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segunda-feira, 30 de março de 2020

O OLHAR SOB NOVAS PERSPECTIVAS EM ARTETERAPIA


Colagem tridimensional de Ferreira Gullar

Por Patricia Serrano -  RJ

Por ocasião do trabalho de conclusão do módulo Gestalt da Arte – Percepção e tomada de consciência do curso de formação em Arteterapia que participo, tive a oportunidade de entrar em contato com os principais conceitos da Gestalt e articular com as técnicas expressivas da Arteterapia. 
Trabalhamos duas ferramentas da Gestalt Terapia: o conceitos maximizando e minimizando. Juliano (1999) nos traz as seguintes definições: 
Maximizando – quando o cliente fica preso a detalhes, incapaz de ter uma visão geral e ampla, é possível sugerir que mude de lugar na sala, assuma outra posição, concretamente olhando por um outro ponto de vista (...) que assuma uma posição na qual possa ter uma perspectiva totalmente diferente. 
Minimizando – ocorre quando o cliente precisa “retirar” energia de um certo tema e é necessário trabalhar novas perspectivas. 
Desses conceitos extraímos basicamente a ideia de uma mudança de ponto de vista, uma nova perspectiva, mudança de posição e ampliação do olhar. Muitas vezes, diante do sofrimento psíquico, o indivíduo paralisa e tem dificuldade de identificar um novo olhar sobre o problema e encontrar saídas. 
Segundo Dalgalarrondo (2008) nas síndromes depressivas, por exemplo, dentre vários sintomas, há uma predominância de sentimentos de tristeza e tédio, desesperança, ruminações com mágoas antigas e dificuldade de tomar decisões. O referido autor nos traz a poesia de Fagundes Varella que representa bem esse estado de sofrimento psíquico: 
E pouco a pouco se esvaece a bruma,
Tudo se alegra à luz do céu risonho
E ao flóreo bafo que o sertão perfuma.
Porém minh’alma triste e sem um sonho
Murmura olhando o prado, o rio, a espuma:
Como isto é pobre, insípido, enfadonho! 
O poeta nos fala de um olhar empobrecido, insípido e enfadonho, e nós terapeutas de que forma nos colocamos diante dessa demanda na clínica tanto individual quanto grupal? De que forma podemos nos utilizar das técnicas expressivas para minimizar esse sofrimento e proporcionar no setting terapêutico um novo olhar e/ou um novo posicionamento? 
A partir desses questionamentos entramos em contato com a possibilidade criativa através do trabalho com o tridimensional. 
Segundo Moraes (2019) o tridimensional tem como propriedade a possibilidade de deslocar o olhar, de explorar outras perspectivas, obter novas percepções de um mesmo objeto, cenário ou imagem, bastando para isso movimentar-se. Estimula a busca de soluções, o reconhecimento dos recursos, a criação de estratégias e suas execuções, além de trabalhar a proatividade, o pensar fora da caixa, em especial quando explorada a pluralidade dos materiais. 
TRABALHO DESENVOLVIDO 

Colagem tridimensional de Ferreira Gullar
Munidos desses conceitos, desenvolvemos a técnica grupal com o seguinte tema: Ferreira Gullar e a Colagem Tridimensional. Ferreira Gullar, poeta, escritor e crítico de arte, poucos anos antes de sua morte, em 2016, enveredou pelas artes plásticas, fazendo colagens em relevo que, segundo ele, nasciam do acaso, conforme recortava materiais de cores diversas. Com a palavra o escritor descrevendo seu processo criativo: 
“Estava recortando um papel de cor verde, quando de repente o avesso desse papel, que era de outra cor, se mostrou: colei o recorte assim mesmo, isto é, a forma verde que recortara e mostrando o avesso de cor cinza, que passei a fazer em formato maior.”
Inspirados por esse artista das palavras e por que não das cores, também nos utilizamos de sua poesia para sensibilizar o grupo antes da atividade em si. Segue “Traduzir-se”: 


Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.



Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.



Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.



Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.



Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.



Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.



Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte? 

Ferreira Gullar , Na Vertigem do Dia. 1980.
Sensibilizados visualmente e através das palavras de Ferreira Gullar, iniciamos a atividade propriamente dita. 
Inicialmente propomos aos participantes que entrassem em contato com as folhas A4 coloridas e fizessem a escolha de duas delas de cores distintas colando uma na outra. Disponibilizamos tesouras, estiletes e cola para que através do recorte, colagem e dobradura eles fossem encontrando formas que saíssem do bidimensional para o tridimensional. 
Após essa etapa, sugerimos que a produção fosse manuseada de maneira que o participante pudesse observar novos ângulos e perspectivas da forma tridimensional que criou. 
Segundo Moraes (2019) colocar o sujeito na experiência com o material significa colocá-lo para agir sobre ele em suas questões psíquicas. Sugere que o arteterapeuta atente para os “verbos” ou às ações que cada material proporcionará externa e internamente em seu cliente. No caso da construção da escultura, por exemplo, portanto o tridimensional, a referida autora nos fala que as ações provocadas são: estruturar, construir, reconstruir, edificar, concretizar, materializar, dar corpo, fazer crescer, levantar, ficar em pé, erguer, verticalizar, buscar soluções, formar estratégias, executar, realizar, “batalhar”, persistir.
Importante estar atento a esses verbos pois eles vão nos possibilitar fazer a ligação entre o discurso do cliente, portanto a sua necessidade, com a técnica expressiva de escolha para trabalhar a questão.

No compartilhamento da atividade foi visível o quão surpreendente e potente se deu o processo de criação e esses “verbos” estavam tão presentes nos discursos dos participantes. E para além desse processo criativo inicial, que por si só já é riquíssimo de reflexões, essa técnica ainda nos permite propor o estímulo a um novo olhar sobre o objeto como um exercício concreto de ver as situações de vida sob uma nova perspectiva - o que muitas vezes se faz necessário para a manutenção da saúde mental.
 Esse trabalho foi desenvolvido em dezembro de 2019 e hoje, março de 2020, ao escrever sobre ele é possível identificar a sua perfeita aplicabilidade no momento atual em que estamos vivendo as consequências da pandemia do Corona Vírus no Brasil.
 Um cenário da doença que ainda era algo distante da nossa realidade mas que em pouco tempo se fez presente através da necessidade premente de isolamento social. Como psicóloga não pude deixar de observar através das redes sociais as consequências deste distanciamento na saúde mental das pessoas – inicialmente sentimentos de medo, angústia, dúvidas e insegurança mas também por outro lado manifestações de criatividade em que para algumas pessoas foi possível enxergar esse momento por outros ângulos e possibilidades, resgatando encontros familiares através do virtual, criando redes de apoio para pessoas mais vulneráveis nesse momento e até mesmo encontrando os benefícios pessoais de desacelerar o ritmo da vida.
 Ainda temos muitos enfrentamentos daqui pra frente e num nível alto de complexidade mas deixo aqui o convite para a possibilidade de um olhar criativo, um olhar que saia do bidimensional e vá para o tridimensional na busca por novas perspectivas e ângulos do que estamos vivendo.
 Para finalizar, a arte da poesia para aquecer o nosso coração: 
Estamos distantes
e com a saudade
enxergamos os detalhes
Zack Magiezi

Referência Bibliográfica:
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.
GULLAR, F. Traduzir-se In: GULLAR, FERREIRA. Na Vertigem do Dia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
JULIANO, J.C. A arte de restaurar histórias: diálogo criativo no caminho pessoal. São Paulo: Summus editorial, 1999.
MORAES, E. Pensando a Arteterapia, Vol. 2. Divino de São Lourenço: Semente Editorial, 2019.
KAZ, L. A revelação do avesso de Ferreira Gullar. Texto publicado do site da revista Veja, Rio de Janeiro, 2014 (Acesso em: https://www.uqeditions.com/artigo-ferreira-gullar)

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Sobre a autora: Patrícia Serrano


Psicóloga 
Arteterapeuta em formação 
Pós-graduada em Psicologia Hospitalar pela FIOCRUZ
Atendimentos clínicos individuais
Atualmente compõe a Equipe Não Palavra na gestão dos materiais e eventos

segunda-feira, 23 de março de 2020

CRIAR E VIVER SE INTERLIGAM




Por Eliana Moraes MG/RJ
naopalavra@gmail.com
Instagram @naopalavra

Ao ouvirmos os movimentos da dinâmica grupal, o grupo de estudos “Teorias da Arte e a Arteterapia” sofreu uma atualização de sua proposta neste ano. Antes estudávamos “Do Espiritual na Arte” de Wassily Kandinsky, que ainda permanece como uma grande referência para nós. Atualmente optamos por estudar “Criatividade e Processos de Criação” de Fayga Ostrower. Novas participantes, novo horário, mas a energia investida no estudo e construção do conhecimento em Arteterapia, permanece.

Compreendemos que a Arteterapia possui duas pernas para caminhar: a imagem e o processo. Podemos nos instrumentalizar em uma pluralidade de teorias sobre a leitura das imagens, sendo a teoria mais estabelecida em nossa formação, a Psicologia Analítica que, de fato, nos oferece fonte inesgotável sobre a leitura simbólica das imagens. Entretanto, como arteterapeutas estudiosos, não podemos nos esquecer da outra perna que nos sustenta: o processo. 

Antes da imagem constelada, uma série de experiências, expressões, insights, movimentos e leituras acontecem, e cabe ao arteterapeuta ter uma escuta atenta a este processo. A clínica nos mostra não raras vezes em que, antes de nos debruçarmos sobre a imagem resultante de um trabalho arteterapêutico, a vivência do processo nos oferece tanto material para elaboração e integração à consciência, que ela em si se torna a questão terapêutica a ser trabalhada nas próximas sessões.

A prática nos mostra também que a introdução do processo criativo desperta o que temos chamado de "deslocamento de discurso": o paciente traz uma certa demanda terapêutica quando se expressa pela linguagem verbal, entretanto a abertura para a expressão não verbal provoca o deslocamento para um outro discurso, com novas demandas, muitas vezes mais profundas do que a primeira expressão. Esse potencial deve ser compreendido e manejado pelo arteterapeuta de forma consciente. E aqui entra o conhecimento das linguagens dos materiais para que o arteterapeuta ofereça o mais facilitador deste processo. Sobre o tema dos materiais influenciando o processo criativo falaremos em uma outra oportunidade. 

O processo está diretamente ligado ao criar. E é neste contexto que Fayga Ostrower nos estende a mão, pois ela teoriza sobre o fenômeno da criação. No grupo de estudos, nosso exercício é ler sobre este fenômeno, pensando sobre suas aplicações para dentro do setting arteterapêutico: um ambiente em separado que conta com a presença/transferência com o arteterapeuta – variáveis que potencializam em muito tudo o que o criar nos proporciona.



Através de Fayga, “entendemos o fazer e o configurar do homem como atuações de caráter simbólico.” (OSTROWER, 2014 p 5) Ou seja, o ato criativo humano também é objeto de nossa leitura simbólica, sobre seu modo de funcionamento, seu jeito de ser, jeito de viver. Desta forma, acolhemos o processo criativo como a expressão de conteúdos que devem ser ouvidos com a escuta mais refinada do arteterapeuta pois segundo a autora:

“Em cada ato nosso, no exercê-lo, no compreendê-lo e no compreender-nos dentro dele, transparece a projeção de nossa ordem interior.” (OSTROWER, 2014, p9)

Entendemos que as experiências com o ato criativo dentro do setting arteterapêutico devem, continuamente, serem relacionadas com as experiências de vida dos pacientes, cooperando assim para que a criação sirva para seu processo de autoconhecimento mas também para que ele compreenda que a criatividade não é apenas uma questão de “arte”, mas antes, uma postura de vida, um jeito de pensar, um desenvolvimento do olhar. Como nos afirma Fayga, criar e viver se interligam:

“Consideramos a criatividade um potencial inerente ao homem, e a realização desse potencial uma de suas necessidades.

As potencialidades e os processos criativos não se restringem, porém à arte. Em nossa época... unicamente o trabalho artístico é qualificado de criativo. Não nos parece correta essa visão de criatividade. O criar só pode ser visto num sentido global, como um agir integrado em um viver humano. De fato, criar e viver se interligam.” (OSTROWER, p 5)

Fayga também nos adverte sobre o processo de alienação que o homem vem sofrendo, ao se distanciar de algo que lhe compõe como ser humano, seu potencial criador:

“Admitimos que, em nossa época, o consciente esteja sendo reprimido, manipulado, massificado, enrijecido. Acreditamos, também, que a pessoa rígida, altamente racionalizada, vivendo em um meio cultural que em sua filosofia de vida é racionalista e reducionista, não seja capaz de criar, entretanto, consideramos essa consciência, repressiva e esmagadora, como uma deformação de consciente...
... o homem contemporâneo, colocado diante das múltiplas funções que deve exercer, pressionado por múltiplas exigências, bombardeado por um fluxo ininterrupto de informações contraditórias, em aceleração crescente que quase ultrapassa o ritmo orgânico de sua vida, em vez de integrar como ser individual e social, sofre um processo de desintegração. Aliena-se de si, de seu trabalho, de suas possibilidades de criar e de realizar em sua vida conteúdos mais humanos...
Procurando recuperar certos valores humanísticos tentamos, contudo, fornecer alguns elementos para que se enfrente melhor uma época como a nossa, em que dos sistemas e dos processos dirigidos de massificação, só vemos resultar um condicionamento muito grande para os indivíduos, um aviltamento e um esmagamento do seu real potencial criador.” (OSTROWER, p 6-7)   

A partir desta leitura, compreendemos que compõe o ofício do arteterapeuta sustentar um espaço que promova um reencontro do ser humano com seu potencial criativo, pois a cada atendimento fazemos um convite para o profundo contato entre o experienciador da Arteterapia e sua criatividade.

O processo de escrita deste texto se deu no início do mês de março, antes da explosão do fenômeno coletivo que estamos vivendo em decorrência da batalha que travamos contra o coronavírus no Brasil. Nos últimos dias adentramos um período extremamente difícil em que precisaremos nos resguardar em isolamento social e reclusão em nossos lares. Todos os desdobramentos emocionais são possíveis neste momento e já percebo o grande número de terapeutas atuando (ainda que não na linha de frente como nossos colegas das equipes de saúde em hospitais, mas) na retaguarda para a sustentação da saúde psíquica de nós seres humanos neste momento desestabilizador e sem precedentes.

Como arteterapeuta atuante e consciente do meu papel no social, não poderia me furtar de acrescentar uma nota neste texto: o que nos especifica como terapeutas que se sustentam na arte? O estímulo à CRIATIVIDADE! Fayga afirma que "O homem cria não apenas porque quer, ou porque gosta, e sim porque precisa; ele só pode crescer enquanto ser humano, coerentemente, ordenando, dando forma, criando." (OSTROWER, 2014, 10)

Em tempos de caos, escassez, isolamento e reclusão, nós arteterapeutas somos agentes para a recuperação de algo que nos caracteriza como humanos, que nos fornece elementos para enfrentarmos esta época (e qualquer época, porque somente através dela chegamos até aqui). É tempo de resgatar algo que nos é inerente e uma de nossas necessidades: nosso potencial criador, não “apenas” na arte, mas na vida. E assim poderemos crescer. É tempo de rompermos o processo de massificação e desenvolvermos um olhar criativo diante do imenso desafio que tempos pela frente. Não nos demorando no primeiro olhar perplexo, mas buscando recursos e soluções para além do obvio. Em meio a tantos impossíveis, buscar possíveis dentro de casa ou através da tecnologia (graças a Deus por ela neste momento), para nossas produções, contribuições, relações. Pois, mais do que nunca, em nossos tempos, criar e viver se interligam. 

E a criatividade nos manterá de pé.  



Referência Bibliográfica:
OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. Editora Vozes, 2014.
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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga.

Pós graduada em História da Arte
Especialista em Gerontologia e saúde do idoso.
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia. Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.
Autora dos livros "Pensando a Arteterapia" Vol 1 e 2

segunda-feira, 16 de março de 2020

REENCONTRANDO LA FONTAINE


Marc Chagall

Por Beatriz Coelho
biacoelho017@gmail.com

A estória da Cigarra e da Formiga, da Tartaruga e da Lebre, todos as conhecem de cor. Mas, até aí, ainda não experimentamos La Fontaine. Estas fábulas, e centenas de outras, nos veem da Antiguidade greco-latina, de Esopo, mais precisamente - se é que esta palavra lhe cabe, pois sua existência é lendária e enigmática assim como a de Homero. Também o inspiraram contos da Índia antiga. Coloquei em português as Fábulas de La Fontaine, tentando seguir seu espírito e a forma - em versos. Que ousadia! Não sou uma especialista em La Fontaine, portanto nossa apresentação do Poeta visa apenas a situá-lo em linhas gerais.
Nosso Autor, que escreveu as fábulas tardiamente, tem como fontes: Esopo, Fedro, Pilpay (sobre quem a certa altura La Fontaine interroga: não seria o próprio Esopo?), Maquiavel, Boccacio, outros fabulistas menos conhecidos e relatos de viajantes que encontrou. Nada é evidente em La Fontaine. Isto faz parte do seu jogo.
Existe o La Fontaine aprisionado pelas Enciclopédias, pelas publicações escolares, pelos Críticos do seu Tempo, pelos Críticos do nosso tempo, pelos Admiradores, pelo senso comum, pelos acadêmicos... Eu tenho o meu La Fontaine pelo qual me apaixonei. Por onde ele me pegou? 
•Pela Poesia: sua música, seu ritmo, suas metáforas.
•Pela Inteligência do seu modo de contar.
•Pelo Conteúdo de suas estórias que, nos remetendo a questões morais, não são “moralistas”.
•Pelo seu Humor. La Fontaine nos faz gargalhar.
•Pela sua Universalidade.
•Pelo seu desejo de passar às próximas gerações ensinamentos, beleza, elevação.
•Pela Crítica Social.
•Pela Compaixão. A frágil humanidade de cada um, inclusive a dele próprio, ainda é uma obra em construção. As artes aí têm o seu papel - a Arte.

Alguns dados biográficos


La Fontaine nasceu no ano de 1621, em Château-Thierry, na tradicional região da Champagne que hoje se alcança em uma hora a partir de Paris pelas autoestradas. Apesar de sua obra percorrer países vastos da imaginação, pouco viajou. Seus deslocamentos se restringiam basicamente a Paris. (E o leitor dirá: E precisa mais?) Lá, se fixou e morreu aos 73 anos de idade, em 1695.
La Fontaine viveu no chamado Grande Século francês, no auge do absolutismo de Luís XIV, o Rei Sol, o mais poderoso inquilino do palácio de Versailles. Filho de alto funcionário do Estado para os assuntos da sua região, (seu pai ocupava o cargo de Inspetor das Águas e Florestas), pertencia a uma família da burguesia provinciana em ascensão social a caminho da aristocracia. La Fontaine herdará o cargo de seu pai e receberá uma formação intelectual poderosa. Casou-se aos 26 anos com uma “moça”, Marie Héricart, de 14 anos e meio. Casamento arranjado pelas famílias, ela era parente de Racine, o grande poeta e autor teatral do século XVII, ao lado de Corneille e Molière de quem foi amigo. Teve um filho com a Marie, mas seu casamento não durou muito e ele se fixa em Paris em 1658, aos 37 anos, portanto. A separação foi acontecendo aos poucos, segundo os biógrafos. As dificuldades econômicas, (La Fontaine dispensara o cargo herdado pelo pai, pois sua vocação era outra), parece terem  contribuído bastante para a deterioração do casamento. La Fontaine tinha um temperamento boêmio e apreciava a vida mundana. “Ouvi dizer”... que depois do afastamento definitivo ele nunca mais procurou o filho. Sua mulher teria dito que o marido vivia sonhando, e a tal ponto, que parecia esquecer-se de que era casado.
Em Paris, vai integrando ciclos literários e boêmios e encontrando “protetores” e “protetoras”. Importante para o seu deslanchar foi Fouquet, Ministro das Finanças de Luís XIV. Foi seu hóspede no castelo de Vaux-le-Viconte. Este castelo é famoso até hoje, aberto a visitação. Foi esta construção que inspirou o palácio de Versailles. Luís XIV quis superar seu Ministro que, desestabilizado pelas intrigas de Colbert, (mais a inveja do rei), caiu e foi encarcerado até seus últimos dias. É sabido que La Fontaine passou toda a primeira noite de prisão do amigo e protetor perambulando do lado de fora, aos prantos. Escreveu poemas dirigidos à misericórdia de Luís XIV. Em vão. É a partir desta grande decepção que La Fontaine decide se dedicar às fábulas. Até então, escrevera poemas, contos e comédias. A inveja do rei com relação a seu Ministro, as manobras de Colbert, as hipocrisias e ódios na Corte encontraram nas fábulas um modo pacífico de vingança. A amizade também era um valor caro ao Poeta. Seu amigo de infância, desde os tempos de Châteu-Thierry, dirá depois de sua morte, que La Fontaine foi a pessoa mais sincera que conheceu: jamais mentira.

As fábulas
Marc Chagall

Esboçaremos apenas uma noção esquemática do que são consideradas as Fábulas de La Fontaine.

A obra constituída pelas fábulas foi publicada em três coletâneas com a supervisão do Autor. Cada coletânea continha um número variável de Livros; e cada Livro, por sua vez, incluía um número variável de fábulas. No total, são XII Livros.  A primeira coletânea sai em 1668, englobando os Livros do I ao VI, mais um Prefácio e uma Vida de Esopo escritos por La Fontaine. A segunda coletânea é publicada em duas partes: a primeira, editada em 1678 (do Livro VII ao Livro VIII); e a segunda, em 1679, (contendo os Livros IX, X e XI). A terceira coletânea é editada em 1694 e contém as fábulas que integram o Livro XII. Este último Livro deixa um pouco a fonte tradicional das fábulas inspirando-se nos contos de Maquiavel e Boccacio. O último poema é um adeus de La Fontaine ao mundo que morre no ano seguinte.  E assim, nosso Poeta, Fabulista, Filósofo, mundano e piedoso, contraditório, inapreensível, independente, mutante e humano muito humano La Fontaine foi criando e publicando, até o fim da sua vida, seus 12 Livros para a nossa mais pura felicidade.

      Vamos às fábulas! Difícil é selecionar apenas uma. Hoje escolhemos:

       A menina e o Pote de leite (Livro VII, fábula 9)
Rosinha pôs na cabeça o pote de Leite
Lembrando a figura do enfeite:
Vestido de chita, mascando capim,
Queria chegar à feira de São Marcello.
Para caminhar mais ligeirinho,
Trocou o seu tamanco pelo chinelo.
Enquanto os passinhos engoliam a estrada,
A cabecinha imaginava distraída:
Com o dinheiro da venda do Leite compraria
Ovos para a chocadeira improvisada.
Há espaço lá fora e assim criaria
Umas robustas galinhas;
Se não for de todo voraz,
A raposa levará poucas peninhas
E sobrarão alguns vinténs para o porco do Braz.
A engorda do bicho não pesa no bolso;
Farei dele um campeão!
Com um pouco de esforço,
Se tornará o recordista da região!
Poderia vendê-lo obtendo um reforço;
Já o vejo saltar no meio da bicharada.
Neste instante, Rosinha dá uma topada,
Absorta que estava com seus devaneios:
Toda fortuna foi assim derramada
E ela ainda corre o risco de ser surrada
Pelo marido, coitada!
Que duendes fazem no espírito tal campanha?
Quem já não construiu castelos na Espanha?
Alceu, Madalena, Rosinha... para citar poucos.
Tantos sábios e tantos loucos!
Sonhamos acordados, recebemos louros;
A vaidade atiça nossos arroubos;
Todos os bens do mundo são nossos tesouros;
Todas as honrarias, todas as conquistas.
Sozinho minha arte supera Arrau!
Em meus delírios arrebato o Municipal:
Bis, aplausos, cumprimentos no camarim,
Luzes, ribaltas, emoções estonteantes...
Um tropeço e volto para dentro de mim.
Retorno ao mesmo João Ninguém de antes.

                  
Fontes: La Fontaine, Œuvres Complètes, I, Fables Contes et Nouvelles
Ed. Gallimard, Paris, 1991; 
Collection Littéraire Lagarde & Michard, XVIIe  siècle, Bordas, Paris,1962; 
documentário  dedicado a La Fontaine no quadro de programas 
Trésors du Patrimoine exibido pela TV5 Monde, 2019.

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Sobre a autora: Beatriz Coelho



Sou mesmo é multifacetada.
Em Paris, fiz mestrado em Sociologia.
Lá, me casei e tive a primeira cria.
De volta ao Brasil, a Vida fez arrelia.
    Abandonei a Sociologia.
Consacrei-me aos amores da minha família.
Mas as letrinhas faziam uma falta danada.
Estava meio despetalada.
Escrevi Cadernos do Silêncio com vírgulas
E de La Fontaine traduzi as Fábulas.      

segunda-feira, 9 de março de 2020

A ARTETERAPIA E A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS



Por Beatriz de Alcantara Gonçalves
bia.insight@gmail.com
Instangram @psimaisarte 

Segundo Philippini no livro Para Entender Arteterapia: Cartografias da Coragem (2013), a Arteterapia, é um processo terapêutico em que são utilizadas inúmeras modalidades artísticas (citada por Gonçalves, 2018). A autora prossegue explicando que as produções artísticas dão forma, cor e som a elementos simbólicos da psique humana. De acordo com a American Association of ArtTherapy (Associação Americana de Arteterapia, 2003) encontra-se as seguintes informações:

 A Arteterapia baseia-se na crença de que o processo criativo envolvido na atividade artística e terapêutica é enriquecedor da qualidade de vida das pessoas. Arteterapia é o uso terapêutico da atividade artística no contexto de uma relação profissional por pessoas que experienciam doenças, traumas, dificuldades na vida, assim como por pessoas que buscam o desenvolvimento pessoal. Por meio do criar em arte e do refletir em processos e trabalhos artísticos resultantes, pessoas podem ampliar conhecimento de si e dos outros, aumentar autoestima, lidar melhor com sintomas, estresse e experiências traumáticas, desenvolver recursos físicos, cognitivos e emocionais e desfrutar do prazer vitalizador do fazer artístico. (AARJ, s/d, s/p)

A materialidade que surge nas sessões fornece o que Philippini (2013, p. 17) chama de sinais dados pelas “cores, movimento, ocupação no suporte e padrões expressivos gerais”. De acordo com a autora, é na apreensão do significado destes conteúdos que questões inconscientes são elaboradas, e podem vir à consciência. Tendo em vista que a dinâmica da terapêutica em questão desenvolve-se a partir de vivências com diferentes técnicas artísticas, Leila Araldi (2006), em Vivência em Arteterapia: uma reflexão conforme a visão de Gadamer, citada por Gonçalves (2018), relata que o termo “vivência” não resume-se a estar presente em uma situação; mas o significado de tal experiência, “um significado condensador e intensificador, pois retém conteúdos de maneira a mantê-los vivos e em constante contato com os nossos níveis psíquicos” (GADAMER apud ARALDI, 2003, p. 189). A supracitada autora segue sua análise, e relata que a vivência em Arteterapia é carregada de uma “totalidade de sentido” (Ibidem, p. 189), que integra conteúdos de tal maneira que o psiquismo retorna ela, e esta vivência torna possível o amadurecimento de situações e percepções da vida. Araldi (2006) explica que a vivência, por ter este caráter diferenciado de significado, salta para além das experiências da vida, e ao mesmo tempo, não perde sua conexão com a história de vida como um todo.

Sendo assim, compreende-se que o processo da Arteterapia é constituído por vivências criativas e expressivas, a partir do trabalho com produções simbólicas materializadas do indivíduo através da arte, que o auxiliam a encontrar formas mais saudáveis de ser e estar no mundo.

Dina Lúcia Rocha (2009), em seu livro Brincando com a Criatividade: Contribuições teóricas e práticas na Arteterapia e na Educação, citada por Gonçalves (2018), afirma que a criatividade existe em todos, mas a maneira como ela é vivenciada é individual. A autora explica que o desenvolvimento do potencial criativo é singular porque este é calcado na subjetividade do indivíduo, seus potencias e suas questões perante a via. “A criatividade deve ser vista como um processo a ser cultivado, que conduz ao autoconhecimento e à liberdade interior” (Ostrower (2005) citado por ROCHA, 2009, p. 82).

Dentre todas as atividades criativas/curativas que podem ser desenvolvidas no processo arteterapêutico, a Contação de Histórias foi a escolhida para servir de exemplo neste texto, em capacidade criadoras/curadoras.

De acordo com Vasconcellos (2015, p. 13 e 14), citada por Gonçalves (2018):

Cada história tem sua própria energia. E na medida em que é lida ou relida, ela ecoa mais uma vez dentro do eu, tocando mais uma vez sua alma. Além disso, cada vez em que for lida ou contada, essa mesma energia irá ressoar em todas as pessoas que a lerem ou ouvirem e poderão também tocar outras almas e trazer a cura àquele momento.

A autora afirma que a contação de histórias mobiliza inúmeros elementos psíquicos relativos aos sofrimentos do indivíduo e aqueles relativos à aspectos saudáveis da psique. Através do jogo simbólico que compõe a história, a questão que trouxe o indivíduo a Arteterapia também é trabalhada.

            Philippini (2009, p.118) em Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: Uso, Indicações e Propriedades, citada por Gonçalves (2018), explica que a narrativa selecionada pelo arteterapeuta, e seus personagens, fazem a movimentação e harmonização da energia psíquica dos indivíduos, por meio de reflexões adequadas, e elaborações de sentimentos que acontecem dentro do processo arteterapêutico.

            As histórias e suas possibilidades arteterapêuticas



 As histórias podem enriquecer trajetórias arteterapêuticas de diversas maneiras. Para ilustrar tal afirmativa trarei o recorte de uma experiência que tive atendendo (com mais uma profissional) duas crianças de comunidades cariocas, em uma clínica de Arteterapia no Rio de Janeiro. As crianças em questão tinham muitas dificuldades de interagir em grupo, eram muito carentes de atenção e afeto, o que tinha relação com a dinâmica familiar conflituosa em que viviam. As histórias foram ferramenta para diversas sessões, além de servirem de material para outras atividades.

            As histórias que as crianças criaram:
A partir da contação da história “O Leão que não queria ser Rei” (Minéia Pacheco), que o personagem principal tem dificuldades de encontrar  seu lugar dentro de seu contexto social, estas duas crianças (de 6 e 11 anos, um menino e uma menina, respectivamente), de famílias distintas, mas que também não tinham lugar bem delimitado em seus grupos familiares, foram estimuladas a criar personagens com fantasias (material de teatro). Eles foram entrevistados e se entrevistaram, dominando completamente a sessão de maneira aos dois ocuparem lugar de destaque, cada um à sua maneira.

 A história que as crianças recontam:

            Em uma das sessões, foi utilizada a história “O Mágico de Oz” (Frank Baum) O MÁGICO DE OZ. que foi contada sem nenhum objeto cênico, dependendo somente da linguagem oral. Tal história trabalha inúmeros maneiras de lidar com a vida e se relacionar com o outro, tendo em vista os personagens que a compõem. Depois da contação, a atividade foi escolher um personagem e uma parte da história, em que ele estivesse envolvido, para encena-la (todos encenariam juntos). A atividade transcorreu com a observação de rica linguagem corporal utilizada nas cenas e comportamentos mais afetuosos, lúdicos, e, portanto, mais saudáveis, durante as encenações do que o comum.

            Esta história foi acolhida de forma muito intensa pelas crianças, então ela foi utilizada novamente com a presença de bonecos artesanais feitos durante a sessão, inspirados nos personagens da história já citada, porém a encenação destes personagens foi livre, não teve relação com a história supracitada. Os textos que surgiram tiveram total relação com os desafios familiares e até escolares, e enquanto interagíamos com os bonecos artesanais (todos tinham bonecos) fazíamos intervenções em tal dinâmica.

Escolhendo como falar da própria história:

            Nesta sessão foi utilizada a história do Saci Pererê, que foi apresentada em formato digital (Coleção Disquinho). Depois, utilizamos a pintura com tinta guache, papel Canson, Semi-Craft e pincéis. Foi bastante interessante observar que o menino em questão se irritou com o Saci, sem conseguir expressar verbalmente o porquê, e no final da sessão ergueu o papel com um menino de gorro, vermelho e azul, de aparência muito próxima ao menino Saci Pererê.

            Quando o processo arteterapêutico terminou, observei o quanto a possibilidade de usar histórias para trabalhar emoções, traços de personalidade e dinâmicas da vida foi produtivo e intenso, tendo em vista a resposta das crianças nas sessões. Também pontuo que as histórias podem servir como ponto de partida para outras atividades expressivas, em uma mesma sessão, auxiliando ao arteterapeuta no desenvolvimento do trabalho de questões emocionais, através da arte.


Referências Bibliográficas:

AATA (Associação Americana da Arteterapia). O que é Arteterapia. 2003. Disponível em: http://aarj.com.br/site/a-Arteterapia/. Acessado em: 09/11/17. Citado por: Gonçalves, Beatriz de Alcantara. As Crianças e as histórias: Era uma vez na Arteterapia. (Monografia) Especialização em Arteterapia – Clínica Pomar de Arteterapia em convênio com a Faculdade Vicentina/ FAVI. Rio de Janeiro. 2018.

ARALDI, Leila. Vivência em Arteterapia: uma reflexão conforme a visão de Gadamer. In: Revista Imagens da Transformação. Nº12-v. 12-2006-Pomar. Citado por: Gonçalves, Beatriz de Alcantara. As Crianças e as histórias: Era uma vez na Arteterapia (Monografia) Especialização em Arteterapia – Clínica Pomar de Arteterapia em convênio com a Faculdade Vicentina/ FAVI. Rio de Janeiro. 2018.

PHILIPPINI, Angela. Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: Uso, Indicações e Propriedades. Rio de Janeiro. Wak Editora, 2009. Citado por: Gonçalves, Beatriz de Alcantara. As Crianças e as histórias: Era uma vez na Arteterapia. (Monografia) Especialização em Arteterapia – Clínica Pomar de Arteterapia em convênio com a Faculdade Vicentina/ FAVI Rio de Janeiro. 2018.

________________. Para Entender Arteterapia: cartografias da coragem. 5 ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013. Citado por: Gonçalves, Beatriz de Alcantara. As Crianças e as histórias: Era uma vez na Arteterapia. (Monografia) Especialização em Arteterapia – Clínica Pomar de Arteterapia em convênio com a Faculdade Vicentina/ FAVI Rio de Janeiro. 2018.

ROCHA, Dina Lúcia Chaves. Brincando com a Criatividade: Contribuições teóricas e Práticas na Arteterapia e na Educação. Rio de Janeiro: Wak Ed, 2009. Citado por: Gonçalves, Beatriz de Alcantara. As Crianças e as histórias: Era uma vez na Arteterapia – (Monografia) Especialização em Arteterapia – Clínica Pomar de Arteterapia em convênio com a Faculdade Vicentina/ FAVI. Rio de Janeiro. 2018.

VASCONCELLOS. Marcya Santos Lima de (org). Criando Histórias-Criando Vidas: O poder de transformação das narrativas. 1 ed. São Paulo: Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2015. Citado por: Gonçalves, Beatriz de Alcantara. As Crianças e as histórias: Era uma vez na Arteterapia – (Monografia) Especialização em Arteterapia – Clínica Pomar de Arteterapia em convênio com a Faculdade Vicentina/ FAVI. Rio de Janeiro. 2018.


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Sobre a autora: Beatriz de Alcantara Gonçalves




Formação: Graduada em Psicologia pela UFRJ e especialista em assistência ao usuário de álcool e outras Drogas (IPUB/UFRJ) e Arteterapeuta.

Área de atuação/projetos/trabalhos: Experiência em Clínica e Saúde Mental pelo Hospital Municipal Nise da Silveira e consultório. Mestranda do Instituto de Medicinal Social/UERJ.