segunda-feira, 27 de abril de 2026

FOTOGRAFIA: UMA POTÊNCIA CRIATIVA NAS PALMAS DAS MÃOS



Por Ana Paula Batista - DF

Desde seu surgimento como técnica até os dias de hoje, a fotografia passou por muitos saltos tecnológicos, chegando ao momento em que temos um gerador de imagens de alta qualidade nas palmas das mãos. Ter um retrato já foi privilégio para as famílias mais abastadas, mas hoje em dia pode ser possível com a câmera do celular, de maneira muito mais acessível, tanto em termos de custos como de conhecimentos técnicos necessários.

Podemos pensar na fotografia como um recurso, com linguagem própria, para documentar, registrar e preservar memórias. Muitas vezes é difícil distinguir se uma lembrança que temos vem realmente da nossa memória ou de uma fotografia. As fotografias documentam momentos históricos da sociedade (e das nossas vidas), geram desejo quando utilizadas na publicidade, despertam emoções. Dá pra imaginar um mundo sem fotografia?

Para além do seu uso publicitário, artístico, social ou documental, a fotografia pode ser uma poderosa ferramenta para promover saúde mental e autoconhecimento. Somado a isso, considerando a capacidade para produzir imagens e seu fácil acesso, a fotografia torna-se também um recurso expressivo valioso no contexto arteterapêutico.

Quando fotografamos de forma consciente, estamos ancorados e presentes no momento, observando os detalhes e apreciando a beleza que está à nossa volta. Essa prática nos ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade, afastando-nos daquelas preocupações excessivas e dos pensamentos negativos que impactam nosso humor e nos colocam em estado de alerta, de defesa. Ao fotografar paisagens, pessoas ou objetos, estamos estabelecendo uma conexão mais profunda com o mundo ao nosso redor, o que nos traz uma sensação de pertencimento.

Se quisermos aprofundar e fazer um mergulho interior, podemos aproveitar esse ato de fotografar e observar internamente os nossos pensamentos e emoções. Ao olhar para nossas próprias fotografias, podemos desenvolver uma consciência mais ampla de nós mesmos, de nossas percepções, de como nos sentimos perante nosso ambiente. Essa prática nos ajuda a nos compreender melhor e a apreciar nossas próprias qualidades, impactando em nossa auto-estima.

Devemos ressaltar também que a fotografia é uma forma de linguagem que nos possibilita expressar aquilo que pensamos ou sentimos. Ao capturar uma imagem, estamos processando nossas experiências internas e dando-lhes um significado mais profundo. Expressar aquilo que se passa em nosso mundo interno é extremamente potente em nossa jornada de autodescoberta. Além de ser uma ferramenta de expressão, a prática da fotografia é uma forma de exercitar a criatividade, tendo em vista que podemos explorar diferentes ângulos e composições para deixar nossas imagens mais atrativas e expressivas.

No setting arteterapêutico, a fotografia traz inúmeras possibilidades de trabalho. Podemos explorar, por exemplo, fotografias do acervo pessoal dos pacientes, colocando-os em contato com lembranças e emoções, com sua autoimagem, com a própria história e com as narrativas construídas em sua vida. Daqui podem surgir colagens, linhas da vida, mandalas, livretos, contos, vídeos, entre outras atividades.

Outra possibilidade é pedir que os pacientes fotografem e aqui abre-se mais um leque de caminhos a serem percorridos. Fotografar pode ser uma forma de expressar aquilo que não é possível em palavras. Um conjunto de fotografias feitas pelos pacientes de forma livre podem trazer informações ricas a respeito de como enxergam o mundo, padrões nos temas, uso da luz, enquadramento, além de possibilitar a produção de símbolos e ampliação de consciência.

Como arteterapeutas, podemos, ainda, encorajar a elaboração de um projeto fotográfico, o que pode incluir um diário. Ter o hábito de fotografar ajuda a reduzir o estresse, tendo em vista que é uma atividade relaxante, divertida, e que coloca a pessoa no tempo presente. Elaborar um projeto ou diário fotográfico pode também exercitar a criatividade e aguçar a sensibilidade para os detalhes da vida que muitas vezes passam despercebidos, tirando o foco dos problemas.

A intenção aqui não é esgotar as possibilidades de trabalho com a fotografia no processo arteterapêutico, mas sim colocar luz nesse recurso tão poderoso e acessível, mas muitas vezes esquecido ou  não explorado em toda a sua riqueza no setting.

 

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Sobre a autora: Ana Paula Batista

 

Psicóloga, fotógrafa, graduada em Fotografia, Arteterapeuta, especialista em Qualidade de Vida no Trabalho e em formação clínica em Psicologia Analítica.

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