Por Ana Paula Batista - DF
Desde seu surgimento como técnica até os dias de hoje, a fotografia
passou por muitos saltos tecnológicos, chegando ao momento em que temos um
gerador de imagens de alta qualidade nas palmas das mãos. Ter um retrato já foi
privilégio para as famílias mais abastadas, mas hoje em dia pode ser possível
com a câmera do celular, de maneira muito mais acessível, tanto em termos de
custos como de conhecimentos técnicos necessários.
Podemos pensar na fotografia como um recurso, com linguagem própria,
para documentar, registrar e preservar memórias. Muitas vezes é difícil
distinguir se uma lembrança que temos vem realmente da nossa memória ou de uma
fotografia. As fotografias documentam momentos históricos da sociedade (e das
nossas vidas), geram desejo quando utilizadas na publicidade, despertam
emoções. Dá pra imaginar um mundo sem fotografia?
Para além do seu uso publicitário, artístico, social ou documental, a
fotografia pode ser uma poderosa ferramenta para promover saúde mental e
autoconhecimento. Somado a isso, considerando a capacidade para produzir
imagens e seu fácil acesso, a fotografia torna-se também um recurso expressivo
valioso no contexto arteterapêutico.
Quando fotografamos de forma consciente, estamos ancorados e presentes
no momento, observando os detalhes e apreciando a beleza que está à nossa
volta. Essa prática nos ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade, afastando-nos
daquelas preocupações excessivas e dos pensamentos negativos que impactam nosso
humor e nos colocam em estado de alerta, de defesa. Ao fotografar paisagens,
pessoas ou objetos, estamos estabelecendo uma conexão mais profunda com o mundo
ao nosso redor, o que nos traz uma sensação de pertencimento.
Se quisermos aprofundar e fazer um mergulho interior, podemos
aproveitar esse ato de fotografar e observar internamente os nossos pensamentos
e emoções. Ao olhar para nossas próprias fotografias, podemos desenvolver uma
consciência mais ampla de nós mesmos, de nossas percepções, de como nos
sentimos perante nosso ambiente. Essa prática nos ajuda a nos compreender
melhor e a apreciar nossas próprias qualidades, impactando em nossa
auto-estima.
Devemos ressaltar também que a fotografia é uma forma de linguagem que
nos possibilita expressar aquilo que pensamos ou sentimos. Ao capturar uma
imagem, estamos processando nossas experiências internas e dando-lhes um
significado mais profundo. Expressar aquilo que se passa em nosso mundo interno
é extremamente potente em nossa jornada de autodescoberta. Além de ser uma
ferramenta de expressão, a prática da fotografia é uma forma de exercitar a
criatividade, tendo em vista que podemos explorar diferentes ângulos e
composições para deixar nossas imagens mais atrativas e expressivas.
No setting arteterapêutico, a fotografia traz inúmeras possibilidades
de trabalho. Podemos explorar, por exemplo, fotografias do acervo pessoal dos
pacientes, colocando-os em contato com lembranças e emoções, com sua
autoimagem, com a própria história e com as narrativas construídas em sua vida.
Daqui podem surgir colagens, linhas da vida, mandalas, livretos, contos,
vídeos, entre outras atividades.
Outra possibilidade é pedir que os pacientes fotografem e aqui abre-se
mais um leque de caminhos a serem percorridos. Fotografar pode ser uma forma de
expressar aquilo que não é possível em palavras. Um conjunto de fotografias
feitas pelos pacientes de forma livre podem trazer informações ricas a respeito
de como enxergam o mundo, padrões nos temas, uso da luz, enquadramento, além de
possibilitar a produção de símbolos e ampliação de consciência.
Como arteterapeutas, podemos, ainda, encorajar a elaboração de um
projeto fotográfico, o que pode incluir um diário. Ter o hábito de fotografar
ajuda a reduzir o estresse, tendo em vista que é uma atividade relaxante,
divertida, e que coloca a pessoa no tempo presente. Elaborar um projeto ou
diário fotográfico pode também exercitar a criatividade e aguçar a
sensibilidade para os detalhes da vida que muitas vezes passam despercebidos,
tirando o foco dos problemas.
A intenção aqui não é esgotar as possibilidades de trabalho com a
fotografia no processo arteterapêutico, mas sim colocar luz nesse recurso tão
poderoso e acessível, mas muitas vezes esquecido ou não explorado em toda a sua riqueza no
setting.
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Sobre a autora: Ana Paula Batista
Psicóloga, fotógrafa, graduada em Fotografia, Arteterapeuta,
especialista em Qualidade de Vida no Trabalho e em formação clínica em
Psicologia Analítica.

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