segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O QUADRADO E O CÍRCULO NA CLINICA DA ARTETERAPIA


Por: Eliana Moraes


Quando

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Álvaro de Campos
 (Heterónimo de Fernando Pessoa)

                Quando me deparei com este poema de Fenando Pessoa imediatamente me veio à mente um perfil de pacientes que não raro recebemos na clínica da arteterapia. São pacientes que apresentam uma latente desorganização, um vulcão de emoções e sensações ao qual não são capazes de administrar e são tomados por elas. Pacientes empobrecidos em sua função pensamento, com dificuldade de racionalizar e tomar consciência de tudo aquilo o que sente e por este motivo, o domina e transborda. E muitas vezes transborda também para seu corpo, apresentando sintomas físicos recorrentes e dolorosos. Pacientes que sofrem e são reféns de seu sofrimento. De minha prática posso citar pacientes depressivos, com transtornos de ansiedade e histéricos graves.
                Este perfil de paciente é carente de contorno, eixo, foco, limite, base, “segurança”. E são muito beneficiados com técnicas estruturantes e organizadoras na arteterapia. Sem este momento de estruturação ele não tem condições de se reconhecer, se pensar e fazer movimentos de mudança. E a prática nos mostra que neste momento, recursos para os quais muitas vezes nós arteterapeutas “torcemos o nariz” se mostram excelentes  para o paciente: as retas, as réguas, a geometria. Lembro aqui a grande artista Loise Bourgeois: Geometria: Regras imutáveis, confiáveis, seguras. Diferente das relações pessoais”.  E precisamos reconhecer quando nosso paciente precisa de segurança para continuar em seu caminho de autoconhecimento.
            Esta questão me lembra as discussões do nosso grupo de estudos “A prática da Arteterapia” no qual discutimos amplamente a importância do arteterapeuta “levantar seu olhar” das técnicas aprendidas em sala de aula e desenvolver e apurar seu olhar para o paciente. Da mesma forma, deslocar seu olhar de si mesmo, aquilo que deseja trabalhar, as técnicas que deseja aplicar, como deseja narcisicamente conduzir a jornada de autoconhecimento de seu paciente. Quem é seu paciente? Aonde ele está? O que ele deseja? O que ele pode? O que ele precisa?  
            Se compreendemos que as criações dos grandes artistas são por definição expressões humanas e percebemos o grande número de artistas que lançaram mão da geometria e das retas em sua arte, e além disso aprofundaram-se amplamente no seu estudo expressivo e simbólico, não podemos negligenciar este potencial. Em arte, produção de imagens e expressão com fim terapêutico não existe certo ou errado, mocinho ou bandido, ou somente um caminho possível.

          Ao arteterapeuta cabe não ter uma visão limitada ou se restringir, mas ter um rico leque de opções de técnicas para acioná-las a cada passo de seu paciente. Um rico leque significa técnicas de expansão e desconstrução mas também técnicas de estruturação e organização. Que nós arteterapeutas possamos também sorrir para a geometria e para as réguas.  Ao desestimularmos o acesso de nosso paciente a ferramentas tão exploradas na arte como a geometria e seus instrumentos por considerá-los limitantes, bloqueadores da livre expressão e da criatividade, não seríamos nós os limitadores?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Quadrado e o Círculo

Por Flávia Hargreaves

Piet Mondrian. 1942.

“Aquilo que eu entendo aqui como beleza não é o que a gente comum entende geralmente por este nome, como, por exemplo, a dos objetos vivos ou das figurações deles; é, pelo contrário, alguma coisa de retilíneo e de circular, as superfícies e os corpos sólidos compostos por meio de compasso, do cordão e do esquadro. Com efeito, estas formas não são como as outras, belas em certas condições, mas são belas em si.” (Platão, em Filebo, sobre arquitetura)

Há algum tempo me pergunto sobre o lugar das imagens abstratas na Arteterapia, em especial o lugar das linhas retas, das formas geométricas, e o uso de instrumentos como réguas, esquadros, compassos, que se desdobram nas curvas francesas e na régua flexível. Sim, pasmem: Existe uma régua que se chama “régua flexível”, que aliás é bem antiga.

Nas palavras do artista e escritor belga Michel Seuphor, fundador do grupo Cercle et Carré, as imagens do círculo e do quadrado correspondiam ao "[...] emblema da mais simples totalidade das coisas. O mundo racional e o mundo sensorial, a terra e o céu no antigo simbolismo chinês, a geometria retilínea e a geometria curvilínea, o homem e a mulher, Mondrian e Arp." Isto não me parece pouca coisa ...

O que me leva à Mandala, tão popular nos meios da Arteterapia. Afinal, a mandala é um círculo, muitas vezes inscrita ou circunscrita em um quadrado, integrando o espírito e a matéria. Mas este seria o único ponto de contato que percebo da Arteterapia com a geometria. E mesmo este contato me parece frágil nas praticas com mandalas.
Na obra de Mondrian, “a cor pura se projeta no plano, encontrando seu oposto na não-cor, no cinza, no branco e no preto. As oposições se desdobram no quadro: linha negra/plano branco, linha espessa/linha fina, planos abertos/planos fechados, planos retangulares/quadrado da tela, cor/não-cor. As composições se estruturam num jogo de relações assimétricas entre linhas horizontais e verticais dispostas sobre um plano único. A forma obtida a partir daí, indica Schapiro em ensaio clássico sobre o artista, é totalidade sempre incompleta, que sugere sua continuidade além dos limites da tela. O neoplasticismo de Mondrian dispensa os detalhes e a variedade da natureza, buscando o princípio universal sob a aparência do mundo. Menos que expressar as coisas naturais, sua arte visa, segundo ele, a ‘expressão pura da relação’”. 

Mergulhando no universo dos quadrados, triângulos, círculos, e a infinidade de formas possíveis a partir das linhas retas e redondas, acompanhada por grandes artistas como Kandisnky, Mondrian, Malevich e tantos outros como os brasileiros Helio Oiticica, Lygia Clark, Ligia Pape, Geraldo de Barros, Aluísio Carvão, por exemplo, que tiveram parte de sua obra dedicada à abstração geométrica, percebo com estranheza a restrição ao uso de réguas e compasso em Arteterapia. Dialogar com estes artistas e suas obras não teriam uma contribuição importante para nós, arteterapeutas? Será que nossa relação com a geometria deve se limitar às mandalas? Seriam as linhas retas, as réguas, os esquadros, os compassos, os vilões contra os quais temos que lutar com todas as nossas forças? Apolo será sempre um chato, e Dionísio estaria sempre a postos para responder às nossas necessidades?

Fazem 100 anos que Malevich disse "Eu me transformei no zero da forma e me puxei para fora do lodaçal sem valor da arte acadêmica. Eu destruí o círculo do horizonte e fugi do círculo dos objetos, do anel do horizonte que aprisionou o artista e as formas da natureza. O quadrado não é uma forma subconsciente. É a criação da razão intuitiva. O rosto da nova arte. O quadrado é o infante real, vivo. É o primeiro passo da criação pura em arte" (1915).

O círculo pode não ser o sol ou a lua, ele pode ser um círculo com sua potência, sua expressão. Não precisamos ter um olhar figurativo sobre o abstrato. Podemos nos deter na forma, na cor, na composição, identificando pontos de tensão, de harmonia, relaxamento, etc. Buscar as relações, os contrastes, o movimento e o não-movimento, etc. Creio ser um exercício importante para o arteterapeuta experimentar se deter nos elementos fundamentais e estruturais da imagem, antes de buscar uma figura ou até mesmo um símbolo, que muitas vezes se confunde na busca de uma figura.

Imagem: Malevich, 1915.

Nota: Cercle et Carré que inspira o título deste artigo, foi uma associação de artistas criada em Paris, 1929, pelo pintor uruguaio Joaquín Torres-García (1874-1949) e pelo artista e escritor belga Michel Seuphor (1901-1999), com o objetivo de divulgar a arte construtivista.
Referências:
ARGAN, Giulio. Arte Moderna. 5ª reimpressão. Companhia das Letras. 1998.
STIERLIN, Henri. Arquitetura Universal. Grécia. Editora Taschen. 2009.
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo38/cercle-et-carre

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Processo criativo

Em 2015, o blog não-palavra recebe convidados especiais que compartilham conosco sua visão sobre Criatividade e Arte, temas que consideramos fundamentais para pensar a Arteterapia.
Nossa primeira convidada é Martha Pires Ferreira, com uma longa trajetória nas artes visuais, no estudo da psicologia junguiana e no desenvolvimento da criatividade através das atividades plásticas como colaboradora na Casa das Palmeiras.
PROCESSO CRIATIVO
Por Martha Pires Ferreira / 2008
.

Martha Pires. Formas no Espaço, 2013.

Todo ser humano é potencialmente um criador. A criatividade é essencial à natureza humana, à expansão da personalidade.
O processo criativo se dá por conexões; impulsos internos e desejos de expressão interagem intuitivamente com o mínimo da interferência lógica, racional. Assim, penso, deveria ser. Para outros, ocorre o inverso, é o domínio da racionalidade com um quantum de impulso instintivo.
O anseio imagístico procura dar forma, ao se deixar revelar, desvelar o que antes era invisível ao conhecimento. É o novo que brota genuíno e real. Arte é descobrir, é tornar visível o que não existia. Não se cogita beleza estética, e sim dar origem a. Os caminhos são complexos e, por vezes, paradoxais. A apreensão sensível de conteúdos expressivos nas artes plásticas, musical ou poética são experiências efetivas e diretas da sensibilidade criadora de cada pessoa, individualmente. A obra de arte não se limita ao objeto em si, é mais que representação pictórica.
Criatividade é processo inesgotável. As mãos engendram quase por magia; nas atividades plásticas desde o artesão das cavernas, passando por toda a história da arte antiga, clássica e moderna com Cézanne, Matisse, Picasso, Paul Klee ou à sofisticada cognição intelectual interagindo simultânea, sensitivo e emocional, nas obras de artistas contemporâneo ou não, brasileiros, como Lygia Clark, Tunga, Beatriz Milhazes, Marília Kranz, Teresa Miranda, Antônio Dias ou Cildo Meireles. Citando estes apenas. Os olhos, um telescópio; constata e contempla a obra realizada, indo além, num mergulho misterioso. A criatividade é a mola impulsionadora da essência da vida. A obra acabada, é quem fala, se faz real e presente. É mais que um objeto.
No meu caso pessoal, desenhar é um ato de liberdade que se faz incontinenti. É deixar mostrar o latente, revelação, espanto intelectual e emocional obedecendo ao que a intuição determina. Deixar o imprevisível acontecer, descobrir, tocando o abissal. A sensibilidade é o tom que contribui para a criação pictórica se tornar manifesta. O artista é, apenas, um instrumento ativo no processo.

Enlouquecida, aprendi com Hokusai (1760 - 1849) que no exercício de desenhar, no penetrar na essência de todas as coisas manifestas, pode-se chegar a um nível de consciência, de saber, mais elevado, impensável, onde tudo vive; cada ponto, gesto, linha, cor. Arte é celebração. O que a imaginação apreende como fogo criador, sopro e beleza, é verdade, é espiritualidade. Além disso, nada sei. 

Martha Pires Ferreira
Astrologia e Artes Visuais /colaboradora voluntária na Casa das Palmeiras e 
Coordenadora do Grupo de Estudos C. G. Jung (2006 - 2015) com Dr. Edgar Tavares.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

PENSANDO A ARTETERAPIA


Por Eliana Moraes

“Há muros que só a paciência derruba.
Há pontes que só o carinho constrói.” Cora Coralina


            Estes versos de Cora Coralina chegaram até mim em um cartão de natal que recebi de uma paciente. E automaticamente me lembrei das discussões que o grupo de estudos que coordeno “A prática da arteterapia” construiu durante o ano de 2014.
            Ao refletirmos sobre as especificidades da técnica da arteterapia e a atuação do arteterapeuta diante do paciente, observamos que não raras vezes o arteterapeuta prioriza as técnicas que proporá ao seu paciente/cliente e se dispersa do que é mais importante no setting terapêutico: o próprio paciente/cliente. Discutimos sobre o perigo tão sutil, mas na mesma proporção perigoso, que o arteterapeuta pode se perder: voltar o olhar para si – suas interpretações, seus desejos, sua ansiedade, suas necessidades –, por que não dizer, narcisicamente. Desta forma, dispersa-se do protagonismo do paciente em seu caminho de autoconhecimento. Jornada que pertence exclusivamente à ele, e ao arteterapeuta cabe estar junto.
            A cada encontro discutimos como é importante que o arteterapeuta esteja atento e se instrumente teoricamente sobre os fenômenos da relação paciente-terapeuta: a transferência e a contratransferência e seus manejos. Que mesmo a arteterapia tendo como especificidade utilizar das técnicas expressivas como base, a relação paciente/cliente e terapeuta se manifesta de forma imperativa. E se o arteterapeuta não estiver instrumentalizado para manejá-la em paralelo com as técnicas expressivas, não estará alcançando seu trabalho como terapeuta de forma plena.
            Ao percebermos esta lacuna em nossas formações, dedicamo-nos à leitura de textos que nos embasasse teoricamente sobre estes fenômenos e discutimos como estes conceitos se manifestaram na prática de cada arteterapeuta participante do grupo. Assim, a partir de uma grande discussão e troca o grupo chegou à algumas importantes conclusões e pontos de atenção para a prática da arteterapia: o protagonismo do paciente em seu caminho de autoconhecimento e o papel do arteterapeuta de estar ao lado; os fenômenos da relação paciente/cliente, a importância de seus manejos e a necessidade do arteterapeuta (ser humano que é) ter espaços para pensá-los – sua terapia pessoal, supervisão e grupo de estudos; tomamos como propósitos para 2015 estudarmos e discutirmos o triângulo paciente-terapeuta-técnica expressiva, e sobre como podemos contribuir para que nossa profissão se estabeleça cada vez mais na área da saúde, em equipes interdisciplinares e instituições.
            Estamos engajadas no propósito que o nome deste blog já traz: “Pensando a Arteterapia”. E estendemos nosso convite para aqueles que, apaixonados ou ainda curiosos, tenham o desejo de partilhar conosco esta jornada. Que venha 2015!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O DIÁLOGO ENTRE HISTÓRIA DA ARTE E ARTETERAPIA EM 2014


                                   Fotografia: Palestra vivencial "Dadá e Surrealismo na prática da Arteterapia" no Clube da Arte

Por Eliana Moraes e Flávia Hargreaves

            Dezembro, o último mês do ano, chegou, e com ele o convite de fazermos uma reflexão sobre o ano que passou. E o blog “Não Palavra” também se propôs a fazer um balanço sobre o que foi o ano de 2014 em nossa jornada de pensar - e contribuir para – a arteterapia.

            Primeiramente abordaremos a pesquisa  sobre a aplicabilidade da História da Arte na prática da arteterapia, que começou o ano como um embrião envolvido por um grande desejo e uma intuição.  Com o passar dos meses este projeto foi criando corpo e hoje é uma realidade com o curso “Arteterapia: História da Arte para quê?”

            Neste ano vivemos a alegria de promover com duas turmas o Múdulo I: Pré-História e Primitivismo e com uma turma o Módulo II: Antiguidade Clássica e Classicismo. Acreditamos que esta foi uma vivência bastante intensa para aqueles alunos que aceitaram o convite de fazer um profundo mergulho nestes períodos da história do homem e da arte, mas também bastante intenso para nós que os promovemos. E atualmente estamos gestando com todo carinho o Módulo III: Idade Média para início em 2015.

            Entretanto, nossa pesquisa sobre os Movimentos da Arte aplicados na Arteterapia, não poderia deixar de abrir um espaço de destaque para os movimentos Dadá e Surrealismo, pois foram nossos primeiros estímulos para abrir este diálogo entre História da Arte e Arteterapia.

Nos últimos meses nos dedicamos em especial à estes dois movimentos, por tratarem de modo muito particular a desconstrução, o caos e o acesso ao inconsciente, ao mundo da imaginação e dos sonhos.

Tivemos o privilégio de abrir e fechar as palestras do Clube da Arte de 2014 (promovido por Luciana Machado), com as palestras “Arteterapia: História da Arte para quê?” em (10/09/14), e “Dadaísmo e Surrealismo na prática da Arteterapia”, dia (26/11/14). Tivemos também a oportunidade de realizar palestras sobre o tema na Faculdade Estácio de Sá – curso de Psicologia – unidade Norte shopping (07/10/14), no Curso de Formação em Arteterapia Artemísia - Niterói (10/11/14) e no evento “Surrealismo” promovido pela AARJ (27/07/14)

            Estes dois movimentos permanecerão como objeto de nosso trabalho no próximo ano pois, prestes a completar 100 anos, o Dadá continua vivo, atual e mobilizando discussões nos espaços de Arte. No mês outubro, o Rio de Janeiro recebeu dois eventos sobre o tema: o curso com Marc Dachy - Retorno a Dadá (Museu de Arte do Rio – MAR, 15 e 16/10/14) e  Dada on Tour – Zurique 2016, uma vídeo instalação itinerante que antecipa o centenário do dadaísmo (Casa Daros, Rio de Janeiro, de 22 a 26/10/14). O Surrealismo não ficou atrás, o CCBB RJ nos trouxe a exposição de Salvador Dali (maio e junho) e a Caixa Cultural, a Magia de Miró (julho a setembro) com seus desenhos.

            Olhamos para 2014 como um ano de realizações pois passos importantes foram dados em nossa jornada. Entramos em 2015 bastante motivadas com nossa pesquisa sobre a riqueza que a História da Arte pode proporcionar para a prática da arteterapia. Nosso convite permanece aberto a todos àqueles que têm curiosidade ou que já conheceu um pouco do nosso trabalho, que no próximo ano compartilhe conosco desta tão apaixonante jornada.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

DO ABSOLUTO AO ABSTRATO, AS VERDADES DESCONSTRUÍDAS NO MUNDO DA ARTE


                           
Vassili Kandisnky (Russo. 1866-1944). Primeira Aquarela Abstrata (1910).


Por Maria Cristina Resende

A cena acontece no início do século XX, um momento político-sócio-cultural tenso. Nas ciências, mudanças para todos os lados, a física com a relatividade e a física quântica, no mundo psi a psicanálise e a sua interpretação dos sonhos, na política a guerra! E a Arte? Onde ela está nesse momento, ou melhor, como ela reflete esse contexto social?

Primeiramente podemos perceber que as palavras de ordem no início do século XX são: MUDANÇA e DESCONSTRUÇÃO. O homem se encontra diante da necessidade de revisão das verdades outrora tidas como absolutas. Formas antigas dão lugar a novas modalidades de pensar, de calcular, de sentir e também de expressar. E na busca por essa desconstrução do mundo das formas, o abstrato surge, na Arte, como uma possibilidade de entrar na subjetividade do mundo.

A física nos mostra que a matéria não é tão sólida quanto pensávamos, que ela é na verdade “cheia” de espaços vazios, que o tempo não é linear, é relativo. As ciências da mente nos mostram que existe “algo” que pensa em nós, e às vezes por nós, a Psicanálise recupera a importância dos sonhos sob uma nova perspectiva. O mundo não é mais regido pelas leis racionais de causa e efeito, não existem mais certezas e verdades, não há mais um “porto seguro”, não podemos mais confiar nos nossos sentidos, nos nossos olhos, pois existe um universo naquilo que não vemos, no imaterial, no abstrato. A subjetividade se revela e a Arte busca expressar este novo mundo com novos e múltiplos caminhos. A objetividade e a precisão dão lugar a uma nova percepção sobre as coisas do mundo, pois nada mais é somente aquilo que se vê, há uma “alma secreta” nas coisas, há algo que os olhos não percebem e que a Arte captura.

Este é o tema dos últimos encontros do “Grupo de Estudos em Arteterapia: O encontro da Arte e da Psicologia no setting arteterapêutico”, que coordeno ao lado de Flávia Hargreaves, na Casa 2,  onde buscamos compreender o papel da Arte, o como ela irá dar forma e expressar as tensões e as mudanças na sociedade, sejam elas de fundo político, cultural, econômico ou científico. Buscamos junto a esta reflexão, fazer uma analogia ao que ocorre na clínica com a arteterapia e o uso das técnicas expressivas em psicoterapia, onde a expressão plástica do cliente será também o desdobramento das tensões, angústias e transições vivenciadas por sua psique.

Através do atual estudo do texto “O simbolismo nas artes plásticas”, de Aniela Jaffé (O Homem e seus Símbolos), percebemos que os movimentos artísticos seguem lado a lado ao movimento individual de qualquer pessoa. Quando os nossos paradigmas vigentes estão em desconstrução, buscamos a percepção desse novo mundo e novas formas vão sendo descobertas. A arteterapia busca acessar essa “alma secreta” das coisas, aquilo que os materiais possuem e que à primeira vista não percebemos. Assim como em nossa psique, nossas atitudes muitas vezes contêm uma “alma secreta” que nossa mente consciente não percebe. Em nossa psique profunda habita também uma “alma secreta” que se constela através das práticas terapêuticas, e a arteterapia “toma emprestado” a riqueza do discurso dos movimentos artísticos para a captura dessas várias “almas secretas” escondidas dentro-fora de nós.

GRUPO DE ESTUDOS EM ARTETERAPIA

O encontro da Arte e da Psicologia no setting arteterapêutico

com Maria Cristina de Resende e Flávia Hargreaves

Encontros quinzenais. Segundas-feiras. Das 18:30h às 20h.

Local: Casa 2. Botafogo. Rio de Janeiro.

Contato: crisilha@hotmail.com

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

HISTÓRIA DA ARTE COMO ESTÍMULO PROJETIVO


Parte central do tríptico “Jardim das Delícias”, 1504, 
Hieronymus Bosch (1450/1516 | Países Baixos), Acervo: Museu do Prado, Madri.

Por Eliana Moraes e Flávia Hargreaves

Nossa jornada pela História da Arte iniciou-se por pura intuição em 2009, quando decidimos estudar a biografia de alguns artistas. Conhecê-los nos fez perceber como suas histórias de vida transbordavam para seus processos criativos e decidimos experimentá-los. Mais adiante, percebemos que não só os artistas individualmente, mas os movimentos artísticos ao longo de toda a história do homem são transbordamentos de um contexto histórico que traduzem questões humanas no coletivo.

Nossa pesquisa foi avançando e percebemos que ao longo da história da humanidade e sua intensa produção de imagens, o homem desenvolveu técnicas, foi movido por necessidades e desejos diversos, usou a Arte com intenções e funções distintas (políticas, religiosas, educativas, etc.), desenvolveu sua inteligência, habilidades manuais e imaginação. Em todos os tempos, a Arte se apresenta como uma necessidade na intermediação do homem com o meio, buscando um equilíbrio.

Como arteterapeutas, nosso encantamento pela História da Arte se aprofundou ao constatarmos que toda esta dinâmica nos oferece instrumentos poderosos e inspiradores para a nossa prática. Levar para o setting terapêutico (individual ou grupo) conteúdos da História da Arte como estímulo projetivo –  seja apresentando a biografia de um artista e/ou experimentando seu processo criativo no campo individual, ou entrar em contato com determinado movimento artístico, seu contexto histórico e motivações expressivas no campo coletivo – significa rever o potencial e a aplicabilidade desta como ferramenta na arteterapia.

Em nossa formação como arteterapeutas com base teórica na Psicologia Analítica de Jung, estamos familiarizados com o conceito de inconsciente coletivo, camada mais profunda da psique, onde residem os “arquétipos”, estruturas herdadas, constituídas ao longo de milhares de anos e que correspondem às experiências humanas compartilhadas como nascimento, morte, juventude, envelhecimento, pai, mãe, etc. Temos acesso a este vasto material, comum a todos os homens, através de imagens que surgem em sonhos e fantasias materializadas na produção artística.

Estamos habituados a utilizar como estímulo projetivo contos e mitos, partindo do princípio que simbolicamente os conteúdos destas histórias são figuras arquetípicas presentes em nosso psiquismo. Embasadas em nossa pesquisa e prática, acreditamos que a História da Arte também se apresenta com grande potencial de estímulo projetivo, com sua grande riqueza e diversidade de estilos, linguagens, técnicas, motivações, sempre dando forma às questões humanas individuais e coletivas. Esta proposta dá ao paciente/cliente a oportunidade de entrar em contato com estes diversos homens/épocas, identificando como estas imagens os afetam, observando o processo de como se percebe neste contexto, como se sente experimentando este estímulo e processo criativo. É confortável, desconfortável? É um desafio possível de seguir em frente ou é “agressivo” demais para mim? É estimulante ou motivo de resistência? E assim por diante...

O estímulo por mitos e contos muitas vezes demanda um exercício de interpretação simbólica que para alguns perfis de pacientes/clientes é mais difícil entrar em contato. A especificidade de utilizar a História da Arte, está em trazer fatos, histórias reais, localizadas no tempo e no espaço, imagens mais próximas e de fácil acesso, mas que, como os mitos, trazem conteúdos ricos e possíveis de amplificar, tendo sempre em mente que é justamente a Arte a principal responsável por materializar, dar forma, ao longo da história da humanidade aos conteúdos do inconsciente coletivo, ilustrando inclusive os contos e os mitos.