segunda-feira, 6 de abril de 2026

KANDISNKY COMO INSPIRAÇÃO PARA COMPREENDER AS LINHAS DA LONGEVIDADE

 


 

 


composição 8, uma das obras de Kandinsky (1923)

 Por Débora Castro

@deborarteterapia


Trabalhar com o público 60+ utilizando a arteterapia como estímulo cognitivo é um mergulho sensível em histórias, memórias e afetos. Como arteterapeuta conduzindo esse grupo, percebo cada vez mais o quanto esse público merece ser despertado para olhar a própria jornada como linhas em movimento  linhas que contam, silenciosamente, tudo aquilo que viveram.

Inspirada por essa metáfora, em uma das sessões apresentei ao grupo as obras de Kandinsky.

Wassily Kandinsky foi um dos grandes pioneiros da arte abstrata e um artista que enxergava o mundo como um campo vibrante de emoções, sons e movimentos. Para ele, a arte não era apenas forma e cor, mas uma experiência interior  quase espiritual  capaz de tocar aquilo que não se vê, mas se sente.

Kandinsky acreditava que cada linha possui uma energia própria, cada cor carrega uma vibração, e cada composição é como uma música silenciosa que ressoa dentro de quem observa. Sua obra rompeu com a necessidade de representar o mundo de maneira figurativa e abriu espaço para que a arte se tornasse expressão pura do movimento da alma.

Em seus estudos, ele descrevia a linha como resultado de uma força: uma linha reta nasce de uma força única e direta; já as linhas curvas, onduladas ou espirais surgem quando diferentes forças se encontram, se chocam ou se harmonizam. Essa visão poética da linha como trajetória, impulso e transformação faz de Kandinsky um artista profundamente conectado à ideia de vida em movimento.

Ao olhar suas obras, percebemos que nada é estático. Tudo pulsa. Tudo se desloca. Tudo se transforma. Suas composições são convites para perceber o mundo interno, para reconhecer que nossas histórias também são feitas de curvas inesperadas, desvios, retomadas e cores que mudam com o tempo.

Por isso, Kandinsky dialoga tão bem com processos terapêuticos: ele nos lembra que a vida não precisa caber em formas rígidas. Ela pode ser fluida, vibrante, livre  como uma linha que se permite existir no papel sem pedir permissão para ser o que é.

Depois da apresentação do artista e suas obras, quis provocar o olhar e o sentir, então lancei a pergunta: “Nossa vida é uma linha reta?” 

Em sintonia, o grupo respondeu que não que a vida é feita de curvas, ondulações, espirais, desvios e retomadas. Cada fase, disseram, merece ser observada e valorizada.

A partir dessa reflexão, propus que cada participante criasse, a partir da linha inicial do próprio nome, um movimento livre pela folha, sem a preocupação de formar algo figurativo. Apenas deixar a linha existir. Depois, convidei-os a preencher os espaços vazios com novas formas, permitindo que a composição revelasse o movimento da própria vida  um fluxo vibrante, colorido e cheio de significado.            


                      



O resultado foi mais do que um exercício artístico: foi um encontro com a própria trajetória, com a beleza do que se transforma e continua pulsando.

                         


Ao final da atividade, no momento do compartilhamento, cada participante foi convidado a realizar uma escrita criativa sobre a própria linha da vida. Em seguida, cada um observou sua composição a partir de vários ângulos, percebendo que, assim como no desenho podemos enxergar diferentes imagens dependendo da perspectiva, também na vida podemos olhar cada movimento da linha, cada gesto e cada fase com novos significados.

Essa mudança de olhar permitiu ao grupo compreender que a vida não é fixa nem única: ela se revela de formas diversas conforme nos reposicionamos diante dela. Ao explorar essas perspectivas, cada participante pôde valorizar sua trajetória e reconhecer a potência de ressignificar experiências, entendendo que cada curva, cada espaço e cada cor fazem parte do fluxo vivo e contínuo da própria existência.

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Sobre a autora: Débora Castro




Sou Débora de Castro, educadora apaixonada pelo poder da arte e do conhecimento. Graduada em Pedagogia e Educação Artística, com pós-graduação em Psicopedagogia e Educação Especial e Inclusiva, sigo aprofundando minha jornada acadêmica como graduanda em Psicologia.

Com formação em Arteterapia (AARJ/1411), atuo há mais de 28 anos na área da Educação, compartilhando saberes como professora de Artes Visuais e História da Arte. Atualmente, dedico-me à coordenação de um grupo de Arteterapia para Mulheres e à condução de oficinas arte terapêuticas, tanto no formato online quanto presencial.