A Terapia
Cognitivo-Comportamental trabalha com a identificação de pensamentos,
sentimentos e comportamentos, auxiliando na flexibilidade cognitiva, na
regulação emocional e em comportamentos mais funcionais, através da aceitação
do momento presente, com o compromisso de agir, dentro do que for possível no
aqui e agora, na direção do que faça sentido para o paciente/cliente. E, quando
nos deparamos com mudanças de ciclos, seja pelo ano novo, aniversário ou um
novo momento na vida, é possível perceber inúmeros pensamentos automáticos, que
geram emoções desconfortáveis, gerando conflitos internos causados,
principalmente, pela ansiedade, pelo medo do novo e dificuldades em aceitar as
situações como se apresentam e a dificuldades de agir de maneira funcional.
Como foi o caso da
paciente/cliente O., que iniciou dois novos ciclos: um novo ano e seu
aniversário, completando 61 anos. Ela apresentava resistência em ter algumas
atitudes em relação a sua situação atual, cuidadora da mãe e não conseguia auxílio
para ter um tempo e realizar suas coisas pessoais, pois acreditava que era
óbvio o que ela sentia e que as pessoas em sua volta tinham que perceber, sem
ela expressar sua necessidade e desconforto. Pensamentos rígidos como: “é um
abuso eu ter que falar” sempre estavam presente em seu discurso. Além disso,
tinha em mente que, na época em que falava o que pensava era vista como a diferente
da família, falando que se identifica muito com a música “Ovelha Negra” da Rita
Lee, cantora na qual gosta muito. Somando ao quadro, apresentava muita
ansiedade ao sair na rua, consequência ainda da pandemia, principalmente em
pensar que precisava atravessar a rua.
Com a Terapia
Cognitivo-Comportamental, fomos trabalhando o comportamento gradativo para ir à
rua e conseguir atravessar, pois foi o objetivo possível a ser trabalhado no
momento e, assim, conseguia “a liberdade” para fazer as coisas rápidas e
básicas. Fomos criando pequenas estratégias de enfrentamento, como ir a lugares
perto e na mesma calçada, até conseguir atravessar. A ansiedade ainda estava
presente, mas sentia-se feliz por conseguir atingir o objetivo proposto e,
consequentemente, atravessar a rua.
Ao iniciar o ano, também fez
aniversário e, pedi que ela trabalhasse cores e formas na escrita da idade
dela. Ela desenhou uma casa, colocou elementos dentro e conseguiu expressar que
gostaria que esses elementos estivessem também fora da casa. Com isso, sugiram
pensamentos como: “O que fazer?”, “Preciso ter noção do que fazer para não me
arrepender”, “Queria saber o que tem lá fora”, porém, ao pensar em sair, se
sentia culpada. Com isso, pensamentos e sentimentos internos surgiram, mudando
o foco de atenção que sempre era no comportamento do outro. Com esta casa e a
vontade de passar pela porta, apresentei a imagem “Batalha nas nuvens”, do
Salvador Dali. Sobre esta tela, Eliana Moraes escreve:
“Há uma porta em que alguém
entra, transforma-se [...] senta-se e, como um filme, começa a revisitar sua
biografia, seus conflitos, suas dores, suas batalhas internas. [...] Mas esta
porta também é de saída, pois não é saudável que se entre neste lugar, tranque-se
a porta e ali se permaneça contemplando as batalhas de forma inócua. Entrar
nessa sala significa rever, repensar, ressignificar e se preparar para a vida
que continua fora da sala.” (MORAES, Eliana, 2018, p.151)
A paciente O. gostou muito da imagem e com ela novos pensamentos foram surgindo: “Será que precisa brigar para passar?”, “Qual estratégia preciso para passar em segurança?”, gerando receio e medo. Mas também trouxe lembranças (que também é uma forma de pensamento em TCC) de situações em que fez mudanças na vida e que foram positivas. Na sessão seguinte trabalhamos na releitura da imagem, trazendo novos pensamentos e desejos, que antes preferia não pensar. Desenhou duas vezes, pois informou que a primeira ficou muito pequena. Traçamos novos micro passos para esses momentos, de coisas que ela queria fazer e que eram possíveis: cuidar das plantas, fazer a comida que ela gosta e que não estava se permitindo.
Nas sessões seguintes passou a
falar que a imagem sempre estava na cabeça dela ao precisar tomar alguma
decisão, além de ter conseguido conversar com a irmã sobre seus desconfortos,
colocar alguns limites. No carnaval conseguiu participar de um bloco e não
sentiu medo de morrer no meio da multidão, além de ter conseguido priorizar
algumas vontade pessoais para se divertir. Tem voltado a pensar sobre mudar de
casa, está aos poucos conseguindo fazer os cortes para sua costura em casa
(antes só fazia no ateliê do curso) e conseguiu beber um drink que tanto gosta,
sem achar que ia passar mal. Um pensamento que a tenha acompanhado junto a
lembrança da tela Batalha nas Nuvens é “Eu vou para a guerra, eu vou
conseguir”.
A partir da vivência com técnicas
da TCC e da Arteterapia, a paciente O. pode entrar em contato com seus
pensamentos e sentimentos difíceis, passando a reconhecer o que a estava
paralisando. Aceitou que precisava agir na direção dos seus objetivos, um passo
de cada vez, com compaixão consigo mesma, enfrentando seus medos em um processo
gradual de flexibilização de pensamentos e, consequentemente, mudanças em seus
comportamentos, regulando a intensidade das suas emoções.
Bibliografia:
MORAES, Eliana. Pensando a
Arteterapia. Semente Editorial: 1ª Edição, ES, 2018.
Psicóloga, Arteterapeuta e Coach




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