Páginas

terça-feira, 18 de novembro de 2014

DO ABSOLUTO AO ABSTRATO, AS VERDADES DESCONSTRUÍDAS NO MUNDO DA ARTE


                           
Vassili Kandisnky (Russo. 1866-1944). Primeira Aquarela Abstrata (1910).


Por Maria Cristina Resende

A cena acontece no início do século XX, um momento político-sócio-cultural tenso. Nas ciências, mudanças para todos os lados, a física com a relatividade e a física quântica, no mundo psi a psicanálise e a sua interpretação dos sonhos, na política a guerra! E a Arte? Onde ela está nesse momento, ou melhor, como ela reflete esse contexto social?

Primeiramente podemos perceber que as palavras de ordem no início do século XX são: MUDANÇA e DESCONSTRUÇÃO. O homem se encontra diante da necessidade de revisão das verdades outrora tidas como absolutas. Formas antigas dão lugar a novas modalidades de pensar, de calcular, de sentir e também de expressar. E na busca por essa desconstrução do mundo das formas, o abstrato surge, na Arte, como uma possibilidade de entrar na subjetividade do mundo.

A física nos mostra que a matéria não é tão sólida quanto pensávamos, que ela é na verdade “cheia” de espaços vazios, que o tempo não é linear, é relativo. As ciências da mente nos mostram que existe “algo” que pensa em nós, e às vezes por nós, a Psicanálise recupera a importância dos sonhos sob uma nova perspectiva. O mundo não é mais regido pelas leis racionais de causa e efeito, não existem mais certezas e verdades, não há mais um “porto seguro”, não podemos mais confiar nos nossos sentidos, nos nossos olhos, pois existe um universo naquilo que não vemos, no imaterial, no abstrato. A subjetividade se revela e a Arte busca expressar este novo mundo com novos e múltiplos caminhos. A objetividade e a precisão dão lugar a uma nova percepção sobre as coisas do mundo, pois nada mais é somente aquilo que se vê, há uma “alma secreta” nas coisas, há algo que os olhos não percebem e que a Arte captura.

Este é o tema dos últimos encontros do “Grupo de Estudos em Arteterapia: O encontro da Arte e da Psicologia no setting arteterapêutico”, que coordeno ao lado de Flávia Hargreaves, na Casa 2,  onde buscamos compreender o papel da Arte, o como ela irá dar forma e expressar as tensões e as mudanças na sociedade, sejam elas de fundo político, cultural, econômico ou científico. Buscamos junto a esta reflexão, fazer uma analogia ao que ocorre na clínica com a arteterapia e o uso das técnicas expressivas em psicoterapia, onde a expressão plástica do cliente será também o desdobramento das tensões, angústias e transições vivenciadas por sua psique.

Através do atual estudo do texto “O simbolismo nas artes plásticas”, de Aniela Jaffé (O Homem e seus Símbolos), percebemos que os movimentos artísticos seguem lado a lado ao movimento individual de qualquer pessoa. Quando os nossos paradigmas vigentes estão em desconstrução, buscamos a percepção desse novo mundo e novas formas vão sendo descobertas. A arteterapia busca acessar essa “alma secreta” das coisas, aquilo que os materiais possuem e que à primeira vista não percebemos. Assim como em nossa psique, nossas atitudes muitas vezes contêm uma “alma secreta” que nossa mente consciente não percebe. Em nossa psique profunda habita também uma “alma secreta” que se constela através das práticas terapêuticas, e a arteterapia “toma emprestado” a riqueza do discurso dos movimentos artísticos para a captura dessas várias “almas secretas” escondidas dentro-fora de nós.

GRUPO DE ESTUDOS EM ARTETERAPIA

O encontro da Arte e da Psicologia no setting arteterapêutico

com Maria Cristina de Resende e Flávia Hargreaves

Encontros quinzenais. Segundas-feiras. Das 18:30h às 20h.

Local: Casa 2. Botafogo. Rio de Janeiro.

Contato: crisilha@hotmail.com

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

HISTÓRIA DA ARTE COMO ESTÍMULO PROJETIVO


Parte central do tríptico “Jardim das Delícias”, 1504, 
Hieronymus Bosch (1450/1516 | Países Baixos), Acervo: Museu do Prado, Madri.

Por Eliana Moraes e Flávia Hargreaves

Nossa jornada pela História da Arte iniciou-se por pura intuição em 2009, quando decidimos estudar a biografia de alguns artistas. Conhecê-los nos fez perceber como suas histórias de vida transbordavam para seus processos criativos e decidimos experimentá-los. Mais adiante, percebemos que não só os artistas individualmente, mas os movimentos artísticos ao longo de toda a história do homem são transbordamentos de um contexto histórico que traduzem questões humanas no coletivo.

Nossa pesquisa foi avançando e percebemos que ao longo da história da humanidade e sua intensa produção de imagens, o homem desenvolveu técnicas, foi movido por necessidades e desejos diversos, usou a Arte com intenções e funções distintas (políticas, religiosas, educativas, etc.), desenvolveu sua inteligência, habilidades manuais e imaginação. Em todos os tempos, a Arte se apresenta como uma necessidade na intermediação do homem com o meio, buscando um equilíbrio.

Como arteterapeutas, nosso encantamento pela História da Arte se aprofundou ao constatarmos que toda esta dinâmica nos oferece instrumentos poderosos e inspiradores para a nossa prática. Levar para o setting terapêutico (individual ou grupo) conteúdos da História da Arte como estímulo projetivo –  seja apresentando a biografia de um artista e/ou experimentando seu processo criativo no campo individual, ou entrar em contato com determinado movimento artístico, seu contexto histórico e motivações expressivas no campo coletivo – significa rever o potencial e a aplicabilidade desta como ferramenta na arteterapia.

Em nossa formação como arteterapeutas com base teórica na Psicologia Analítica de Jung, estamos familiarizados com o conceito de inconsciente coletivo, camada mais profunda da psique, onde residem os “arquétipos”, estruturas herdadas, constituídas ao longo de milhares de anos e que correspondem às experiências humanas compartilhadas como nascimento, morte, juventude, envelhecimento, pai, mãe, etc. Temos acesso a este vasto material, comum a todos os homens, através de imagens que surgem em sonhos e fantasias materializadas na produção artística.

Estamos habituados a utilizar como estímulo projetivo contos e mitos, partindo do princípio que simbolicamente os conteúdos destas histórias são figuras arquetípicas presentes em nosso psiquismo. Embasadas em nossa pesquisa e prática, acreditamos que a História da Arte também se apresenta com grande potencial de estímulo projetivo, com sua grande riqueza e diversidade de estilos, linguagens, técnicas, motivações, sempre dando forma às questões humanas individuais e coletivas. Esta proposta dá ao paciente/cliente a oportunidade de entrar em contato com estes diversos homens/épocas, identificando como estas imagens os afetam, observando o processo de como se percebe neste contexto, como se sente experimentando este estímulo e processo criativo. É confortável, desconfortável? É um desafio possível de seguir em frente ou é “agressivo” demais para mim? É estimulante ou motivo de resistência? E assim por diante...

O estímulo por mitos e contos muitas vezes demanda um exercício de interpretação simbólica que para alguns perfis de pacientes/clientes é mais difícil entrar em contato. A especificidade de utilizar a História da Arte, está em trazer fatos, histórias reais, localizadas no tempo e no espaço, imagens mais próximas e de fácil acesso, mas que, como os mitos, trazem conteúdos ricos e possíveis de amplificar, tendo sempre em mente que é justamente a Arte a principal responsável por materializar, dar forma, ao longo da história da humanidade aos conteúdos do inconsciente coletivo, ilustrando inclusive os contos e os mitos.