segunda-feira, 14 de maio de 2018

A CASA COMO METÁFORA DO EU: UMA PROPOSTA ARTETERAPÊUTICA


Por Fabiana Juvencio – Vitória ES
fabiana.decore@gmail.com


A ponte para esse trabalho veio a partir da minha própria experiência familiar com a “casa”, casa como expectativa de lar e as experiências profissionais com as casas dos meus clientes e suas necessidades e conflitos. Cada um de nós absorve nossas bagagens a partir do que vivenciamos em casa, com nossos entes queridos e é nessa casa que simbolicamente acumulamos nosso conhecimento de vivências dentro de cada momento da vida, o que mudamos, o que trocamos, o que acumulamos, o que nos desfazemos, o que reformamos.

A casa como lar pode nos direcionar para um local harmônico onde se respeite o “espaço” de cada um, tanto o espaço físico como o espaço emocional, nos libertando de esferas condicionantes e crenças limitantes que carregamos ao longo do tempo. “O lar é um espaço único, onde nos desarmamos e vivemos de modo autêntico. Por isso, é essencial ter as necessidades atendidas nesse espaço para sermos felizes” segundo Angelita Scardua.
Minha experiência de vida e pessoal no contexto casa
Poucas coisas traduzem tão bem nosso jeito de ser como nosso jeito de morar. Tudo pode ser revelador: se deixamos a comida estragar na geladeira, se temos a mania de deixar as janelas sempre fechadas, se há coisas para consertar. Isso também é estilo de vida.

Há casas em que tudo o que é aparente está em ordem, mas reina confusão dentro dos armários. Há casas tão limpas, tão lindas, tão perfeitas que parecem cenários: faz falta um cheiro de comida e um som vindo lá do quarto.

Há casas escuras. Há casas feias por fora e bonitas por dentro. Há casas pequenas onde cabem toda a família e os amigos, há casas com lareira que se mantêm fria, há casas prontas para receber visitas e impróprias para receber a vida.
Pode parecer apenas o lugar onde a gente dorme, come e vê televisão, mas nossa casa é muito mais que isso. É a nossa caverna, o nosso castelo, o esconderijo secreto, onde coabitamos com nossos defeitos e virtudes.

A minha casa na infância não era o melhor lugar do mundo de se viver, ainda estou (re)descobrindo se há alguma coisa boa, pois o que ficou, honestamente falando, foram as vivências mais tristes, me faltou um sentido de pertencimento. Erroneamente eu me enganei durante muito tempo em acreditar que a beleza e a estética dariam um sentido e preenchimento ao vazio do meu peito. Talvez seja por isso que veio a compensação da profissão designer de interiores, creio que ao longo da construção de mim mesma eu me “perdi” em fantasias, para construir um mundo imaginário para mim. O fato é que eu cresci e acabei trazendo a fantasia para a vida adulta de forma negativa.

Mas os enganos também foram um caminho, um caminho para a reforma de mim mesma, a engenharia interior só foi e está sendo possível a partir dos erros ao achar que o problema era o outro.

A arteterapia e o diálogo com outros saberes: O desing de “interiores”      

Esse projeto propõe como possibilidade trabalhar os espaços internos de fora para dentro, trazendo como auxilio o próprio ambiente e seus referentes simbólicos. Trazemos reflexão sobre a reforma íntima quando buscamos na arrumação externa um referencial do que se reorganiza internamente, o teto, a fachada, os cômodos com seus quartos, cozinhas, salas e varandas como propostas simbólicas das projeções do eu, a casa lúdica. A reforma íntima nos possibilita escolher com quais materiais iremos trabalhar nossos ambientes internos, nossas bases e pilares fortes nos motivando ir além e exercitar as nossas motivações, sonhos, desejos e significados, quais são nossas metas e objetivos. A reforma intima é o caminho para conhecer a engenharia de si mesmo, para reconstruir aqueles ambientes internos que estão esquecidos ou saturados, entulhados de coisas que precisam ser doadas, reformadas ou descartadas.

“A casa como metáfora do eu: Um processo arteterapêutico” foi tema da minha monografia no ano passado. Foi uma jornada do herói literalmente e o trabalho se deu em um estudo de caso com uma atendida de meia idade, super jovem com grandes sequelas de abandono deixada pelo complexo materno onde suscitou uma criança ferida e recuada. Foram 10 encontros no qual os espaços da casa e objetos da casa nos levavam para ambientes projetados na infância, nestes momentos usei muitos recursos da imaginação ativa/meditação ativa para adentrar no mundo obscuro da criança interna que estava ferida e isolada.

Numa vivência muito intensa, em nosso quinto encontro, saímos do setting arteterapêutico e partimos para conhecer a   casa da atendida. A importância de cada espaço, objetos, mobílias, seus significados e como cada ambiente se mostrava como seu lar. Como na arteterapia nada é estático, o que levamos como proposta pode se desdobrar em outros caminhos, acredito que como veículos, somos apenas condutores do “Cosmo, Universo, Poder Superior, Sagrado, Eu Sou, Divino, Consciência”. O Deus da forma que cada um concebe, somos condutores de um poder maior e é esse poder que traz o que precisa vir, é nessa energia que se dá o fazer arteterapêutico e sua “mágica”.  Cheguei com flores, margaridas simbolizando beleza e doçura, aroma e serenidade, dessas flores mais adiante se daria outros contextos.




A proposta era que a atendida trouxesse 3 objetos significativos que ela escolheria na casa. Ela me trouxe dois portas retratos com fotos dela com 4 ou 6 anos e o da filha com 7 e um colar de pérolas. Essas peças e imagens reverberaram emoções profundas. Pedi que falasse de cada peça, mas ao pegar a foto dela na infância declarou que olhar para aquela criança era difícil e que não tinha nada para falar. Perguntei o que ela via ao olhar e ela disse que não via nada, nada e ao mesmo tempo que começou um choro profundo. Foi um momento intenso que usei a música “Meu jardim” do Vander Lee como fundo e reflexão e pedi que ela expressasse em desenho o que reverberou dos retratos que ela trouxe. O que veio? Uma trajetória entre mãe e filha e um labirinto de uma criança querendo achar o caminho da saída.





De repente ela ajunta as duas folhas e me mostra, numa união, que há um desdobramento. Peço que me explique como se deu aquilo para ela: “Eu quero sair desse emaranhado que estou presa, não consigo ver NADA na criança que fui, sempre quis esquecer.” Digo que há uma criança ferida dentro dela querendo ser resgatada e acolhida, uma criança interna ferida que precisa ser protegida por ela hoje adulta. Faço algumas indagações sugestivas, e peço para ela olhar novamente para as imagens juntas, a criança ferida lá na ponta direita, o caminho do labirinto triste, o sol, o portal, as duas meninas. Peço para ela fazer uma retrospectiva interna, a trajetória com a filha, sua adoção, o anjo que ela se tornou. Peço pra olhar de novo, pra ela mudar os papeis do desenho, peço para ela adulta se colocar no lugar da filha de verde, falo que ela pode ser a menina de verde, ela pode começar a fazer uma nova caminhada, uma nova trajetória na busca de curar a si mesma, de cuidar da sua criança ferida e começar um processo de “maternagem de si mesma” no sentido de (re) descobrir um novo caminho na aproximação do contato com sua criança interior ferida e abandonada.

 Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.


A Equipe Não Palavra te aguarda!

Referências Bibliográficas:

ANGELITA SCARDUA - A casa e seu significado: Refúgio para o bem estar físico e emocional. (On Line) https://angelitascardua.wordpress.com/2011/08/02/a-casa-e-seu-significado-para-o-bem-estar-fisico-e-emocional/ Acessaso em 20/08 2017
ANIELA JAFFE, CARL G. JUNG, JOLANDE JACOBI E M-LOUISE VOM FRAZ – O Homem e seus Símbolos.
Gomes Filho, João – Ergonomia do objeto
___________. Design do Objeto: Bases conceituais
Leslie, Vera Fraga. Lugar comum-Auto ajuda de decoração e estilo.
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Sobre a autora: Fabiana Juvêncio



Formada em Gestão de Marketing
Técnica em design de interiores 
Arteterapeuta 
Atua como designer de interiores e como arteterapeuta numa clínica de reabilitação trazendo a abordagem da arteterapia e o programa de 12 passos dos anônimos(AA) fazendo uma junção das partes com foco na “neurose” para o trato de drogas de escolha.
Como voluntária, trabalhou na Secretaria municipal de políticas públicas para mulheres e no Centro de Referência Especializado de Assistência Social para População de Rua (Centro-POP)

5 comentários:

  1. Comentário enviado por Tania Salete:

    Que texto, que experiência maravilhosa! Que profundidade e emoção! Casa, jardim, criança, uma vivencia corajosa e incrivelmente restauradora. Parabéns, Fabiana! Confesso que ao término da leitura, fiquei com aquele gostinho de quero mais! Otimo tema, diferente, inusitado e profundo!

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    1. Tania querida, obrigada...Também tenho lido tua jornada por aqui! Então, tem minha monografia na integra se você quiser te envio e a Eliana também tem, a monografia está muito rica, muita vivência pessoal a jornada do herói literalmente. Foi um parto difícil mas que trouxe muitas restaurações, a reforma está a todo vapor. Estou a disposição para trocas, um beijo!

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  2. Fabiana parabéns por tudo. Pela bela jornada, artigo e representação dos arteterapeutas do ES.
    Achei fantástico este seu trabalho e remeteu a algumas coisas que queria embasar. Parabéns!

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    1. Angela, querida obrigada! Estou na jornada, um trabalho lindo realmente com muito significado, a casa como metáfora do eu nos remete a voltar no tempo e fazer reforma íntima, a repensar os espaços internos! Estou a disposição se precisar! Tem a monografia na integra, traz muitos questionamentos e reflexão vale a pena ler! Um beijo

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  3. Parabéns Fabiana. Eu tb fiquei com a sensação de quero mais.
    Uma abordagem diferente e me tocou no intimo. Gostaria muito de ler sua monografia.

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