ou seja, o modus operandi de como nossa percepção, a capacidade de receber a sensação e decodifica-la, se organiza para compreender um fenômeno, um estímulo.

Dentre esses conceitos temos o de figura-fundo, ou seja, a figura como aquilo que está no topo na nossa cadeia de hierarquias e o fundo como todo o contexto por trás dela. 


O que você vê nesta imagem? Apenas uma figura?

Mas como essa teoria pode nos ajudar em nossa prática enquanto Arteterapeuta?
Trabalhamos basicamente com as imagens produzidas pelo nosso cliente, independente do material escolhido ou sugerido. As imagens são a expressão de sua percepção sobre seus afetos, suas relações, seus pensamentos e suas angústias. Muitas vezes as hierarquias não estão bem estabelecidas e vemos numa mancha de tinta, ou numa colagem um completo caos, uma desorganização que muitas vezes traz uma inércia, um não saber de onde partir e para onde ir. Identificar através de algumas técnicas a figura que emerge dessa Gestalt (forma) é ajudar a buscar um fluxo de abertura e fechamento de Gestalten, ou seja, uma capacidade de sentir a necessidade, ir a busca de sua saciedade, analisar e despotencializar as interrupções desse movimento e com isso partir para novas etapas do processo terapêutico e, mais além, o processo da nossa vida.
Vemos também o princípio de agrupamento, onde nossa percepção tende a agrupar estímulos que possuam alguma semelhança entre si. Há também o fechamento, ou seja, tendemos a completar, preencher falhas de estímulos que se apresentem a nós. Nossa percepção tende a nos colocar num entendimento sobre a vida de forma mais simples e mais confortável para nós, isso nos mostra que para conseguirmos enxergar de forma clara aquilo que se apresenta é preciso um esforço de olhar para além dos formatos e perceber as formas e as múltiplas possibilidades que existem ali.


Foi isso que Kandinsky expressava com o abstracionismo, as formas e suas potencias, com suas tensões e conflitos, com a busca em equilibrar, sem negar, nem esconder. Argan completa
“a arte [...], é a consciência de algo de que, de outra forma, não se teria consciência: não há duvida de que ela amplia a experiência que o homem tem da realidade e lhe abre novas possibilidades e modalidades de ação. E o que é conscientizado pela consciência que se realiza na operação artística? O fenômeno enquanto fenômeno. [...] A finalidade última de Kandinsky é levar o fenômeno enquanto tal à consciência, de fazê-lo ocorrer na consciência; como o fenômeno é existência, aquilo que se leva e se faz ocorrer na consciência é a própria existência. Esta é a função insubstituível da arte.”

É importante o profissional e o estudante de arteterapia buscar a força da obra produzida, buscar o todo, buscar atingir o fluxo de necessidades e o movimento em busca de saciá-las.
Buscar o fluxo do vir a ser, o movimento de entrar em contato com o mundo e com as várias possibilidades que existem nele, para além do mundo dos formatos pré-estabelecidos.
Nestas sequencias de publicação podemos ter um breve vislumbre de novas modalidades de ver e estudar a arteterapia, que não excluem outras que já fazem parte do método escolhido pelo profissional, mas soma à sua prática e amplia suas próprias percepções sobre essa grande área que se estabelece cada vez mais que é a Arteterapia.

Bibliografias usadas:

NICOLETTO, Ugo. RIZZON, Luiz Antônio. BISI, Guy Paulo. BRAGHIROLLI, Elaine Maria. Psicologia Geral. Ed. Vozes. 23ª edição. Petrópolis, RJ.
FAGAN, Joen. SHEPHERD, Irma Lee. Gestalt-Terapia. Teoria, Técnicas e Aplicações. Ed. Zahar 4ª edição. Rio de Janeiro, RJ
KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. Ed. Martins Fontes. Rio de Janeiro.
ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Ed. Companhia das Letras.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Kandinsky, Gestalt e a Arteterapia (Parte I)


Por Maria Cristina Resende


Quando estudamos a história da humanidade percebemos que cada área do saber retrata, à sua maneira, as realidades externas e internas do homem e seu desenvolvimento. Fazendo um recorte entre o final do século XIX até meados do século XX vemos que esse desenvolvimento foi marcado por inúmeras rupturas do pensamento vigente. Tanto as ciências exatas, quanto a filosofia, a psicologia e as artes em geral sofriam uma mudança brusca em seus alicerces, assim como a política e a economia ocidental.

Até o final do século XIX a arte ensinada pela academia prezava a retratação da natureza o mais fiel possível, herança recebida da Renascença. O ápice deste ideal foi alcançado com os Impressionistas, que em suas telas “aplicavam pinceladas curtas e manchas que traduzissem os reflexos vacilantes de uma cena ‘ao ar livre”’, ou seja, buscavam a retratação da natureza através da perfeita percepção ocular dos objetos sob a incidência da luz. Com isso, Gombrich nos traz à reflexão que neste momento da arte “foi como se todos os problemas de uma arte que visasse à imitação da impressão visual tivesse sido solucionados”, mas posteriormente a essa meta alcançada foi “como se a insistência nessas metas não tivesse mais nada a acrescentar”.

Como ir além???

No início do século XX um jovem advogado busca um novo sentido para sua vida através da arte. Wassily Kandinsky renuncia a carreira do direito e se volta ao mundo artístico após conhecer o movimento Impressionista. Entretanto, o que mais lhe chama a atenção, não fora o objetivo deste movimento, mas sim a forma como os objetos eram pincelados, quase sem contorno.

Sua arte foi filha de um tempo em que os contornos existentes foram se esvanecendo conforme a ciência atomizava os blocos de concreto, enquanto a psicologia mergulhava em instâncias impossíveis de serem vistas aos olhos da razão, num momento em que as formas pré-estabelecidas foram sendo lentamente dissolvidas em um novo paradigma da cultura ocidental. Valores, costumes, crenças, política e economia não satisfaziam mais aos anseios de homens e mulheres que buscavam dar sentido a todas as novas descobertas. Segundo o próprio Kandinsky “toda obra é filha de seu tempo e, muitas vezes, mãe dos nossos sentimentos[1], logo, uma nova arte que pudesse expressar os novos tempos começou a ser delineada.

Neste movimento, Kandinsky se deteve nas formas simples, nas cores e nos fenômenos que se apresentavam à consciência sem buscar explicações na natureza dos objetos para tais aparecimentos, pois para ele

o mundo que nossos sentidos nos desvendam é um conjunto de fenômenos que tem poucas relações com a realidade das coisas. [...] Assim, a arte não precisa imitar um mundo que sequer possui realidade filosófica e cuja própria realidade material a descoberta do átomo fará vacilar.”

Ou seja, Kandisnky está descrente do mundo das formas, descrente de uma arte que visa imitar a natureza e seus objetos tal como aparecem para nossos olhos. Há algo por traz disso, há algo que antecede isso, algo mais puro, mais essencial. Argan explica que Kandinsky buscava nas formas “um conteúdo intrínseco próprio; não um conteúdo objetivo ou de conhecimento (como aquele que permite conhecer e representar o espaço através de formas geométricas), e sim um conteúdo-força, uma capacidade de agir como estímulo psicológico[2].

Chegamos ao ponto onde arte abstrata de Kandinsky se aproxima da psicologia. Pois ambos trabalham com forças que atuam sobre o homem e que possibilitam um estímulo para a conscientização e um movimento de sua existência.

Na análise de sua teoria e de suas obras somos convidados a conhecer um pouco mais sobre uma teoria da psicologia muito pouco falada nas formações e cursos de arteterapia, a Psicologia da Gestalt. Acredito que muitos profissionais podem não querer se aproximar devido ao objeto de estudo desta teoria, a consciência e como ela percebe o mundo. Há uma maior ênfase nas psicologias profundas, principalmente a Teoria Junguiana.

Em uma próxima publicação vamos compreender melhor como a Psicologia da Gestalt pode contribuir para uma compreensão das obras produzidas pelos nossos clientes e de como ele percebe o mundo ao seu redor além de suas próprias necessidades.
Bibliografias usadas:

NICOLETTO, Ugo. RIZZON, Luiz Antônio. BISI, Guy Paulo. BRAGHIROLLI, Elaine Maria. Psicologia Geral. Ed. Vozes. 23ª edição. Petrópolis, RJ.
FAGAN, Joen. SHEPHERD, Irma Lee. Gestalt-Terapia. Teoria, Técnicas e Aplicações. Ed. Zahar 4ª edição. Rio de Janeiro, RJ
KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. Ed. Martins Fontes. Rio de Janeiro.
ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Ed. Companhia das Letras.





[1] KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. Ed. Martins Fontes.
[2] ARGAN. A arte Moderna.