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segunda-feira, 25 de maio de 2020

OS LIMITES E A CRIATIVIDADE – Parte 2: Os materiais




Por Eliana Moraes MG/RJ
naopalavra@gmail.com

Parafraseando Manoel de Barros: a criatividade caça jeito. E este é o mote do arteterapeuta atuante em tempos de isolamento social. Quando recebemos a autorização da UBAAT para atuarmos em atendimentos on line durante o período da pandemia, observei que as primeiras perguntas surgidas nos debates giraram em torno dos materiais. Como trabalhar como arteterapeutas com as possibilidades em materiais tão comprometidas, restritas apenas ao que os experienciadores têm em casa?
Instigada por esta questão, resgatei alguns textos que escrevi para este blog no ano de 2018 e compilados no livro Pensando a Arteterapia Vol 2, ao qual eu já refletia sobre o trabalho arteterapêutico com a escassez de materiais, a partir de demandas que surgiam na minha clínica, mal sabendo o futuro que nos aguardava:

Seria a escassez de material um impeditivo para o arteterapeuta trabalhar? Na verdade, muito pelo contrário. Penso que essa efetivamente é a oportunidade para que, no campo do simples, a mola mestra da Arteterapia possa emergir: a criatividade.

Criar a partir da riqueza de possibilidades é muito interessante. Mas penso que criar diante do pouco ou do quase nada é, de fato, o chão da vida. A realidade da clínica mostra-nos que vivemos em tempos de crise financeira, perdas sucessivas de poder aquisitivo, redução de possibilidades múltiplas narradas por nossos pacientes com ar de frustração e derrota, sendo o discurso do “não posso” a tônica.

Então eu pergunto aos arteterapeutas, não seria justamente essa metáfora de vida que precisamos remontar em nossos settings terapêuticos? Diante do (que parece) pouco, para onde sua criatividade o leva? Ao que sua intuição o instiga? Quais possibilidades você pode se levar a enxergar diante do que tem à frente? (MORAES, 2019, p22-23)

Em tempos de pesquisa sobre a criatividade, um livro que tem me orientado muito é o “Ser Criativo: O poder da improvisação na vida e na arte” de Stephen Nachmanovitch. No capítulo “O poder dos limites” o autor nos convida a fazer as pazes com os limites, pois estes podem fazer o papel de contornos necessários justamente para estimular a criatividade:

As vezes amaldiçoamos os limites, mas sem eles a arte não é possível. Eles nos proporcionam algo com que trabalhar e contra o que trabalhar. No exercício de nossa arte, submetemo-nos, em grande medida, àquilo que os materiais nos determinam. A viscosidade da tinta, a tensão das cordas de um violino, o ego dos atores – todos esses pontos fracos e limitações podem ser encarados como a disciplina necessária para o despertar da criatividade. A própria língua é um veículo rico de obstáculos e resistências... (NACHMANOVITCH, p 81)

Vale destacar que é uma especificidade da Arteterapia estudar as linguagens e propriedades dos materiais, compreendendo justamente quais são os limites e as possibilidades de cada um, para que possamos promover o encontro do experienciador com o material que seja mais facilitador do seu processo. Neste sentido, podemos compreender que já faz parte do nosso cotidiano conhecer e manejar com destreza os “pontos fracos e limitações” dos materiais, bem como a criatividade que pode ser despertada por cada um deles.

Seguindo seu raciocínio:

Muitas vezes é mais fácil produzir arte de boa qualidade dentro de um baixo orçamento do que de um alto orçamento. Não estou recomendando a pobreza como modus operandi; é lógico que necessitamos de materiais para criar... Mas a necessidade nos obriga a improvisar com o material que temos a mão, a recorrer a uma engenhosidade e uma inventividade que talvez não emergissem se pudéssemos adquirir soluções prontas. (NACHMANOVITCH, p 81)

Creio que uma reflexão importante que o momento presente nos traz é que, durante nossa formação em Arteterapia, temos a oportunidade de nos ser ofertado uma infinidade de materiais a serem experimentados. É o tempo da “mesa farta”. Acredito que este seja um período essencial para nossa construção uma vez que somente no processo de profunda experimentação dos mais diversos materiais é que poderemos criar intimidade com cada um deles e suas propriedades, para enfim saber acessá-los singularmente a cada momento oportuno. Entretanto, é necessário reconhecer, que ao adentrarmos a prática, muitas vezes a realidade não é esta, mas o cenário que nos apresenta é o da escassez de materiais. Neste sentido precisamos justamente acessar nossa criatividade, “recorrer a uma engenhosidade e uma inventividade que talvez não emergissem se pudéssemos adquirir...” bem logo um belo ateliê equipado com todos os materiais dos nossos sonhos!

Em minha jornada, o processo de descobertas sobre o reaproveitamento de materiais tem sido uma grande oportunidade:

Uma das características de nossa contemporaneidade faz-se em um modelo materialista e consumista. Estamos acostumados aos “descartáveis” e todos os sentidos que esse termo contém. Pensar dessa forma acarreta uma série de desdobramentos, desde subjetivos, quando não investimos na “reutilização” e “reciclagem” de nossos conteúdos psíquicos mais profundos, até materiais, quando objetivamente entulhamos nosso planeta/casa de tudo que entendemos que já cumpriu sua função em nossa vida.

O arteterapeuta, como um administrador de materiais, pode investir em uma conscientização e responsabilização daquilo que utiliza como recursos em seu setting arteterapêutico... essa é uma prática que coopera com o próprio arteterapeuta, que não deve entender que a Arteterapia só se faz com a riqueza de materiais sobre a mesa. “O chão da vida” da prática arteterapêutica... dá-se na falta de possibilidade de grandes investimentos financeiros em materiais... Na escassez de material, não se faz Arteterapia? Ao contrário, muitas vezes a realidade da vida não está na riqueza de materiais/possibilidades, e a verdadeira criatividade está justamente em criar a partir do (quase) nada. (MORAES, 2019, p 32-33)

É tempo de irmos a campo, “caçando jeito” de trabalhar com Arteterapia, abrindo mão dos materiais que já compõem nosso primeiro repertório ou zona de conforto. Para isso, é tempo de pesquisas, trocas, experimentações... e descobertas. Afinal, se trabalharemos com nossos pacientes para que eles enxerguem possibilidades diante de um cenário tão desafiador que o fenômeno da pandemia tem os imposto e desenvolvam um olhar criativo perante a vida, esta postura deve começar em nós arteterapeutas e nossa naturalidade em lidar com a escassez de materiais, na arte e na vida. 

Em próximos textos e conteúdos nas redes sociais do Não Palavra, compartilharei algumas propostas práticas que têm funcionado em meu fazer arteterapêutico em tempos de atendimentos on line.



Referências Bibliográficas:

MORAES, Eliana. Pensando a Arteterapia Vol 2. 2019
NACHMANOVITCH, Stephen. Ser Criativo: O poder da improvisação na vida e na arte.

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Sobre a autora: Eliana Moraes


Arteterapeuta e Psicóloga.


Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

segunda-feira, 18 de maio de 2020

OS LIMITES E A CRIATIVIDADE – Parte 1




naopalavra@gmail.com


Já se passaram dois meses que nossas vidas foram absolutamente atravessadas pelo fenômeno corona vírus. Antes de sermos terapeutas, somos seres humanos também inseridos neste fenômeno e inicialmente, no meu íntimo, precisei de um tempo para me compreender em meio ao caos e compreender como eu poderia atuar e contribuir nas funções de psicóloga e arteterapeuta. Afinal, terapeutas, precisamos também acolher nossas humanidades.

Desde que publiquei meu último texto neste blog, chamado “Criar e viver se interligam” CLIQUE AQUI no dia 23 de março, em meio a minha própria organização pessoal, todo meu trabalho e energia psíquica foram direcionados para o acolhimento dos pacientes nesse período de tamanha instabilidade, a migração dos atendimentos presenciais para o on line (inicialmente respaldada pela psicologia e posteriormente a partir da autorização temporária da UBAAT para os atendimentos arteterapêuticos on line) e a supervisão de terapeutas atuantes no tempo presente. (Cabe aqui observar, como sair de nós mesmos e nos disponibilizar ao outro tem, por si só, um efeito organizador)

No campo do estudo, desde o início apostei na pesquisa sobre a CRIATIVIDADE na busca de embasamentos e instrumentos para a travessia deste enorme desafio no coletivo e nas biografias de cada sujeito. Este estudo foi aquecido nos encontros (agora virtuais) dos grupos de estudos e palestras, aos quais eu pude além de teorizar, dialogar e debater com meus pares sobre como podemos atuar como terapeutas, cooperando para a saúde mental neste cenário tão atípico. (E então, instigada pelo grupo encontrei o caminho para minha contribuição)

No primeiro texto referido, parti de Fayga Ostrower e seu livro “Criatividade e processos de criação”, e pelas palavras da autora, me apropriei da ideia de que “criar e viver se interligam”, sendo assim a criatividade, não apenas pertencente ao campo da arte, mas antes, um jeito de pensar e uma forma de lidar com a vida. Seguindo o estudo em diálogo com as parcerias que me compõem, foi-me sugerido o livro “Ser Criativo: O poder da improvisação na vida e na arte” de Stephen Nachmanivitch, e este vem ampliando belamente minhas reflexões sobre a criatividade. Já em suas primeiras páginas, as palavras do autor me afetaram:

O conhecimento do processo criativo não substitui a criatividade, mas pode evitar que desistamos dela quando os desafios nos parecerem excessivamente intimidadores e a livre expressão parece bloqueada. Se soubermos que nossos inevitáveis contratempos e frustrações são fases do ciclo natural do processo criativo, se soubermos que nossos obstáculos podem se transformar em beleza, poderemos perseverar até a concretização de nossos desejos. Essa perseverança é muitas vezes um verdadeiro teste, mas há meios de passar por ele, há placas de sinalização. E a batalha, que é certamente para toda a vida, vale a pena. É uma batalha que gera um incrível prazer e uma enorme alegria. Todas as nossas tentativas são imperfeitas, mas cada uma dessas tentativas imperfeitas traz em si a oportunidade de desfrutar um prazer que não se iguala a nada neste mundo. 

O processo criativo é um caminho espiritual. E essa aventura fala de nós, de nosso ser mais profundo, do criador que existe em cada um de nós, da originalidade, que não significa o que todos nós sabemos, mas que é plena e originalmente nós. (NACHMANOVITCH, 1993, p.23)

É sabido que vivemos tempos de inevitáveis contratempos e frustrações. Mas segundo o autor, “se soubermos que nossos obstáculos podem se transformar em belezas, poderemos perseverar”. E aqui está um dos pontos que mais têm me intrigado nos atendimentos e supervisões clínicas: a maneira como cada um tem lidado com as impossibilidades que forçosamente os impele o tempo presente em sua vida prática. Afinal, como disse o autor: “essa aventura fala de nós... do criador que existe em cada um de nós”.  

Este livro tão rico em reflexões sobre aspectos da criatividade, na música, na arte e na vida, traz um capítulo em especial chamado “O poder dos limites”. Afinal, nas palavras do autor:
Olhando agora, sobre o mar, os pássaros, a vegetação, vejo que absolutamente tudo na natureza nasce no confronto entre o poder da livre expressão e o poder dos limites. Os limites podem ser intrincados, sutis e duradouros... (NACHMANOVITCH, 1993, p.41)

Sendo os limites tão naturais e corriqueiros na vida, o autor nos apresenta o poder que os limites podem imprimir em cada um de nós:

Os limites estimulam a intensidade... descobrimos que a contenção amplifica a força... Como escreveu Igor Stravinsky: ‘Quanto mais limites nos impomos, mais libertamos nosso ser dos grilhões que aprisionam o espírito’...

Trabalhar dentro dos limites impostos pelo meio nos obriga a mudar nossos próprios limites... (p 83-84)

Por fim, o autor chega a nos inspirar com a constatação de que a partir da restrição por estreitos limites, podemos alcançar outras dimensões de liberdade:

Se certos valores estão contidos dentro de estreitos limites, outros estarão livres para variar com mais força. É por isso, por exemplo, que um quarteto de cordas, solos e outras formas limitadas podem alcançar uma maior intensidade emocional do que as sinfonias, e fotos em preto e branco podem revelar maior força do que as coloridas... Se tivermos todas as cores disponíveis, às vezes estamos demasiadamente livres. Com uma dimensão restrita, a expressão se torna mais livre em outras dimensões. (p 84)

Os limites e a criatividade na vida prática

Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre as pedras. Liberdade caça jeito.
Manoel de Barros

Há alguns anos uma máxima da psicanálise marcou minha memória: “Você é o que o impossível produz em você.” Ou seja, quando você se depara com uma situação em que ao primeiro olhar lhe parece impossível, como você lida com ela? Paralisa? Desiste? Nega? Enfurece-se? Ou “teimosamente” tenta encontrar algum pequeno espaço aparentemente imperceptível de possível? É neste pensamento que hoje temos, por exemplo, sobreviventes de guerras para contar os possíveis que encontraram dentro do maior impossível de suas vidas.

Neste contexto, minha primeira reflexão se dirige aos terapeutas e suas humanidades: Quais limites o fenômeno atual têm imposto a você? Como você lida com eles? Em meio aos impossíveis, é possível amplificar sua força? Trabalhar dentro dos limites impostos pelo meio e ampliar seus próprios limites? Experimentar outras dimensões de liberdade? Transformar os obstáculos em beleza? Conectar-se com seu caminho espiritual e encontrar o sentido?

Uma vez respondidas estas perguntas, é tempo de ir à campo.

A partir da autorização da UBAAT para que arteterapeutas atuassem em atendimentos on line, um primeiro limite nos apresenta: como atender em Arteterapia com tamanha restrição de materiais?

Este é o objeto do próximo texto. Afinal, nós arteterapeutas sabemos que a criatividade caça jeito!



Referência Bibliográfica:
NACHMANIVITCH, Stephen. Ser Criativo: O poder da improvisação na vida e  na arte.


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Sobre a autora: Eliana Moraes




Arteterapeuta e Psicóloga.

Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

segunda-feira, 11 de maio de 2020

PRESO PELO PERIGO NO AR, UTILIZE UM COLAR

Colar de cravos da Índia – 14/04/2020. – confeccionado, anexado no caderno pessoal.


Solange Cabral de Deus - SP                                                                           https://artneuropsicopedagogia.blogspot.com/

O colar é um adereço estético que pode proporcionar ação do acolhimento com defesa ao exterior pelo seu forte aroma, além da sensação de se sentir especial por estar o utilizando.

O colar com cravo da Índia é uma técnica que envolve pensamento, intuição, sensação e mais sentidos. Além de uma ação acolhedora na sua confecção, utilizando os materiais, linha de algodão, agulha fina de metal e a flor do cravo da Índia, o resultado é um belo colar e um registro das sensações durante a sua realização: com a livre-expressão se manifesta por meio de sua criatividade, de seu registro, atribuindo significação à sua experiência pessoal, o que possibilita uma autoavaliação de suas manifestações pessoais.

O cravo da Índia é uma pequena planta de origem do Oriente. Rica na sua substância em propriedade oxidante contribui na imunidade natural humana.

No passado, antes de subir para falar com o Imperador, o seu secretário dava dois cravos da Índia para serem mastigados, a fim de melhorar o hálito.

Na culinária o cravo da Índia é usado, a sua “flor” conhecida aqui no Brasil como especiaria por dar valor as receitas culinárias, produz um aroma inconfundível. Usado como óleo essencial, o eugenol é o ingrediente desta especiaria, responsável pelos grandes benefícios que ela proporciona, como vitaminas A, C, K, Betacaroteno, assim como Flavonoide, selênio e magnésio, muito importante na alimentação do nosso organismo. No chá, propriedades do cravo da Índia podem ajudar como analgésico, ante inflamatório, cólicas, dores musculares, pois ele é um coadjuvante na melhora de sintomas hormonais.

Embora o cravo da Índia seja benéfico, não é recomendado ingeri-lo sem prescrição médica, pois pode provocar efeitos colaterais principalmente para quem tem problema de gastrite e está próximo à realização cirúrgica. (Dr. Peter Liu; Dr. Dayan Siebra).

Assim sendo, essa interação/ligação com o cravo da Índia, interage em dois níveis de existência, que contempla como ação Arte terapêutica.

Na Arteterapia, o cravo apesar de seu aspecto rúgido e resistente, a sua flor é totalmente sensível a perfuração da agulha, precisa de muita delicadeza ao perfura-la porque nela podemos ter o acesso para a intervenção, execução e o equilíbrio na formação do colar com cravos. A pessoa interage dentro de si com dois lados de uma mesma relação. a sua criatividade, em poder se sentir como um ser único, e sua ideia em dar equilíbrio ao colar, a realização dessa ideia já dentro de um contexto cultural. Assim, o processo criativo deve ser considerado na interligação dos dois níveis de existência humana: o individual e o cultural. (OSTROWER, 1987)

Referências Bibliográficas:

Affonso, R. S.; Rennó, M. N.; Slana, G. B. C. A.; França, T. C. C.* Aspectos Químicos e Biológicos do Óleo Essencial de Cravo da Índia. Artigo Ciêntífico.-disponível em http://static.sites.sbq.org.br/rvq.sbq.org.br/pdf/v4n2a05.pdf

DEUS, Solange CabralCaderno, suporte pessoal no processo de autoconhecimento em ArteterapiaSão Paulo. Artigo - 2019. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1UCCilmNi16FfZqCPWa_gUqqIQkj7Csgr/view

LIU, Dr. Peter. Cravo da Índia - a história do imperador. PETER LIU – Medicina Oriental. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=rESXUVAvhb0:/. Acesso em abril de 2020.

PHILIPPINI, Angela. Arteterapia em revista. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2008.

Siebra, Dr Dayan. Conheça o poderoso chá de cravo da Índia Dr Dayan
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=O3aHyrWRPrU     Acesso em abril de 2020.

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Sobre a autora: Solange Cabral de Deus


Arteterapeuta e Pedagoga

Professora de Educação Básica formada no Ensino Normal – Magistério- Educação Pública do Estado de São Paulo. S.P.
Graduada em Pedagogia, Educação Artística e Letras pela UNG Universidade Guarulhos.
Estudou Psicopedagogia Clínica e Institucional pela UNINOVE- Universidade Nove de Julho. São Paulo -S.P.
Introdução ao estudo de Psicanálise Integrativa – SBPI – Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa – São Paulo. S.P.
Psicanálise Interativa de São Paulo. S.P.
Extensão em Psicologia Analítica Junguiana pelo Instituto Eros
psicologia analítica. São Paulo – S.P.
Especialista em Arteterapia e Criatividade pela Faculdade Vicentina- P.R.
Focalizada a Arte Visual – registro, bem estar, autoconhecimento por meio de intervenção artística
Atua como professora de Arte na Rede de ensino da Educação Básica II do Estado de São Paulo. S.P.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

PARTICULARIDADES DA ARTETERAPIA



Por Isabel Cristina Carvalho Pires (RJ)
bel.antigin@gmail.com

Nesse meu último texto em sequência, surgido a partir da minha monografia de final do curso de psicologia, intitulada “Arte como transformação: articulações entre o pensamento de Vygotsky, a psicologia e a arteterapia”, abordarei três aspectos importantes que marcam a singularidade do trabalho de arteterapia em relação a outros trabalhos terapêuticos em que a arte está presente. Hoje, a arteterapia constitui-se num processo psicoterapêutico de características próprias, singulares. Apoia-se em abordagens psicológicas diferentes que compartilham da mesma ideia central de que a arte contribui para a expressão da subjetividade.

Uma das características fundamentais da arteterapia é o universo da materialidade, que consiste na representação de conteúdos internos, desconhecidos do indivíduo, através do uso de materiais diferentes em diversas formas de expressão artística, como o desenho, a pintura, a modelagem, a música, a dramatização, a dança, entre outras, com suas variadas linguagens (plástica, escrita, corporal, sonora). Essas atividades artísticas ampliam as possibilidades de expressão do indivíduo para além da linguagem verbal, embora esta também faça parte importante do processo arteterapêutico. Assim, é fundamental, para o arteterapeuta, o conhecimento não apenas da enorme gama de materiais existentes, mas também e principalmente das propriedades terapêuticas de cada um deles e de suas linguagens subjetivas. Cada tipo de material pode mobilizar uma determinada reação e emoção no indivíduo, cada produção do indivíduo possui um significado particular, relativo a seu universo, sendo, portanto, algo que diz sobre ele. Assim, a escolha do tipo de material a ser usado deverá ser feita a partir da escuta do indivíduo, a qual vai revelar, ao arteterapeuta capacitado e atento, as questões a serem trabalhadas e o momento psíquico do indivíduo. Segundo Christo (2009, p.14), “uma técnica só deverá ser utilizada quando ela fizer algum sentido no tema que o indivíduo estiver trazendo”. A autora afirma que o arteterapeuta deve escolher determinada técnica em função das temáticas que o indivíduo traz para o espaço terapêutico e do que o está mobilizando no dia da sessão, sem haver uma programação antecipada da técnica a ser utilizada. Além disso, Tavares e Prestes (2018) também lembram que, uma vez que a arteterapia pode ser usada com todas as faixas etárias, desde a infância até a velhice, as fases de desenvolvimento do indivíduo também devem ser levadas em consideração na escolha do material a ser usado (por exemplo, deve-se atentar para a dificuldade de manejo de certos materiais pelo idoso que já apresente alguma debilidade física). E também contará para essa escolha de técnicas e materiais plásticos o campo de atuação, que, hoje em dia, varia desde o trabalho em instituições psiquiátricas até os hospitais e clínicas de tratamento de dependentes químicos, por exemplo. Além disso, há que se considerar, por exemplo, se o trabalho é individual ou em grupo. Finalmente, a praticidade ou não de uma técnica também deve ser considerada: materiais de difícil aplicação (como a litogravura, por exemplo) tornam-se praticamente inviáveis num consultório convencional.

Conforme Philippini (1998), as primeiras atividades plásticas devem exigir desempenhos mais simples, que envolvam prazer e ludicidade, para não agravarem as resistências pertinentes a qualquer processo terapêutico inicial. É comum, nas primeiras sessões, o desejo do indivíduo de “agradar” ao terapeuta com um bom desempenho estético, o que é expresso pela fala, frequentemente ouvida nesses momentos: “Eu não sei desenhar”. Por isso, comumente se inicia o processo com trabalhos em colagem, nos quais a imagem já está pronta (mas que, assim mesmo, fornecerá informações sobre aspectos psicodinâmicos daquele momento do indivíduo). Segundo Philippini (1998), podem-se usar, também, manchas, rabiscos, papeis rasgados, entre outros elementos ausentes de forma, para que o indivíduo entenda que não precisa “fazer bonito”. A utilização de materiais expressivos poderá variar de materiais que possibilitam maior controle, como a colagem, até os de maior liberação e fluidez, como a pintura e a modelagem.

A gradação das diferentes linguagens expressivas costuma variar do plano bidimensional para o tridimensional. De acordo com Philippini (1998), pode-se e deve-se observar quais modalidades expressivas mais se adequam e mais facilitam o processo do indivíduo, de forma que ele possa resgatar, ativar e expandir suas possibilidades criativas singulares. Na abordagem junguiana, seguida por Angela Philippini (1995), esse processo criativo visa desbloquear e trazer à consciência o lado sombra, conteúdo desconhecido da psique humana, através da produção de imagens, que representam símbolos importantes para aquele indivíduo em seu processo de autoconhecimento.

A lista de materiais que podem ser utilizados em arteterapia é infindável e vai desde a colagem, o desenho, a pintura e a modelagem, passando pelo bordado, o mosaico, o uso de sucata até a contação de histórias, a tecelagem e a escrita criativa. Por isso, cabe ao arteterapeuta o estudo e experimentação constante de novos materiais e novas técnicas artísticas, em suas próprias produções, além do uso em seu trabalho com os pacientes. Para o arteterapeuta e sua formação, é fundamental que a experimentação artística seja parte de sua vida, de seu próprio processo de autoconhecimento, o que fará com que seu trabalho com o outro ganhe profundidade, intuição e empatia (PAIN E JARREAU, 1996).

Outro aspecto fundamental do processo arteterapêutico é a atuação do arteterapeuta na condução desse processo. Além de oferecer o material mais adequado ao indivíduo dentro de suas temáticas e possibilidades momentâneas, cabe ao arteterapeuta atuar como mediador do processo. Segundo Urrutigaray (2011, p.98), o profissional de arteterapia “deve buscar, intencionalmente, que o indivíduo perceba suas características e qualidades individuais presentes na obra (...)”, o que pode trazer à consciência acontecimentos psíquicos ainda não percebidos pelo paciente. Como explica Urrutigaray (2011), o trabalho do arteterapeuta deve ser o de estimular a produção do paciente e acompanhá-la até o fim, observando as reações e a fala do indivíduo enquanto executa seu trabalho artístico.

Assim, o papel do arteterapeuta será o de acompanhar o paciente, numa trajetória de incertezas, experimentações, construções e desconstruções, cujo norteador serão as produções pictóricas e a fala do paciente. Cabe ao arteterapeuta ser o facilitador do processo, ao mesmo tempo em que deve evitar racionalizações e interpretações reducionistas das imagens criadas. Por intermédio da sua escuta sensível e de seu olhar atento, o arteterapeuta capacitado convida o indivíduo a explorar suas criações artísticas para a conscientização de conteúdos até então desconhecidos, que podem, assim, ser elaborados, integrados e trabalhados com autonomia pelo próprio paciente. Nesse sentido, é de fundamental importância que o paciente se sinta à vontade no setting terapêutico, termo que se usa para o local onde a sessão acontece. Deve ser um ambiente tranquilo, acolhedor e sagrado  ̶  “sagrado no sentido de permitir a observação da intimidade, da particularidade de cada indivíduo” (URRUTIGARAY, 2011, p. 118).

Outra peculiaridade importante da arteterapia é o fazer criativo, que permite ao indivíduo agir sobre suas questões, não apenas falar sobre elas. Moraes (2018), que é psicóloga, arteterapeuta e escritora, define o conceito de “agir criativo”:

O agir amparado pelo continente do setting arteterapêutico através da criação é uma especificidade da Arteterapia dentre os procedimentos terapêuticos. Dessa forma, o setting configura-se como um ambiente suportado pela transferência com o arteterapeuta para que o cliente/paciente vivencie-se no fazer, articule-se em si, alcançando níveis de consciência mais elevados. Que, através da criação, ele se perceba em suas repetições, resistências, sintomas, e tenha a oportunidade de enfrentá-las. Que em meio a essa experiência tome decisões sobre esse enfrentamento (ou não) e que assim se responsabilize por si como autor e protagonista de sua obra/história, alcançando uma realidade nova em dimensões novas. (MORAES, 2018, pp. 75-77)

A respeito do fazer criativo, Philippini (1996, p. 3) menciona o poder das mãos como instrumentos terapêuticos. Explica que, em tempos muito antigos, na Índia, por exemplo, as mãos ligavam-se ao Divino, através de rituais e posturas, apresentando uma função simbólica e transcendente. Em arteterapia, resgata-se o valor das mãos como instrumentos de construção, ao se “por a mão na massa”; mãos que traçam linhas, fios, que moldam, rasgam, amassam, colam... numa infinidade de movimentos e ações, que transformam o exterior (materiais) e o interior (psique do indivíduo). O indivíduo sai do passivo para um estado ativo. Boechat, prefaciando a obra de Urrutigaray (2011) reflete que é preciso libertar as mãos ocidentais, aprisionadas por uma cultura racionalizante, “cerebral”, que tiraniza a vivência emocional. Ainda segundo esse autor, o psiquismo permeia o corpo todo – inclusive braços e mãos –, logo é necessário que se libertem energias esquecidas. E a arteterapia cumpre esse importante papel, ajudando na recuperação de atividades abandonadas e no renascimento de habilidades já esquecidas.

É importante lembrar que esse texto foi escrito no ano passado, logo antes do isolamento social. Hoje, algumas práticas criativas ainda usadas em atendimentos online precisam contar com a limitação, a falta ou a escassez de materiais, o que exige do profissional o exercício de sua flexibilidade e criatividade. É um desafio, que pode ser contornado, por exemplo, com o uso de práticas artísticas imateriais, como contos, música, vídeos, filmes, poesias... e muita imaginação. A tecnologia, que muitas vezes pode despotencializar o trabalho das mãos, agora vem para nos auxiliar na obtenção de recursos digitais, provando ser, também, um instrumento útil e válido para o trabalho criativo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


·         BOECHAT, W.; A libertação das mãos. In: URRUTIGARAY, M.C. Arteterapia: a transformação pessoal pelas imagens. 5ed. Rio de Janeiro: Wak, 2011.
·         CHRISTO, E. Criatividade em arteterapia: pintando e desenhando, recortando, colando & dobrando. 5 ed. Rio de Janeiro: Wak, 2009.
·         MORAES, E. Pensando a Arteterapia. 1 ed. Divino de São Lourenço, ES: Editora Semente Editorial, 2018.
·         PAIN, S.; JARREAU, G. Teoria e Técnica da Arte-Terapia: a compreensão do sujeito. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
·         PHILIPPINI, A. Mas o que é mesmo arteterapia? Coleção de Revistas de Arteterapia Imagens da Transformação, Rio de Janeiro, volume V, n. 5, 1998. Pomar.
·         -------------------. Materialidade e arteterapia. Coleção de Revistas de Arteterapia Imagens da Transformação, Rio de Janeiro, volume III, n. 3, 1996. Pomar.
·         -------------------. Universo Junguiano e Arteterapia. Coleção de Revistas de Arteterapia Imagens da Transformação, Rio de Janeiro, volume II, n. 2, 1995.
Pomar.
·         TAVARES, J.; PRESTES, V. Arteterapia como estratégia psicológica para a saúde mental. Revista de Inicação Científica da Unifarma, Paraná, vol. 3, n., 2018. Disponível em: <http://revista.famma.br/unifamma/index.php/RIC/article/view/392> Acesso em: 04/09/19.
·         URRUTIGARAY, M.C. Arteterapia: a transformação pessoal pelas imagens. 5ed. Rio de Janeiro: Wak, 2011.

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Sobre a autora: Isabel Cristina Carvalho Pires





Formação: Jornalismo, Pedagogia, Antiginástica ®,  Arteterapia e Psicologia
Área de atuação/projetos/trabalhos: Atendimentos individuais ou em grupo

A autora é arteterapeuta e psicóloga. Tem formação e experiência em
Antiginástica ® Thèrese Bertherat, é jornalista e professora de inglês e francês. Realiza atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia.