Em
novembro de 2025 estive participando em Belo Horizonte do Evento Novembro
Negro, na Universidade Federal de Belo Horizonte – UFMG. A convite também do Espaço de Arteterapia Não
Palavra, também foi realizada uma roda de conversa em Belo Horizonte, no dia
posterior ao evento da universidade.
Considerando novembro ser o mês da consciência, ambas instituições
solicitaram que a temática fosse a questão racial e o quanto nosso país é um
divisor que beneficia uns e segrega outros.
Assim meu livro “A relação entre o psicólogo negro e o cliente branco
foi tratada nas 2 instituições, como palestra e oficina de Arteterapia na UFMG
e como roda de conversa, no Espaço Não Palavra. Por ser psicóloga e também
Arteterapeuta, propus a oficina na UFMG usando imagens que pudessem tratar do
tema na prática arteterapêutica, usando o método SoulCollage®️ onde a colagem projetiva tem acesso
poderoso ao inconsciente pessoal e coletivo.
Por
Minas Gerais ter sido um dos estados brasileiros que mais recebeu negros
escravizados vindos do continente africano, vendidos aos colonizadores,
concentrando assim uma das maiores populações cativas no século XVIII e metade
do século XIX, considerei pertinente a temática. Lá fui eu para ver de perto a possibilidade
de uma reflexão à uma história que tanto envergonha nosso país, como a
escravidão marcada por revoltas, formação de quilombos, resistências e traumas psicológicos,
que romperam laços familiares de pertencimento, separando famílias e fragmentando
a identidade de negros escravizados por serem vendidos como mercadorias. Seus afrodescendentes enquanto traumas
transgeracionais, numa corrente de sintomas ainda hoje apresentam: baixa-estima, ansiedade, níveis de sofrimento
causando depressão e sentimentos de exclusão e não pertencimento na sociedade.
Para
minha surpresa, o número de alunos e participantes negros não foi
representativo. O que vi foram alunos negros em minoria dentro da universidade
pública e seus relatos, trouxeram a dificuldade de se sentirem representados,
tanto na formação de turmas, como no corpo docente, onde a maioria era
branca. O sentimento de exclusão foi
trazido na oficina de Arteterapia, nas imagens escolhidas e na verbalização de
sua dor expressa em palavras que jamais vou esquecer: “Sinto que não pertenço a
este lugar”. Ali pude perceber o quanto
a Psicologia e a Arteterapia necessitam trabalhar dentro da temática racial,
tanto em clientes negros quanto em brancos.
Há um bloqueio que afeta os dois lados, e nisto encontramos o racismo e
suas manifestações sutis ou declaradas.
O racismo atual, como uma exclusão social que a academia ainda
apresenta, onde alunos negros podem estar (e muitos não aguentam e abandonam o
curso) e onde os alunos brancos devem permanecer.
Minha
oficina e palestra ocorreram no prédio da engenharia da UFMG. Na palestra 80% dos inscritos eram pessoas brancas,
enquanto que a oficina vivencial teve a participação de negros e apenas uma
pessoa branca. Porém o número de
participantes na oficina muito menor que o da palestra, me fez pensar que
vivenciar uma reflexão sobre o racismo ainda é muito difícil para pessoas
brancas, pois quebra o pacto da branquitude que é “Não vamos mexer com estas
coisas” e favorece à dificuldade de acessar possibilidade de práticas
antirracistas. Na palestra a curiosidade foi saber sobre o manejo clinico de um
psicólogo negro ao receber uma pessoa branca e como ele (o profissional) atua
na questão racial. Porém, vivenciar conteúdos pessoais de consciência de
atuação racista, é outra coisa. A técnica do SoulCollage®️, pode mostrar
isto, porém trazendo a vivência para pessoas negras que ali se identificaram
com as imagens e puderam fazer suas associações. Como teve apenas uma pessoa
branca, seu discurso foi de perceber os benefícios que as pessoas brancas têm
numa sociedade racista, gerando nela o desejo de se aprofundar mais no
assunto. Esta pessoa branca, foi Eliana
Moraes. Coordenadora do Espaço de
Arteterapia Não Palavra.
No
dia seguinte da roda de conversa no Não Palavra, Eliana ainda estava tomada pela
vivência do dia anterior e com os seus convidados, pudemos fazer uma excelente
roda de conversa sobre minha pesquisa de mestrado em relação a temática racial
entre brancos e negros em um país racista.
Vale a pena analisar o quadro de Modesto Brocos, que se encontra no
início deste artigo. Se olharmos bem, o chão que a mulher negra pisa é
parcialmente compartilhado com seu marido branco, e que” este, olha na direção da criança, enquanto que
a avó pisa em um chão de “terra batida, mostrando com os braços levantados aos
céus, o agradecimento por sua filha ter tido um filho de pele clara, e sua
filha por sua vez, mostra a criança para a avó. Uma obra de reflexão trazida através da arte
deste artista plástico, onde a cor da pele embranquecida aparece como desejo,
alivio e agradecimento, representando benefícios da identidade branca.
Assim
trago aqui no blog mais esta reflexão, para que nós profissionais da saúde, tenhamos
mais atenção para o letramento necessário em relação às práticas da Psicologia
e da Arteterapia na questão étnica-racial, se desejarmos realmente um trabalho
sério de acolhimento, ressignificação e transformação psíquica. De forma sutil ou declarada, estas dores vão
entrar em nosso ambiente e precisamos saber como conduzir nosso trabalho e não
negarmos a necessidade de escuta e atenção, para que assim, aconteça o
acolhimento, o vínculo e a identificação; para que nosso cliente se sinta legitimamente
representado.
BIBLIOGRAFIA
BREWSTER,
Fanny, O Complexo Racial: Questões
raciais e culturais sob a perspectiva junguiana, Editora Vozes, 2025
FROST,
Seena. SoulCollage em evolução: um
processo de colagem intuitivo para autodescoberta e comunhão., Editora Folio
Digital, 2021
NOGUEIRA, Isildinha Batista. A cor do inconsciente: Significações do Corpo negro. Ed.
Perpectiva, 2021
NOGUEIRA, Oracy. Preconceito de marca: As relações raciais
em Itapetininga. Apresentação e Edição de Maria Laura Viveiros de Castro
Cavalcanti. São Paulo, EDUSP, 1998.
ROZANTE, Rosangela. O Arteterapeuta e a Arteterapia Decolonial.
Blog da AARJ.2023
_____________________A relação entre o psicólogo negro
e o cliente branco:
em um país racista. Ed. Dialética, SP, 2024
___________________Descolonizando e Rompendo Paradigmas de Exclusão em Arteterapia.
Blog Não Palavra. 2025
___________________ novembro com
Arteterapia e consciência negra,
Blog Arteterapeutas do Rio, 2025
Sobre a autora: ROSANGELA ROZANTE
Formação:
Psicóloga especializada em
psicologia clínica (CRP-5/5024), Especialista em Arteterapia pela UNIRIO (UBAAT-01/302/0507), Mestra em
Psicologia Clínica (PUC/RJ).
Área de
atuação/projetos/trabalhos:
Há 25 anos é diretora do Espaço
Terapêutico Caminhos do Self Artes e Terapias Integradas Ltda. Supervisora e
Coordenadora Geral do Curso de Formação Clínica de Arteterapeutas. Pesquisadora
de temas relacionados as questões étnico/raciais. Coordenadora do Projeto
Afrobetizar entre Raízes. Autora do livro: “A relação entre o psicólogo negro e
o cliente branco em um país racista”, ed. Dialética, 2025. É uma das fundadoras do Coletivo
Arteterapeutas do Rio.
Contato:
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email:
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