“Minhas Marilyns” por Claudia Abe
Por Claudia Maria Orfei Abe
- São Paulo/SP
Instagram: @claudia_abe_
“Adivinha quem vamos pintar
hoje!” – “É uma atriz americana”. – Eu disse em voz bem alta!
Meu pai arriscou dois nomes
de atrizes antigas. Minha tia materna falou que não conhecia nenhuma.
“É loira. Apareceu num filme
com o vestido voando”. – Continuei dando dica.
“Marilyn Monroe!”,
eu falei.
Iniciei a sessão
arteterapêutica, com meu pai e minha tia materna, conversando sobre o artista
Andy Warhol, empresário, pintor e cineasta norte-americano, que pertenceu ao
movimento Pop Art. É dele a frase que “um dia, todos terão direito a 15 minutos
de fama”. Mostrei pelo celular algumas de suas obras famosas, vendidas por
milhões de dólares. Aproveitei também para mostrar a eles a pintura que eu
mesma havia feito na noite anterior, usando como inspiração a obra de Andy
Warhol – “Marilyn Diptych” (1962) – aqui com seis imagens de Marilyn Monroe,
onde experenciei os lápis cor de pele em três tons, e outras três imagens
pintadas com cores complementares (foto no início deste texto). Deixei
a obra sobre a mesa para eles se inspirarem para as suas próprias pinturas.
Lápis tons de pele
De acordo com Ferreira
(2013, p.22), uma cor primária sempre terá uma cor secundária como complementar
e vice-versa. Por exemplo: vermelha e verde, azul e laranja, amarela e violeta.
Meu pai escolheu para esta
sessão trabalhar com os seus lápis de cor aquareláveis. Conforme Carrano e
Requião (2013, p.74), “o lápis de cor aquarelável, de boa qualidade, é macio e
seu colorido mais intenso. Ele permite uma riqueza de detalhes, o limite da
linha e a mistura de seu pigmento durante o ato do desenho”.
Chamou minha atenção o fato
de minha tia iniciar seu trabalho colorindo a primeira figura, e o meu pai
iniciou-o pela última. Os dois permaneceram um longo tempo utilizando suas
primeiras cores escolhidas.
Ele caprichou bastante nos
cabelos loiros do seu primeiro desenho, depois fez acabamentos nos contornos
dos cabelos na cor preta. Em seguida, começou a experimentar outras cores para
partes do desenho, porém não ficou satisfeito com o resultado.
Aproveitei para colocar
músicas antigas pelo celular, e percebi meu pai fazendo movimentos de dança com
o seu corpo, no ritmo das músicas. Propositadamente, escolhi músicas que eu
sabia que ele gostava, ou aquelas que ele ouvia quando eu era criança. Ele
chegou a batucar na mesa ao ritmo de algumas músicas. Adorou ouvir Raindrops
keep fallin’ on my head de B. J. Thomas e Song Song Blue de Neil
Diamond.
A
música não é um recurso inofensivo, ela é potente e invasiva. Ela faz parte da
constituição humana, portanto se comunica muito rapidamente com as nossas
emoções, com o nosso intelecto, com as nossas tensões e com o nosso corpo como
um todo, desencadeando uma série de experiências. (CARIBÉ, 2012, p. 143)
Meu pai permaneceu fazendo
movimentos, indo de uma figura à outra, pintava um pouco, voltava à figura
anterior, mudava, retornava.
Quando olhei para os
trabalhos, minha tia já estava na quinta figura enquanto meu pai ainda retocava
a primeira. Pedi que olhassem os trabalhos um do outro.
Pai: Eu tô no primeiro
ainda. É prá hoje?
Subitamente respondi que
sim, mas depois falei que ele poderia fazer com calma.
E assim meu pai continuou
intercalando as pinturas num movimento de vaivém, retocando, fazendo detalhes
na roupa de Marilyn, pintando os cabelos de cores diferentes, cobrindo a cor
anterior por uma nova.
A
cor para o sujeito, no entanto, refere-se à sensação que o indivíduo possui em
relação à distância e à atenção que a cor pode causar e a percepção desta cor.
A percepção da cor refere-se ao sentimento do sujeito em relação à mesma, ao
valor afetivo, que pode ter sido registrado desde a infância. (SEIXAS, 2012, p.
93)
No meio da sessão propus uma
ligeira parada para hidratação, pois estava muito calor, e ofereci uma bebida
para ambos.
“Avisa minha família...”, referindo-se que ainda tinha muito por fazer. Sempre menciona que o trabalho requer muito de si.
Enquanto isso, minha tia
como sempre foi fazendo suas pinturas, numa velocidade uniforme, pintando
primeiramente todos os rostos e cabelos, deixando para o final o fundo de cada
imagem.
Tia:
“Marilyn em seis cores”
Palavra final: Beleza
Por outro lado, meu pai com todo aquele movimento vaivém, fez uma variação de cores de peles, cabelos, roupas, porém deixou o fundo sem colorir. Resolveu realçar as linhas nas cores preta, azul, verde, laranja e vermelha, como se fossem as molduras, valorizando seu trabalho.
Pai: “Linda em todas as cores. Marilyn Monroe”
Palavra
final: Harmonia de cores
Aproveitei essa ocasião para
estrear os lápis de cor nos tons de pele, que ganhei. Adorei o presente !
Bibliografia:
CARIBÉ, Mariana. Música,
Musicoterapia e Arteterapia: algumas reflexões. Diálogos criativos entre a
Arteterapia e a Psicologia Junguiana. Carla Maciel e Celeste Carneiro (orgs).
Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012.
CARRANO, Eveline e REQUIÃO,
Maria Helena – Materiais de arte: sua linguagem subjetiva para o
trabalho terapêutico e pedagógico. – Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013.
FERREIRA, Kacianni. Psicologia
das cores. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013.
SEIXAS, Larissa Martins. Encantando
Arteterapeutas. Diálogos criativos entre a Arteterapia e a Psicologia
Junguiana. Carla Maciel e Celeste Carneiro (orgs). Rio de Janeiro: Wak Editora,
2012.
https://www.wikiart.org/pt/andy-warhol:
Acessada em 18 novembro 2021.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Celebridade_instant%C3%A2nea :
Acessada em 18 novembro 2021.
Se você quiser ler meus
textos anteriores neste blog, são eles:
Um Desafio – 11/10/21
O Branco no Branco –
23/08/21
Tudo Começa em Pizza –
28/06/21
Um Material Inusitado – O
Carimbo de Placenta – 10/05/21
As Vistas do Monte Fuji –
22/03/21
É Pitanga! – 07/12/20
O que é que a Baiana tem? –
26/10/20
Escrita prá lá de criativa –
27/09/20
Fazer o Máximo com o Mínimo
– 01/06/20
Tempo de Corona Vírus, Tempo
de se Reinventar – 13/04/20
Minha Origem: Itália e Japão
– 17/02/20
Salvador Dalí e “As Minhas
Gavetas Internas” – 11/11/19
“’O olhar que não se
perdeu’: diálogos arteterapêuticos entre pai e filha” – 19/08/19
Sobre a autora: Claudia
Maria Orfei Abe
Arteterapeuta – atuei em
instituição com o projeto “Cuidando do Cuidador”, para familiares e
acompanhantes dos atendidos. Atuei também em instituição de longa permanência para
idosos com o projeto “Mandalas”, sua maioria com Doença de Alzheimer.
Voluntária com o projeto
online “Cuidando do Cuidador”, para cuidadores familiares de pessoas com a
Doença de Alzheimer, no grupo GAIAlzheimer, São Paulo.
Idealizadora do projeto “Simplesmente
Eu” com atendimento grupal online, para pessoas que não conhecem a arteterapia.
Autora do texto “Salvador
Dalí e as minhas gavetas internas”, publicado no livro Escritos em Arteterapia:
Coletivo Não Palavra – organizado por Eliana Moraes, 2020, Semente Editorial.
Atendo em domicílio e
online.
Muito bom Cláudia,precisa publicar todo esse trabalho maravilhoso,vai ajudar muita gente,tem muitas pessoas sofrendo com esse mal, principalmente idosos.Parabens amiga.
ResponderExcluirQue lindo!!!!
ResponderExcluirÉ pra hoje?
"Linda...em todas as cores!!!"
Amei!
Parabéns!!!!
Parabenss pelo belo trabalho, Claudia!! Abração,
ResponderExcluirElizabeth Piovezan
Adorei seu trabalho, sua escolha - Marilyn, sensacional - fora que, uniu tudo, com música.
ResponderExcluirInteressante a diferença, no desenvolvimento do trabalho do seu pai e da sua tia.
Parabéns pelo trabalho!🌻
Abração para você
Lilia Thomaz
Que sensibilidade! Lindo trabalho! Parabéns.
ResponderExcluirParabéns, Claudia! Pela dedicação e por compartilhar essa experiência de seus familiares.Lindo trabalho.
ResponderExcluirParabéns, Claudia! Pela dedicação e por compartilhar essa experiência de seus familiares.Lindo trabalho.
ResponderExcluirResponder
Cláudia, querida! Show, show!!! Maravilhosa experiência, como sempre. Seu pai e sua tia nos mostram que é possível, sim, exercitar a Arteterapia em qualquer idade sempre mediada por uma excelente profissional. Adoro ler seus textos leve e fluídos como você. Parabéns. Avanteeee beijosss
ResponderExcluirLindo trabalho, Terapia x Arte x Música, mexendo com os sentidos. Parabéns!
ResponderExcluirMuito bom todo o trabalho realizado. Enquanto eu lia imaginava quão gratificante foi o encontro.o trabalho deles hj estão lindos, interessante é perceber que eles respeitam os limites (traços) de cada parte do desenho sem deixar que as cores ultrapassem as linhas. Muito bom! Parabéns!!
ResponderExcluirAndréa dos Santos
Parabéns querida Cláudia!
ResponderExcluirTrabalho espectacular!
Seu Pai dançou!
Bem hajam!
Beijinhos 😘😘😘😘
Que trabalho legal! Parabéns!
ResponderExcluirÉ uma delícia ler seus textos Cláudia, principalmente nas partes que você relata as atitudes do seu pai. Ele é sempre surpreendente, um grande personagem!!!
ResponderExcluirA sua tia também é uma grande personagem só que mais previsível.
Mas o que chamou a minha atenção nos 3 trabalhos, seu e dos dois, foi a interpretação que cada um deu na parte de baixo do rosto da Marilyn Monroe. Você considerou parte do corpo dela, o seu pai como se fosse uma gola da roupa e sua tia como se não fizesse parte do desenho!
Achei interessante!
Silvia Mayumi Koga
Seu pai tava curtindo né? Parece que degustava o que fazia! Trabalharam memória e raciocínio entre outros! Você propiciou a eles momentos alegres. Eles mostraram muita criatividade. Seu pai colocou mais força nas cores. Eu gosto. Sua tia pretendeu a perfeição. Cada um do seu modo, mostrou do que é capaz! Parabéns amiga, por mais show de arteterapia!
ResponderExcluirArilce
Parabéns, Claudia. Uma vez mais, adorei ler o seu texto, a maneira delicada e profunda, como escreve e pensa. Apreciei também, como a sua Tia e seu Pai, reagem de maneira diferente, e como reagem. É uma lição de vida, para mim. Sou sempre muito sensível ao seu lindo trabalho de Arteterapeuta. Continue. Um grande abraço e saudades. Ivone
ResponderExcluirQue riqueza de trabalho! Seus textos estão cada vez melhores. Acompanhar os trabalhos criativos do "Pai e da Tia" já fazem parte da nossa rotina de encantamento e nutrição com atividades criativas. Parabéns, Claudia! Saúde, sucesso e muitos encontros com estes dois que são como nossos professores! Bjs.
ResponderExcluirClaudia, Parabéns!! Texto lindo e suave. Sempre inovando e criando situações para seu pai e sua tia interagir com as atividades.
ResponderExcluirSeu pai, colorindo Marilyn Monroe, e ao mesmo tempo, fazendo movimentos ao som da música, é um exercício e tanto para sua memória. Achei muito interessante.
Sua tia mais concentrada na pintura, tentando terminar, enqto seu pai ainda no começo.
Sensacional !
Lindo trabalho!
Bjs
Cecilia Massuyama
A Cláudia não se atem somente ao pai e à tia, ela consegue fazer que também participemos do trabalho, com a riqueza de detalhes em explicar o que está trabalhando e o significado de tudo aquilo. Trabalho impecável. Ficaram lindos os desenhos. Cada um do seu jeitinho.
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