segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

RASTROS E RESTOS ME INTERESSAM

Merz Art de Kurt Schwitters e a Arteterapia.
Por Flávia Hargreaves


Kurt Schwitters. Picture of Spatial Growths - 
Picture with Two Small Dogs. (1920-39).

Desde o início de 2013 tenho realizado mini-cursos sobre Dadaísmo e Surrealismo voltados para a Arteterapia,por serem movimentos artísticos que buscam a não racionalização durante o processo criativo. Tenho constatado em minhas turmas algumas situações que coincidem com a experiência de Eliana Moraes em seu trabalho clínico ao aplicar técnicas inspiradas nestes movimentos, em especial a colagem/assemblagem dadaísta: Merz Art de Kurt Schwitters (1887/1948).
O movimento Dadaísta não se refere ao inconsciente, como ocorre no Surrealismo, mas o acessa ao propor a negação do racional e do lógico. Por esta razão suas práticas se mostraram muito ricas para o processo arteterapeutico. 

Hans Richter recorda que “o acaso nos instigava como fenômeno intelectual e emocional. Somente mais tarde soube que, simultaneamente, psicólogos, filósofos e cientistas se defrontavam com o mesmo fato inexplicável. (...) O acaso afigurava-se-nos como um processo mágico, através do qual podíamos transpor a barreira da causalidade, da manifestação consciente da vontade, através do qual o ouvido e os olhos interiores se aguçavam, até o aparecimento de novas seqüências de pensamentos e experiências. Para nós, o acaso era aquele ‘inconsciente’ que Freud já descobrira em 1900.”(PASSETI, Dorothea Voegeli).

Ao abrir espaço para o acaso, partindo de um processo cujo centro é o aleatório e o absurdo, deixando o trabalho plástico fluir livremente sem um objetivo, sem uma consigna, sem um tema proposto, o tema e o símbolo surgem espontaneamente. Quando o terapeuta sugere a seu cliente que busque um símbolo para algo como “o feminino”, “o herói”, etc. ele está, em certa medida, constrangendo esta espontaneidade e segundo Jung, os símbolos “não são inventados pelo ego mas, pelo contrário, surgem de modo espontâneo do inconsciente.”(STEIN, Murray. 2012. P. 79). 
Mas o que vem a ser Merz Art? Como Eliana Moraes define em seu artigo “O Dadaísmo na pratica da Arteterapia” o Merz Art “cria relacionamentos entre as coisas do mundo. Trata-se de uma colagem em forma de coluna/totem, composta de tudo o que, topando-se por acaso sob as vistas ou ao alcance da mão, chamou sua atenção por um instante, ocupou sua vida por algum momento. Coisas recolhidas e combinadas que foram descartadas pela sociedade por não servirem mais, por terem cumprido suas funções. Mas por serem ‘vividas’ comporão no quadro uma relação que não é a lógica de uma função organizada, e sim a trama claramente legível da existência. Ou talvez do inconsciente que, como motivação profunda, determina o fluxo incoerente da vida cotidiana.”
Ao pedir que o cliente/paciente/aluno guarde objetos, papéis, etc. que cruzem o seu caminho em um determinado intervalo de tempo, estamos propondo que se recolham restos do dia-a-dia, que se guardem rastros de um caminho percorrido ao longo deste período. Permitir o acaso e correr o “risco de não chegar a lugar nenhum” são o ponto de partida desta pratica. Porém, é importante destacar que o acaso não domina o processo como um todo. Os itens são colhidos ao acaso mas em um segundo momento, quando a colagem está sendo produzida estamos diante de um processo de elaboração onde se estabelecem relações entre as partes, não buscando um tema/símbolo, mas organizando, dando forma, resignificando, descobrindo-se no processo, na construção absurda, e ao final como uma “mágica” se perceber diante de uma questão, de um tema e de um símbolo que surgiram espontaneamente como um presente do inconsciente.

 “Não é o acaso que organiza papéis, bilhetes, cédulas, embalagens, cartões e outras tantas substâncias descartadas: o acaso fez com que eles fossem encontrados por Schwitters e guardados em seu bolso do paletó. Seriam objets trouvés, atualizados não só no conteúdo, mas como substância: de objetos a matérias primas. Com paciência, o exame minucioso dos papéis e outros materiais coletados possibilita descobrir associações imprevistas, sugerindo novos significados ao que já havia sido transformado em lixo. Não só cores e texturas, mas palavras, ou pedaços delas, imagens, recortes, fragmentos que compõem uma poética visual.” (PASSETI, Dorothea Voegeli).

Em minhas aulas utilizei esta técnica com 2 grupos e constatei resultados distintos, porém ambos positivos com relação ao surgimento de um tema de modo espontâneo. No primeiro grupo, constatei a emergência de um tema único, em torno do qual giravam as questões individuais. No segundo, os trabalhos refletiram questões pontuais e objetivas, situações que estavam sendo concluídas/decididas ou em andamento naquele curto período. O que, de certa forma, repete a situação do anterior, já que todo o grupo apresentou o mesmo perfil, embora as questões fossem distintas. Em todos os casos, tanto na minha experiência como na de Eliana Moraes, cada indivíduo chegou a sua questão terapêutica, embora no início do processo nada parecesse fazer sentido e ao final a surpresa, o “símbolo espontâneo, que surgiu da expressão não racionalizada do paciente, ao qual devemos acolher e nos debruçar.” (MORAES, Eliana. 2013). 
Para concluir digo SIM, rastros e restos me interessam, porque são os nossos rastros e os nossos restos, são testemunhas e provas do caminho percorrido por mais banais e cotidianos que pareçam ao primeiro olhar. Ao se relacionarem, ao se somarem ou não a outros objetos disponíveis, nos trazem novos significados e deixam de ser aqueles objetos descartáveis e passam a ser matéria prima para uma criação poética e subjetiva. 

Nota: O título deste artigo se inspira na música Maior Abandonado de Cazuza, sendo a letra original “raspas e restos me interessam”.

Referências Bibliográficas
ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo, SP. Editora Companhia das Letras. 1998, 5º reimpressão. 
MORAES, Eliana. Associação Livre em Imagens. In: Não Palavra. Publicado em 14 de outubro de 2013. Disponível em: http://nao-
palavra.blogspot.com.br/2013/10/associacao-livre-em-imagens.html
MORAES, Eliana. O Dadaísmo na prática da Arteterapia. In: Não Palavra. Publicado em 30 de setembro de 2013. Disponível em: http://nao-
palavra.blogspot.com.br/2013/09/o-dadaismo-na-pratica-da-arteterapia.html
PASSETI, Dorothea Voegeli. Colagem: Arte e Antropologia. In: Ponto e Vírgula. revista eletrônica semestral do programa de estudos pós-graduados em ciências sociais da puc-sp. Disponível em: http://www.pucsp.br/ponto-e-virgula/n1/artigos/02-DodiPassetti.htm
STEIN, Murray. JUNG. O Mapa da Alma. São Paulo, SP. Editora Cultrix. 2012, 9º edição.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A RESISTÊNCIA EM ARTETERAPIA


“pois fica um pouco mais difícil para alguém negar aquilo que acabou de fazer, bem como de perceber o quanto se posiciona... As possibilidades de se perceber nas suas dificuldades, dadas as imposições deferidas pelo próprio uso dos materiais plásticos, confere ao usuário as noções de limitação, aceitação e humildade diante de suas dificuldades, tornando-o mais humano, mais próximo de si mesmo e dos demais.” (URRUTIGARAY)

            Há algum tempo escrevi um texto chamado “Susto” para este blog falando sobre o potencial que a arteterapia possui de convocar conteúdos desprezados por repressão ou resistência do paciente. Na terapia verbal o terapeuta pode sinalizar ou sublinhar algum conteúdo, na tentativa de chamar a atenção do paciente para determinada questão. Mas em arteterapia, ao materializar por si mesmo sua fala em imagens, muitas vezes o paciente se vê em um confronto consigo mesmo.
            Porém, embora esta dinâmica seja muito comum, é possível que ela não ocorra. Sim, é possível que o paciente negue aquilo que acabou de criar.  E nos últimos tempos tenho refletido bastante sobre a resistência na arteterapia.
            Em minha prática tenho percebido que os pacientes podem não reconhecer algum conteúdo expressado, contradizer o que dizem por imagem e o que dizem em palavras, refutar qualquer tipo de interpretação do terapeuta... E isto não é tão raro de acontecer.
Creio que o arteterapeuta precisa pensar-se quanto a responsabilidade pelo instrumento que tem nas mãos. Que mesmo sendo um profissional apto a fazer uma leitura das imagens e capaz de levantar hipóteses para o processo terapêutico, não coloque-se em posição de poder, como aquele que pode interpretar e devolver para o paciente o seu próprio olhar. Isto significa atropelar todo o processo terapêutico, não respeitando o ritmo do paciente e “fazendo o trabalho” para ele.
            Relendo o texto “Susto”, ratifico o que escrevi na época, pois se o paciente resiste é porque ele não pode fazer diferente neste momento, ele está se defendendo de algo que o é dolorido:

“... mesmo com este confronto ‘físico’, o paciente ainda sim recusa-se a encarar os conteúdos, deixando-os permanecerem inconscientes e em uma atuação ‘irresponsável’. Se isto acontece, o terapeuta deve respeitar este limite do paciente pois se ele não o reconhece, não é por acaso, e tem direito a ter seu tempo próprio.” (MORAES)

            No final do texto Repetir, Recordar e Elaborar, Freud relata de médicos principiantes na psicanálise que vinham pedir conselhos à ele  sobre casos em que eles haviam apontado a resistência ao paciente  e mudança alguma teria acontecido. Na verdade “a resistência tornou-se ainda mais forte e toda a situação ficou mais obscura do que nunca”. Por fim ele conclui que:

“O médico nada mais tem a fazer senão esperar e deixar as coisas seguirem seu curso, que não pode ser evitado nem continuamente apressado.”
“Esta elaboração das resistências pode, na prática, revelar-se uma tarefa árdua para o sujeito em análise e uma prova de paciência para o analista. Todavia, trata-se do trabalho que efetua as maiores mudanças no paciente...” (FREUD)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
MORAES, Eliana. Susto. Blog “Não Palavra: Pensando a Arteterapia”. Disponível em: http://nao-palavra.blogspot.com.br/2013/09/susto.html

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar. Obras Completas, 1914.


URRUTIGARAY, Maria Cristina. Arteterapia: a transformação pessoal pelas imagens.  Ed Wak. Rio de Janeiro, RJ. 2011. 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

"OUVE O MEU SILÊNCIO"

                       


       "Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta    essa outra coisa de que na verdade falo que eu mesma não posso." Clarice Lispector



                       No último encontro do grupo de estudos em arteterapia que coordeno, refletimos sobre esta citação de Clarice, escritora que inclusive inspira o nome deste blog. Embora esta não tenha sido sua intenção inicial, eu acredito que ela soube traduzir em palavras o pedido que cada paciente faz ao seu terapeuta. "Ouve o meu silêncio".
                     Quando um paciente procura um terapeuta, ele tem uma angústia que não sabe dizer. Ele tem uma queixa inicial: problemas no trabalho, problemas conjugais, traumas... Mas provavelmente ele já "contou" esta queixa para pessoas conhecidas, para amigos, para o psiquiatra... Se apenas "contar" esta queixa aliviasse sua angústia ele não estaria ali pedindo socorro à um terapeuta.
                     Nossa discussão girou em torno deste lugar do terapeuta: ouvir a queixa inicial do seu paciente e com ela trabalhar, pois este é o conteúdo que ele pode lidar. Mas o terapeuta deve aguçar seus ouvidos para o que o paciente não está colocando em palavras, para o seu "silêncio". Seus gestos, suas defesas, suas resistências, suas atuações...
               Em arteterapia as atuações têm um lugar especial, pois acreditamos que o ato criativo é uma atuação do paciente. Ao criar o paciente em ato fala de si de inúmeras formas. As sensações enquanto cria, sua forma de lidar com o material, a constituição da imagem produzida, os conteúdos simbólicos. O arteterapeuta deve ampliar seu olhar e sua escuta para o processo criativo de seu paciente pois este é seu principal subsídio de trabalho para atender o pedido do seu paciente: captar esta "outra coisa" que precisa falar, mas ele mesmo não pode. 
          

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

ARTETERAPIA: HISTÓRIA DA ARTE PARA QUÊ?


Com frequência cito em meus textos minha parceira de estudo e trabalho, Flávia Hargreaves. Hoje o espaço do blog é cedido à ela.

Bem vinda Flávia!


                                     
Adaptação do "desenho automático" feito a seis mãos durante o grupo de estudos 
"Arteterapia e História da arte: Dada e Surrealismo".
Junho/2013.

Minhas indagações a respeito da contribuição da História da Arte para a Arteterapia iniciaram em 2009, quando, ao lado de Eliana Moraes, criamos nosso primeiro grupo de estudos sobre o tema. Na época selecionamos alguns artistas e estudamos suas biografias, assistimos a filmes e analisamos as imagens em função da personalidade dos mesmos e de acontecimentos marcantes em suas vidas, buscando identificar como estes episódios, traumas, etc. influenciaram a trajetória artística de cada um e de como e se a Arte teria contribuído no seu processo de individuação.
Em 2013, por sugestão de Eliana, voltamos o nosso olhar para o Surrealismo e seu interesse em acessar o inconsciente utilizando técnicas de automatismo inspiradas no método de associação livre, criado por Freud.
Logo de início, o Dadaísmo se impôs como uma matéria a ser estudada e experimentada. Identificamos muitas praticas comuns na Arteterapia nos processos dadaístas, o que se repetiu no estudo do Surrealismo. Observando as aproximações e diferenças entre as propostas artísticas e terapêuticas. O passo seguinte foi pensar em como transpor estes processos para o setting terapêutico mantendo o link com a sua origem.
Foi preciso estabelecer alguns critérios para deixar claras as semelhanças e diferenças entre os dois movimentos. Entre as semelhanças, que nos interessam diretamente, destacamos a busca da não-razão, do não-controle e da quebra de padrões estabelecidos e consagrados na História e Teoria da Arte (o que pra nós se converte em visão de mundo, comportamento, etc.). Porém, os dois movimentos tem olhares e propostas diversas sobre a Arte e procedimentos.
O Dadaísmo busca a não-razão através do acaso, do caos, do absurdo, não se interessando em teorias sobre o inconsciente ou em formular teorias sobre a Arte. O Surrealismo, movimento posterior ao Dada, o faz através de automatismos cuja origem se encontra na associação livre freudiana experimentada por Andre Breton, psiquiatra, poeta e o principal teórico do movimento. Tanto o acaso como o automatismo irão abrir espaço para o inconsciente, embora os dadaístas não se refiram a este termo.
Nossos estudos foram levados para a clínica por Eliana Moraes na Unidade Integrada de Prevenção / Hospital Adventista Silvestre e em atendimentos individuais em seu consultório, com resultados surpreendentes e levados por mim para as salas de aula em minicursos de História da Arte e em cursos de Formação em Arteterapia no Rio de Janeiro (Ligia Diniz e Integrare). Em outubro deste ano realizamos em conjunto a oficina “Artetreapia e História da Arte: Dada e Surrealismo” no evento “O Inconsciente e a Arte” promovido pela AARJ (Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro).
Partimos de um processo, de um modo de fazer, de uma perspectiva. Todas as propostas obrigam o autor a se submeter ao não-controle, através do acaso, do automatismo ou de jogos coletivos. Seja deixando a tinta fluir sobre o papel, seja dando prosseguimento a um desenho iniciado por outro, seja buscando palavras às cegas ou imagens aleatórias. De qualquer modo, é importante ressaltar que na pratica, principalmente, da Arteterapia existe um segundo momento que é de elaboração que será mais ou menos consciente dependendo do caso. Por exemplo, no caso da colagem, diante de diversos fragmentos estranhos entre si o autor/cliente/paciente ao montar o trabalho irá estabelecer relações espaciais e de significado entre as partes criando uma obra/poema/imagem única. Ao construir estas relações o tema surge naturalmente e muitas vezes, ao final, estamos diante de um símbolo que surgiu espontaneamente.

Nossa proposta ao estabelecer um diálogo criativo entre a Hsitória da Arte e Arteterapia não significa transpor uma proposta artística do início do século XX para a terapia no século XXI, mas apropriar-se de determinados conhecimentos e técnicas propostas por estes artistas e recriá-los com objetivos terapêuticos, que em muitos aspectos irá se distanciar das intenções artísticas originais. Não teremos um livro de receitas à mão, mas uma diversidade magnífica de ingredientes e possibilidades.

Flávia Maciel Hargreaves
Arteterapeuta (AARJ 402)
Professora de Artes Visuais (UFRJ 2010)
Comunicadora Visual (UFRJ 1989)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

SURREALISMO NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA



“O surrealismo não é estilo. É o grito da mente que se volta para si mesma.” Antonin Artaud**

            Os movimentos Dada e Surrealista têm em comum a busca da não razão na arte. O Dadaísmo tinha como princípio a não fundamentação teórica e tinha como palavra de ordem o acaso. Em um texto anterior deste blog  pudemos ver a aplicabilidade deste movimento na prática da arteterapia.
            O Surrealismo nasce como uma reconstrução das ruínas do Dada, que ao negar a tudo acaba por negar a si mesmo. E o acaso dadaísta se transformou na influência do inconsciente na arte, embasados na teoria psicanalítica de Freud. O movimento buscava:
“... criar uma arte que fosse ‘automática’, que brotasse diretamente do inconsciente, sem ter sido moldada pela razão, pela moralidade ou por julgamentos estéticos.” (LITTLE)
            (Soa familiar, arteterapeutas?)
            Os experimentos que estes artistas faziam para de toda forma tentarem burlar a influência da consciência em suas obras são riquíssimos e muito propícios a serem aplicadas no setting arteterapêutico. Acredito que são muito interessantes no trabalho com pacientes racionais, que ao manejarem bem as palavras, constroem e calculam seu discurso. Que se imaginam sabedores de si e queiram explicar-se. Ou mesmo que estejam abertos ao processo terapêutico, mas que por resistência tentam controlar os conteúdos que levam à terapia.
            As técnicas surrealistas (algumas já mencionadas em textos anteriores) procuram acessar o inconsciente (o maravilhoso) através do automatismo, ou seja, tudo que era criado de forma espontânea: Disse Ernst em Além da Pintura:
“Lutando mais e mais para restringir minha própria participação ativa no desenvolvimento da figura e assim ampliando o papel criativo das faculdades alucinatórias da mente, cheguei a assistir como um espectador ao nascimento de todos os meus trabalhos ” (BRADLEY)
            Além disso, uma das principais características do movimento que é o permanente intercâmbio entre o “poético e o pictórico”  nos possibilita a reprodução da técnica da associação livre da psicanálise, originalmente por palavras, na associação livre por imagens, sendo esta uma outra forma do sujeito se falar tão legítima quanto.
A associação livre é a técnica psicanalítica ao qual o analista pede que o paciente fale sem restrições ou censuras tudo o que passa pela sua mente e coloca o analista atento à tudo aquilo que “escapole” diretamente do inconsciente para o discurso consciente, como os atos falhos, chistes, lapsos, sonhos... A prática nos mostra que o ato criativo, e neste contexto específico as técnicas surrealistas, também se estabelecem como conteúdos inconscientes não racionalizados e não controlados pelo paciente, que se materializam na representação plástica, e que muito ricos em produção de símbolos espontâneos são um excelente recurso na clínica do arteterapeuta.



Referências Bibliográficas:
*BRADLEY, Fiona. "Surrealismo - Movimentos da Arte Moderna"
LITTLE, Stephen. “Ismos para entender a arte”.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O ACASO E O COLABORATIVISMO EM ARTETERAPIA

            No último dia 27 de outubro estive no evento da Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro, chamado “O Inconsciente e a Arte” juntamente com minha parceira de estudos e prática Flavia Hargreaves, coordenando a oficina “Arteterapia e História da Arte: Dada e Surrealismo”. Foi um encontro delicioso e surpreendente, onde pudemos vivenciar duas técnicas propostas pelos artistas destes movimentos que têm como premissa a tentativa de tirar a possibilidade de controle e racionalidade inicial no ato criativo.
            Para experimentar o acaso dadaísta fizemos o “Poema Dada”, ao qual palavras escolhidas por cada participante são colocadas em um saco e misturadas. Em seguida cada participante retira algumas palavras “escolhidas pelo acaso” e a proposta é que cada um as dê um sentido, organizando-as, associando-as, completando-as... “O poema sempre será parecido com você” dizia Tzara, pois para ele o acaso poderia ser tão pessoal  quanto uma ação consciente. E o que pudemos testemunhar é que ele não estava enganado.
            Outra recurso usado pelos surrealistas para se burlar a racionalização no ato criativo eram os jogos grupais:
“O trabalho em colaboração também era um modo de criar imagens que desafiassem o aparato racional da mente individual e consciente do artista. Os dadaístas já tinham feito alguns experimentos com o colaborativismo... No surrealismo, porém, a colaboração e o coletivismo tiveram uma importância crucial.” *
            Os surrealistas inventaram o jogo chamado cadavre exquis, cujos resultados eram regularmente publicados na revista La Revolution Surréaliste e que alguns dos quais serviram também de inspiração para obras de Miró.



Em arteterapia podemos utilizar esta técnica em grupos, onde uma folha de papel será dividia em 3 partes. Um participante desenha o que seria a cabeça – passamos o desenho para o participante da direita – um segundo o que seria o corpo – passamos para a direita – e por fim o terceiro, o que seriam as pernas e pés. O resultado é um personagem criado a 6 mãos, ao qual o participante recebe e tem a oportunidade de colocar cor e um cenário. Faz-se uma riquíssima reflexão sobre o que herdamos (dos nossos pais, da cultura, do meio ambiente, da genética, etc) e como “nos construímos como personagens” diante disto. Os resultados desta experiência riquíssima em simbolismos e conteúdos encontram-se na sessão IMAGENS QUE FALAM deste blog, com a autorização dos participantes da oficina.

            Por fim, vale a reflexão de que como terapeutas, ao propormos aos nossos pacientes técnicas que o façam experimentar o não controle, também nos coloca neste mesmo lugar:  como é para mim lidar com o acaso em minha prática como arteterapeuta?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

HISTÓRIA DA ARTE EM ARTETERAPIA

             Tenho utilizado cada vez mais na prática da arteterapia a História da Arte. Tenho aprofundado meus estudos sobre os mais variados movimentos artísticos e artistas; Seu contexto histórico, suas inspirações, motivações, expressões. Observo que levar estes estímulos ao paciente de arteterapia é uma experiência riquíssima e traz muito material para o processo de autoconhecimento.
             Pensando nisto, eu e minha parceira Flávia Hargreaves elaboramos o projeto de um Grupo Terapêutico em Arteterapia que terá como fio condutor a História da Arte.
Segue abaixo a nossa proposta e convido vocês a conhecerem!



O desenvolvimento da arte e suas técnicas, 
as diversas funções da imagem ao longo da história e 
as motivações do homem em busca de diferentes 
formas de expressão nos oferece instrumentos poderosos 
e inspiradores no caminho do auto-conhecimento 
e superação de dificuldades.

Este é um espaço terapêutico onde a História da Arte é o fio condutor 
para um diálogo criativo do indivíduo consigo mesmo em 
busca da realização de seus potenciais.