composição 8, uma das obras de Kandinsky (1923)
@deborarteterapia
Trabalhar com
o público 60+ utilizando a arteterapia como estímulo cognitivo é um mergulho
sensível em histórias, memórias e afetos. Como arteterapeuta conduzindo esse
grupo, percebo cada vez mais o quanto esse público merece ser despertado para
olhar a própria jornada como linhas em movimento linhas que contam, silenciosamente, tudo
aquilo que viveram.
Inspirada por
essa metáfora, em uma das sessões apresentei ao grupo as obras de Kandinsky.
Wassily
Kandinsky foi um dos grandes pioneiros da arte abstrata e um artista que
enxergava o mundo como um campo vibrante de emoções, sons e movimentos. Para
ele, a arte não era apenas forma e cor, mas uma experiência interior quase espiritual capaz de tocar aquilo que não se vê, mas se
sente.
Kandinsky
acreditava que cada linha possui uma energia própria, cada cor carrega uma
vibração, e cada composição é como uma música silenciosa que ressoa dentro de
quem observa. Sua obra rompeu com a necessidade de representar o mundo de
maneira figurativa e abriu espaço para que a arte se tornasse expressão pura do
movimento da alma.
Em seus
estudos, ele descrevia a linha como resultado de uma força: uma linha reta
nasce de uma força única e direta; já as linhas curvas, onduladas ou espirais
surgem quando diferentes forças se encontram, se chocam ou se harmonizam. Essa
visão poética da linha como trajetória, impulso e transformação faz de
Kandinsky um artista profundamente conectado à ideia de vida em movimento.
Ao olhar suas
obras, percebemos que nada é estático. Tudo pulsa. Tudo se desloca. Tudo se
transforma. Suas composições são convites para perceber o mundo interno, para
reconhecer que nossas histórias também são feitas de curvas inesperadas,
desvios, retomadas e cores que mudam com o tempo.
Por isso,
Kandinsky dialoga tão bem com processos terapêuticos: ele nos lembra que a vida
não precisa caber em formas rígidas. Ela pode ser fluida, vibrante, livre como uma linha que se permite existir no
papel sem pedir permissão para ser o que é.
Depois da apresentação do artista e suas obras, quis provocar o olhar e o sentir, então lancei a pergunta: “Nossa vida é uma linha reta?”
Em sintonia, o
grupo respondeu que não que a vida é feita de curvas, ondulações, espirais,
desvios e retomadas. Cada fase, disseram, merece ser observada e valorizada.
A partir dessa reflexão, propus que cada participante criasse, a partir da linha inicial do próprio nome, um movimento livre pela folha, sem a preocupação de formar algo figurativo. Apenas deixar a linha existir. Depois, convidei-os a preencher os espaços vazios com novas formas, permitindo que a composição revelasse o movimento da própria vida um fluxo vibrante, colorido e cheio de significado.
O resultado
foi mais do que um exercício artístico: foi um encontro com a própria
trajetória, com a beleza do que se transforma e continua pulsando.
Ao final da
atividade, no momento do compartilhamento, cada participante foi convidado a
realizar uma escrita criativa sobre a própria linha da vida. Em seguida, cada
um observou sua composição a partir de vários ângulos, percebendo que, assim
como no desenho podemos enxergar diferentes imagens dependendo da perspectiva,
também na vida podemos olhar cada movimento da linha, cada gesto e cada fase
com novos significados.
Essa mudança
de olhar permitiu ao grupo compreender que a vida não é fixa nem única: ela se
revela de formas diversas conforme nos reposicionamos diante dela. Ao explorar
essas perspectivas, cada participante pôde valorizar sua trajetória e
reconhecer a potência de ressignificar experiências, entendendo que cada curva,
cada espaço e cada cor fazem parte do fluxo vivo e contínuo da própria
existência.





